Uma espécie nova na panela

Rubens Pazza

Vez por outra você lê nos jornais, revistas e websites que cientistas descobriram uma nova espécie disso ou daquilo, não lê? Saiba que o que é publicado no jornal não passa da ponta de um “iceberg”, pois nosso desconhecimento sobre a biodiversidade ainda é muito grande. Mas o que afinal significa dizer que os cientistas descobriram uma nova espécie? Será que eles se embrenharam na Mata Amazônica e de repente toparam com uma planta nova, um animal novo?

Nem sempre que se fala da descoberta de uma nova espécie é porque ela era totalmente desconhecida. Muitas vezes você já havia até topado com ela, mas não imaginava que era algo diferente. Embora a metodologia possa variar um pouco dependendo com que organismo estamos lidando, o exemplo que vou utilizar, com peixes, reflete bem o modo como tudo acontece até virar notícia. No ano passado, um dos gigantes portais da web nacional publicou uma notícia sobre a descoberta de uma nova espécie de peixe de água doce, um cascudo da família dos loricariídeos encontrado em um afluente do Amazonas na Colômbia. Será que a descoberta de novas espécies de peixes são furo de reportagem ou a agência de notícias estava sem notícias para divulgar?

Se for o primeiro caso, eles estão perdendo muita notícia, pois revistas especializadas publicam novas espécies de peixes em todos os números. Por exemplo, a revista Neotropical Ichthyology, publicada pela Sociedade Brasileira de Ictiologia, publicou no ano de 2008 nada menos que 44 novas espécies de peixes e no ano de 2009 foram mais 21. Ou seja, uma única revista especializada publicou cerca de 65 novas espécies de peixes apenas dos últimos dois anos. E esta não é nem a única revista do Brasil a publicar novas espécies de peixes todos os meses. Peixes representam a metade de todos os vertebrados da Terra. Somando todos os mamíferos, aves, répteis e anfíbios temos cerca de 24 mil espécies descritas, o que é aproximadamente o mesmo número de espécies descritas para peixes. Apenas no Brasil são cerca de cinco mil espécies em água doce. Entre o que muitos chamam popularmente de cascudos, os peixes que apresentam o corpo revestido por placas dérmicas que parece uma carapaça, existem cerca de 600 espécies. Assim, é muito provável que o cascudo que se pesca no Rio Grande do Sul não seja a mesma espécie que se pesca em Minas Gerais, por exemplo, e dificilmente será a mesma pescada na Amazônia. Com o aumento nos estudos deste grupo a cada dia, novas espécies podem ser identificadas e caracterizadas.

A caracterização de um peixe como uma espécie diferente, nova, se baseia num minucioso estudo de várias características morfológicas externas e internas, comparando-se com exemplares já descritos e mantidos em museus de zoologia do Brasil e do mundo. Para se ter uma ideia, muitas espécies de peixes foram coletadas no Brasil por Darwin e outros naturalistas, descritas por pesquisadores ingleses e atualmente se encontram no Museu de Londres. Quando precisamos saber se um determinado peixe que coletamos é a mesma espécie já descrita, precisamos recorrer a estas amostras nos museus para comparação. Se o que tivermos em mãos for diferente do que está descrito na literatura especializada e depositada no museu, temos uma espécie nova. O próximo passo é descrever detalhadamente todas as características que a diferem das demais espécies, publicar os resultados em uma revista especializada, e depositar os exemplares “tipo” em um museu. A característica de nossas bacias hidrográficas é propícia para processos de especiação, o que faz com que o avanço dos estudos, estimulados pela crescente conscientização acerca da importância da biodiversidade, leve à descrição de cada vez mais espécies novas.

Em alguns casos, no entanto, é possível que as pessoas já a “conheçam” e já a pesquem, pensando se tratar de uma espécie comum no Brasil inteiro até aos olhos dos mais experientes pescadores, quando na verdade se trata de uma espécie nova. Estima-se, inclusive, que muitas espécies de peixes ainda serão extintas antes mesmo que a conheçamos. Conhecer a biodiversidade é muito importante. É a única maneira de planejarmos sua conservação de modo consciente. Por isso, os estudos que levam à descrição de novas espécies são cruciais para processos como a exploração comercial e também para a elaboração de projetos de repovoamento.

Da próxima vez que for pescar, tente imaginar se o peixe que vai para sua panela é o mesmo que está lá no museu. Será que não está levando para a panela uma espécie nova, desconhecida da ciência? Isto sim é consumo consciente!

 

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e Doutor em Genética e Evolução. É docente do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.


 

Como citar esse documento:

Pazza, R. (2010). Uma Espécie nova na Panela. Folha Biológica 1 (1): 2.