A grande riqueza das pequenas espécies do Cerrado

O Cerrado é o segundo maior domínio do Brasil, superado apenas pela Amazônia. Ele cobre uma área de dois milhões de km², e ocorre em 14 estados brasileiros. Nesse domínio ocorrem vegetações distintas, como florestas (os cerradões), campos (os campos limpos e campos rupestres), até formações savânicas, os cerrados sensu stricto, ou cerrado típico, que ocupam 70% da área total.

O cerrado sensu stricto é caracterizado pela existência de árvores de pequeno a médio porte com troncos retorcidos, de modo que as copas dessas árvores não se toquem. Abaixo delas existe um tapete contínuo de plantas de pequeno porte, conhecidas como ervas e arbustos. Essas espécies permanecem toda a sua vida próximas ao nível do solo, e não desenvolvem lenho ou madeira, ou seja, nunca irão virar árvores. Elas germinam suas sementes, crescem, reproduzem e morrem num período de tempo muito curto em relação às árvores, que sobrevivem décadas ou séculos.

Estima-se que para cada árvore exista de cinco a seis ervas, muitas ainda não descobertas pela ciência. O estrato herbáceo, que é a comunidade das ervas, possui espécies temporãs, ou seja, que podem ser visualizadas apenas em uma época do ano, seca ou chuvosa. Essas plantas também apresentam diversas adaptações a falta de água e nutrientes e presença constante do fogo.

Prestonia erecta, uma erva com ocorrência restrita ao Cerrado.

Os primeiros estudos sobre as “plantinhas” do cerrado brasileiro iniciaram na década de 1980, quando começou a se vislumbrar a riqueza e o potencial desconhecido dessas espécies. Tradicionalmente sabemos que as ervas são usadas para alimentação e produção de medicamentos. Outra utilidade é na recuperação de áreas degradadas, uma vez que elas cobrem e protegem o solo, mantendo a umidade e os nutrientes, o que favorece a reconstrução da vida no solo e acima dele. Além disso, devido à variação de cores, formas e beleza, as ervas têm grande potencial para paisagismo e ornamentações em geral. Atenta a essa diversidade também está a indústria química e farmacêutica, já que muitas moléculas são utilizadas na cura de doenças e criação de bioprodutos.

Hoje, a elevada biodiversidade e a presença de espécies que só ocorrem neste local, colocam o Cerrado como um dos ambientes mais diversos e ricos do planeta. Apresentando mais de 12.000 espécies vegetais descritas, sendo que 61% só existem exclusivamente nessa vegetação, por isso é um dos hotspost (pontos quentes) para se conservar no mundo.

Cochlospermum regium, um subarbusto símbolo do cerrado sensu stricto.

Entretanto, o crescimento econômico do país provocou fortes modificações neste bioma, levando a redução de mais de 65% da cobertura original e, consequentemente, à extinção de várias plantas que nem sequer foram descobertas. Para outras espécies, o extrativismo excessivo vem ameaçando a sua sobrevivência, como é o caso do Alecrim-do-campo (Anemopaegma arvense). Seus extratos foram patenteados por grupos de pesquisadores japoneses para o uso em cosméticos, gerando demanda e superexploração dessa espécie, o que a deixou atualmente em perigo de extinção. Para enfrentar esse cenário precisamos de muitos esforços, investimentos e políticas públicas que permitam a formação de cientistas capazes de reconhecer, conservar e manejar de forma sustentável a maior riqueza do planeta: a biodiversidade.

Márcio Venícios Barbosa Xavier, Estudante de Graduação em Engenharia Florestal.UFMG. Rúbia Santos Fonseca, mestre e doutora em Botânica pela UFV. Professora de Dendrologia e Sistemática Vegetal da UFMG

Cruzamentos cognitivos permitem que a música desperte outros sentidos além da audição

Imagine você, sentado em seu sofá, ouvindo a sua banda ou seu músico preferido e, de repente, cada batida da bateria começa a parecer azul e cada acorde da guitarra começa a ter um gosto de framboesa. Difícil de imaginar, né? Não se você faz parte de cerca de 4% da população mundial que é sinesteta – indivíduo que possui condição neurológica excepcional, em que um estímulo indutor desperta, de forma involuntária e consistente, outra sensação que não foi estimulada.

Fora dessa condição neurológica que acomete uma pequena parcela da população, é normal que haja certos cruzamentos de modos cognitivos/sensoriais. “Os cruzamentos de modos sensoriais são associações que todos fazemos, geralmente de forma automática, entre uma sensação estimulada externamente e outra sensação. Na fruição musical, essas correspondências sensoriais são constantes e automáticas e, quanto mais intensa é a fruição musical, mais fortes são esses cruzamentos de modos sensoriais” explica Guilherme Bragança, doutor em neurociências pela Universidade Federal de Minas Gerias.

Tais cruzamentos ocorrem de maneira intuitiva, sem que se perceba. Um exemplo é quando se descrevem os sentimentos provocados por uma música, e em metáforas sinestésicas como “uma canção doce” ou “a voz daquele cantor me acalma, é muito suave”. Músicos, por sua vez, podem apontar que “o som de um trompete é brilhante”, ou “som do fagote é opaco”.

Parece haver um grau latente de sinestesia em todos os indivíduos (levando o nome de weak synesthesia), e é ela que auxilia a construção de associações abstratas entre diferentes campos sensoriais. Em seu trabalho de doutorado, que focou na relação entre sinestesia, estados emocionais e estruturas musicais, Bragança percebeu que houve uma convergência muito grande entre as sensações, emoções e cores, nos trechos musicais utilizados. Músicas que despertaram tranquilidade e suavidade relacionaram-se com a cor azul claro; já músicas que despertaram alegria e fluência, tenderam ao amarelo; músicas mais tristes e com sensação de pesado e escuro relacionaram-se com vermelho e azul-marinho e músicas de tensão e poder com sensações de denso e energético, tenderam ao vermelho e cores vizinhas. “O grau de convergência nos surpreendeu” afirma Bragança, pois ele imaginava que a associação entre cores e sons seria mais particular de cada indivíduo.

A emoção musicalizada

De certa forma, toda a percepção humana é multimodal. É como se cada sentido trouxesse “pistas” diferentes para aferir e validar uma sensação. Durante a gripe, é comum “perder” o paladar. Neste caso, apenas as vias nasais estão obstruídas, mas o olfato tem influência na capacidade de sentir gostos.

Em relação à música, essas relações vão além. “Devido à forte capacidade que a música tem de evocar emoções (decorrentes das expectativas e antecipações na mente do ouvinte), ela é naturalmente associada a outras formas artísticas, como a poesia (canção), a dança, o teatro e o cinema que, sem a presença da trilha sonora, seriam irreconhecíveis”, pontua José Fornari, pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Comunicação Sonora da Unicamp. O pesquisador ainda afirma que a pluralidade de sentidos e sensações envolvidos na apreciação musical é um lugar comum e que envolve esferas da percepção, cognição e emoção musical.

Diferentemente da linguagem verbal, a música é baseada em informações não-semânticas, emocionais. Talvez por isso exista a atribuição de adjetivos de outros sentidos – além da audição – para descrever uma nuance sonora. “É impossível descrever um conceito verbal através da música instrumental (ou seja, sem o auxílio da letra). Porém, esta expressa muito bem intenções, sentimentos e estados de espírito, o que faz com que a união da poesia com a música, sob a forma da canção, seja tão poderosa e popular” completa Fornari.

Da música à mesa

O conhecimento da sinestesia na música tem, inclusive, aplicações práticas – como em um restaurante onde haja um clima especial, criado por meia luz, cadeiras confortáveis e música. E existem chefs de cozinha que se interessam por esse tipo de conhecimento e o aplicam, mesmo que de forma intuitiva. “O chefe italiano Massimo Bottura se inspira muito no jazz enquanto cria seus pratos, e o inglês Heston Blumenthal já colaborou com cientistas para criar pratos multissensoriais” comenta Felipe Carvalho, pesquisador da Universidade de Leuven, na Bélgica.

Carvalho desenvolve projetos de pesquisa que tentam entender como diferentes parâmetros sonoros podem se associar a parâmetros do paladar: doce, amargo, salgado, texturas, entre outros. Para tal, ele já utilizou a degustação de chocolates e cervejas, juntamente com trilhas sonoras, para entender se estes poderiam influenciar no gosto sentido pelos participantes – e encontrou uma correlação positiva, em que as músicas afetaram a percepção dos alimentos.

Um de seus projetos, chamado The sound of chocolate (O som do chocolate) desenvolveu uma nova proposta de degustação de chocolates belgas através da música. Com esse projeto, Carvalho e outros pesquisadores queriam que as pessoas se tornassem conscientes que os sentidos interagem enquanto experimentam um alimento.

No entanto, essas experiências multissensoriais ainda não são tão comuns. “Claro que, neste momento, estamos nos referindo mais às experiências exclusivas e de difícil acesso. Mas eu acredito que, quanto mais público e robusto seja o conhecimento sobre a importância dos sentidos no cotidiano, mais as pessoas vão se interessar em ter acesso a este tipo de experiências” avalia Carvalho, que ainda completa: “também acredito que o aprimoramento da tecnologia referente à realidade aumentada e virtual, permitirá repensar a forma com que nos relacionamos com os nossos sentidos”.

Texto originalmente publicado em Revista ComCiência, disponível em: http://www.comciencia.br/cruzamentos-cognitivos-permitem-que-musica-desperte-outros-sentidos-alem-da-audicao/

Maria Letícia Bonatelli é formada em ciências biológicas (Unicamp), com mestrado e doutorado em ciências (USP). É aluna do curso de jornalismo científico do Labjor e bolsista Mídia Ciência.

Uma breve história dos Gatos

 

O gato doméstico (Felis catus) está presente em quase todos os continentes, com exceção da Antártida e regiões mais remotas. Embora atualmente eles sejam habitantes dos nossos sofás e lareiras, nas sociedades antigas aqueles que habitavam celeiros, navios e vilarejos proporcionavam grande proteção. Que tipo de proteção os bichanos conferiam? Bom, basicamente contra pragas e vermes oriundos de pequenos animais, principalmente de roedores, os quais eram responsáveis por danos às plantações e por doenças críticas.

Um estudo publicado na Nature Ecology & Evolution demonstrou que o gato doméstico é mais próximo de uma subespécie de gato selvagem africano, o Gato-da-Líbia (Felis silvestris lybica). Esses selvagens geralmente são solitários, caçadores territorialistas e não possuem estrutura social e hierárquica. Um animal com essas características dificilmente seria escolhido para a domesticação e, ao que parece, de fato os gatos não foram escolhidos por nós, eles é que “se convidaram” para serem domesticados (típico de gato não?)! O que se sabe é que esses felinos começaram a habitar plantações há milhares de anos atrás ao serem atraídos por ratos que invadiam os estoques de grãos dos humanos no Oriente Próximo.

Evidências zooarqueológicas apontam que a primeira relação entre os humanos e os bichanos foi um tipo de comensalismo que durou milhares de anos. Durante esse período, os gatos que habitavam regiões humanas mantinham cruzamentos com os selvagens. Acredita-se que essas trocas genéticas contribuíram para manter pouca diferenciação entre os dois grupos. Devido a isso, nossos ronronadores mantiveram muitas das características fisiológicas, ecológicas, morfológicas e comportamentais dos felinos selvagens.

Devidos aos benefícios de se ter gatos por perto, os fazendeiros provavelmente foram os primeiros domesticadores. Esses novos gatos mais dóceis migraram aos poucos do Oriente Próximo para Bulgaria e Romenia por volta de 6.000 anos atrás, configurando a primeira onda migratória e a chegada desses animais na Europa. Milhares de anos depois, gatos domesticados oriundos do Antigo Egito, também migraram para a Europa durante a Era Romana e suas populações se tornaram maiores que a dos gatos do Oriente Próximo. Além disso, como exterminadores de pragas, eles foram úteis nas expedições navais da época, onde, graças aos Vikings, se espalharam pelo norte da Europa.

Uma vez instalados em toda a Europa, foi só questão de tempo até que os bichanos se espalhassem pelos outros continentes com a ajuda dos humanos, passando de auxiliares exterminadores de pragas à pets que arranham sofás, quebram vidrarias e sempre nos conquistam com um olhar sem igual (vide foto).

Fonte: Ottoni, Claudio, et al. “The palaeogenetics of cat dispersal in the ancient world.” Nature Ecology & Evolution 1.7 (2017): 0139.

Matheus Lewi C. B. de campos, biólogo pela UFV – CRP, e mestrando em Zoologia pela UFMG.

A enigmática Fauna de Ediacara

Durante o período Pré-Cambriano, há 543 milhões de anos aproximadamente, nosso planeta era muito diferente. Nessa época a superfície dos continentes era totalmente desprovida de vida, mas os oceanos já exibiam uma diversidade de organismos rudimentares. As impressões fósseis que remetem à essa época mostram configurações e corpos curiosos, muito parecidos com pequenas folhas bem como formas de disco, que permaneciam fixos no solo do fundo dos mares ou suspensos na coluna d’água. Esse grupo de seres foi então nomeado de fauna vendiana ou ediacarana, em razão do local onde foram encontrados pela primeira vez: nas colinas de Ediacara, Austrália, e são considerados os primeiros exemplos de organismos multicelulares complexos a surgirem na Terra.

Desde então, fósseis de representantes da Fauna de Ediacara foram escavados em vários locais do planeta, Floresta de Charnwood na Grã-Bretanha, Mistaken Point no Canadá, Namíbia, Ucrânia, Irã, Rússia e até mesmo no Brasil. Os primeiros do tipo em nosso país, encontrados por um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual do Vale do Acaraú, foram identificados em um afloramento rochoso no município de Pacajú, noroeste do Ceará.

Esse grupo de seres ainda causa discussões no meio científico por causa de sua difícil classificação: seriam realmente animais, justificando assim o uso do termo “fauna”? Seriam vegetais, já que compartilham algumas características destes, embora tenham surgido bem antes? Ou trata-se de um grupo que desafia as classificações comuns e entra em algo totalmente novo? Os paleontólogos seguem com essa pulga atrás da orelha, já que diversas espécies que compõe a Fauna de Ediacara exibiam características comuns hoje a animais e plantas: corpo mole e macio como de águas-vivas precedendo esqueleto e fixação no solo, por exemplo. Outras espécies, por outro lado, não são parecidas com nada vivo hoje ou em tempos mais recentes, como Fractofusus misrai, parecida, vejam só, com uma série de cordas formando um casulo.

Estranha e obscura, a Fauna de Ediacara oferece possibilidades infinitas de entendimento da evolução dos primeiros organismos que ultrapassaram a unicelularidade e desenvolveram as primeiras estratégias de reprodução complexas. Infelizmente até agora os indícios são de seu desaparecimento completo antes do início do período Cambriano, com nenhuma linhagem sobrevivente nos milhões de anos que se seguiram.

Jardim Ediacarano. Fonte: eartharchives.org

Marcos Silva, biólogo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), Campus Rio Paranaíba. Mestrando em Biologia Animal na UFV, Campus Viçosa.

O primata e o cachorro, um caso antigo!

Se perguntássemos a qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, qual é o animal mais próximo do homem, certamente ouviríamos a mesma resposta: o cachorro. E não é pra menos, eles estão por toda parte: dentro da nossa própria casa, vivendo nas ruas e até mesmo trabalhando! Mas quando essa relação começou?  Foi há muitos anos, antes mesmo do homem aprender a plantar e construir cidades.
O relacionamento começou com os lobos, e era arisco e distante. Os homens os alimentavam com restos de comida, como ossos e partes não muito saborosas dos animais caçados. Mas não pense que era só porque eles tinha bom coração. De forma alguma! Eles os alimentavam porque assim os lobos ficavam próximos do acampamento, evitando que predadores se aproximassem, como ursos e grandes felinos.

Pouco a pouco essa relação foi se estreitando e aqueles lobos que eram mais dóceis e sociáveis com o ser humano, desenvolveram uma relação mais próxima. Com isso, havia cruzamento entre os lobos adotados, fazendo com que a característica de ser um animal mais dócil, fosse passada aos filhotes. Parece um pouco surreal lobos tão ferozes, sendo animais dóceis, não é mesmo? Mas basta olhar pro cachorro que temos hoje em dia, basta ver um vídeo de cachorros fofinhos na internet para confirmar essa história. E foi por meio dessa seleção que isso foi possível!

Mas como esses lobos ficaram tão diferentes como são os cães hoje em dia? Tudo graças ao advento da agricultura, criação de animais para alimento e construção de cidades, que permitiu que pouco a pouco o cão fosse sendo utilizado para diferentes funções. Foi o pontapé para o surgimento das raças, que atualmente totalizam mais de 400! Os cães passaram a ser selecionados conforme sua aptidão para determinada função, como pastorear, caçar, farejar, servir de companhia e até mesmo competir com outros cães. Mas o número de raças se manteve baixo por muitos anos, quando por volta do século XVII, os cães foram sendo cruzados com propósitos específicos, selecionando características que contribuiam com esses propósitos.

Sabe o beagle da foto ao lado? Bom, a raça dele foi criada para auxiliar na caça como farejadores, sendo o cão que possui o melhor olfato. Eles possuem uma mancha branca na ponta da cauda pra que, quando se abaixar pra farejar, essa ponta branca fique pra cima, facilitando ser vista no meio da mata. Todos os beagles a possuem, e isso só foi possível por meio do cruzamento de pais que possuiam essa mesma característica. Então, todos os beagles vivos hoje em dia descendem de um mesmo casal de beagles, que deu origem a todos os outros!

Exemplar da raça Beagle.

Isso aconteceu com todas as raças puras que temos hoje em dia, como Rotweiller, Pug, Husky e etc. Os amigos peludos tiveram sua origem a partir de um contrato de fidelidade entre lobos e homens. Sabemos que cerca de 99,9% do DNA de cães e lobos seja similar. Essa é uma pequena parte da história evolutiva dos cães domésticos que conhecemos e amamos!

 

Paralelo entre lobo e cão, uma relação ancestral.

Iuri Silva – Graduando em Ciências Biológicas na Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba.

FEEDBACK SOBRE A UTILIZAÇÃO DO FOLHA BIOLÓGICA EM ATIVIDADES ESCOLARES!

A equipe do Folha Biológica está extremamente feliz e satisfeita com o feedback recebido por duas escolas estaduais de Minas Gerais! Alunos estão utilizando o jornal para trabalhos escolares, o que faz com que o Folha Biológica consiga atingir cada vez mais o seu objetivo. E o melhor ainda: os próprios alunos que tiveram a iniciativa de nos mandar a notícia sobre utilizarem o jornal! Agradecemos a dedicação de vocês e a importância que dão ao nosso trabalho de divulgação científica, qualquer ajuda nessa missão de divulgar o conhecimento científico é sempre bem-vinda!

Alunos do 8º e 9º anos, da professora Charlene Alvarenga, na Escola Estadual Professora Izaura de Oliveira Vilela, distrito de São José do Barreiro, município de São Roque de Minas, MG.

Alunos da Escola Estadual José Maria de Morais, da cidade de Barão de Cocais, MG.

O RETORNO DOS MAMUTES

Há muito tempo na Sibéria em uma época denominada Pleistoceno, cerca de 45 mil anos, o ambiente era muito rico. Embora a temperatura variasse entre 4ºC e -30º C, os céus claros que produziam muitas horas de luz solar e chuva moderada possibilitava uma vegetação abundante composta de gramíneas, ervas e vários arbustos.

Nesse local viviam alguns animais, como por exemplo os mamutes. Eles eram bem grandes, com cerca de 3,4 metros de altura, aproximadamente 6 toneladas e possuíam uma camada grossa de pelos longos, o que os tornavam bem adaptados àquele clima frio. Porém a história desses animais teve seu fim há mais ou menos 11 mil anos atrás, quando houve a última idade do gelo. Duas versões para a extinção dos mamutes são contadas. A primeira delas é que os homens que conviviam com esses animais extinguiram grupos através da caça. Já a segunda versão é sobre a mudança climática, que fez com que a vegetação existente na época mudasse, tornando difícil a existência desses bichos.

Podemos colocar essas duas explicações juntas. Com a mudança repentina do clima, o padrão de vegetação mudou em todo o mundo, levando ao desaparecimento de vários mamíferos que se alimentavam apenas de plantas e de tipos particulares desse grupo. O que antes era predominado por clima muito frio e vegetação composta por gramíneas, ervas e arbustos, deu lugar a um clima mais quente e úmido com florestas restritas a um único tipo de vegetação. Sendo assim, a maioria desses animais morreu devido à falta de alimentação adequada e outra parte foi morta pelos humanos, tendo ao fim do processo o desaparecimento do grupo.

Mas não é o fim! Após milhares de anos alguns desses animais foram encontrados congelados e muito bem preservados contendo até pele e músculos. Nessas condições podemos encontrar o DNA dos mamutes que pode ser extraído e utilizado para fazer a clonagem e trazer esses animais de volta à vida.

                                     Mamute encontrado congelado. Fonte https://veja.abril.com.br/galeria-fotos/lyuba-a-mamute-de-40-mil-anos/. Acesso em 12 dez. 2017.

        Uma maneira de isso acontecer é por meio da colocação

do DNA dos mamutes em uma célula reprodutiva de elefante atual de forma artificial e depois implantar em uma elefanta, onde ocorrerá o desenvolvimento do animal. Porém, existem alguns fatores que podem impedir que isso aconteça.

Um empecilho está relacionado ao tamanho dos mamutes e dos elefantes. Isso porque uma elefanta não conseguiria sobreviver à gestação de um animal tão grande. Além disso, em aspectos gerais esses dois animais possuem características diferentes por não serem da mesma espécie e até mesmo por serem de tempos muito distintos.

As pesquisas ainda continuam e a busca para trazer esses animais de volta à vida não parou. Mas, mesmo que isso ocorra um dia, algumas perguntas ainda precisam ser respondidas.

Onde habitariam? Qual seria seu alimento? Conseguiriam gerar descentes férteis? Qual seria sua relação com outros animais e ambiente? E por fim, valeria a pena ressuscitar esses animais? Qual o impacto disso para a história da vida na Terra?

Comparação de tamanho entre homem, mamute e elefante africanoFonte: https://tudolevaapericia.blogspot.com.br/2012/08/gigantes-congelados.html?m=1. Acesso em 12 dez. 2017.

Sávio Cunha Costa1, Lucas Souza Cortez1, Maria Clara Silva Borges1, Laís Miyuki Iwano Oda1, Thiago da Silva Marinho1, Mariângela Torreglosa Ruiz Cintra1, Mariângela Tambellini1         

¹Departamento de Ciências Biológicas do Instituto de Ciências Exatas, Naturais e Educação (ICENE) da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Uberaba (MG), Brasil. *Correspondência para saviocunhacosta@gmail.com.

 

Volume 8- número 3

Nova descoberta sobre as onças-pardas: de solitárias à sociais

Leão-da-montanha, puma, suçuarana ou simplesmente onça-parda (Puma concolor)… Esse animal incrível desperta o interesse de inúmeros pesquisadores na busca da compreensão de seu comportamento. Estudos recentes demonstram que as onças-pardas são animais sociais e que vivem em grupos baseados principalmente no compartilhamento de comida, contrapondo o pensamento de cientistas passados, que as definiam como indivíduos solitários.

A discrição e a reciprocidade são duas características do comportamento social desses animais, destacando ainda mais a surpresa na descoberta. O estudo aconteceu no parque de Yellowstone (EUA), e foi feito por Mark Elbroch, cientista-chefe do programa de onças-pardas da Panthera, e colaboradores, os quais, em um primeiro momento, tinham o objetivo de observar a alimentação da espécie. A principal metodologia usada foi o uso de uma rede de armadilhas fotográficas com cerca de 1,5 mil km de extensão, a qual permitiu registrar momentos únicos do comportamento diário dos animais.

Mas e aí, como Elbroch chegou às suas conclusões? Os principais, e inesperados resultados, vieram através do contato e socialização entre duas onças-pardas após uma delas matar sua presa durante a caça e permitir que a companheira de grupo também se alimentasse. Além disso, as duas passaram cerca de um dia e meio juntas, e, análises genéticas realizadas recentemente demonstraram que existia um parentesco entre as mesmas. Outro ponto da sociedade é baseado na hierarquia, na qual fêmeas são mais propensas à se relacionar com os machos cujos territórios se sobrepõem com os delas, ao invés do relacionamento com machos de diferentes territórios. Os machos funcionam como governantes importantes nas relações territoriais.

Diante dessa nova descoberta, destaca-se a importância da preservação da espécie para que os estudos continuem, ampliando ainda mais o conhecimento à respeito das onças-pardas. Sendo assim, estratégias de inibição à caça e proteção destes animais devem ser feitas constantemente, vindas de todos que puderem contribuir

Rosana Mesquita- Bióloga e mestranda em Manejo e Conservação de Ecossistemas Naturais e Agrários na Universidade Federal de Viçosa – Campus Florestal.

Volume 8 – número 3

       Entendendo a modificação genética com CRISPR

Todas as células possuem DNA, sejam as células do nosso corpo, as células de plantas ou as de bactérias. Cada célula guarda informações hereditárias sobre como elas devem funcionar, o que devem produzir, e como devem se organizar. O conjunto dessas informações, cada uma escrita em genes, forma o genoma. A biotecnologia permitiu estudar de forma mais profunda esse genoma, sequenciando-o a fim de conhecer a ordem em que cada nucleotídeo (adenina, guanina, citosina e timina) aparecia ao longo da fita de DNA. Essa informação permite que agora modifiquemos os genomas de diversos organismos para obtermos produtos biológicos em prol da saúde e bem-estar humano.

Um exemplo clássico de modificação genética feita pela biotecnologia foi a produção da insulina transgênica em bactérias, para posterior comercialização para diabéticos. Essa modificação consistia em pegar a fita de DNA do organismo aceptor, no caso a bactéria, e cortá-la utilizando tesouras moleculares denominadas de enzimas de restrição. O DNA do doador, o gene para a produção de insulina da espécie humana, era então inserido na bactéria através da formação de pequenos poros em sua membrana induzidos artificialmente, e colado ao DNA aceptor através da ligase, uma enzima que atua como uma cola molecular.

Hoje é possível fazer modificações genéticas de outro modo, utilizando-se um sistema denominado CRISPR. Esse sistema foi descoberto em bactérias, e acredita-se que ele atue como um sistema de defesa nesses organismos contra genomas invasores, como os virais. Esse sistema é formado por três componentes principais: a molécula de CRISPR propriamente dito, que pode guardar em si uma molécula de DNA que serve de guia para identificar DNA invasor (ou o DNA que se pretende modificar); uma enzima denominada Cas, que é capaz de cortar o DNA com alta precisão; e o DNA de interesse.

A molécula de CRISPR guia o sistema, uma vez que ela contém a molécula de DNA dentro dela que direciona qual sequência procurar no núcleo celular. Uma vez encontrada a sequência, forma-se um complexo que deve ser capaz de ativar a nuclear Cas para que haja então a clivagem do DNA. Com esse sistema é possível trocar um DNA defeituoso por uma cópia normal desse gene, permitindo uma manipulação genética mais eficiente do que a descrita anteriormente, a técnica do DNA recombinante. Isso ocorre porque o CRISPR é um mecanismo muito mais preciso, uma vez que ele possui uma sequência guia. Desse modo, essa técnica tem recebido bastante atenção da mídia como um sistema promissor para a terapia gênica, edição de embriões e melhoramento genético.

Palloma Porto Almeida- graduanda em Biotecnologia pela Universidade Federal da Bahia

Volume 8 – número 3

Vinhos da Caatinga

      Até o início dos anos 2000 acreditava-se que produzir uvas viníferas em ambientes secos e quentes era impossível. No entanto, recentemente em Portugal iniciou-se a produção dessas uvas na região sul, a qual possui clima semelhante ao semiárido brasileiro. Atualmente essa região é responsável pela produção de 50% dos vinhos portugueses. A Caatinga brasileira possui índices de pluviosidade muito baixos, cerca de 1100 mm/ano, sendo que em alguns meses esses índices são praticamente nulos. Este fator durante muitos anos foi considerado limitante para agropecuária do local, mas quando houve a transposição do Rio São Francisco, a produção de alimentos da indústria primária foi facilitada. Com isso, a produção de uvas viníferas surgiu na Caatinga, mais especificamente no Vale do Rio São Francisco.

A região conta com mais de 300 dias de sol por ano, facilitando o ciclo da videira, que ao invés de gerar uma safra, como no sul do país, gera até três safras anuais. Desta forma a região se tornou atualmente um grande polo exportador de vinhos de qualidade. O ciclo de vida da videira em vinícolas usuais se constitui em 8 etapas:

        – O “choro”: a planta é podada geralmente no início da primavera, para que assim perda sua seiva e renove os nutrientes perdidos no inverno;

        – Germinação: primeiras folhas brotando entre 20-30 dias após o “choro”;

        – Vegetação: crescimento vegetativo da planta;

        – Floração: início da floração se dá normalmente 8 semanas após a germinação, sendo esta etapa altamente influenciada pela temperatura e quantidade de luz disponível;

        – Formação das frutas: início da frutificação;

        – “Pintura”: A mudança da cor da casca da uva, aumentando a quantidade de açúcar e ácido tartárico, diminuindo o ácido málico e hidrolisando os taninos;

        – Maturação: a maturação ideal ocorreria geralmente no final do verão, no entanto, este fator depende das condições climáticas e é essencial para a qualidade do vinho;

        – Queda das folhas e descanso no inverno: período de descanso das videiras após a colheita, essencial na eliminação de insetos e parasitas, facilitada pelo frio.

        Na região do Vale do São Francisco o período de floração das videiras é antecipado pela quantidade de luz solar, e o período de descanso é simulado pelos funcionários através de choque hídrico. A produção é dividida em lotes, enquanto em um as uvas estão maturando, no outro estão germinando, ambos controlados pela água. A ausência de irrigação concentra ainda mais os compostos para um bom vinho, ou seja, os melhores vinhos vêm de plantas “mais sofridas”. Esta peculiaridade torna a região a única do mundo a produzir até 3 safras de uvas no ano, além da excelência em seus vinhos.

Igor Musauer Kessous – Pós-graduando em Botânica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro