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set 09

O Brasil no Ano Internacional da Biodiversidade.

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Rubens Pazza.

A biodiversidade é caracterizada como a diversidade biológica em pelo menos três níveis hierárquicos: diversidade genética, diversidade de espécies e diversidade de ecossistemas. O tema da conservação da biodiversidade tem sido amplamente difundido nos últimos anos, especialmente quando se trata de assuntos econômicos. Afinal de contas, inúmeros fármacos, cosméticos e variedades cultivadas na agricultura são obtidos através do uso de nossa biodiversidade. Entretanto, a necessidade da conservação da biodiversidade vai muito além de questões econômicas. Toda uma cadeia ecológica depende da relação entre as espécies de um determinado ecossistema, onde a perda de uma única peça pode ser altamente prejudicial, alterando as inter-relações e desequilibrando o mesmo. Durante a Eco-92, uma grande convenção internacional sobre meio ambiente realizada no Brasil em 1992, 175 países assinaram um tratado chamado de Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB). Este documento propõe regras para a conservação da biodiversidade, bem como de seu uso sustentável e a repartição justa dos benefícios provenientes do uso econômico dos recursos. Periodicamente, os países signatários deste tratado se reúnem em convenções. Este ano, em outubro, acontecerá a COP-10 (Conferência das Partes, 2010), em Nagoya, no Japão. Nestes encontros, discute-se o que os países têm feito para cumprir sua parte no tratado e quais as medidas e metas que devem ser adotadas a seguir.

O Brasil é signatário deste tratado, tendo legislação apropriada e regulamentada pelo Decreto Nº 2.519 de 16 de março de 1998. Em vistas ao encontro em Nagoya, a Câmara dos Deputados realizou alguns eventos para levantar as ações realizadas pelo governo brasileiro e suas propostas, bem como as propostas da sociedade civil sobre o tema.  Nos dias 13 e 14 de Julho, por exemplo, aconteceu o seminário intitulado “Ano Internacional da Biodiversidade – Quais os Desafios para o Brasil?”. Neste seminário foram discutidos temas como as iniciativas para conservação dos Recifes de Corais no Brasil, como o Brasil está enfrentando os problemas das espécies invasoras, os riscos e impactos à biodiversidade dos empreendimentos de infraestrutura, o turismo e a biodiversidade, o estado de conservação dos principais biomas brasileiros, o impacto das mudanças climáticas sobre a biodiversidade, os instrumentos de prestígio internacional (Reserva da Biosfera, Sítios do Patrimônio da Humanidade e outros) e a Avaliação Ecossistêmica do Milênio e o conhecimento da biodiversidade.

A UFV participou do seminário.

A Universidade Federal de Viçosa foi convidada para apresentar um painel durante o evento. Nesta oportunidade, fui convidado a discutir o tema “Avaliação Ecossistêmica do Milênio e o Conhecimento da Biodiversidade”. A Avaliação Ecossistêmica do Milênio foi um grande projeto internacional que tinha como objetivo mapear a saúde dos principais ecossistemas do mundo em relação à oferta de serviços ambientais, como a produção de alimento, a qualidade e disponibilidade de água, de estoques pesqueiros, a informação genética utilizada na biotecnologia, etc. O Brasil também participou deste esforço internacional, embora de maneira tímida, avaliando apenas a região do cinturão verde de São Paulo.  No relatório é possível observar dados alarmantes. Cerca de 60% dos ecossistemas do planeta são explorados de modo não sustentável; pelo menos ¼ dos estoques comerciais importantes de peixes são superexplorados; a utilização da água doce duplicou desde 1960 e é insustentável; cerca de 70% da água doce é utilizada na agricultura; a taxa de extinção de espécies aumentou cerca de 1000 vezes nos últimos séculos; de 10 a 30% das espécies de aves, mamíferos e anfíbios estão ameaçadas. Um dos grandes desafios da utilização sustentável dos serviços ambientais é que há uma relação direta entre eles, ou seja, a utilização de um deles gera impacto em outro. Em termos econômicos, embora seja difícil atribuir um valor a um serviço ambiental ou à biodiversidade, temos alguns indícios do prejuízo gerado quando algo falha. Por exemplo, no Canadá dos anos 90, em decorrência da superexploração, os estoques de bacalhau caíram drasticamente. Isto obrigou o investimento de cerca de 2 bilhões de dólares em seguro desemprego e treinamento para recolocação de trabalhadores. Em relação ao conhecimento da biodiversidade, alertei para a biodiversidade escondida, que conseguimos tomar conhecimento através dos estudos genéticos, mas este é um tema para uma próxima edição.

Todas as apresentações podem ser vistas no site da Câmara dos Deputados – www.camara.gov.br. A participação do Brasil no encontro em Nagoya é fundamental, pois os países megadiversos, como o nosso, devem tomar a dianteira nas discussões sobre a conservação e utilização sustentável da biodiversidade.

 

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e Doutor em Genética e Evolução. É professor do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.


 

Como citar esse documento:

Pazza, R. (2010). O Brasil no Ano Internacional da Biodiversidade. Folha Biológica 1 (2): 2.

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