Volume 8 – número 3

Vinhos da Caatinga

      Até o início dos anos 2000 acreditava-se que produzir uvas viníferas em ambientes secos e quentes era impossível. No entanto, recentemente em Portugal iniciou-se a produção dessas uvas na região sul, a qual possui clima semelhante ao semiárido brasileiro. Atualmente essa região é responsável pela produção de 50% dos vinhos portugueses. A Caatinga brasileira possui índices de pluviosidade muito baixos, cerca de 1100 mm/ano, sendo que em alguns meses esses índices são praticamente nulos. Este fator durante muitos anos foi considerado limitante para agropecuária do local, mas quando houve a transposição do Rio São Francisco, a produção de alimentos da indústria primária foi facilitada. Com isso, a produção de uvas viníferas surgiu na Caatinga, mais especificamente no Vale do Rio São Francisco.

A região conta com mais de 300 dias de sol por ano, facilitando o ciclo da videira, que ao invés de gerar uma safra, como no sul do país, gera até três safras anuais. Desta forma a região se tornou atualmente um grande polo exportador de vinhos de qualidade. O ciclo de vida da videira em vinícolas usuais se constitui em 8 etapas:

        – O “choro”: a planta é podada geralmente no início da primavera, para que assim perda sua seiva e renove os nutrientes perdidos no inverno;

        – Germinação: primeiras folhas brotando entre 20-30 dias após o “choro”;

        – Vegetação: crescimento vegetativo da planta;

        – Floração: início da floração se dá normalmente 8 semanas após a germinação, sendo esta etapa altamente influenciada pela temperatura e quantidade de luz disponível;

        – Formação das frutas: início da frutificação;

        – “Pintura”: A mudança da cor da casca da uva, aumentando a quantidade de açúcar e ácido tartárico, diminuindo o ácido málico e hidrolisando os taninos;

        – Maturação: a maturação ideal ocorreria geralmente no final do verão, no entanto, este fator depende das condições climáticas e é essencial para a qualidade do vinho;

        – Queda das folhas e descanso no inverno: período de descanso das videiras após a colheita, essencial na eliminação de insetos e parasitas, facilitada pelo frio.

        Na região do Vale do São Francisco o período de floração das videiras é antecipado pela quantidade de luz solar, e o período de descanso é simulado pelos funcionários através de choque hídrico. A produção é dividida em lotes, enquanto em um as uvas estão maturando, no outro estão germinando, ambos controlados pela água. A ausência de irrigação concentra ainda mais os compostos para um bom vinho, ou seja, os melhores vinhos vêm de plantas “mais sofridas”. Esta peculiaridade torna a região a única do mundo a produzir até 3 safras de uvas no ano, além da excelência em seus vinhos.

Igor Musauer Kessous – Pós-graduando em Botânica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

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