Desbravadores da Natureza

Simone Rodrigues Slusarski

 

Os naturalistas que vieram ao Brasil no século XIX haviam tomado a difícil decisão de viajar, pois além dos perigos da viagem, a comunidade científica não era unânime quanto à valorização do trabalho do viajante.  Muitos dos mais importantes naturalistas europeus nunca viajaram. Para esta função treinava-se jardineiros coletores, desenhistas, pintores e preparadores de animais que acompanhavam ou substituíam os próprios naturalistas.   O exemplo mais conhecido do pesquisador que defendia a viagem como parte indispensável foi Alexander von Humboldt. Acreditava que as impressões estéticas vivenciadas pelo viajante, fazia parte da atividade científica e não podia ser substituída por descrições ou amostras destacadas dos lugares de onde foram tiradas. Alguns dos viajantes-naturalistas que vieram ao Brasil e foram influenciados por esta ideia de Humboldt, como Martius e Saint Hilaire, optaram pelas expedições, pelo simples fato de “ver com os próprios olhos” e assim produzir ciência in loco. Muitos cientistas vieram ao Brasil e cada um deixou uma importante contribuição científica retratando o ambiente, a história e os costumes de nossos povos.

Langsdorff esteve aqui em 1803 e retornou em 1813 como cônsul da Rússia. Em 1820 foi encarregado pelo governo Russo a organizar uma expedição científica, a qual fizera parte Riedel e Freyreiss. Esta missão organizou um herbário com 60.000 exemplares que foi levado para São Petersburg, hoje Leningrado. Sellow nasceu em 1789 na Alemanha, conheceu Humboldt e Langsdorff, veio jovem para o Brasil e com recursos financeiros dos dois amigos pode desenvolver suas pesquisas. Foi Sellow o botânico que forneceu a maior quantidade de material utilizado na Flora Brasiliensis, publicação de Martius.  Maximiliano, um naturalista possuidor de recursos financeiros, viajou pelo Brasil de 1815-1817. Em 1820 publicou “Reise nach Brasilien”, retratando a flora e a fauna, com várias ilustrações de próprio punho. Na mesma época, Auguste de Saint Hilaire, por influência de Conde de Luxemburgo, permaneceu no Brasil de 1816-1822. Além de coleta de material zoológico e botânico, contribuiu com observações da geografia humana, história e etnogeografia. Uma de suas obras mais famosas é a Flora Brasiliae Meridionalis, em colaboração com Jussieu e Cambessedés. Em uma passagem nos relatos de suas expedições, Saint-Hilaire retrata a  diversidade da Mata Atlântica:

“Nada aqui lembra  a cansativa monotonia de nossas florestas de carvalhos e de pinheiros; cada árvore tem, por assim dizer, um porte que lhe é próprio; cada uma tem sua folhagem e oferece frequentemente uma tonalidade de verde diferente das árvores vizinhas. Vegetais, que pertencem a famílias distantes, misturam seus galhos e confundem suas folhas”.  

Ele documentou também a extensa devastação feita em nossas matas pelo homem branco, referindo-se ao fato de que as pastagens são queimadas anualmente a fim de se obter erva fresca para o gado e que os fornos de Ipanema eram aquecidos com toras de peroba. Até o presente momento, estes trabalhos foram relevantes para a flora brasileira, porém a obra mais extensa e de maior importância para o Brasil, no que diz respeito a sua vegetação, foi a de Carl Friedrich Phillipp von Martius.  Martius nasceu na Baviera em 17 de abril de 1794, veio ao Brasil integrante de uma comitiva de sábios reunidos para acompanhar D. Leopoldina, a Arquiduquesa que havia contraído casamento com Pedro I, herdeiro da coroa portuguesa. Os pesquisadores chegaram ao Brasil em 15 de julho de 1817 e iniciaram imediatamente suas expedições pelas matas de Santa Tereza, Tijuca e Niterói.  Além da taxonomia de plantas superiores escreveu também sobre nossas plantas medicinais, criptógamas, observações fitogeográficas, questões etnogeográficas, assuntos linguísticos, costumes indígenas e organizou um mapa fitogeográfico do Brasil. Influenciado por Metternich, Chanceler da Áustria, o imperador desse país e o rei da Bavieria se interessaram pelo trabalho do ilustre botânico e em 1840, foi publicado o primeiro fascículo da Flora Brasiliensis, no formato definitivo como hoje a conhecemos. A obra foi continuada por Eichler e posteriormente por Urban, culminando em 130 fascículos onde são descritas 20 mil espécies.

Muitos outros naturalistas também estiveram aqui com expedições mais restritas, mas também de grande importância. Podemos ressaltar Poeppig (1831-1832), dedicou-se a flora amazônica. Gardner, botânico inglês chegou ao Brasil em 1837, explorou as matas da Tijuca e a Serra dos Órgãos, expandindo mais tarde suas coletas.  Regnell, nascido na Suécia em 1807, veio para o Brasil em 1840, patrocinou expedições com Loefgren, Lindman e Malme.  Barbosa Rodrigues nasceu em 1842 em Minas Gerais, estudou a flora de vários estados, fundou o Museu Botânico que dirigiu até 1889, no ano seguinte foi nomeado Diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.  Outros botânicos como Hermann von Ihering, Pilger, Taubert, Leônidas Damásio, Lutzelburg, Schlechter, Pacheco Leão, Wetts- tein, Alberto Loefgren, além de outros não citados, também tiveram grande contribuição em pesquisas relacionadas com a flora brasileira.

 


 

Como citar esse documento:

Slusarski, S.R. (2011). Desbravadores de natureza. Folha biológica 2 (2):1

 

Carregando as baterias

Karine Frehner Kavalco.

 

Depois de um dia cheio de atividades, uma boa noite de sono costuma ser fundamental. Quando dormimos entramos em um estado de inconsciência, do qual podemos ser despertados por estímulos do ambiente, entre eles os sensoriais. O coma e a anestesia não podem ser considerados sono, embora possuam muitas características semelhantes a este. Durante uma noite normal, todos passam pelo menos por dois “tipos” de sono, o sono de onda lenta, e o sono paradoxal.

 

Enquanto o corpo descansa…

Este tipo de sono é denominado também de sono repousante profundo, sono sem sonho, sono de onda delta ou sono normal. O sono profundo de onda lenta é destituído de sonho, muito relaxante e está associado a uma diminuição tanto do tônus vascular periférico quanto da maior parte das funções vegetativas do organismo. Diminui também a pressão arterial, a frequência respiratória e o índice de metabolismo básico. Esta é uma parte do sono em que o corpo realmente entre em repouso, tanto das funções conscientes quando de parte das funções autônomas, que incluem aquelas que não são controladas por nossa vontade, como a peristalse, por exemplo. Este sono repousante é interrompido periodicamente por um segundo tipo de sono, o sono REM.

 

   … A mente divaga

Durante um período normal de sono ocorrem episódios de sono paradoxal, que duram de 5 a 20 minutos, em média a cada 90 minutos, ocorrendo o primeiro episódio 80 a 100 minutos após a pessoa adormecer. Quando a pessoa está muito cansada, este pode ser bastante curto ou mesmo ausente, porém, à medida que a pessoa descansa, o intervalo do sono paradoxal aumenta. Este sono é aquele em que geralmente temos os sonhos. É mais difícil de despertar do sono paradoxal do que no sono profundo de onda lenta, e a frequência cardíaca  e respiratória tornam-se irregulares, o que é um estado característico do sonho.  Também ocorrem movimentos irregulares, entre eles os dos olhos (por isso este sono pode ser denominado REM, ou sono do movimento rápido dos olhos). No sono paradoxal, o cérebro mostra-se bastante ativo, sem, porém, acontecer à canalização desta atividade cerebral na direção adequada para que a pessoa esteja consciente e acorde. Ou seja, no sono paradoxal nosso cérebro se comporta de forma semelhante à num estado de vigília, ou acordado, e algumas partes dele são ativadas de forma diferente.

 

Carregando as baterias  (karine)

  Mas quando o corpo “sabe” que é preciso dormir?

Acredita-se que uma área do cérebro chamada locus ceruleus seja importante para a manutenção da atividade do sistema ativador reticular, que controla o ciclo entre sono e vigília (dormir e estar acordado).  Lesões no sistema ativador reticular, quando suficientemente grandes, levarão invariavelmente ao coma, sem a possibilidade do despertar. Lesões no locus ceruleus causam sono, semelhante ao sono natural. Além disso, o estímulo em outras regiões cerebrais, como o hipotálamo e o córtex límbico, pode causar um sono muito semelhante ao sono de onda lenta.

Existe um ciclo entre sono e vigília e este ciclo é controlado por nosso cérebro, usando neurônios e substâncias químicas específicas. Cada pessoa tem um ritmo de sono e vigília diferente, ou seja, há pessoas que precisam passar mais tempo “desconectadas” e há pessoas para as quais um pequeno tempo de sono é suficiente para “recarregar as energias”.  Ao manter-se por muito tempo ativo, o cérebro e seus neurônios tornam-se fatigados, e/ou por outros fatores, podem ativar os centros do sono. Em consequência, a retroalimentação positiva dos centros da vigília com o cérebro e periferias começa a diminuir, e o sono fica cada vez mais irresistível.

 

A privação do sono não é natural

O sono causa efeitos sobre o sistema nervoso e sobre outras estruturas do organismo. Normalmente, a falta do sono ou da vigília não causa grandes danos aos órgãos. Porém, a falta do sono afeta as funções do sistema nervoso central.  Quando a vigília prolonga-se podem causar disfunções progressivas da mente e do comportamento do sistema nervoso. Podem ocorrer no final de um estado prolongado de vigília, lentidão de pensamento, irritabilidade, psicose ou até mesmo ter sonhos vívidos.  Certamente nosso corpo foi moldado pela evolução para que hoje tivéssemos esse ajuste preciso do ciclo entre o sono e a vigília, do repousar e despertar, uma vez que na natureza, animal nenhum pode “dormir de touca”.


 

Como citar esse documento:

Kavalco, K.F. (2011). Carregando as baterias. Folha biológica 2 (2):2

O perigo está próximo, abandonado na rua!

Rubens Pazza

 

Você certamente já observou cachorros ou gatos correndo pelas ruas de sua cidade, não? Já parou para pensar se alguém cuida deles, se os está vacinando e os mantendo vermifugados? Já parou para observar seu comportamento, a maneira como viram o lixo na rua e correm na frente dos carros? Pois bem, estes animais inocentes podem ser transmissores de zoonoses. Zoonoses são doenças típicas de animais que podem ser transmitidas para os seres humanos ou vice-versa. Estas doenças são causadas por vermes parasitas, fungos, vírus ou bactérias, e os cães e gatos, juntamente com morcegos, ratos, aves e insetos são os principais transmissores. Dentre as zoonoses mais comuns, pode-se destacar a raiva (hidrofobia), a hantavirose, a leptospirose, a Leischmaniose, a peste bubônica, a toxoplasmose, a psitacose, a histoplasmose, o bicho-geográfico, entre outras. Os modos de transmissão vão desde o contato direto com o animal como também do contato indireto, através de água ou hortaliças contaminadas com fezes ou urina, por exemplo, ou ainda através de um vetor (em geral um mosquito ou pulga).

 

  O perigo esta proximo, abandonado na rua! (rubens)

Animais de companhia são abandonados nas ruas, onde se reproduzem e aumentam o problema das zoonoses. Todos são responsáveis e devem incentivar a posse responsável. Fotos: World Wide Web.

 

Não é brincadeira!

Várias destas doenças são fatais, especialmente por terem sintomas confundidos com os de uma gripe comum. O tempo de incubação (tempo entre a infecção e o aparecimento dos sintomas) pode ser longo, dificultando também o diagnóstico, pois o paciente pode não se lembrar de explicar ao médico onde esteve há uma ou duas semanas. Até por isso, a prevenção é extremamente importante. E os principais mecanismos de prevenção são puramente de saneamento básico. Lixo na rua atrai ratos, que por sua vez podem transmitir leptospirose e peste bubônica.  Especialmente em grandes cidades onde a enxurrada causada pelas chuvas é frequente, ou ainda em regiões com grandes infestações de ratos em armazéns ou galpões, a leptospirose transmitida pela urina do rato (ou eventualmente sua mordida) é uma preocupação constante. Por isso, o controle dos ratos nas cidades passa pelo controle do lixo. Outro problema de saneamento básico está relacionado com aquele cãozinho que você viu na rua. Na rua, ele está sujeito à brigas com outros cães e à mútua infecção pelo vírus da raiva, por exemplo.

A propagação do vírus da raiva pode ser evitado com a vacinação, inclusive nas campanhas municipais. Mas quem leva os cães de rua para vacinar? Quem examina os cães de rua para identificar quando são hospedeiros da Leishmania, um protozoário que causa lesões dolorosas e de difícil cicatrização na pele ou ainda, na forma visceral, febre e aumento do baço (esplenomegalia) e do fígado (hepatomegalia). A leishmaniose visceral é o segundo maior assassino parasitário, perdendo apenas para a malária. Podemos evitar estas doenças terríveis apenas com saneamento básico, mantendo animais de estimação sob nossos cuidados, dentro de nossas casas e com um bom sistema de coleta de lixo. Uma das ações mais efetivas para diminuir os cães nas ruas é que eles sejam adotados por uma família e, de preferência, que sejam castrados para evitar o aumento indesejado. Cuidados básicos com nossos amigos podem aumentar a qualidade de vida deles e também a nossa!

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e doutor em Genética e Evolução. Atualmente é professor da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.

 


 

Como citar esse documento:

Pazza, R. (2011). O perigo esta próximo, abandonado na rua. Folha biológica 2 (2): 3

Conservação da Biodiversidade em Minas Gerais

Jaqueline Dias Pereira

As Unidades de Conservação ou “UCs” dividem-se em várias categorias, dentre elas: Estação Ecológica Reserva Biológica, Parques, Monumento Natural e Refúgio de Vida Silvestre. O Estado de Minas Gerais conta com várias UCs e o órgão responsável por essas unidades é o Instituto Estadual de Florestas (IEF). Segundo o IEF, as UCs são importantes para a conservação da biodiversidade dos biomas brasileiros, pois criam instrumentos legais para o estabelecimento de medidas de manejo e fiscalização. Elas contribuem significativamente à preservação de espécies ameaçadas de extinção, preservação dos recursos hídricos (nascentes, rios, cachoeiras), valores culturais, históricos e arqueológicos, além de promoverem estudos e pesquisas científicas, educação ambiental e turismo ecológico.

Dentre as várias unidades administradas pelo IEF, destacam-se os Parques Estaduais, como o Ibitipoca, Itacolomi, Rio Doce, Nova Baden, Serra do Brigadeiro, Rola-Moca e outros. Destaco aqui o Parque Estadual da Serra do Brigadeiro (PESB), localizado na região da Zona da Mata de Minas Gerais, ocupando uma área de 14.984 hectares no extremo norte da Serra da Mantiqueira, abrangendo os municípios de Araponga, Fervedouro, Miradouro, Ervália, Sericita, Pedra Bonita, Muriaé e Divino. Neste local predominam montanhas, vales, chapadas, encostas, além de diversos cursos d’água e da Mata Atlântica.  O PESB é uma das áreas prioritárias para conservação no estado de Minas Gerais. Nele ocorrem extensas áreas cuja flora ainda é pouco conhecida, assim como ocorrem em várias outras áreas do território nacional.

Vale destacar, no PESB, a Trilha do Muriqui, conhecida por abrigar várias populações destes primatas, pertencentes ao gênero Brachyteles. Os muriquis são representantes expressivos da mastofauna da Mata Atlântica, da qual é um herbívoro endêmico. Atualmente, duas espécies são reconhecidas, Brachyteles hypoxanthus e Brachyteles arachnoides, sendo encontrada a espécie Brachyteles hypoxanthus no PESB. Ambas estão incluídas na “Lista Nacional das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção”. Além disso, a Trilha do Muriqui apresenta uma grande quantidade de espécies epífitas (plantas que vivem sobre outras sem parasitá-las) que têm papel fundamental na sobrevivência dos muriquis, visto que eles dependem de muitas delas para se alimentar e, especialmente, das bromélias que formam “tanques” de onde retiram a água para beber (observação em campo).

A Trilha do Muriqui é utilizada como trilha interpretativa, recebendo costumeiramente estudantes e visitantes de várias regiões do país.  Sendo assim, vários trabalhos científicos já foram conduzidos na Trilha, como: Biodiversidade de Epífitas da Trilha do Muriqui e Anatomia Foliar de Espécies de Epífitas ao Longo da Estratificação Vertical dos Forófitos, da Trilha do Muriqui (Jaqueline Dias Pereira), Ecologia de Florestas Atlânticas com Ocorrência do Muriqui: Diversidade, Sucessão Secundária e Estrutura Nutricional (Wilson Marcelo da Silva Júnior), Entre Montanhas e Muriquis (Leandro Santana Moreira), e outros estão em andamento a fim de melhor compreender as epífitas, os muriquis, a vegetação do PESB, etc., sempre com o objetivo principal de contribuir à conservação da flora e fauna desta importante UC do Estado de Minas Gerais.

 Conservação da biodiversidade em Minas Gerais (jaqueline dias)


Como citar esse documento:

Pereira, J.D. (2011). Conservação da biodiversidade em Minas Gerais. Folha biológica 2 (1): 4

Presente ontem, hoje e certamente amanhã

Susana Johann

 

Na sua definição mais ampla, a biotecnologia é uma área multidisciplinar que utiliza princípios científicos de diversas ciências (como a microbiologia, bioquímica, genética, engenharia química, entre outras) para o processamento de materiais por agentes biológicos (microrganismos, células, moléculas) com várias contribuições à sociedade.

Benditos micro-organismos.

Durante milhares de anos a biotecnologia tem sido utilizada para a produção de variados bens alimentar, tais como pão, queijo, vinhos e outros produtos fermentados. Nestes processos de manufatura a flora microbiana natural atuava espontaneamente, obtendo-se produtos fermentados com características diferentes.

 

Presente ontem, hoje e certamente amanhã (Susana)

A cerveja é conhecida dos Egípcios já milhares de anos, e é um ícone dos produtos biotecnológicos.

Futuro da ciência

Com o conhecimento da estrutura do material genético (DNA ou ácido desoxirribonucleico) e seu correspondente código genético, a partir dos anos 70, tem-se uma nova fase da biotecnologia, que trata da transferência de genes entre espécies, resultando nas plantas geneticamente manipuladas, também denominadas transgênicas ou OGM (organismo geneticamente modificado). Através da manipulação dos genes é possível direcionar os mecanismos da célula viva para fins específicos, tornando possível uma célula fazer algo para o qual ela não estava programada.

Os benefícios são irrestritos

O uso das ferramentas da biotecnologia tem produzido uma riqueza de conhecimento em diversas áreas. O impacto dela pode ser sentido em diversos setores. No setor agrícola observa-se a produção de adubo composto, pesticidas, silagem, mudas de plantas ou de árvores, plantas transgênicas, e na pecuária a produção de embriões, etc. Na indústria de alimentos a biotecnologia nos fornece os produtos de fermentação, a proteína unicelular, os aditivos, os corantes, entre outros.  Na indústria química tem-se a produção de butanol, acetona, glicerol, ácidos, enzimas e metais. Na indústria eletrônica fabricam-se os biosensores. No meio ambiente a biotecnologia propicia a recuperação de metais, a biorremediação e a produção de biopolímeros.

A contribuição com relação à saúde humana inclui a produção de novas drogas, como medicamentos, vacinas, hormônios, além de tratamentos como a terapia gênica.  Há ainda inúmeras outras aplicações que fazem parte do elenco de produtos que já são consumidos em todo o mundo e que estão disponíveis pela associação entre diferentes subáreas da Ciência.

Ciência do futuro

As oportunidades criadas pela aplicação da biotecnologia são vastas e muito promissoras nos mais diversos setores, possibilitando, por exemplo, encontrarmos a cura de doenças genéticas.  No entanto, a exploração das suas potencialidades é indispensável para o desenvolvimento sustentado e requer uma investigação científica inovadora e cuidadosa, avaliando os benefícios efetivos para o homem e para o meio ambiente a curto e a longo prazo, causando o menor impacto possível.

 

Susana Johann é bióloga, mestre em Biotecnologia e doutora em Microbiologia. Atua no desenvolvimento de compostos antimicrobianos.

 


Como citar esse documento:

Johann, S. (2011). Presente ontem, hoje e certamente amanhã. Folha biológica 2 (2): 4

Para quê servem as matas ciliares?

Simone Rodrigues Slusarski

 

A vegetação marginal aos cursos de água tem classificação diversificada no Brasil em decorrência, principalmente, da sua ampla distribuição e dos diferentes ambientes em que ocorre. É tratada na literatura com uma nomenclatura variada e confusa, dentre elas, floresta (ou mata) ciliar, de galeria, de várzea, ribeirinha, ripária (ripícola) ou aluvial estão entre as denominações mais comumente utilizadas, das quais mata ciliar é a mais popular. Em relação aos termos, ciliar é derivado de cílio, referindo-se a proteção; ripária significa próximo ao corpo de água; zona ripária é definida como um espaço tridimensional que abrange vegetação, solo e rio e ecossistema ripário quando se inclui sistemas, processos e mecanismos. Essa vegetação às margens dos cursos de água, na interface entre os ambientes aquáticos e terrestres, é denominada ecótono ripário. Alguns autores utilizam o termo vegetação ripária, aplicando-o a toda e qualquer vegetação da margem, pois o termo ripário permite abrangência não apenas da vegetação relacionada ao corpo de água, mas também aquela localizada nas suas margens.  A importância da vegetação ripária está relacionada às suas funções, dentre elas: estabilidade das margens pela manutenção e desenvolvimento de um emaranhado de raízes, evitando a erosão; armazenamento e qualidade da água da micro bacia por meio da filtragem de nutrientes, sedimentos e agrotóxicos; através de suas copas, intercepta e absorve a radiação solar, contribuindo para a estabilidade térmica dos pequenos cursos de água; mantém a biodiversidade do ecossistema aquático e terrestre;  atua como corredores ecológicos que interligam diferentes unidades fitogeográficas e permitem o deslocamento de animais e a dispersão de plantas; promove o aumento da complexidade dos habitats, que constituem abrigo e fonte alimentar para as faunas terrestre e aquática.

Apesar de sua inquestionável importância ambiental e social, as matas ciliares foram fragmentadas e devastadas em benefício do processo de ocupação do Brasil, para dar lugar às cidades, culturas agrícolas e pastagens, o que resultou na destruição dos recursos naturais. Além da falta de planejamento inicial, esse fato também ocorreu devido ao não cumprimento da lei, a falta de fiscalização e ao descaso às questões ambientais.   A faixa marginal aos corpos de água tem sua proteção assegurada no âmbito Federal por meio de Leis, Decretos de Regulamentação, Medidas Provisórias e Resoluções do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), além de legislações estaduais. A primeira lei que estabeleceu proteção das áreas marginais dos cursos de água foi o Código Florestal (Decreto no. 23.793, de 23 de Janeiro de 1934) revogado pelo Novo Código Florestal (Lei no. 4.771, de 15 de Setembro de 1965 e suas alterações, 1986 e 1989). De acordo com o artigo 2o, as matas ciliares abrangem, como área de preservação permanente, as florestas e demais vegetações existentes ao redor dos rios, nascentes, lagoas e reservatórios, especificando a dimensão mínima da faixa marginal a ser preservada (30-500m). Esta lei também impôs a necessidade de florestamento ou reflorestamento em áreas de preservação permanente.

Pelo rigor de suas restrições, atualmente o Novo Código Florestal está sendo amplamente discutido entre os vários setores da sociedade.  Este processo de eliminação das formações vegetais, dentre elas as matas ciliares, resultou num conjunto de problemas ambientais, como extinção de espécies da fauna e da flora, mudanças climáticas locais, erosão dos solos e assoreamento de rios. Em virtude desse panorama de degradação, aliada às questões legais, tem havido iniciativas de restauração da vegetação ripária por meio de pesquisadores vinculados à universidades, centros de pesquisas e órgãos públicos e privados, com objetivos de proteção de reservatórios de abastecimento público, de geração de energia, recuperação de áreas degradadas e, mais recentemente, fundamentadas em questões ecológicas, tais como corredores ecológicos, proteção de populações e/ou comunidades. Em meio a esse cenário, vale a pena refletirmos…

No que estão pautadas nossas decisões e atitudes cotidianas em relação à preservação dos recursos naturais? Tenho a real consciência de sua importância e que faço parte desse complexo meio ambiente? Ou apenas estou sendo levado pela recente “enxurrada” de marketing e modismo ambiental?

 


 

Como citar esse documento:

Slusarski, S.R (2011). Para quê servem as matas ciliares. Folha biológica 2 (1):3

Entender o presente, olhando o passado

Juan Carlos Cisneros

Os fósseis, que nada mais são que restos de formas antigas, são conhecidos pela humanidade desde tempos remotos. O homem pré-histórico usava ossos fósseis como matéria prima para criar ferramentas e arte. E isto ainda é feito por algumas culturas primitivas.  A ciência que estuda os fósseis é a Paleontologia (do grego palaios=antigo, onto=ser, logos=conhecimento; “conhecimento de seres antigos”). A Paleontologia é uma ciência que se situa em uma interface entre a Biologia e a Geologia, usando conhecimentos de ambas.

Poucos ramos do conhecimento têm fornecido tantas evidências em favor da evolução das espécies como a Paleontologia. É difícil não aceitar que as aves descendem dos répteis, após observar com atenção os restos da ave primitiva Archaeopteryx. É difícil não reconhecer o parentesco tão próximo entre o ser humano e os outros primatas, após observar o esqueleto de algum hominídeo primitivo.

É muito provável que os ossos e as pegadas de grandes animais pré-históricos tenham dado origem às lendas sobre vários seres mitológicos. Na China os restos de dinossauros são ainda conhecidos na linguagem popular dos camponeses como “ossos de dragão”.  O mito do Grifo, que, segundo a narração de Heródoto habitava entre a Mongólia e a China, seguramente originou-se pela observação de restos de Protoceraptops (dinossauro do mesmo grupo de Triceratops), comuns nessa região.  Na Europa, algumas narrações sobre dragões como a de Siegfried e a de São Jorge, podem ter se originado pela observação das pegadas de grandes répteis do período Triássico, tais como Chirotherium, cujos registros são comuns na Alemanha e na Grã Bretanha.

 

 

Entender o Presente, olhando o passado

 

No início do século XIX, em Connecticut, EUA, uma criança camponesa descobriu uma série de pegadas de dinossauros. A ciência ainda não conhecia a existência dos dinossauros naquela época e os habitantes da região atribuíram estas pegadas a “aves gigantes”. O estudo dos fósseis tem despertado a curiosidade e o fascínio desde a Antiguidade, embora atualmente a paleontologia seja uma ciência bastante desenvolvida e ampla.

Na Grécia, os sábios Anaximandro, Pitágoras, Xenófanes e Heródoto afirmaram corretamente que os fósseis marinhos encontrados em terra firme pertenceram a animais que viveram no oceano e, consequentemente, o que agora era terra firme teria sido fundo de mar. Esta ideia foi esquecida por séculos e só após o fim da Idade Média, retomar-se-ia a este conceito. Durante o Renascimento, Leonardo da Vinci estudou moluscos marinhos fósseis encontrados nas montanhas do interior da Itália. A explicação tradicional dizia que estas conchas teriam sido depositadas no alto das montanhas ao serem levadas pelo dilúvio relatado na Bíblia.  Da Vinci provou que isso era falso, já que as conchas encontravam-se em posição de vida, ou seja, elas viveram no próprio local em que se encontravam, e, por tanto, não foram transportadas por acidente. Ele também mostrou que estes moluscos não poderiam ter migrado por seus próprios meios desde o litoral até o alto das montanhas durante o dilúvio universal, já que o tempo de duração do dilúvio era muito reduzido para que eles percorressem as dezenas de quilômetros que separam estas montanhas da costa.

Assim, da Vinci mostrou que essas montanhas foram uma vez leito marinho permanente.  Parte do trabalho dos biólogos paleontólogos consiste em descrever novas espécies, estudar a evolução dos diferentes grupos, estimar as épocas em que os organismos viveram estabelecer as relações ecológicas entre estes, reconstruir o seu meio ambiente, as possíveis causas da sua extinção, etc.  Este trabalho não é fácil, já que o registro fóssil é muito incompleto, ou seja, os achados fósseis representam apenas uma pequena parte das formas de vida que existiram na Terra. Muitas espécies extinguiram-se sem deixar rastro algum, por terem existido em um período de tempo muito curto ou por terem habitado em ambientes que não facilitavam a sua preservação.

A história da Terra é como um livro ao qual faltam muitas páginas e às vezes capítulos inteiros, principalmente no início deste. No entanto, com ajuda do método científico é possível preencher esse livro, pelo menos em parte, para que todos o possam ler.

Juan Carlos Cisneros é biólogo, mestre e doutor em Paleontologia. Atualmente é professor da UFPI e pesquisa tetrápodes do Gonduana.


 

Como citar esse documento:

Cisneros, J.C (2011) Entender o presente, olhando o passado. Folha biológica 2 (1): 1

Seleção x Sorteio

 

Rubens Pazza

Definitivamente, evolução não ocorre ao acaso. Mas afinal, o que torna a evolução biológica não aleatória? Sem mesmo cunhar o termo “Evolução”, Darwin nos explica que as espécies sofrem mudanças ao longo das gerações, e que um processo chamado de “seleção natural” atua escolhendo os indivíduos que transmitirão suas características aos descendentes. Em outras palavras, a seleção natural determina quem viverá o tempo suficiente para se reproduzir, através do instinto básico de perpetuação da espécie.

Ora, se há uma seleção, não pode haver aleatoriedade. Não existe seleção “ao acaso”. Tomemos um exemplo: toda semana, inúmeras pessoas escolhem seis números que imaginam (e esperam) que sejam escolhidos dentre 50 em um determinado jogo da loteria. Caso acertem, recebem uma soma em dinheiro. Em um local apropriado, há uma urna contendo 50 bolas que representam os 50 números do jogo. Dessa urna retiram-se seis bolas, completamente ao acaso. Nenhum fator específico força a saída de um número da urna em detrimento de outro. Ou seja, os números são sorteados, tirados da urna aleatoriamente, um a um. Jamais diríamos que seis números são selecionados, mas sim, que foram sorteados.

Compare agora com o próximo exemplo: um determinado produtor planta feijão e retira de sua produção as sementes que utilizará na lavoura no próximo ano. Para isso, escolhe para o próximo plantio sempre as maiores sementes. As sementes menores são enviadas à Cooperativa. Não se pode dizer que as sementes que ele utilizará na próxima safra foram escolhidas ao acaso. O produtor utilizou um critério que selecionou determinadas sementes em detrimento de outras, ou seja, selecionou uma característica. Se tal escolha lhe garantirá maior produção na próxima safra ou não, depende quase exclusivamente da característica em questão ser hereditária ou não.

É importante ficar claro a diferença entre sorteio e seleção. No sorteio nenhuma característica em si é levada em consideração nas escolhas, tudo é ao acaso, aleatório. Em uma seleção, por outro lado, pelo menos uma característica é utilizada para separar ou escolher alguns membros dentro de um grupo. Pode-se pensar que assim como no exemplo citado, a seleção precisa de um Selecionador. Definitivamente isso está correto. É necessário um selecionador. No entanto, tal selecionador não precisa de inteligência, não precisa saber o que está fazendo. Voltemos ao exemplo anterior: o agricultor sabia o que queria: queria selecionar os maiores grãos para plantar na próxima safra. Este processo seletivo realizado pelo ser humano é conhecido como “seleção artificial” e ilustra bem o processo análogo que ocorre na natureza. Notamos claramente que o agente selecionador tem intencionalidade, pois tem um objetivo em mente; racionalidade, pois é capaz de planejar a seleção e idealizar um objetivo concretizado. Será então que todo processo de seleção envolve intencionalidade e racionalidade?

O biólogo Richard Dawkins, no livro “O relojoeiro cego”, cita um exemplo simples de como a ordem pode surgir do caos. Ao vermos a deposição de pedregulhos numa praia, percebemos uma ordem. As pedras menores localizam-se na região superior, aumentando gradativamente de tamanho conforme avançam para o mar, muitas vezes de um modo tão meticuloso e organizado que nossa mente poderia nos trair e nos levar a acreditar que devem ter sido intencional e racionalmente organizadas daquela maneira.  Um breve retorno à realidade nos mostra a verdade. Nas marés altas, a força das ondas empurra os pedregulhos para fora, praia acima. Entretanto, sabe-se que os obstáculos diminuem gradativamente a força das ondas. Assim, enquanto em regiões mais próximas da maré a força das ondas é suficiente para empurrar pedregulhos maiores, quanto mais para fora, menor será a força da onda e menores serão os pedregulhos que ela pode carregar. Como a força das ondas decresce gradativamente, vemos como resultado a gradativa ordem de tamanhos nos pedregulhos. Os pedregulhos não foram espalhados lá por sorteio, ao acaso. Foram selecionados. No entanto, não há intencionalidade nem racionalidade nesta seleção. O agente selecionador (a força das ondas) não precisa de inteligência.

Nenhum organismo vivo é alheio ao que lhe cerca. Todos interagem com o ambiente onde vivem, com outros integrantes de sua família, grupo, população ou espécie, com outros seres vivos, sejam eles predadores, presas, hospedeiros, parasitas simbiontes, alimento, decompositores. Enfim, sua vida afeta tudo ao seu redor e por tudo é afetada. Da mesma forma que os pedregulhos são afetados pelas ondas (entre outros fatores), os fatores que afetam um determinado ser vido podem agir sozinhos ou em conjunto, como agentes selecionadores, ou o que o jargão biológico chamaria de “pressões seletivas”.

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e doutor em Genética e Evolução. Atualmente é professor da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.

 


 

Como citar esse documento:

Pazza, R. (2011). Seleção x Sorteio. Folha Biológica 2 (1): 2