A ciência na Roma antiga.

[wr_row][wr_column]

Flávia Fróes de Motta Budant

Quando o assunto é ciência na Antiguidade, é normal que sejamos expostos atextos e dados  enciclopédicos, mais ilustrativosdo que explicativos. Pouco comum é que nos falem de que forma os antigos encaravam o fazer científico, que era o estudo dos mecanismos da Natureza, e de que maneira isso estava inserido no cotidiano e como se relacionava com a cultura local. É claro, podemos falar só  sobre as descobertas de cada povo – quem mediu a Terra primeiro, qual foi o primeiro homem a falar  em átomo –, mas entender como chegaram a elas nos ajuda a compreender como era de verdade a  ciência naquele tempo. Temos a mania de achar que a nossa época é a mais avançada – temos computadores hipervelozes, enviamos sondas espaciais para explorar a vizinhança galáctica e, acima de  tudo, não atribuímos acontecimentos da natureza a entidades sobrenaturais enfurecidas. Somos  evoluídos. No entanto, devemos admitir que os antigos também tinham um raciocínio tão complexo  quanto o nosso, por mais que não dispusessem da mesma tecnologia.

Para fugir do óbvio, vamos falar  de um povo pouco lembrado quando o assunto é ciência: os romanos. É preciso saber que os estudos,  em Roma, não eram conduzidos por qualquer um, e nem mesmo divulgados a todos. O desenvolvimento  cultural se restringia a uma elite, que mandava os filhos estudar com professores  gregos ou na própria Grécia. Como dizia o poeta Horácio, apesar de os romanos terem conquistado os  gregos, eram os helênicos que os mantinham cativos através da influência cultural.

Adiante, saibamos que, na antiguidade, investigar a Natureza era papel dos filósofos. Muitos textos que  hoje conhecemos por científicos são, na realidade, obras que pertencem a estoicos, epicuristas etc.      Vamos abordar a relação da Natureza com três grandes áreas do conhecimento romano: o Direito, a  retórica e a ética.

Cícero, um dos maiores escritores latinos, nos informa que os estudos naturais estavam bastante ligados ao modo como Roma era administrada através das leis. Lex est ratio summa  insita in natura quae iubet ea quae facienda sunt prohibitque contraria – a lei é a maior razão,  implantada na natureza, que manda as coisas que devem ser feitas e proíbe as contrárias. A natura  legitima a organização social pois esta também provém da ordem cósmica. E, assim como as regras cívicas são naturais, a própria Natureza tem suas leis. Lucrécio, que escreveu uma obra de divulgação  científica epicurista em latim, fala em foedera naturae – estipulações, regularidades que encontramos.  Encontrar simetria no funcionamento do Universo era como ter acesso a verdades encobertas: a partir  de analogias, conexões, sabia-se mais sobre o mundo em que se vivia.

Como espinha dorsal da educação romana, havia a retórica, a arte do discurso, do dizer bem através de manobras da linguagem. Ela  também moldou a forma de compreender a ciência. Sêneca, o filósofo, ao escrever as Questões Naturais,  não poupou construções que visavam conquistar o leitor, ao mesmo tempo em que transmitia informações a respeito dos rios, das estrelas etc. Lucrécio, em meio aos    átomos e às explicações físicas, utiliza ideias e argumentos moldados à maneira dos oradores, também    para trazer o leitor para perto de si e de suas teorias.

Quanto à ética, sabe-se que, como a ciência era feita por filósofos (lembremo-nos da grande interdisciplinaridade da Antiguidade), uma das perguntas   que se faziam era se havia – e quais seriam – as correspondências de seus atos no Universo. O poeta  estoico Lucano, em sua obra Farsália, a respeito da guerra civil entre César e Pompeu, aponta em diversos trechos a Natureza se manifestando de modo simétrico às atrocidades humanas: há  tempestades, eclipses, estrelas alterando o próprio curso, espelhando a barbaridade das batalhas.

Os  estudos científicos se relacionam profundamente com a cultura de cada época. Mas, apesar das grandes  diferenças na maneira de encarar a Natureza, é preciso reconhecer que o que fazia um romano olhar  para o céu e encontrar as constelações é o mesmo que nos faz desmontar um rádio velho para ver como  ele é por dentro. A curiosidade é uma constante humana e é o que nos move continuamente. É o que nos  iga tanto aos que já se foram quanto aos que virão: o mesmo fio evolutivo do amor pelo  conhecimento.

Flávia Fróes de Motta Budant é estudante de Graduação em Letras Português – Latim, na  Universidade Federal do Paraná, com ênfase em estudos da poesia latina.


Como Citar esse documento.

Budant. F. (2013).  A ciência na Roma antiga. Folha biológica 4: (4) 4

Alelopatia

Luciano Bueno dos Reis

Quando olhamos para um campo ou mata, diferentemente da aparente calma e convívio harmônico entre as plantas e outros componentes dos ecossistemas, grandes batalhas podem estar sendo travadas entre as plantas. Na competição por luz, água e nutrientes, as plantas podem lançar mão de diversas estratégias e armas para sobrepujar suas adversárias.
Dentre essas estratégias, as plantas podem usar um vasto arsenal bioquímico, com substâncias secretadas pelas raízes, volatilizadas pelas folhas ou mesmo resultantes da decomposição de partes mortas do vegetal. Tais compostos podem interferir no crescimento de outras plantas ou mesmo de microrganismos do solo. Essa interferência no crescimento de uma planta sobre a outra, por meio de uma substância química liberada, é conhecida como alelopatia.
Diversas classes de compostos podem agir como substâncias alelopáticas. Contudo,
o modo de ação de cada substância muitas vezes não é conhecido. Outras vezes, nem mesmo a substância responsável pelo efeito alelopático é identificada. Dessa forma, este é um campo que ainda demanda muita pesquisa científica básica.
Essas pesquisas na área de alelopatia podem ser bastante simples, já que os testes iniciais são realizados comumente verificando o efeito de extratos vegetais sobre a germinação de sementes como as de alface e tomate. E, identificada a ação alelopática, pode-se investir na identificação do composto responsável por esse efeito.
Tais estudos e a identificação de compostos que causam efeitos alelopáticos podem ser bastante úteis, não apenas para se conhecer melhor a ecologia vegetal, mas também porque essas substâncias têm potencialidade de uso na indústria farmacêutica (produção de remédios)e agroquímica (defensivos agrícolas).
No ambiente agrícola também há alelopatia e uma planta bastante conhecida pelos seus efeitos alelopáticos é o sorgo. Algumas culturas não se desenvolvem bem em solo onde sorgo estava plantado. Uma das substâncias alelopáticas produzidas pelo sorgo é a sorgoleona, que inibe a respiração mitocondrial. Dessa forma, o produtor deve tomar cuidado ao escolher a cultura que será plantada onde havia sorgo, pois isso pode interferir no crescimento de determinadas culturas e trazer prejuízos econômicos. A autotoxidez também pode contribuir para a redução da produtividade, como verificado para alguns cultivares de trigo e espécies da família Curcubitaceae, como o melão e pepino. Esses efeitos podem ser minimizados com a rotação de culturas. Em ambientes naturais essa ação autotóxica impede que sementes da mesma espécie germinem próximas das plantas que as produziram. Com isso, a planta “mãe” pode minimizar a competição com as plantas “filhas”. No campus de Rio Paranaíba, da Universidade Federal de Viçosa, alguns estudos sobre o efeito alelopático da macaúba têm sido realizados por estudantes do ensino médio da E. E. Adiron Gonçalves Boaventura, de Rio Paranaíba, vinculados ao programa de Iniciação Científica Júnior fomentado pelo CNPq, FAPEMIG e UFV. Atualmente, Rafaela Rocha e Amanda Mendes, ambas estudantes do 2º ano, trabalham no projeto coordenado pelo professor Luciano Bueno dos Reis.

Luciano Bueno dos Reis é biólogo formado pelaUniversidade Federal de Juiz de Fora, com mestrado e doutorado em Fisiologia Vegetal pela Universidade Federal de Viçosa. Atualmente é professor da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba, atuando nas áreas de Fisiologia Vegetal e Cultura de Tecidos de Plantas.


Como citar esse documento.

Reis. L. (2013). Alelopatia. Folha biológica 4: (3) 4.

Afinal, somos mamíferos.

Karine Frehner Kavalco

Se fizermos uma busca no Google® pela palavra “mamíferos”, logo nas primeiras entradas vem a definição da Wikipédia: “Os mamíferos constituem uma classe de animais vertebrados, que se caracterizam pela presença de glândulas mamárias que, nas fêmeas, produzem leite para alimentação dos filhotes…”. É claro que esta não é a única característica compartilhada pelos mamíferos, mas até o nome “mamífero” indica da importância da lactação na alimentação dos filhotes neste grupo de animais.

Há mamíferos que tem formas incríveis de amamentar seus filhotes, muito diferentes do que estamos acostumados a presenciar em animais domésticos, de fazenda ou na nossa espécie. Há exemplos extremos, como o ornitorrinco. Esse mamífero que põe ovos não possui mamas, mas o leite escorre por poros, sendo lambido pelos filhotes. Nas baleias jubarte, por exemplo, a fêmea vira seu corpo e fica com as mamas próximas da superfície da água, permitindo que o filhote possa respirar com mais facilidade durante as mamadas.

Independente da adaptação de cada mamífero para a amamentação, o leite produzido sempre possui todos os nutrientes que o filhote precisa, embora seja muito variável entre diferentes espécies e mesmo entre raças de uma mesma espécie. Via de regra, todo leite tem água, minerais, carboidratos, lipídios e proteínas, mas as proporções entre estes compostos variam bastante. O leite pode ser extremamente calórico e rico em gordura, como no caso de mamíferos aquáticos e de regiões frias, ou ser um dos menos gordurosos, como o da égua e da asna, mas ele sempre será adequado aos filhotes destas espécies. E como somos também mamíferos, o leite produzido pelas mães é o ideal para a alimentação dos filhotes humanos, os bebês.

Entre os benefícios do aleitamento para o bebê, talvez o mais importante seja a composição perfeita para a sua nutrição e manutenção de sua saúde. Não apenas os nutrientes estão em equilíbrio, mas há água suficiente para deixá-lo hidratado, além de uma gama de compostos que atuam na proteção contra infecções e para o seu desenvolvimento adequado. Se compararmos o leite humano com o leite de vaca, veremos que a grande quantidade de proteínas do segundo, associada a muitos eletrólitos, pode fazer com que um bebê alimentado com leite de vaca tenha uma sobrecarga renal. O leite materno é tão importante que nenhuma fórmula artificial o substitui de maneira totalmente eficiente. Nenhuma.

Leite de mãe não é só amor em estado líquido. Além dos benefícios psicológicos para a mãe e o bebê pelo fortalecimento do vínculo afetivo, há uma lista de vantagens em amamentar e em ser amamentado. Apesar disso, muitas mulheres não o fazem. Algumas delas, contra sua vontade, tornamse inaptas para o aleitamento materno. Outras, acreditam que o ato de amamentar lhes fará mal, como por exemplo, que deixará seus seios flácidos. Esse é um mito que já se provou errado. Há vários fatores que podem deixar as mamas flácidas, mas amamentar não é um deles. Talvez o fato de atrizes e modelos famosas estarem optando pelo parto natural e pelo aleitamento mostre para estas mulheres que não é preciso ter medo de amamentar seu filho. Talvez percebam que seu corpo está preparado para isso. A natureza o tem moldado para esta função há milhões de anos…

Mas e quando a mãe não consegue amamentar o recém-nascido, mesmo sabendo de todos os benefícios para sua nutrição e desenvolvimento? Pela necessidade de alimentar de maneira eficiente bebês mais sensíveis e debilitados, surgiram as inciativas de bancos de leite. No Brasil, só neste ano, pouco mais de 90 mil bebês já receberam leite materno doado. No ano passado, mais de 172 mil recém-nascidos foram beneficiados. Pouca gente conhece a Rede de Bancos de Leite Humano, mas ela faz a diferença para milhares de crianças internadas em unidades neonatais (UTIs e CTIs), muitas delas prematuras ao nascimento. Pode parecer grande, mas o número de recém-nascidos beneficiados pelos bancos é ainda muito pequeno. Estas crianças recebem leite materno selecionado e pasteurizado, o que lhes garante uma fonte de alimento segura, que ajuda a protegê-las de infecções.

Captura de tela de 2015-07-16 10:38:48

Qualquer mulher que esteja amamentando e que seja saudável (que não esteja usando alguns medicamentos e esteja bem nutrida) pode doar o excedente do seu leite (aquele que não será usado por seu próprio bebê) a um banco de leite. Como a produção de leite materno aumenta conforme a necessidade, ou seja, com a quantidade e com o tempo das mamadas, potencialmente toda mãe tem leite suficiente para seu bebê e para doar. Poucos minutos por dia são suficientes para a coleta do leite, que pode ser guardado no freezer até ser encaminhado ao banco.

Em Minas Gerais, há 12 unidades e 19 postos de coleta da Rede de Bancos de Leite Humano. No mês de maio, a unidade de Uberaba informou que estava com seu estoque baixo, com menos de três litros, e os estoques continuaram baixos no mês de julho. Para saber mais sobre como doar e para obter o endereço dos postos e dos bancos, acesse: http://www.fiocruz.br/redeblh

Karine Frehner Kavalco é bióloga, mestre em Genética e Evolução e doutora em Genética. Atualmente é professora da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.


Como citar esse documento.

Kavalco. K (2013). Afinal, somos mamíferos. Folha biológica 4:(2) 4

Peixes e Educação Ambiental

A educação ambiental é um tema desafiante. Inúmeras são as questões ambientais que afetam nosso dia a dia. Poluição do ar e das águas, lixo e reciclagem, proteção da biodiversidade, desenvolvimento sustentável, são apenas alguns dos assuntos frequentemente debatidos e com ações efetivas.
Em relação a proteção da biodiversidade, os aspectos a serem abordados são inúmeros. Muitos deles dependem diretamente do conhecimento sobre a biodiversidade. Por exemplo, uma Unidade de Conservação pode ser proposta com a finalidade de proteger uma espécie ameaçada. No entanto, como conscientizar a população local de que
isto é necessário? Por outro lado, quanto da biodiversidade estamos perdendo por deixarmos
de estudar determinadas regiões que acabam por tornar-se fronteiras agrícolas, por exemplo? Planos de manejo e conservação de espécies só conseguem ser bem sucedidos quando envolvem completamente a comunidade da região, como por exemplo, o projeto TAMAR que envolve as comunidades de pescadores e suas famílias com o objetivo de proteger as
tartarugas marinhas.
O Laboratório de Genética Ecológica e Evolutiva (LaGEEvo) do Campus de Rio Paranaíba
da Universidade Federal de Viçosa iniciou nos últimos meses a etapa de Educação Ambiental de seu projeto “Biodiversidade da Ictiofauna do rio Paranaíba – Estratégias para a Educação Ambiental”. Financiado pela Fundação Grupo Boticário, o projeto consiste de duas etapas. A primeira visa realizar o levantamento da Ictiofauna do rio Paranaíba em seu trecho inicial,
desde as nascentes no município de Rio Paranaíba até o município de Patos de Minas. Na segunda etapa, a equipe do laboratório promove cursos para professores de Ensino Fundamental e Médio, palestras para estudantes e material didático a ser distribuído nas escolas.

Captura de tela de 2015-07-16 10:17:16

As palestras sobre diversidade de peixes, importância da água e poluição das águas tem sido ministradas para alunos de todas as idades. Divididos por faixas etárias, as atividades desenvolvidas passaram por dança e pintura com crianças de 1a à 3a série do Ensino Fundamental até palestras sobre a diversidade de peixes com os estudantes de Ensino Médio. O primeiro curso oferecido é o de Peixes do Alto Paranaíba, para professores de Ensino Médio. Informações sobre os cursos e palestras podem ser obtidos pelo site: http://www.biologianaweb.com.br/lageevo.


Como citar esse documento.

LaGEEvo (2013). Peixes e Educação Ambiental. Folha biológica 4: (1) 4

Desconhecidos e ameaçados

Ana Lúcia Tourinho

 

O que é um opilião?  

Essa questão é bem frequente, mesmo entre alunos de classes de pós-graduação das áreas biológicas e relacionadas. Esses aracnídeos muito abundantes e distribuídos no mundo todo são pouco conhecidos. Possuem hábitos crípticos e noturnos, atingem seu pico de diversidade em regiões tropicais da América do Sul, principalmente o Brasil. Entretanto, diversas espécies brasileiras desses ocultos animais correm o risco de desaparecer do planeta antes mesmo de serem conhecidas.

Os opiliões são aracnídeos.  

Sim, eles parecem aranhas, mas não são. Assim como todas as aranhas, possuem o corpo dividido em dois segmentos, o anterior se chama prosomo ou cefalotórax, e o segundo se chama opistosomo ou abdômen. Também compartilham quatro pares de pernas, um par de pedipalpos (estruturas que parecem pernas, mas são usadas para manusear objetos), e um par de quelíceras (parte do aparelho bucal dos aracnídeos). Porém eles não tecem teias porque não têm fiandeiras (estruturas responsáveis pela emissão dos fios de seda). Além disso, visualmente as duas regiões do corpo dos opiliões não estão separadas por uma cintura como ocorre com o corpo das aranhas.  Ao longo de sua evolução, cinco dos segmentos da região posterior do corpo do animal, o opistosomo, se fundiram à região anterior, o prosomo, formando uma carapaça externa inteiriça chamada de escudo dorsal. Por este motivo a divisão de seu corpo em duas regiões, só pode ser visualmente notada internamente. Diferentemente das aranhas, que possuem muitos olhos (de quatro a oito olhos), eles têm apenas um par de olhos medianos que estão geralmente posicionados em uma pequena elevação localizada na parte anterior de seu corpo, o cômoro ocular. Os olhos laterais presentes nas aranhas e escorpiões estão ausentes nos opiliões. Os opiliões possuem um par de glândulas laterais (as glândulas odoríferas), também na parte anterior do corpo, e quando incomodados ou ameaçados liberam um cheiro no ambiente. Assim, é fácil saber se há um opilião por perto se conhecemos esse odor.  Mas não é só isso, há ainda uma outra característica interessante que torna os opiliões diferentes dos outros aracnídeos: eles têm pênis. É isso mesmo! Eles são os únicos do grupo de aracnídeos em que os machos possuem um pênis para transferência direta de espermatozóides.  Inofensivos aos humanos, os opiliões geralmente se escondem porque precisam de ambientes úmidos e com temperatura elevada para sobreviver. Isso acontece por que os opiliões perdem água com muita facilidade, e se forem expostos por tempo prolongado a ambientes secos e muito quentes não resistem e morrem. Por isso é mais fácil encontra-los  à noite, quando estão se alimentando, locomovendo e procurando um parceiro para reprodução. É também por este motivo que os locais prediletos dos opiliões são cavernas, frestas de árvores, entre pedras e nos paredões rochosos, debaixo das pedras, das folhas e troncos caídos no chão. Também são encontrados atrás e nas concavidades das diferentes folhas de plantas dos sub-bosques florestais e até mesmo enterrados, ou atrás das cascas das árvores.

foto 2

Esquema anatômico de um opilião

 

foto 1

 

 

  Macho da espécie Stygnus nogueirai descrita por Ricardo Pinto da Rocha e Ana Lúcia Tourinho em 2012. A descrição desta espécie foi publicada junto com outras 9 novas espécies na revista científica Zootaxa.

Eles podem caçar insetos e outros aracnídeos, mas em geral são generalistas, isso quer dizer que se alimentam dos recursos que estiverem disponíveis no momento, e são  frequentemente observados se alimentando de matéria em decomposição. Uma grande proporção do que é produzido em florestas é processado pelos organismos detritívoros (aqueles que se alimentam de detritos), como muitas das espécies de opiliões, e muitas ordens de insetos. Portanto esses animais contribuem ativamente para a ciclagem dos nutrientes através da decomposição da matéria orgânica acumulada na liteira (camada de folhas mortas acima do solo), desempenhando um importante papel no cenário ecológico.

Diversidade e endemismo  

Outra característica importante dos opiliões é o endemismo acentuado apresentado por quase todas as espécies. Espécies endêmicas são aquelas que estão distribuídas exclusivamente em um determinado local. Os níveis de universalidade de endemismo podem variar. Existem grupos endêmicos de pequenas manchas florestais, serras e parques, até os endêmicos de grandezas categóricas mais amplas como os biomas, continentes, regiões zoogeográficas e eco regiões. Dados de pesquisas apontam os opiliões da Mata Atlântica como os animais com níveis de endemismos mais altos já registrados (97,8%). Apesar do endemismo acentuado, opiliões estão espalhados pelo mundo todo. A diversidade de espécies de opiliões é alta, existem cerca de 6.300 espécies conhecidas, mas a diversidade máxima é atingida na região Neotropical, e cerca de 900 das espécies conhecidas são endêmicas de biomas brasileiros, ou seja, são exclusivas destes biomas. Mas este número está subestimado, os opiliões são pouco conhecidos até mesmo pela ciência. Muitas espécies novas são encontradas em áreas reconhecidas como regiões de maior diversidade de organismos do mundo, como a Amazônia e a Mata Atlântica. Porém o número de espécies novas encontradas na Amazônia é surpreendentemente alto. Isto ocorre principalmente porque a fauna de opiliões da Mata Atlântica tem recebido mais atenção dos pesquisadores nos últimos 50 anos, já a Amazônia, o Cerrado são consideradas as regiões com a fauna de opiliões mais pobremente conhecida do país. Mesmo assim, na Mata Atlântica o número de espécies novas encontradas ainda é considerado alto, nos últimos cinco anos pelo menos uma espécie nova, endêmica da região, foi descrita por ano. O percentual de espécies novas encontradas por localidade amostral na Amazônia pode chegar a 50%, ou mais, dependendo da área amostrada. Em regiões mais distantes e de difícil acesso, os números por coleta chegam a 90%. Nas grandes cidades, por exemplo, Manaus, no estado do Amazonas, e Belém, no estado do Pará, receberam mais coletas nos últimos 50 anos, portanto o número de espécies conhecidas nesses locais é maior. No entanto, coletas recentes realizadas em fragmentos urbanos da floresta da Universidade Federal do Amazonas, na cidade de Manaus, atingem um percentual de 20% a 30% de espécies ainda desconhecidas para a ciência.  Cerca de 70% do território da Amazônia brasileira nunca recebeu uma visita científica seguida de coleta de opiliões. Espantosamente, essas localidades não incluem somente locais de difícil acesso ou muito distantes das grandes metrópoles amazônicas. Um bom exemplo é o trabalho recentemente realizado pela mestre em ciências biológicas Larissa de Souza Lança na Fazenda Experimental da UFAM. A fazenda está localizada no km 38 da rodovia BR-174, e conta com uma grade de 24 km2, sendo 59 km de trilhas e 41 parcelas implementadas pelo Programa de Pesquisas em Biodiversidade. Lá foram coletadas 26 espécies de opiliões, sendo que 65% delas são prováveis espécies ainda não descritas, ou seja, novas espécies para a ciência.

Ameaça eminente 

Existem os dois lados nesta história de endemismo. Por um lado, as informações de espécies com áreas de distribuição extremamente restritas, juntamente a informações obtidas através de estudos de sistemática e filogenética (classificação e estudo das relações de parentesco dos organismos), fornecem um entendimento maior dos eventos que alteraram o ambiente e acabaram por isolar as faunas levando à especiação. Portanto, estudar os padrões biogeográficos é de extrema importância para o resgate e melhor entendimento histórico dos eventos ocorridos no planeta, e para o estabelecimento e elaboração de políticas de conservação ambientais. Mas por outro lado, espécies com áreas de distribuições muito restritas se tornam muito vulneráveis e passíveis de extinção.  Infelizmente a expansão progressiva do desmatamento das áreas florestais é uma realidade, também representando uma ameaça para muitas espécies de opiliões. Espécies desconhecidas, que não estão presentes em nenhuma coleção científica do mundo, podem desaparecer antes mesmo que cheguem a ser descobertas pelos cientistas. Na região Amazônica brasileira temos o exemplo das florestas ao longo da BR-319. A rodovia que unia Manaus a Porto Velho foi construída na década de 70, durante o período da ditadura militar. Em 1988 ela ficou intransitável em consequência de sua degradação crítica. O governo estadual do Amazonas, com o apoio Ministro dos Transportes e do presidente da época, Luís Inácio Lula da Silva, decidiram retomar às pressas, no meio do ano de 2005, o polêmico projeto de reconstrução da rodovia. O asfaltamento da BR-319 foi então iniciado na época sem um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto ao Meio Ambiente (RIMA), como requerem as leis federais de licenciamento ambiental, apesar da tentativa, sem êxito, da ministra do meio ambiente da época, Marina Silva, de embargar a obra até que tais medidas legais fossem atendidas.

 

foto 3

 

Interflúvio Madeira-Purus no estado do Amazonas, na foto a floresta Amazônica cortada pela estrada BR-319. Crédito da Foto: José Luis Purri – PPBIO  http://ppbio.inpa.gov.br/

 

Informações sobre a obra apressada e suas consequências socioeconômicas e ambientais foram bastante discutidas em jornais locais e publicações científicas de Philip Fearnside (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), mas hoje não se toca mais no assunto. A área em questão está situada ao sul do rio Amazonas, limitada pelos rios Amazonas, Madeira e Purus, e incluída na área classificada como um dos grandes centros de endemismo Amazônico pelo historiador natural Alfred Russel Wallace, e posteriormente confirmada por diversos outros autores importantes, como o alemão Jürgen Haffer, autor da teoria dos refúgios amazônicos. Além da fauna composta por muitas espécies novas o local possui índices elevados de riqueza de espécies, e importantes informações acerca do endemismo de aracnídeos amazônicos, de mamíferos e aves inventariados nos últimos cinco anos pelas equipes de grandes programas institucionais de biodiversidade como o Programa de Pesquisas em Biodiversidade/PPBio e Rede GEOMA. Nas áreas próximas aos Km 81 e 83 da rodovia encontramos a espécie Fissiphallius tucupi, segunda espécie de opilião da família Fissiphalliidae da Amazônia descrita em 2006 por Ana Lúcia Tourinho e Abel Pérez, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e da Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ.  Entre as cidades de Humaitá e Careiro Castanho não existem registros de opiliões além da nova espécie F. tucupi. Particularmente, espécies dos dois grupos citados possuem grande importância para a compreensão tanto da história evolutiva dos opiliões como biogeográfica do grupo na região Amazônica. Infelizmente as áreas do km 81 foram loteadas, as linhas que demarcavam as parcelas e transectos permanentes utilizados para amostragem em nosso inventário já haviam sido incluídas nas divisões do loteamento seis meses após nossa coleta, ainda no ano de 2006. O programa de aceleramento do desenvolvimento nacional (PAC) vem realizando inúmeras obras com o objetivo de alavancar o desenvolvimento do país, através de construções que objetivam, entre outros, garantir e expandir o suprimento de energia e a capacidade de transporte no país. Além dos projetos já em andamento como as polêmicas envolvendo a pavimentação da BR-319 e a construção da hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingú, há planejamento de construção e pavimentação de inúmeras outras estradas e hidrelétricas, bem como outros empreendimentos que geram um impacto negativo sobre a biota. A criação de reservas na área de entorno dessas obras seria uma alternativa tanto para a persistência de algumas dessas espécies, quanto para a contenção do desmatamento. Na verdade existe uma legislação que regula todo esse processo, e para áreas desmatadas ou impactadas por empreendimentos desse porte há necessidade de estabelecimento de unidades de conservação de acordo com a escala da área impactada. Entretanto, nem sempre as medidas mais adequadas são aplicadas e escolhidas para cada empreendimento. As decisões requerem pareceres velozes, seguidas de tomadas de decisões mais velozes ainda em função da pressa política e dos montantes de recursos envolvidos. Existem discussões para implementação de unidades de conservação, porém, estas deixariam de fora áreas importantes, que nunca foram inventariadas por pesquisadores, e, portanto todo o seu potencial científico em termos de biodiversidade é bastante desconhecido até mesmo pelos especialistas. Ponderações científicas realizadas por instituições científicas e governamentais competentes, sempre envolvem equipes especializadas tanto na avaliação dos componentes biológicos como os sociais das regiões, mas para executar análises desse cunho e prever medidas mitigatórias geralmente é necessário mais tempo, tempo esse que geralmente os responsáveis não estão dispostos a dar. Caso as unidades de conservação prometidas sejam concretizadas sem que haja previamente um planejamento por meio de consulta pública, inventários científicos e resultados de EIA/ RIMA, dificilmente estas priorizarão de maneira adequada os componentes biológicos e geográficos locais e a população amazônica. As consultas públicas não são bem divulgadas, e nem sempre todos os aspectos e impactos multifacetados são de fato apresentados nessas ocasiões para a população. Na verdade, este deveria ser um evento onde a população de fato se engajasse, e a mesma também deveria ter uma alfabetização científica maior para que pudesse estar mais consciente de seus interesses nesse caso. Esta última deveria ser colocada a par não apenas das vantagens, mas também das desvantagens, muitas vezes irreversíveis, de todo e qualquer planejamento desenvolvimentista para que pudesse exigir medidas mitigatórias adequadas. Inúmeras outras regiões da Amazônia, e do restante do Brasil, jamais foram amostradas por especialistas e se encontram nesta mesma situação, a maioria delas irá desaparecer antes mesmo que alguns representantes importantes e desconhecidos sejam resgatados e depositados em coleções para pesquisas futuras.  Tal informação, uma vez perdida, estará perdida para sempre.

 

Ana Lúcia Tourinho é bióloga, mestre em Zoologia e doutora em Ecologia. Atua no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, nos Programas de Pós-Graduação em Entomologia e em Ecologia.  É curadora assistente da Coleção Aracnológica do INPA e especialista em Aracnídeos, principalmente das ordens Opiliones, Ricinulei e Araneae

 


 

Como citar esse documento:

Tourinho, A.L. (2013). Desconhecidos e Ameaçados. Folha biológica 4 (1): 2-3