Tosse, chiado e falta de ar?

Tatiana Frehner Kavalco

A asma é uma doença pulmonar muito comum, sendo de maior impacto em populações afrodescendentes e latinas que vivem nos grandes centros urbanos. Sua prevalência vem aumentando em algumas regiões do mundo, devido principalmente às mudanças climáticas e ambientais pelas quais o planeta passa.

A asma ocorre em pessoas de todas as idades, mas é predominante nos primeiros anos de vida (aproximadamente metade dos casos surge antes dos 10 anos). Na infância ocorre mais nos meninos e em torno dos 30 anos a proporção é equilibrada entre homens e mulheres. É uma doença inflamatória crônica das vias respiratórias, ou seja, é causada por um estado de inflamação persistente mesmo quando na fase sem sintomas. A asma é marcada pelo engrossamento da parede das vias respiratórias, causado pela contração do músculo dos brônquios (broncoconstrição). Juntamente com a diminuição do diâmetro das vias respiratórias, ocorre uma grande resposta imunológica, gerando edema local (inchaço) e produção de muco espesso.

Os estímulos mais comuns que desencadeiam uma crise de asma são agentes alérgicos (às vezes relacionados com estações do ano – pois o regime hídrico e temperatura mudam a umidade e constituição do ar), a poluição do ar e do meio ambiente, fatores relacionados ao trabalho, infecções respiratórias, estresse emocional e exercício (geralmente as crises começam depois do esforço e não durante o exercício).

Exemplos de agentes alérgicos são: pólen; penas, pelos, poeiras, soros e secreções de animais e insetos; ácaros do mofo; poeiras de vegetais (como carvalho, cereais, farinha, mamona, grãos de café verdes); compostos farmacêuticos (como antibióticos); enzimas biológicas (como detergentes de lavanderia e enzimas pancreáticas); sais metálicos; compostos químicos e plásticos industriais; vírus respiratórios; fumaça; cheiros fortes; alterações climáticas e ingestão de alguns alimentos.

Clinicamente a asma caracteriza-se por períodos assintomáticos e de crises de falta de ar ou desconforto respiratório (dispnéia), tosse geralmente sem secreção e chiado no peito (sibilância). Tipicamente, as crises são de curta duração (minutos a poucas horas), mas pode haver casos de crises mais freqüentes e duradouras, com algum grau de fechamento (obstrução) das vias respiratórias. Ainda há casos graves com obstrução acentuada por dias ou semanas, que é o “estado de mal asmático”. Pode levar à insuficiência respiratória e raramente leva à morte.

No início da crise a pessoa refere um aperto no peito, seguido da tosse seca; a respiração torna-se rude e bem fácil de ouvir; o chiado é marcante tanto para inspirar (puxar o ar) quanto para expirar (soltar o ar); a expiração é mais prolongada; a respiração e o batimento do coração aceleram; a pressão arterial pode aumentar um pouco e o tamanho do tórax aumenta. Se a crise for grave ou prolongada o som da respiração pode desaparecer e o chiado ficar mais agudo. Os músculos parecem ficar mais visíveis e a função pulmonar fica muito mais comprometida.

O término da crise asmática geralmente é marcado por tosse produtiva com eliminação do muco espesso que às vezes assume forma tubular. Nos casos extremos o chiado pode diminuir ou desaparecer e a tosse não conseguir eliminar o muco.

 

 

Tosse, chiado e falta de ar

 

 

O resultado final dessas alterações na função pulmonar é o aumento da resistência para respirar, diminuição das quantidades de ar respirado (principalmente o expirado/eliminado de maneira forçada), grande distensão dos pulmões e do tórax, aumento do trabalho respiratório ou da força que se faz para respirar, alteração no funcionamento dos músculos usados para respirar, e a alteração na quantidade/concentração dos gases no sangue (desfavorecendo a nutrição do corpo). Em pessoas com asma grave geralmente há indícios de alterações cardíacas e vasculares associadas.

Os sintomas da asma podem ser aliviados espontaneamente ou com tratamento, dependendo do grau de severidade. O tratamento é baseado no uso de medicamentos que revertem o processo inflamatório e que inibem a broncoconstrição, e na eliminação do(s) agente(s)/estímulo(s) do ambiente (medida mais eficaz).

Como tantas outras enfermidades, a asma depende mais do controle que podemos fazer do ambiente em que vivemos do que do uso de fármacos. A manutenção da qualidade do ar é fundamental para pessoas que apresentam hipersensibilidade possam manter a sua qualidade de vida.

 

Tatiana Frehner Kavalco é fisioterapeuta (UNIOESTE) e médica (UFPel) e faz residência médica (UFSM).

 


 

Como citar esse documento:

Kavalco, T.F. (2010). Tosse, chiado e falta de ar. Folha biológica 1 (4): 3

Para onde vai o seu lixo?

Janaína Pazza.

 

Você já se deu conta da quantidade de lixo que produz todos os dias na sua casa e no trabalho?

E para onde vai todo esse lixo? Muita gente pensa que a responsabilidade acaba no momento em que se deixam as sacolinhas na lixeira em frente de casa, que serão recolhidas pelo caminhão da prefeitura. “Pronto! Fiz minha parte”. Mas o que não é devidamente separado, infelizmente vai parar no aterro sanitário do seu município, que deveria comportar somente o lixo orgânico.

O meio ambiente ainda sofre com a falta de consciência da população que, apesar de tanto ouvir falar e comentar o assunto, insiste em fazer de conta que está alheio a isso. É muito bonito dizer “eu faço a minha parte”. Mas será que está fazendo mesmo? Você diminuiu o tempo no banho? Escova os dentes com a torneira fechada? Foi a pé ao mercado ou ao trabalho? Deixou de imprimir papéis desnecessários? Você separa seu lixo corretamente?

Se você respondeu não na maioria destas perguntas, então você não pode dizer que está fazendo a sua parte. Enquanto você está cantando no chuveiro, muita gente não tem água para cozinhar.

Dados da ONU de 2006 revelam que até 2050 mais de 45% da população mundial não terá acesso à água potável. O Brasil é o país mais rico em quantidade de água disponível para consumo e se as previsões se confirmarem, nos próximos anos a guerra entre nações não será mais pelo petróleo e sim pela água e nós seremos o alvo.

Recicláveis

Todos os resíduos produzidos diariamente têm um destino, muitas vezes, incorreto. O ideal é que em casa se utilize pelo menos duas lixeiras: uma para os orgânicos e outra para o material que pode ser reciclado, lembrando que para as pessoas que moram em casas, até mesmo o lixo orgânico pode ser reaproveitado, através da compostagem. Já as embalagens descartáveis devem ser juntadas separadamente e de preferência limpas.

Em Cascavel, no Paraná, muitas pessoas tiram sua renda mensal com o recolhimento de material reciclável. A Cootacar – Cooperativa dos catadores de material reciclável – recolhe cerca de 80 toneladas de material por mês, o que é pouco, comparado à quantidade de lixo produzido pela cidade.

Aterro Sanitário Municipal

Localizado na zona rural do município, em Espigão Alto, o aterro sanitário recebe cerca de 240 toneladas de lixo por dia, o qual é disposto em trincheiras, compactado e coberto todos os dias, conforme a legislação ambiental recomenda. O aterro foi preparado com uma lona de gel membrana de polietileno de alta densidade, recomendada pelo IAP (Instituto Ambiental do Paraná) para impermeabilização, além do sistema de drenagem e reaproveitamento de gases.

Biogás

O aterro sanitário possui um gerador de energia através do gás metano (biogás), produzido pelos resíduos. O gás é canalizado e alimenta o gerador, transformando em energia elétrica.

A Prefeitura Municipal de Cascavel investiu em um gerador maior, para ampliar a produção de energia a partir do biogás, com capacidade de produzir quatro vezes mais que o antigo. De acordo com o engenheiro químico que idealizou o projeto e diretor da Secretaria de Meio Ambiente, Elmo Rowe Junior, antes se produzia 36 Kw/h, já o novo consegue processar 172 Kw/h. “O novo equipamento tem capacidade de atender 60 residências simultaneamente. Cascavel é o único Município do Estado do Paraná que produz energia de biogás a partir do seu aterro sanitário”, explica o engenheiro.

Com os dois geradores, a prefeitura pretende vender a energia excedente para a Copel.  Segundo o prefeito Edgar Bueno, isso é inédito no Paraná. Cascavel está sendo exemplo a vários municípios do Brasil, pois além de produzir energia, o gerador não polui o meio ambiente.

Se na sua cidade nada é feito a respeito do lixo, comece a cobrar das autoridades. Afinal, preservar o meio ambiente também pode ser lucrativo!

Janaína Pazza é jornalista.

 


Como citar esse documento:

Pazza, J. (2010). Para onde vai o seu lixo? Folha biológica 1 (4): 2

Bronzeamento e Saúde

Karine Frehner Kavalco

 

A “geração saúde” de alguns anos atrás era caracterizada por um corpo malhado e pele dourada. Depois de anos de cultura ao sol e às peles bronzeadas, foi apenas na década de 80 que as pesquisas mostraram o perigo da exposição irrestrita ao sol.

O bronzeamento ou escurecimento da pele é causado pelo aumento de melanina (um pigmento castanho) dentro das células da pele, no período logo após a exposição à radiação solar. A melanina é produzida e liberada por células chamadas melanócitos, e atua na proteção da pele. Ela impede o corpo de absorver radiação solar em excesso, o que pode ser prejudicial. Dependendo de sua etnia e constituição genética, algumas pessoas podem adquirir um bronzeado muito maior e mais rapidamente que outras. Embora atue na proteção da pele, a melanina não tem o poder de bloquear a incidência de radiação solar, e mesmo pessoas mais morenas podem ter queimaduras de pele devidas à exposição em excesso.

A radiação emitida pelo sol pode ser dividida em função de suas frequências de onda. A radiação ultravioleta (UV) é a radiação eletromagnética ou os raios ultravioleta com um comprimento de onda menor que a da luz visível e maior que a dos raios X, de 380 a 1 nm (nanômetros). O nome significa “mais alta que violeta”, pois o violeta é a cor com comprimento de onda mais curto e com maior frequência dentre todas as cores da luz visível. Mesmo em dias nublados de verão, a incidência de raios UV é alta, pois eles atravessam as nuvens.

Responsável pelo bronzeamento, a radiação UV é frequentemente subdividida nas faixas UVA (comprimento de onda de 315 a 400 nm) e UVB (comprimento de onda de 280 a 315 nm). As ondas UVB têm maior energia que as ondas UVA e são, consequentemente, mais danosas e mutagênicas (causadoras de mutações no DNA). Os raios UV são absorvidos pelas bases do DNA (purinas e pirimidinas), prejudicando o ajuste da dupla fita e os processos de multiplicação celular. A multiplicação celular descontrolada gera o que chamamos de câncer.

Embora nossas células tenham mecanismos próprios de reparo do DNA, as mutações frequentemente levam ao surgimento de cânceres de pele (melanomas, carcinomas e sarcomas). Não apenas os cânceres estão associados à exposição solar exagerada e à influência de radiação UV, mas também o envelhecimento acelerado e as queimaduras de pele (não é o ar aquecido pelo sol que a queima).

Em casos extremos, pessoas com predisposição genética (deficiência no reparo pós-mutacional de DNA) podem desenvolver um quadro grave de uma doença conhecida por “Xeroderma pigmentoso”. Devido a essa deficiência no mecanismo de reparo do DNA os pacientes apresentam elevada fotossensibilidade e desenvolvem precocemente lesões degenerativas na pele, tais como sardas, manchas, e diversos cânceres da pele. Aspecto ressecado e extremamente manchado na pele, adquirido normalmente depois de muitos anos de exposição ao sol, se desenvolve em crianças com esta alteração. No xeroderma pigmentoso a precaução mais importante é proteger-se da exposição à radiação ultravioleta. Pessoas com esta doença devem evitar atividades externas durante o dia, utilizar barreiras de proteção como roupas especiais, bloqueador solar, óculos escuros e chapéu.

Felizmente não é preciso tomar medidas extremas na maioria dos casos, e praticamente todas as pessoas podem usufruir dos benefícios da vida ao ar livre. Justamente por isso é que o uso de um protetor solar (que bloqueie UVA e UVB) torna-se obrigatório no dia-a-dia, faça chuva ou faça sol!

Karine Frehner Kavalco é bióloga, mestre em Genética e Evolução e doutora em Genética. É professora do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Genética e Evolução.

 


 

Como citar esse documento:

Kavalco, K.F. (2010). Bronzeamento e saúde. Folha biológica 1 (4): 4

Zoologia, o estudo da fauna

Ana Lúcia Miranda Tourinho

A zoologia é uma área científica multidisciplinar. De um modo geral, pode ser definida como a ciência que estuda os representantes do reino animal em todos os seus aspectos.

O fascínio dos homens pelos animais atravessa a história, remontando um passado onde pinturas destes, muitos hoje extintos, eram feitas no interior de cavernas. Diversos povos de importância histórica como os egípcios e celtas possuíam tamanho deslumbramento pelos animais que estes eram representados em seus deuses, reverenciados e profundamente admirados.

Apesar desse interesse, foi com o trabalho do grego Aristóteles, “História dos animais”, que a zoologia passou a ser de fato ciência. Ele reuniu todos os fatos zoológicos conhecidos até então, e lançou um sistema de classificação para todos os animais.

Algumas obras importantes sucederam a publicação de Aristóteles, destacando-se Carl Linnaeus que criou o sistema nominal adotando dois nomes em latim (gênero e espécie) que é usado até os dias de hoje.

Entretanto, o grande marco revolucionário na zoologia aconteceu com o desenvolvimento da Teoria da Evolução das Espécies, proposta por Charles Darwin, mudando a atitude expoente do método científico utilizado na classificação dos animais.

A partir de 1950, com a proposição da Sistemática Filogenética por Willi Henning, a classificação passou então a uma teoria consistente de investigação e representação das relações de parentesco entre as espécies.

Pode-se dizer que a zoologia tem como objetivos principais descrever e explicar a diversidade faunística, identificar, avaliar e estudar os ajustes adaptativos das espécies ao meio, ou ecossistemas específicos, além de ocupar-se da história natural dos animais, sua evolução e filogenia. Diversos ramos da ciência são utilizados como base e sustentáculo para os estudos zoológicos.

 

 

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Por exemplo, a anatomia e morfologia consistem basicamente na observação e descrição das estruturas presentes no corpo dos animais, e estudo das organizações estruturais dos organismos. Não se ocupam apenas em descrever, mas também propõem comparações entre organizações estruturais. A Sistemática, Taxonomia e Filogenia estão no domínio da classificação biológica.

A sistemática pode ser definida como o estudo dos tipos e da diversidade da vida na Terra. É um campo de estudo contínuo que vai desde a rotineira atividade de nomear e descrever espécies, passando pela extensa compilação de compêndios faunísticos, até os mais sofisticados estudos dessas espécies  em classificações que descrevem suas relações de parentesco, análises biogeográficas, biologia de populações e genética, estudos evolutivos e de especiação.

A taxonomia envolve descrições de espécies e atribuições de nomes, é profundamente necessária quando um grupo de animais é recém descoberto e/ou está pobremente conhecido. A filogenia trabalha com os estudos evolutivos em si.

Outra área de trabalho para um zoólogo é a zoogeografia, que consiste na biogeografia animal. Biogeografia é uma ciência histórica, estuda os padrões de distribuição geográfica dos seres vivos, cruzando a história da Terra ao longo do tempo com a história morfológica dos seres vi- vos. Isso significa entender como as modificações morfológicas, e suas causas, são refletidas geograficamente.

Conhecer e compreender os mecanismos que governam a vida animal é de suma importância, pois o homem também está sob a regência dos mesmos mecanismos.

Todos os problemas que a humanidade vem  enfrentando ao longo da transição do século XX para o século XXI são biológicos, e estão intimamente relacionados com a zoologia. Esses problemas não poderão ser solucionados sem que conheçamos adequadamente a vida animal no planeta.

Ana Lucia Miranda Tourinho é bióloga, Mestre em Zoologia e Doutora em Ecologia. É pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA e atua na área de biologia de Aracnídeos.

 


Como citar esse documento:

Tourinho, A.L.M. (2010). Zoologia, o estudo da fauna. Folha biológica 1 (4): 1

Genética Ecológica – uma ferramenta para o estudo da biodiversidade

Rubens Pazza

 

Embora pareça novidade, a Genética Ecológica não é uma área nova. Na realidade, suas primeiras impressões vieram dos trabalhos de Darwin e Wallace, que primeiro relacionaram a Genética (variação) com a Ecologia (luta pela sobrevivência). Em termos simples, a Genética Ecológica é uma ciência que trabalha com a análise das variações genéticas inter e intrapopulacionais, que em última instância leva à adaptação e especiação. Assim, diferentes metodologias que avaliem a variabilidade de populações, espécies ou mesmo indivíduos podem ser utilizados como ferramenta para a Genética Ecológica. Mais recentemente, com o advento da biologia molecular, novas ferramentas permitiram a observação de variação em níveis cada vez mais refinados. Não apenas os avanços técnicos, mas também os avanços teóricos foram importantes para a consolidação desta área de estudo, como a teoria de metapopulações e as análises filogenéticas, por exemplo.

Uma das áreas de estudo da genética ecológica envolve a resolução dos problemas taxonômicos. Mas por que motivo os problemas taxonômicos seriam problemas ecológicos? Em primeiro lugar, um naturalista deve se preocupar em saber com que espécie está lidando, pois isso é imprescindível para a avaliação dos seus resultados. Quando um pesquisador afirma que determinada espécie de peixes apresenta desova total na época chuvosa, ele precisou avaliar vários exemplares da mesma espécie em diferentes épocas do ano para chegar a esta conclusão. Toda a sua hipótese depende da correta identificação dos exemplares observados. Entretanto, existem dois grandes problemas associados à identificação de espécies. O primeiro deles é em relação ao conceito de espécie em si. O que realmente é uma espécie? O “conceito biológico” de Mayr-Dobzhansky pode ser útil para muitos organismos, mas não para todos nem para todas as situações.  Em segundo lugar, existem muitos grupos de organismos onde a identificação taxonômica ao nível de espécie é extremamente complicada do ponto de vista morfológico. Para tentar resolver o segundo caso, metodologias mais refinadas como a de marcadores genéticos (citogenética, marcado- res moleculares, sequenciamento de trechos de DNA nuclear e mitocondrial), por exemplo, podem ser úteis. Mais recentemente, a utilização de um pequeno trecho do gene da citocromo oxidase I do DNA mitocondrial (COI) tem apontado para novos rumos na identificação de espécies por meios moleculares. É o chamado código de barras de DNA (DNA barcoding), que pressupõe que a variação encontrada nesta região do genoma mitocondrial é suficiente para identificar espécies distintas.

Os estudos ecológicos ganharam um importante aliado na identificação de espécies por meio de marcadores genéticos. Além das questões ecológicas clássicas, das inter-relações entre populações e espécies em um ecossistema, esta ferramenta também é bastante útil em questões mais aplicadas, como a identificação de espécies quando a morfologia está descaracterizada. Um exemplo interessante é o reconhecimento e a certificação de madeiras como pertencentes a espécies não ameaçadas, evitando ou coibindo crimes ambientais. O mesmo vale para carnes processadas, seja para evitar o uso indevido de espécies ameaçadas, ou mesmo para garantir que o atum enlatado é realmente atum, e não bonito, um peixe da mesma família e de carne semelhante, mas com menor valor de mercado ou ainda, para literalmente, não levar gato por lebre!

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e Doutor em Genética e Evolução. É professor do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.


Como citar esse documento:

Pazza, R. (2010). Genética Ecológica – uma ferramenta para o estudo da biodiversidade. Folha biológica 1 (3): 4

 

Boa para o produtor, melhor ainda para o consumidor

 Sydney Antonio Frehner Kavalco.

 

A aveia branca (Avena sativa L.) é uma das espécies mais antigas cultivadas pelo homem e seus grãos são utilizados para alimentação humana e animal, apresentando um balanceamento de aminoácidos, vitaminas, minerais e carboidratos de alta qualidade. É uma planta exótica, de origem européia, introduzida no Rio Grande do Sul e disseminada para os outros Estados da região sul, sudeste e centro oeste do Brasil. É possível cultivá-la em uma grande variedade de solos, mas é preferível que seja em solos argilosos, sem acúmulo de água. Solos arenosos sem Potássio limitam seu cultivo, pois a Aveia Branca é menos resistente a doenças como a ferrugem da folha e do colmo se comparada a Aveia Preta. É capaz de suportar baixas temperaturas e por apresentar baixa tolerância à umidade é mais bem adaptada a regiões de altas altitudes. Seu plantio deve ser realizado de março a junho. O preparo do solo pode ser de forma convencional ou em plantio direto. Gradativamente ela vem ocupando espaço como pasto de inverno, feno, ensilado, como adubo verde e como cobertura morta no plantio direto, além de sua palhada exercer efeito alelopático sobre a geminação de sementes de capim-marmelada.

A aveia é um cereal altamente nutritivo, considerada um alimento funcional, pois além de ser fonte de carboidratos, vitaminas e minerais, é rica em fibras. Uma das mais importantes é uma fibra solúvel chamada de beta-glucana, responsável por parte das vantagens nutricionais proporcionadas pelo consumo da aveia, como o bom funcionamento intestinal, a diminuição do colesterol total e do LDL, e também no controle da pressão arterial e da glicemia. Para os que desejam emagrecer, a aveia também é um excelente alimento para saciedade, pois retarda o esvaziamento gástrico, controlando melhor o apetite. A beta-glucana, assim como as fibras em geral, não é digerida pelas nossas enzimas e não é, portanto, absorvida. Permanecendo no intestino, devido à sua solubilidade, incorpora bastante água em sua estrutura e forma um gel viscoso característico. Este gel interfere na absorção de nutrientes, do colesterol e de carboidratos. Esta ação é fortemente apoiada por estudos científicos, que relacionam a ingestão da beta-glucana a uma efetiva diminuição da quantidade de colesterol total circulante no organismo e também da fração que circula nas LDLs (Lipoproteínas de Baixa Densidade). Ou seja, comer aveia ajuda a controlar os níveis de “colesterol ruim” no organismo. O farelo de aveia é a porção que tem maior concentração desta fibra. Em segundo lugar vêm os flocos e por último a farinha. O FDA (Food and Drug Admistration), agência americana que regula produtos agrícolas, entre outros, recomenda o consumo diário de 3g de beta-glucana de aveia, que equivalem a três colheres de sopa de farelo de aveia (40g) ou quatro da farinha de aveia (60g). A ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), em 2005, reconheceu que a beta-glucana de aveia auxilia na redução da absorção de colesterol, mas alerta que seu consumo deve estar associado a uma dieta equilibrada e a hábitos de vida saudáveis. Vários são os programas de melhoramento genético da aveia no país, organizados em uma Comissão de Pesquisa da Aveia. Tais programas têm oferecido ao mercado genótipos mais adaptados e produtivos, além de promover o aperfeiçoamento de caracteres como peso do hectolitro, massa média de grãos, índice de colheita, número de grãos por panícula, estatura da planta, tolerância ao alumínio, tolerância ao frio e a geada, resistência e tolerância a doenças, entre outros fatores de interesse agronômico. Atualmente, em virtude da potencialidade do seu uso na alimentação humana, existe uma grande demanda por cultivares que apresentem uma elevada qualidade nutricional, com um bom rendimento industrial, aliado a altos teores de beta-glicana no grão, agregando valor às sementes utilizadas na indústria, e consequentemente, aumentando a renda do produtor rural. A produção de aveia tem perspectivas de ser um interessante negócio para o agricultor, mas certamente, quem sai ganhando com sua produção é o consumidor.

 

Sydney Antonio Frehner Kavalco é engenheiro agrônomo, mestrando em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas.


Como citar esse documento:

Kavalco, S.A.F (2010). Boa para o produtor, melhor ainda para o consumidor. Folha biológica 1 (3): 3

Caminhando e mudando, de ideias a atitudes

Pierre Rafael Penteado.

 

Quando era pequeno, lembro que às vezes os mais velhos brincavam com um cumprimento, no comecinho da tarde: “Bom dia”, diziam. E quando eu olhava para o fulano com uma cara estranha, justificavam dizendo que ainda não haviam almoçado, então para eles continuava ser ideal usar o “bom dia”. Em algumas vezes fiquei pensando: “Poxa, e se ele não almoçar o dia inteiro?”. Bem, é claro que é apenas uma brincadeira de adultos com crianças. Mas os pequenos levam as histórias ao pé-da-letra, vocês sabem…

Entretanto, já imaginou se cada pessoa exigisse que o mundo só andasse de acordo com o que ela fez ou deixou de fazer?  Ou ainda, pensasse que a natureza só existe com o único propósito de satisfazer suas necessidades? Bem, durante a história, a maneira de o homem pensar seu lugar no universo variou ao longo das épocas. O Teocentrismo, que predominou durante a Idade Média, propunha que Deus é o centro do Universo. Por outro lado, o Antropocentrismo, que foi concebido durante o Renascimento, considera que o universo deve ser percebido de acordo somente na sua relação com o homem, elevando este a um papel central.

Na biologia, por exemplo, uma das classificações biológicas propostas na história, no século IV, foi a de Santo Agostinho, que separou animais nas seguintes categorias: úteis, inúteis ou indiferentes ao homem. Apesar de ele ser uma figura importante no Cristianismo, usou um sistema que é totalmente antropocêntrico, partindo do princípio de que os animais deveriam ser avaliados apenas baseados em sua ligação com o homem. Essa maneira de ver as espécies não “pegou”.

Aliás, muito antes de Agostinho, na antiga Grécia, Aristóteles usava outra classificação, também artificial, mas que se baseava no ambiente em que o animal vivia: terrestre, aéreo ou aquático. E hoje? Seguimos um sistema natural, que considera apenas caracteres intrínsecos das espécies, sejam eles morfológicos, genéticos, evolutivos ou ecológicos.

No fim do ano passado, um caso ficou notório envolvendo a paralização de uma obra do PAC, o “Programa de Aceleração de Crescimento” do governo federal. O motivo? Segundo os jornais, “por causa de uma perereca de 2 cm ”, que inclusive até foi eleita como “novo inimigo do desenvolvimento” pelo presidente Lula. Oras, não é só uma perereca! É uma espécie inteira, batizada como Physalaemus soaresi, desde que foi identificada, na década de 60. Desde então, ela não foi encontrada em nenhum outro lugar do planeta. É o que chamamos de espécie endêmica. Infelizmente, parece que para o presidente, e muitos outros, o modo de ver de Santo Agostinho, pegou…

A maneira de o homem ver a natureza, e como ele se encaixa nela, pode ser a chave para resolvermos os problemas ambientais que enfrentamos. Muitos veem a natureza com olhos de superioridade, valendo-se da racionalidade humana, enquanto poderiam vestir-se de humildade, para quem sabe concluir que a única coisa que temos além das demais espécies, é responsabilidade. Ao passo em que a humanidade pensar que a meio ambiente é uma coisa distante, alheia, que têm apenas o papel de fornecer matéria-prima para suprir nossas necessidades e desejos, pode não haver muito que fazer.

 

Pierre Rafael Penteado é biólogo, mestrando em Biologia Animal pela Universidade Federal de Viçosa.


Como citar esse documento:

Penteado, P.R. (2010) Caminhando e mudando, de ideias a atitudes. Folha biológica 1 (3): 2

 

Conhecer para preservar e preservar para conhecer.

Karine Frehner Kavalco

 

“Nada na Biologia faz sentido exceto à luz da Evolução”. Foi o que inteligentemente afirmou Theodosius Dobzhansky (que consolidou a nascente ciência da genética no Brasil), depois de observar características genéticas da pequena mosca da fruta, Drosophila melanogaster. Esta afirmação fora usada inúmeras vezes depois dele a ter proferido, e a cada dia ela ganha mais sentido. Desde muito antes de Charles Darwin, vários pesquisadores já tinham notado que as espécies mudavam, mas eles não sabiam como. De posse de ideias de outros pesquisadores sobre a mudança nos padrões de diversidade vistos na natureza e sobre dados demográficos de populações humanas, Darwin pôde dar sentido àquilo que ele encontrou em sua viagem com o navio britânico “H. M. S. Beagle” pela América do Sul. A região Neotropical (que se estende do sul dos Estados Unidos até o norte da Argentina), visitada quase em sua totalidade pelo naturalista em sua aventura, é realmente uma das mais ricas em termos de número de diferentes espécies, seja com relação a plantas ou animais. Darwin viu uma vasta diversidade de formas e tipos, cores e comportamentos, que o levou a indagar sobre os processos que dariam origem a este fenômeno. O arquipélago de Galápagos, formado por mais de 50 ilhas, foi o laboratório natural de Charles Darwin, o local que lhe suscitou tantas dúvidas e o extasiou com tamanha beleza exótica. Essa viagem pode ser considerada o marco de início da Biologia Evolutiva como Ciência. Darwin estabeleceu métodos para análise e propôs os processos biológicos que estariam por trás da biodiversidade que ele observara. Ele analisou uma grande quantidade de diferentes organismos, e fortaleceu suas predições sobre a Seleção Natural com a observação da força da Seleção Artificial feita por criadores.

Hoje, a cada dia, milhares de biólogos evolutivos relatam à comunidade científica fatos que corroboram as ideias de Darwin e de outros grandes cientistas. Depois da introdução de dados de outras Ciências, como a Genética, as observações cotidianas dos processos nos seres vivos foram entendidas de maneira mais plena, e hoje se assume que a Evolução seja o elo que agrega todas as áreas das Ciências Biológicas. Da mesma forma que a Biologia Evolutiva, o Biólogo Evolutivo tem um vasto campo de atuação. Embora seja uma das áreas mais exclusivas das Ciências Biológicas, uma vez que normalmente apenas biólogos estudam com profundidade Evolução Biológica, ainda há muito por se fazer. Descrever padrões na natureza, tentando explicar que processos os produziram, é uma das tarefas mais árduas nesta área. E relatar o mecanismo exato dos processos que produzem esse padrão, como por exemplo, a Seleção Natural, é ainda mais difícil. Mas o encanto que entender como uma forma foi moldada durante centenas de gerações é algo tão profundo, que nenhum biólogo evolutivo foge da oportunidade de entender um pouco mais sobre a natureza. A maneira de fazer esta Ciência mudou muito desde a época de Darwin. Naquela época não havia potentes microscópios, aparelhos de precisão ou modelos matemáticos tão bem desenhados como hoje, que facilitam e permitem um maior aprofundamento nos estudos dos biólogos. Hoje, entretanto, estamos mais limitados à devastação de nossos laboratórios naturais. Junto com a diversidade de formas, tipos, cores, comportamentos, etc., que nos é tolhida dia-a-dia com a destruição da vida natural, de diferentes habitat, perdemos as respostas a tantas perguntas, algumas delas ainda não formuladas, dada a limitação do nosso conhecimento.

Embora tenha visitado apenas quatro das ilhas de Galápagos, o que seria de Darwin se ele fizesse hoje esta viagem e se o governo equatoriano não tivesse decretado Galápagos um Santuário da Vida Selvagem? E o mais importante, o que seria da Ciência se Darwin não tivesse tido a chance de ver o que viu em 1835? Quantos “Darwins” estamos coibindo, quanto conhecimento estamos perdendo a cada árvore que vai ao chão? Conhecer a natureza não nos possibilita apenas conhecer o mundo ao nosso redor. Conhecer a natureza, seus padrões e os processos que a formam, implica em nos conhecermos, uma vez que somos parte dela, aceitemos ou não.

Karine Frehner Kavalco é bióloga, mestre em Genética e Evolução e doutora em Genética. É professora do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Evolução.


Como citar esse documento:

Kavalco, K.F. (2010) Conhecer para preservar e preservar para conhecer. Folha biológica 1 (3): 1

 

O Brasil no Ano Internacional da Biodiversidade.

Rubens Pazza.

A biodiversidade é caracterizada como a diversidade biológica em pelo menos três níveis hierárquicos: diversidade genética, diversidade de espécies e diversidade de ecossistemas. O tema da conservação da biodiversidade tem sido amplamente difundido nos últimos anos, especialmente quando se trata de assuntos econômicos. Afinal de contas, inúmeros fármacos, cosméticos e variedades cultivadas na agricultura são obtidos através do uso de nossa biodiversidade. Entretanto, a necessidade da conservação da biodiversidade vai muito além de questões econômicas. Toda uma cadeia ecológica depende da relação entre as espécies de um determinado ecossistema, onde a perda de uma única peça pode ser altamente prejudicial, alterando as inter-relações e desequilibrando o mesmo. Durante a Eco-92, uma grande convenção internacional sobre meio ambiente realizada no Brasil em 1992, 175 países assinaram um tratado chamado de Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB). Este documento propõe regras para a conservação da biodiversidade, bem como de seu uso sustentável e a repartição justa dos benefícios provenientes do uso econômico dos recursos. Periodicamente, os países signatários deste tratado se reúnem em convenções. Este ano, em outubro, acontecerá a COP-10 (Conferência das Partes, 2010), em Nagoya, no Japão. Nestes encontros, discute-se o que os países têm feito para cumprir sua parte no tratado e quais as medidas e metas que devem ser adotadas a seguir.

O Brasil é signatário deste tratado, tendo legislação apropriada e regulamentada pelo Decreto Nº 2.519 de 16 de março de 1998. Em vistas ao encontro em Nagoya, a Câmara dos Deputados realizou alguns eventos para levantar as ações realizadas pelo governo brasileiro e suas propostas, bem como as propostas da sociedade civil sobre o tema.  Nos dias 13 e 14 de Julho, por exemplo, aconteceu o seminário intitulado “Ano Internacional da Biodiversidade – Quais os Desafios para o Brasil?”. Neste seminário foram discutidos temas como as iniciativas para conservação dos Recifes de Corais no Brasil, como o Brasil está enfrentando os problemas das espécies invasoras, os riscos e impactos à biodiversidade dos empreendimentos de infraestrutura, o turismo e a biodiversidade, o estado de conservação dos principais biomas brasileiros, o impacto das mudanças climáticas sobre a biodiversidade, os instrumentos de prestígio internacional (Reserva da Biosfera, Sítios do Patrimônio da Humanidade e outros) e a Avaliação Ecossistêmica do Milênio e o conhecimento da biodiversidade.

A UFV participou do seminário.

A Universidade Federal de Viçosa foi convidada para apresentar um painel durante o evento. Nesta oportunidade, fui convidado a discutir o tema “Avaliação Ecossistêmica do Milênio e o Conhecimento da Biodiversidade”. A Avaliação Ecossistêmica do Milênio foi um grande projeto internacional que tinha como objetivo mapear a saúde dos principais ecossistemas do mundo em relação à oferta de serviços ambientais, como a produção de alimento, a qualidade e disponibilidade de água, de estoques pesqueiros, a informação genética utilizada na biotecnologia, etc. O Brasil também participou deste esforço internacional, embora de maneira tímida, avaliando apenas a região do cinturão verde de São Paulo.  No relatório é possível observar dados alarmantes. Cerca de 60% dos ecossistemas do planeta são explorados de modo não sustentável; pelo menos ¼ dos estoques comerciais importantes de peixes são superexplorados; a utilização da água doce duplicou desde 1960 e é insustentável; cerca de 70% da água doce é utilizada na agricultura; a taxa de extinção de espécies aumentou cerca de 1000 vezes nos últimos séculos; de 10 a 30% das espécies de aves, mamíferos e anfíbios estão ameaçadas. Um dos grandes desafios da utilização sustentável dos serviços ambientais é que há uma relação direta entre eles, ou seja, a utilização de um deles gera impacto em outro. Em termos econômicos, embora seja difícil atribuir um valor a um serviço ambiental ou à biodiversidade, temos alguns indícios do prejuízo gerado quando algo falha. Por exemplo, no Canadá dos anos 90, em decorrência da superexploração, os estoques de bacalhau caíram drasticamente. Isto obrigou o investimento de cerca de 2 bilhões de dólares em seguro desemprego e treinamento para recolocação de trabalhadores. Em relação ao conhecimento da biodiversidade, alertei para a biodiversidade escondida, que conseguimos tomar conhecimento através dos estudos genéticos, mas este é um tema para uma próxima edição.

Todas as apresentações podem ser vistas no site da Câmara dos Deputados – www.camara.gov.br. A participação do Brasil no encontro em Nagoya é fundamental, pois os países megadiversos, como o nosso, devem tomar a dianteira nas discussões sobre a conservação e utilização sustentável da biodiversidade.

 

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e Doutor em Genética e Evolução. É professor do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.


 

Como citar esse documento:

Pazza, R. (2010). O Brasil no Ano Internacional da Biodiversidade. Folha Biológica 1 (2): 2.

O Mundo fascinante da Botânica.

Jaqueline Dias Pereira

 

A Botânica ou Biologia Vegetal é uma das áreas da Biologia e é um fascinante campo de estudo, pesquisa e aplicações práticas. É o estudo das plantas, e nos possibilita compreender a grande diversidade de plantas presentes em nosso planeta, nos mais diversos ambientes. Estes podem ser aquáticos, terrestres, ou ainda explorados por plantas de hábitos diferentes, como as epífitas, aquelas plantas que vivem sobre outras sem parasitá-las. Existem plantas bem simples como os musgos e samambaias, que não produzem sementes e não apresentam flores e frutos, até plantas com todos os órgãos vegetativos (raiz, caule e folha) e reprodutivos (flor, fruto e semente). É possível verificar plantas com mais de 100m de altura até plantas minúsculas.

Muitas dessas plantas chamam a nossa atenção pelo colorido exuberante de suas flores e pela sua interação direta com certos animais. Dentre as aplicações práticas da botânica, destacam-se o uso das plantas medicinais e as plantas utilizadas como bioindicadores de poluição ambiental, dentre outras. Acredita-se que desde 3000 a.C. os chineses já cultivavam plantas medicinais.  Elas eram utilizadas como purgantes, vermífugos, diuréticos, cosméticos e especiarias para a cozinha, além de líquidos e gomas utilizados para embalsamar múmias. No Brasil, muitas espécies vegetais nativas são utilizadas pela população para fins terapêuticos.

Trabalhos realizados com algumas espécies nativas de plantas com hábito epifítico e terrestre têm demonstrado eficácia como bioindicadoras do ambiente, pois elas reagem aos efeitos da poluição através de alguns “sinais” como necrose, queda de suas folhas, diminuição do crescimento, danos de seus tecidos, etc.

A botânica abrange diversas áreas como: morfologia vegetal, anatomia vegetal, fisiologia vegetal, sistemática vegetal, taxonomia vegetal, botânica econômica, etc. Dependendo da área escolhida, os estudos podem ser realizados no campo ou em laboratório específico, ou até mesmo unindo campo com laboratório.

A morfologia estuda a estrutura externa das plantas, por meio da investigação descritiva e comparativa. Qual a cor da flor de uma planta? Como é a flor? Como é a sua folha? E as características externas de sua raiz e caule? Já a anatomia estuda a estrutura interna dos vegetais, desde as características de suas células, os tecidos e órgãos, podendo ser descritiva, ecológica, com aplicações à taxonomia, etc. Por exemplo, qual é a característica de uma célula que conduz água e sais minerais, considerando que a absorção ocorre nas células das raízes e tem que chegar até as células das folhas? Será que estas células são resistentes? Quem dá essa resistência à célula? Qual o componente químico presente? Será que uma célula que conduz açúcares tem as mesmas características que uma célula que sustenta o corpo da planta?  A fisiologia preocupa-se em explicar o funcionamento dos vegetais, por exemplo, como a planta conduz água e sais minerais? Como ocorre a fotossíntese? Como ocorre a absorção de nutrientes pelas plantas? A sistemática vegetal, por sua vez, dedica-se em inventariar e descrever a biodiversidade e compreender as relações que ocorrem entre os organismos. Inclui a taxonomia, que elabora as leis da classificação das espécies, com suas normas e princípios. Por fim, a botânica econômica estuda as partes ou produtos químicos extraídos das plantas que são utilizados comercialmente, quer seja na indústria farmacêutica, têxtil, alimentícia, para produção de cosméticos, dentre outros. A borracha, por exemplo, é produzida através do látex que é extraído da Hevea brasilienses (Seringueira). Outras plantas são produtoras de óleos e gorduras, outras são aromáticas, outras são medicinais, etc. Dessa forma, verifica-se que para compreender uma planta é necessário relacionar todas as áreas da botânica.

E você, quer conhecer esse mundo fascinante? Que tal participar de expedições a campo ou conhecer o misterioso mundo interno das plantas em laboratório, preparando lâminas histológicas e analisando-as em microscópio? Cursando Ciências Biológicas você terá acesso a tudo isso através das várias disciplinas de botânica. Além disso, terá disciplinas que contemplam o mundo animal, molecular, e também a conservação do meio ambiente.

Jaqueline Dias Peireira é bióloga, mestre em Ciências Biológicas e doutora em Botânica. É professora do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Anatomia Vegetal.


 

Como citar esse documento:

Pereira, J.D. (2010) O Mundo Fascinante da Botânica. Folha Biológica 1 (2): 1