set 08

Volume 8 – número 2

Click no link abaixo para acessar a edição Abril/Maio/Junho de 2017.

set 08

Volume 8 – número 1

Click no link abaixo para acessar a edição Janeiro/Fevereiro/Março de 2017.

 

jul 19

Glaciações: a vida em ciclos

Glaciações são eventos naturais nos quais o planeta Terra passa a apresentar temperaturas muito baixas e tem grande parte de sua superfície coberta por gelo. Normalmente a Glaciação acontece depois de uma série de eventos envolvendo fatores bióticos e abióticos. Por ser uma condição muito severa e relativamente rápida, a maioria dos animais morrem e a diversificação só volta a acontecer depois que o excesso de gelo derrete, fazendo o ambiente ficar mais propício à vida. Durante a história da Terra, várias vezes aconteceram eventos de glaciação. Em todas as grandes extinções em massa, pelo menos um evento de glaciação estava envolvido.

O que pode acontecer para levar a um episódio de glaciação é o aumento excessivo de indivíduos vegetais no ecossistema, deixando os níveis de CO2 muito baixos – fazendo o efeito estufa perder força – e aumentando de mais a quantidade de oxigênio na atmosfera – provocando a diminuição da temperatura. Com essa mudança brusca, muitos indivíduos acabam morrendo devido ao ambiente não estar propício, mantendo o nível de CO2 baixo.

Pode acontecer também de algum vulcão começar a expelir lavar ou gases tóxicos. Esses gases tóxicos e a cinza acabam provocando anoxia, desequilibrando o
meio e levando consequentemente à morte de muitos animais – diminuindo o nível de CO2, pois os animais não vão mais liberá-lo pela respiração. O vulcão solta também muito CO2, o que pode aumentar de mais a temperatura, matando a fauna, ou esse CO2 pode ser aprisionado nas pedras causando intemperismo, e levado para os rios e mares, causando uma superpopulação de organismos fotossintetizantes, e consequente falência do ecossistema devido à competição, todos morrem de novo e o nível de CO2 abaixa.

A tempo que o planeta passa coberto por gelo costuma ser longo e normalmente acaba quando uma cadeia de vulcões entre em erupção aumentado os níveis de CO2 na atmosfera e levando ao descongelamento das geleiras formadas. Quando isso acontece, a diversificação da vida animal aumenta devido aos nichos vagos existentes.

Nós estamos agora no que é chamado de fase interglaciar, na qual não está ocorrendo glaciações, mas os acontecimentos citados acima, se repetem de tempos em tempos, logo, provavelmente, vão acontecer de novo. E pode ser que não demore muito para ocorrer devido às mudanças que os seres humanos vêm provocado no meio ambiente em um tempo muito curto.

Jullie Anne Pereira Farias é graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba.

jul 19

A conquista do ambiente terrestre pelos Vertebrados

Os primeiros Vertebrados surgiram nos oceanos, atingindo sua diversidade máxima na água salgada, assim como os peixes. De alguma maneira, o grupo deixou o ambiente aquático e conquistou o terrestre. Mas como isso foi possível?

Vamos lá, o sucesso na conquista de um novo ambiente envolve inúmeros fatores. O primeiro envolve o sistema ósseo, já que o esqueleto dos vertebrados deveria ser mais resistente, com juntas mais fortes. Nadadeiras frágeis foram substituídas por ossos rígidos, algumas costelas se modificaram em cintura escapular e pélvica, ocorrendo também alterações no crânio e pescoço. Tudo isso para sustentar o corpo fora d’água e resistir à força da gravidade e às demais exercidas pela própria locomoção animal.

O segundo se relaciona com os ossos, os quais não poderiam ser frágeis nem muito densos, já que isso os tornariam pesados demais. Assim, os animais que possuíam ossos intermediários, como os que temos hoje (com uma porção densa e uma “porosa”), se sobressaíram. Mas para sustentar um corpo, a musculatura também é essencial, já que mantém a postura e permite a locomoção e movimentação. Isso significa que todo o sistema muscular se modificou junto com o esquelético. Por fim, os feixes musculares simples que encontramos nos peixes, se ramificaram e tornaram-se mais desenvolvidos e fortes.

Tudo isso que foi dito não adiantaria de nada se não fosse possível respirar no ambiente terrestre, resultando na mudança lenta e gradual da respiração branquial para pulmonar. Acredita-se que os pulmões se desenvolveram ao longo de grandes alterações de uma estrutura semelhante à bexiga natatória dos peixes pulmonados. A bexiga natatória funciona como um balão, garantindo a flutuabilidade dos peixes ósseos na coluna de água. Entretanto, nos peixes pulmonados uma estrutura parecida é invadida por vasos sanguíneos, mantendo-se ricamente irrigada por sangue, onde acontecem então as trocas gasosas. As brânquias, não sendo mais necessárias, acabaram não sendo um fator de seleção, enquanto que os “novos pulmões” sim. Coloque anos de evolução e seleção natural atuando em cima desse novo sistema, e é possível que o resultado seja o pulmão que conhecemos. Por fim, o último detalhe para permitir a conquista do ambiente terrestre, seria controlar a perda de água, tão essencial para a vida. Os peixes em geral “urinam” amônia, elemento que necessita de muita água para ser eliminado. Além disso, a grande maioria dos peixes não apresenta pele muito espessa, já que no ambiente aquático, a disponibilidade de água não é um problema. Entretanto, no ambiente terrestre isso é bem diferente, o que fez com que os vários grupos de vertebrados passassem por diversas formas de seleção para lidar com a desidratação.

A começar pelos anfíbios, sua pele é bem mais espessa que a dos peixes, mas ainda assim muito fina, o que é compensado pelo alto número de glândulas lubrificantes na pele. Além disso, aqui não se excreta mais amônia e sim uréia, elemento que requer bem menos água para ser eliminado. No grupo dos répteis temos, além das glândulas, o aparecimento de escamas e ovos com casca, que funcionam como isolantes e já evitam bem mais a desidratação. Nas aves o sistema é parecido. A pele, que é fina e sem glândulas, é revestida por penas, que são excelentes isolantes, e há também a troca da excreta de uréia por ácido úrico, composto que quase não precisa de água na sua eliminação. Finalmente, chegamos aos mamíferos, que além de ter muitas glândulas, possuem a pele composta por várias camadas: gordura, células, queratina e pêlos. Com tudo isso, os vertebrados puderam se diversificar e se espalhar pelo ambiente terrestre, construindo toda a diversidade de animais que conhecemos.

Matheus Lewi C. B. de Campos é graduando em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba e estagiário do Laboratório de Genética Ecológica e Evolutiva.

jul 19

Dinossauros entre nós

Você sabia que nem todos os dinossauros foram extintos? Sim, parece engraçado pensar que aqueles gigantescos animais que vemos em vários filmes, como a franquia Jurassic Park, não foram completamente dizimados com a queda do meteoro no México há aproximadamente 65 milhões de anos. Para todos efeitos teóricos e práticos, as aves modernas são dinossauros. Elas são tão dinossauros quanto nós, humanos, somos mamíferos. Ao longo desse texto discutirei um pouco das características que constatam essa afirmação.

Herança Genética

Análises genéticas mostram que as aves teriam se originado de um grupo de Terópodes, que eram um grupo de dinossauros. Primeiramente, vamos entender o grupo dos dinossauros, que é basicamente separado em Terópodes, que compreende os dinossauros bípedes e o grupo dos Saurópodes, que engloba todos os dinossauros quadrupedes. Existiam alguns Terópodes não-aviários, como os Tiranossauros-Rex e os aviários, como o Microraptor. As aves seriam uma continuação da linhagem de Terópodes aviários.

Penas

Por incrível que pareça, os dinossauros tinham penas. Sim, inclusive os Tiranossauros, que eram conhecidos como os grandes predadores (mas isso é discussão para outro texto). Essa característica permaneceu nas aves e foi importantíssima para manutenção da temperatura e, em algumas linhagens, para a característica do voo. No entanto, é difícil saber qual seria a coloração delas.

Ossos pneumáticos

As aves modernas apresentam ossos ocos, que permitem uma grande redução de peso e consequentemente uma habilidade de voo. Acontece que essa característica também era observada nos Terópodes e nos Saurópodes.

Bipedalismo

Como já dito anteriormente, essa característica era observada em todos os Terópodes, linhagem que deu origem às aves. Repare bem, não existem aves quadrúpedes! Mais uma evidência dessa ligação entre estes grupos.

Assim, observamos que várias características ligam estes grupos e reforçam cada vez mais que as aves são grandes (ou pequenos?) dinossauros. Isso nos mostra que estes gigantes não abandonaram a Terra completamente e que talvez num futuro longínquo possam voltar a dominar completamente o nosso planeta.

Francisco de M. C. Sassi é graduando em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba e estagiário do Laboratório de Genética Ecológica e Evolutiva.

jul 19

Mamíferos com bolsas: conheça os marsupiais

Você sabe quem são os marsupiais? Eles são um grupo de mamíferos que possuem uma característica única, o marsúpio, que é uma pequena bolsa localizada no abdômen da mãe, onde os recém-nascidos completarão seu desenvolvimento. O funcionamento dessa bolsa se assemelha a uma incubadora para o filhote. Os representantes mais conhecidos são os cangurus e coalas, ambos endêmicos da Austrália, região que abriga a maior diversidade desse grupo. Mas precisamos ir tão longe para conhecê-los?

No Brasil existem cerca de 46 espécies das 330 que existem no mundo, a maior diversidade depois da Austrália. Você certamente já ouviu falar de alguns, mas talvez não soubesse do parentesco deles com os cangurus. Sabe aquele animal que solta um cheiro terrível ao ser ameaçado? Pois é, os gambás são os grandes representantes dos marsupiais brasileiros, ao lado das cuícas.

A maioria dos gambás, ainda que sejam alvos de caça para subsistência, não correm risco de extinção. Isso se deve ao fato de serem onívoros, permitindo uma gama muito variada de alimentos, aliada a uma ninhada volumosa, de até 12 filhotes. Se dá bem em ambiente humano, graças a abundância de alimento e sua capacidade de esconder-se com eficiência devido ao seu tamanho, que é em mé- dia, de 35 cm. Já as cuícas são pouco menores que os gambás e são predominantemente arborícolas. Isso é, se locomovem por meio da vegetação, realizando-o de forma eficiente por conta de sua cauda preênsil, semelhante à dos cebídeos, os macacos do Novo Mundo. Existe uma única espécie dentre os marsupiais, a cuíca d’água (Chironectes minimus), que possui uma membrana entre os dedos das patas traseiras. Essa adaptação indica o hábito aquático da espécie, assim como a capacidade de fechar seu marsúpio ao adentrar na água.

A abundância dos marsupiais brasileiros tem se mantido ao longo dos anos, mesmo com a caça e destruição do habitat original. O grande problema são para as espécies arborícolas, que não conseguem se movimentar longas distâncias entre fragmentos de vegetação, devido ao desmatamento. Felizmente, a maioria das espécies não corre risco de extinção até o momento.

Curiosidade: Cangurus são canhotos e não conseguem andar para trás!

Curiosidade: A bolsa da cuíca d’água tem sua abertura em direção a cauda, enquanto a dos outros marsupiais é em direção à cabeça

Iuri Batista da Silva é graduando em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba e estagiário do Laboratório de Genética Ecológica e Evolutiva.

jul 19

Projeto Amigos do Cerrado

O cenário mundial atual demonstra um aumento da degradação do meio ambiente, o que faz com que a preocupação com a preservação da natureza seja cada vez maior. Assim, a educação ambiental se insere como uma das mais importantes ferramentas para cumprir o papel de destacar a importância de cuidar de todo o meio que nos cerca.

Cientes da importância do conhecimento para a conscientização, alunos do curso de Ciências Biológicas da UFV campus Rio Paranaíba, em parceria com a fazenda Platô Azul, em Tiros-MG, criaram o Projeto Amigos do Cerrado, cujo objetivo é ensinar crianças do ensino fundamental, e consequentemente, pais e professores, sobre a importância do meio natural e da qualidade de vida no meio urbano, destacando a responsabilidade de cada um na preservação da natureza, especialmente do Cerrado, bioma onde a região do Alto Paranaíba está inserido. O projeto contou com o apoio da Drogaria Alves & Lima, Creditiros – Sicoob e Agroboi; e orientação do professor Dr. Donizete A. Batista.

O Projeto foi implantado na Escola Municipal João Francisco Capetinga, no município de Tiros,-MG. Na sua primeira etapa de implantação, que ocorreu entre os meses de março à julho de 2016, participaram crianças de 3 à 11 anos, as quais receberam noções básicas sobre ecologia e meio ambiente, com conteúdo adaptado para a faixa etária do público-alvo.

Na primeira visita à escola, a temática apresentada abordou “O mundo, as relações entre os organismos vivos e a preocupação com os recursos naturais”. Ao final das explicações, a interação dos alunos com os ministrantes ultrapassou quaisquer expectativas, com inúmeras perguntas e uma recepção muito calorosa. Obtivemos reações que variaram do total encanto até o medo tímido que logo foi quebrado, quando apresentamos a coleção entomológica da UFV – CRP. Os alunos perceberam a importância e a beleza dos seres vivos mais diversos do planeta: os insetos.

No segundo encontro, o tema abordado foi “A riqueza do Cerrado”. Mesmo que a cidade esteja inserida neste bioma, havia pouco conhecimento sobre suas características. Para complementar os conhecimentos adquiridos, houve uma exposição de animais empalhados cedidos pelo Laboratório Didático de Biologia Evolutiva de Vertebrados, UFV – CRP, além de plantas típicas do Cerrado. O fascínio das crianças pelos animais foi visível, ajudando na conscientização da riqueza do nosso Cerrado. Houve também um momento de descontração onde as crianças puderam conhecer um pouco mais sobre os frutos nativos da região, através de picolés da Frutos do Cerrado.

No terceiro levamos as crianças do 4º e 5º ano para conhecer a Fazenda Platô Azul, onde foi realizado um passeio pela área de Cerrado preservado, aonde puderam observar tudo que lhes foi apresentado em sala de aula. Além disso, foi possível conhecer o cultivo de café lado a lado com a vegetação nativa, demonstrando cultivar e preservar a biodiversidade, simultaneamente. Ao final da visita houve o plantio mudas de jatobá na sede da fazenda Platô Azul, a experiência mais marcante do dia.

Por fim, na quarta visita, os integrantes do projeto “botaram a mão na massa” e construíram uma horta na escola, contando com a ajuda da prefeitura de Tiros e de diversos parceiros. Usando pneus velhos de tratores e canteiros, os alunos plantaram hortaliças que futuramente seriam usadas no preparo da merenda escolar. Além da diversão garantida, todas as crianças que participaram puderam perceber a importância da atividade e o destaque de como pequenas ações podem ajudar o meio ambiente. A iniciativa foi abraçada pela escola e pelos alunos, que se comprometeram a cuidar da manutenção da horta com todo carinho.

O encerramento do projeto ficou a cargo da Escola, que convidou os pais dos alunos para fazer parte da iniciativa e se tornarem perpetuadores dos conhecimentos adquiridos pelas crianças. Houve a exposição das diversas atividades extraclasse deixadas com as professoras pelos integrantes do projeto, além de lindas homenagens feitas pelos alunos e professores para aqueles que tornaram esse projeto possível.

O resultado não poderia ser diferente, para os alunos ficou enraizada a importância do Cerrado. Para nós, uma experiência única que promoveu ainda mais nosso crescimento e aprendizagem. E, além disso, também ficou um carinho recíproco entre alunos, professores e demais profissionais da escola e nós, os quais tivemos a honra de ensinar algo de tamanha importância.

Autores: Larissa Alves de Lima, Mitchel Iago Alves Costa, Cintya Lisboa e Sabrina Almeida

jul 19

Do planeta Krypton ao Planeta Diário: O nicho ecológico do Superman

Vejam! O que será aquilo no alto? Um pássaro, um avião, um disco voador? Ah, mas como não adivinhamos antes? Só poderia ser o super herói mais popular da Liga da Justiça: é o Superman! Jornalista do Planeta Diário nas horas vagas e salvador de Metrópolis quando em serviço, Superman (ou Clark, para os mais íntimos) é nada menos que um extraterrestre naturalizado no planeta Terra. Veremos a seguir o que a história deste famoso herói tem a ver com um conceito essencial da Ecologia, o nicho ecológico.

Um fato interessante foi a preocupação de Jor-El na escolha do planeta Terra como a próxima casa do futuro Superman: após estudar criteriosamente o assunto, Jor-El chegou à conclusão de que a Terra, dentre todos os outros planetas do Sistema Solar, era o único que abrigava condições ambientais semelhantes às de Krypton. Seria, portanto, o destino mais adequado que poderia reservar para o filho. Podemos então dizer que essas condições ambientais que favoreceram o desenvolvimento do jovem Clark Kent constituem o que os cientistas chamam de nicho ecológico.

Definir o que exatamente seria o nicho ecológico já deu dor de cabeça em um bocado de biólogos ao longo da História. Mas foi somente em 1957 que este conceito ganhou mais forma, com a definição de um cara chamado Hutchinson. Hutchinson disse que o nicho é nada menos que um conjunto de condições bióticas e abióticas que favorecem a sobrevivência de uma espécie. Assim, se determinado ambiente reúne essas condições, a espécie em questão é capaz de permanecer e de se reproduzir ali.

É importante não confundirmos os conceitos de nicho e hábitat. O hábitat é o local onde um indivíduo vive; no caso do Superman, seus hábitats foram as cidades de Smallville (onde ele passou a infância e adolescência) e Metrópolis (onde ele vive até hoje). Já o nicho são as condições que o ambiente oferece; essas podem ser bióticas (que envolvem as relações intra e interespecíficas) ou abióticas (que são as características não biológicas, como a temperatura e o pH). Por apresentar esses dois tipos, os quais, por sua vez, possuem uma série de características, o nicho também pode ser chamado de nicho multidimensional.

De fato, Jor-El estava certo, e o planeta Terra apresentava sim as condições ambientais apropriadas para a vida de seu filho, ou seja, seu nicho ecológico. Aqui, o organismo de Clark se desenvolveu de tal modo que já criança possuía super poderes. Jonathan, seu pai adotivo, que o diga, pois se não fosse graças à incrível adaptação de Clark às condições climáticas de nosso planeta, aquele carro o esmagaria, e ele teria batido as botas há muito tempo.

Arthur Filipe da Silva é graduando em Ciências Biológicas na Universidade Federal do Alagoas e estagiário do Laboratório de Ecologia Quantitativa.

jul 16

Revelando o passado

Desde o surgimento dos primeiros seres vivos na Terra até os dias de hoje, muitas mudanças ocorreram em nosso planeta, tais como as variações de temperatura, oscilações na quantidade de oxigênio na atmosfera e intensas atividades vulcânicas. Algumas dessas modificações foram tão bruscas que conseguiram modificas ou excluir completamente os organismos que viviam naquela época.

Alguns dos organismos que possuíam essa susceptibilidade de sobrevivência eram as trilobites, pertencentes ao filo Arthropoda, ao qual também fazem parte os insetos modernos. Esses animais viveram nos antigos oceanos durante cerca de 300 milhões de anos, entre os períodos Cambriano (há 550 milhões de anos) até o Permiano (há 250 milhões de anos). O surgimento das trilobitas está associado à explosão cambriana, onde a maioria dos filos e classes dos animais marinhos com esqueleto, viventes daquela época, apareceram rapidamente no registro fóssil.

As trilobitas possuíam um corpo oval, achatado e segmentado, o qual era dividido em três partes: cabeça, tórax e cauda, e é devido à essa divisão em três lobos a escolha do nome “Trilobites”. Além disso, possuíam um exoesqueleto composto por quitina e carbonato de cálcio, o que favoreceu os processos de preservação em fossilização dos seus exemplares (tais compostos conferem alta rigidez). Ao longo de seu crescimento, as trilobites sofriam várias mudas, descartando seu exoesqueleto sucessivamente, tal como ocorre hoje com os artrópodes. Esse pode ser um dos motivos de se encontrar tanta abundância de indivíduos desse grupo no registro fóssil.

Acredita-se que, em sua maioria, se tratava de animais marinhos bentônicos, ou seja, aqueles que vivem no fundo dos oceanos. Além disso, eram também cosmopolitas (encontrados no mundo todo). No Brasil, por exemplo, já foram encontrados registros fósseis de representantes desse grupo nas bacias do Paraná e Amazonas.

Do ponto de vista evolutivo, as trilobites se destacam pela sua extraordinária diversidade morfológica. Analisando os registros fósseis, é possível a identificação e classificação de mais de 1500 gêneros distintos e de 20000 espécies, as quais se diferem no formato, hábito de vida e tamanho (desde 1mm até mais de 70 cm). Por esta razão, é considerado como um dos grupos de animais extintos mais diversos que já habitaram a Terra. Essa sua diversidade de formas sugere que esses animais ocupavam um extenso nicho ecológico, assim possuíam diversos modos de vida, o que também incluía uma variedade de ocupações nos níveis tróficos, já que sua alimentação poderia ser filtradora, detritívora ou carnívora (predadora ou carniceira).

Outro fator marcante desse grupo, eram os olhos compostos de várias lentes em cada, o que é, de acordo com alguns evolucionistas, algo bastante complexo e sofisticado para aquele período. Esse fato acabou surpreendendo diversos pesquisadores, os quais acreditavam que os animais evoluíam suas características de algo mais simples para o mais complexo, ou “melhorado”. A questão é que esses olhos eram muito sensíveis aos movimentos e à variação de luz, eram constituídos de um mineral chamado calcita, o que conferia às lentes rigidez e não permitiam o ajuste do foco, assim como acontece nos olhos humanos. Porém, ela também podia eliminar as distorções de imagem, auxiliando assim as trilobites na busca por suas presas e fuga de predadores. Isso reforça que Evolução não significa melhoria, mas apenas mudança.

As trilobites eram animais fantásticos, abundantes e tão complexos quanto qualquer organismo encontrado atualmente. Conseguiram reinar nos oceanos antigos por milhões de anos e o formato de seus olhos pode ser uma das chaves para entender seu sucesso adaptativo e ampla diversidade de espécies. Além disso, o compreendimento das características e morfologias desse grupo, vem em auxílio para a ciência na construção da história evolutiva da vida na Terra, justificando a tamanha importância do grupo.

Texto: Beatriz Cranchi Pazetto, Graduanda em Ciências Biológicas

jul 16

O que é uma espécie?

O que caracteriza e como podemos definir “espécie”? Qual a primeira observação que fazemos para classificar um indivíduo como pertencente a uma e não a outra? O conceito de espécie é muito discutido pela comunidade científica, e existem diferentes tipos. O biológico diz que podem ser considerados da mesma espécie, indivíduos capazes de intercruzar e produzir descentes férteis. Entretanto, o que amplamente utilizamos para distinguir uma espécie de outra é a morfologia externa ou mesmo interna que os indivíduos apresentam.

Os problemas da classificação morfológica aparecem a partir do momento em que não são encontradas diferenças evidentes entre indivíduos. Exemplo disso são as espécies crípticas encontradas em muitos grupos. Mesmo semelhantes, são diferentes e provavelmente apresentam diferenças em aspectos não tão facilmente observáveis, tais como fatores ecológicos de seu nicho (requisitos alimentares ou padrões de comportamento reprodutivo) e genéticos (diferenças cariotípicas). Com isso, o que antes era classificado como populações de uma espécie, pode representar, na verdade, um conjunto de espécies que respondem de formas diferentes às pressões seletivas naturais ou às impostas pelo homem em processos de fragmentação e degradação de hábitat.

Um exemplo de organismos que apresentam espécies de difícil distinção morfológica são os parasitoides da família Trichogrammattidae. Parasitoides são uma classe de organismos que parasitam outros insetos, principalmente depositando seus ovos no corpo de seus hospedeiros. Essa é uma relação extremamente espécie-específica muito utilizada no controle biológico de pragas na agricultura. Mas para que esse controle seja eficaz, é essencial a identificação correta do tipo de parasitoide.

Essas incertezas taxonômicas são encontradas em organismos dos mais distintos e podem afetar também a saúde humana. Um estudo recente com a espécie de fungo Paracoccidiodes brasiliensis, mostrou que o que era considerado uma única espécie que, na fase de levedura, causa micose sistêmica, na verdade se trata de um complexo de quatro espécies diferentes. Os pesquisadores acreditavam que era possível que isso estivesse interferindo em diversos aspectos da doença, inclusive no diagnostico positivo através de soro. Em um dos testes realizados, foi verificado que em uma das espécies, o gene que produz o antígeno (molécula que induz a produção de anticorpos), acumulava maior numero de mutações não sinônimas, que são aquelas que interferem no aminoácido codificado pelos nucleotídeos. Isso significa maior variabilidade na molécula produzida por uma das espécies do fungo, gerando respostas variáveis nos pacientes infectados pela mesma.

Que a biodiversidade no planeta Terra é imensa é um fato conhecido por todos. Uma surpresa é imaginar que essa mesma pode ser ainda maior do que estimamos, e que espécies que ainda nem conhecemos são extintas todos os dias. Dessa forma, identificar se o que é considerado uma única espécie trata-se de mais de uma unidade taxonômica e evolutiva, é essencial para planejar formas de manejo eficazes que atendam as necessidades de cada uma delas e, assim, aumentar a contribuição pra a conservação da diversidade e do meio ambiente.

Snaydia Resende é bióloga, mestranda em Manejo e Conservação de Ecossistemas Naturais e Agrários na UFV campus Florestal.

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