Entendendo a Anencefalia.

Rubens Pazza

 

A Constituição Federal é a lei máxima de nosso país. Nela está escrito que o aborto é permitido no Brasil em duas situações: em caso de risco de vida para a mãe e em casos de gravidez em decorrência de estupro (que é um crime hediondo).

No dia 12 de Abril de 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a antecipção do parto de feto comprovadamente portador de anencefalia não é crime.

O que isto significa? Estaria o STF legitimando o aborto em uma forma que não está prevista na Constituição Federal?

Vamos esclarecer alguns detalhes e depois você mesmo pode chegar a uma conclusão.

Em primeiro lugar, o que é anencefalia? Todo o Sistema Nervoso Central se desenvolve no primeiro mês de gestação em uma forma chamada de tubo neural. Do fechamento deste tubo neural desenvolve-se o encéfalo e a caixa craniana. O encéfalo apresenta várias estruturas, incluindo o cérebro.

A anencefalia é uma má formação do tubo neural onde não acontece o fechamento do mesmo. Em decorrência disso, o cérebro e da caixa craniana não se desenvolvem, restando apenas o tronco cerebral, que é responsável pela manutenção das funções vitais. Entre estas funções estão a respiração, por exemplo.

Assim, a sobrevivência do anencéfalo pode variar de algumas horas até alguns dias. Há casos esporádicos em que o bebê sobrevive mais tempo por apresentar pequenas variações da doença, como a merocefalia, onde uma pequena parte do cérebro se desenvolve com sua membrana de proteção, permitindo uma sobrevivência por um tempo mais elevado.

De qualquer forma, este bebê terá apenas as funções vitais básicas, sem ver, ouvir, sentir frio ou calor ou mesmo um toque, e muito menos ter consciência – todas essas funções do cérebro. Em alguns casos, o pouco tempo de sobrevida depende de máquinas para respiração.

Tecnicamente, o anencéfalo é um natimorto cerebral e não difere de uma pessoa adulta que, por ocasião de um acidente, por exemplo, tenha morte cerebral – caso em que é possível que sejam retirados seus órgãos para doação e o desligamento dos aparelhos.

A anencefalia pode ser eficientemente diagnosticada por ultrassonografia a partir da 12ª semana de gestação e não há forma de tratamento. Estima-se que no Brasil aconteça um caso de anencefalia a cada 1000 nascimentos, ou seja, em torno de 3000 casos por ano.

 

Entendendo a Anencefalia

 

Não há uma causa exata para a anencefalia, mas uma das mais prováveis é a deficiência de ácido fólico. Por isso, mulheres que desejam ter filhos são incentivadas a tomar um suplemento de ácido fólico três meses antes da gravidez e até pelo menos o fim do primeiro mês de gestação. Outras associações observadas relacionam a ocorrência de anencefalia em mães diabéticas, muito jovens ou com idade avançada. É comum pensar que alterações no feto não implicam em consequências para a gravidez. Entretanto, fetos anencéfalos apresentam pouco reflexo de deglutição, ou seja, a capacidade de perceber que devem engolir o líquido amniótico.

Com o desenvolvimento, o feto normal vai engolindo o líquido amniótico e, com isso, diminuindo a pressão intrauterina. O aumento da pressão intrauterina em decorrência do excesso de líquido amniótico da gravidez de feto anencéfalo pode causar hemorragia e comprometer a saúde da mulher.

Além disso, é o crânio que desencadeia o reflexo do parto, necessário não somente para que o parto aconteça, mas também para que todo o organismo da mulher retorne ao seu estado original.

Somando-se o fato de que apresentam ombros mais largos, fetos anencéfalos só podem nascer através de cirurgias cesarianas, o que não deixa de ser uma cirurgia que pode ter complicações, e que acaba deixando a mulher em recuperação pós-cirúrgica no hospital.

Todas estas questões precisam ser explicadas para a mulher que teve o diagnóstico de feto anencéfalo.

Antes desta decisão do STF, a mulher precisava entrar na justiça e aguardar a decisão judicial para antecipar o parto de um feto anencéfalo. Esta decisão em geral demora pelo menos 15 dias, mas há casos em que a decisão só foi dada após o nascimento e morte do anencéfalo. Muitas mulheres que passaram pela situação relatam o tempo de espera como uma tortura psicológica.

Com a decisão do STF, mulheres que recebem este diagnóstico podem optar por manter a gravidez, avaliando o prognóstico devidamente explicado. Entretanto, caso ela queira, ela pode optar por realizar o chamado parto antecipado do feto anencéfalo.

Ou seja, ninguém será obrigado a antecipar o parto de um feto anencéfalo, mas quem optar por fazê-lo, não responderá criminalmente por essa escolha.

O mais importante é esclarecer todos os detalhes à gestante e permitir que ela faça a escolha entre manter a gravidez ou antecipar o parto.

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e doutor em Genética e Evolução. Atualmente é professor da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba, e atua na área de Genético Ecológica e Evolutiva.


 

Como citar esse documento:

Pazza, R. (2012). Entendendo a Anencefalia. Folha Biológica 3 (Edição Especial 3-6): 1

Extraterrestres de um ponto de vista biológico.

Dênis Glauber da Silva Reis

 

A existência de vida extraterrestre é uma hipótese a ser considerada a partir de um ponto de vista biológico e muitos estudos têm sido realizados procurando respostas, dentro e fora de nosso planeta. Será que algum dia terão uma resposta para a pergunta: “Estamos sozinhos no universo ou não?”

O que a maioria dos cientistas que estudam a exobiologia concorda é que a existência de água tenha sido uma condição fundamental para o surgimento e para a manutenção da vida em nosso planeta.

A partir disso, muitos esforços já foram feitos a fim de se detectar corpos celestes que contenham esta molécula e possivelmente vida dentro destes. Ao todo já foram identificados 340 exoplanetas, sendo que 30 destes situam-se em regiões chamadas de zonas habitáveis.

Essas regiões são definidas como as distâncias máximas e mínimas de um planeta em relação à estrela que orbitam e nas quais a temperatura e a iluminação permitem a existência de água no estado líquido. Em nosso sistema solar os principais candidatos para abrigar uma possível forma de vida, devido ao fato de possuírem água são: Marte, Europa (uma lua de Júpiter), Titã e Encélado (luas de Saturno).

Abaixo do solo marciano existe gelo em abundância similar ao permafrost (solo terrestre que jamais descongela). Se microorganismos que se multiplicam no gelo já foram detectados na Antártida, seria razoável admitir que eles possam igualmente habitar o gelo marciano.

 

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O gás metano na atmosfera deste planeta também sugere a presença de microorganismos, já que na terra a liberação deste gás só ocorre pela atividade biológica ou por atividade vulcânica.

A baixa pressão exercida pela rarefeita atmosfera marciana, aliada a altas concentrações de sais e de peróxido de hidrogênio (água oxigenada), permite que a água exista sob a forma líquida em Marte, uma vez que essa mistura atrapalha o congelamento da água, mesmo aos 56ºC negativos de temperatura do planeta. No entanto, a falta de um escudo protetor atmosférico faz com que a quantidade de radiação ultravioleta solar seja altíssima na superfície do solo deste planeta. Consequentemente, quaisquer indícios de organismos viventes estariam no subsolo.

Em Europa existe uma superfície de gelo que varia de 5 a 30 km de espessura, bem como um oceano líquido de aproximadamente 100 km abaixo desta camada gelo. Esse satélite jupteriano é considerado um local propício para algumas formas particulares de vida, pois o fundo de seu oceano poderia abrigar microrganismos associados à fumarolas hidrotermais, similares às existentes no lago Vostok na Antártida.

Recentemente, em Encélado, a sonda Cassini revelou que esta lua também é um potencial local para abrigar vida. Esta sonda detectou partículas e grandes jatos de vapor d’ água a partir da crosta, sugerindo a existência de água líquida abaixo de sua superfície.

Outro ponto importante a ser considerado é o fato de que todo o organismo de nosso planeta tem como base os ácidos nucléicos DNA e RNA. Poderiam existir formas de vida que não se baseassem em tais moléculas?

Um grupo de cientistas do Instituto de Astrobiologia da NASA encontrou uma bactéria, a Gamaproteobactéria GFAJ-I da família das Halomadáceas, uma extremófila, especializada em sobreviver no hostil ambiente hipersalino do lago Mono entre os estados da Califórnia e Nevada. Segundo eles, esta bactéria empregaria arsênico no lugar do fósforo em suas moléculas. O fósforo é um elo chave no esqueleto dos ácidos nucléicos, e existe a possibilidade de esta ser uma forma de vida que possui uma maneira diferente de “armazenar sua informação genética”.

Embora não chegue a ser vida extraterrestre, caso tal hipótese se confirme, teríamos uma expansão da abrangência do fenômeno da vida e do que podemos especular sobre possíveis formas de vida extraterrestre.

Outra forma encontrada pelos cientistas de buscar por formas de vida no espaço é procurando sinais que indiquem a presença de seres capazes de realizar fotossíntese; este é um processo tão bem sucedido que funciona como base de boa parte da vida em nosso planeta.

A fotossíntese surgiu há 3,4 bilhões de anos, com as bactérias fotossintetizantes; elas absorviam luz do infravermelho próximo em vez de luz visível e produziam enxofre e compostos sulfúricos em vez de oxigênio; ela é um processo muito particular que poderia produzir bioassinaturas. As bioassinaturas fotossintéticas poderiam ser de vários tipos; características como a presença de oxigênio, água, ozônio, metano e oxigênio, ciclos sazonais de metano Cloreto de metila, óxido nitroso ou cores da superfície que indiquem a presença de pigmentos especializados como clorofila verde. Em nosso planeta existem organismos adaptados as mais diversas condições de luminosidade ambiental; existem seres adaptados a condições de alta e baixa luminosidade, bem como criaturas aquáticas que se adaptaram a luz filtrada pela água.

Apesar alguns organismos viverem do calor e do metano em fontes hidrotermais, todos os ricos ecossistemas da superfície do planeta dependem da luz solar.

E se existisse vida extraterrestre, qual a probabilidade de encontrarmos seres iguais a nós? E qual a probabilidade de encontrarmos seres que possuam inteligência?

Mesmo que a vida se desenvolva em outros sistemas solares, a chance de encontra-la em um estágio reconhecidamente humano é mínima. Embora sem muita razão, tende-se a ver a inteligência como uma consequência inevitável da evolução. Porem não está claro que a inteligência possui um grande valor de sobrevivência. As bactérias se defendem muito bem sem inteligência, se adaptaram aos mais diversos ambientes e sobreviveriam em nosso planeta caso nos extinguíssemos.

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Dênis Glauber da Silva Reis é acadêmico do curso de Agronomia da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba, e foi bolsista de Iniciação Científica do CNPq.


 

Como citar esse documento:

Reis, D.G.S. (2012). Extraterrestres de um ponto de visto biológico. Folha biológica 3. (Edição Especial 3-6): 2

Novo Código Florestal : dilema entre produção e preservação.

 Sandro Ezequiel

 

O Código Florestal brasileiro é um conjunto de normas que definem os critérios de proteção ambiental e uso sustentável dos recursos florestais.

O último código foi promulgado em 1965. A atualização dessa lei é importante frente aos novos dilemas ambientais.

No ano de 2011, a proposta de atualização avançou no Congresso Nacional, onde ocorrem vários debates entre ruralistas e ambientalistas. Os meios de comunicação e os movimentos soci-ais se mobilizaram para apresentar à sociedade as novas propostas que somente recentemente tiveram a aprovação definitiva.

 

Áreas de Preservação Permanentes

 

Dentre as normas dispostas no Código Florestal estão as Áreas de Preservação Permanente, as chamadas (APP´s), que protegem topos de morros, veredas e nascentes.

As APP´s são fundamentais para conservar e proteger as áreas de recarga das nascentes, aumentando a infiltração da água no solo. Elas ainda garantem a qualidade das águas, mantendo a perenidade dos rios, de modo a diminuir o assoreamento e evitar grandes enchentes. Essas áreas devem ser conservadas com vegetação nativa.

 

Reserva Legal

 

Outro termo disposto no código é a área de Reserva Legal (RL), que é uma área dentro da propriedade destinada a preservação da flora e da fauna.

Cada propriedade tem que possuir no mínimo 20% de área destinada a RL. Esse percentual aumenta de acordo o bioma onde se localiza a propriedade.

 

Crescimento x produção de alimento

 

A população do planeta ultrapassou 7 bilhões e continua crescendo. Logo, é necessário aumentar a produção de alimentos, e isso pode ser feito sem derrubar mais nenhuma árvore, apenas recuperando as áreas degradadas e aumentando a produção em áreas já cultivadas.

Os produtores rurais não são inimigos do meio ambiente, pois precisam dele para plantar e colher.

É necessário promover a conscientização do setor agrícola para a aplicação de práticas sustentáveis de manejo dos solos, do uso racional de defensivos agrícolas, promoção e incentivo das técnicas de rotação de culturas e plantio direto, para assim produzir alimentos de qualidade, com práticas que minimizam as intervenções na natureza.

Mais que um código focado apenas nas florestas e no meio rural, é necessário haver no Brasil uma legislação que contemple a proteção e o uso racional de todos os recursos naturais, levando em conta também a regulação das atividades industriais e urbanas como, por exemplo, a obrigatoriedade das “ETE´s” (Estações de Tratamento de Esgoto) que são fundamentais para preservar a vida e manter a qualidade da água nos rios.

Faça do meio ambiente o seu meio de vida!

 

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Legenda:
● 1 – APP em topo de morro
● 2 – APP nas margens do rio
● 3 – Área de Reserva Legal
● 4 – Área de produção

 

Sandro Ezequiel é técnico em Meio Ambiente e acadêmico do curso de Agronomia da Universidade Federal de Viçosa, cam-pus de Rio Paranaíba. Escreve um blog sobre o assunto: www.alerta-ambiental.blogspot.com


 

Como citar esse documento:

Ezequiel, S. (2012).  Novo Código Florestal: dilema entre produção e preservação. Folha biológica 3 (3-6): 4

 

Mariposas causando alvoroço?

Rubens Pazza.

As mariposas salpicadas Biston betularia representam talvez a mais bem conhecida estória na biologia evolutiva. Antes da revolução industrial na Grã Bretanha, a forma mais observada destas mariposas era a clara, salpicada. A forma melânica, escura, foi identificada pela primeira vez em 1848, perto de Manchester, e aumentou em frequência até constituir mais de 90% da população de áreas poluídas em meados do século 20. Em áreas despoluídas, a forma clara ainda era comum. A partir dos anos 1970, entretanto, em decorrência de práticas conservacionistas e consequente diminuição da poluição, a frequência das formas melânicas diminuiu drasticamente, de cerca de 95% até menos de 10% em meados dos anos 90.

Desde 1890, vários trabalhos tentam explicar os fenômenos envolvidos no aumento da frequência da forma melânica, como efeito da cor sobre a eficiência térmica, indução das formas melânicas por efeitos diretos da poluição, entre outros diversos fatores atuando sozinhos ou em conjunto.  Em meados dos anos 50, Kettlewell explicou a mudança na frequência pela ação da caça visual por pássaros. A forma melânica ficava melhor camuflada no tronco de árvores em regiões poluídas, onde a fuligem matou o líquen. Por outro lado, as mariposas salpicadas ficavam melhor camufladas em áreas despoluídas.

Alguns autores, entretanto, afirmam que estas mariposas raramente permanecem no tronco das árvores durante o dia, preferindo regiões mais altas e protegidas.  Recentemente, experimentos simulando a visão dos pássaros demonstraram que os liquens efetivamente promovem uma boa camuflagem para as formas salpicadas. Alguns estudos identificaram um aumento na quantidade destes liquens bem como na frequência de formas claras das mariposas, embora a correlação com a diminuição da poluição ainda não possa ser esclarecida.

Apesar de inúmeros trabalhos demonstrarem que os estudos com a Biston são demonstrações da seleção natural, além de boas experimentações de campo, nos últimos anos alguns autores têm levantado suspeitas sobre os experimentos anteriores e Sargent, em 1998, atribui expressões de dúvida a quase todos os trabalhos passados.  Além disso, um livro lançado há alguns anos, de Janet Hooper, “Of Moths and Men”, acrescenta mais detalhes, concernentes ao convívio de Bernard Kettlewell e o grupo de estudo de E. B. Ford, abrindo margens para más interpretações e desentendimentos. Estes artigos são base para uma série de acusações infundadas. Um extremista antievolucionista, R. Mathews, classificou o exemplo da seleção natural da Biston como sendo uma “asneira científica”. É bom deixar claro que ele não é cientista.

Michael Majerus, um reconhecido pesquisador, autor do livro “Melanism, Evolution in Action”, comenta em um artigo de 2003 sobre as falhas contidas no livro de Hooper e suas acusações feitas a dois pesquisadores falecidos que não podem se defender. Majerus afirma que Hooper se julga capaz de fazer uma crítica mais convincente sobre o tema do que um grupo de pesquisadores geneticistas e entomólogos que passaram a vida estudando as mariposas. Um estudo de L. M. Cook conclui que no melanismo industrial de Biston betularia, tanto o aumento original e a recente diminuição na frequência das formas melânicas são notáveis exemplos de mudança genética natural, intimamente relacionada com a mudança do meio ambiente.

Como evolução é definida pela mudança na frequência das características herdadas ao longo do tempo, e a frequência da forma melânica da mariposa Biston betularia (cujos padrões de coloração são regidos por leis da Genética Mendeliana) aumentou e agora diminuiu em decorrência das leis antipoluição, isto é prova de evolução. Além disso, a velocidade e direção das mudanças podem ser explicadas apenas através da seleção natural, sendo assim, prova da evolução Darwiniana.

Mariposas Causando alvoroço

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e doutor em Genética e Evolução. Atualmente é professor da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba, e atua na área de Genético Ecológica e Evolutiva.


 

Como citar esse documento:

Pazza, R. (2012). Mariposas causando alvoroço? Folha biológica 3 (2):4

Os Peixes de Minas Gerais

Willian Lopes Silva

Patrícia Giongo

Wagner M. S. Sampaio

A América do Sul possui a mais rica fauna de peixes do mundo, e isso se deve ao fato de ela possuir os maiores sistemas fluviais. O Brasil, apresentando a maior parte desses sistemas, incorpora uma parcela significativa dessa biodiversidade. O nosso país concentra 20% de todas as espécies de peixes descritas no mundo, o que equivale, aproximadamente, a 3.000 espécies. Este número é subestimado e podem chegar até 8.000, segundo alguns especialistas. O mais importante é que uma parcela muito significativa dessa fauna é considerada endêmica, isto é, ocorre apenas em um lugar (no nosso país, neste caso). O estado de Minas Gerais apresenta aproximadamente 12% das espécies que ocorrem no Brasil.

 

Os Peixes de Minas Gerais

O assoreamento dos rios é um dos principais problemas no Estado de Minas Gerais, e falta de Mata Ripária ou Ciliar está diretamente ligada esse fenômeno.

Podemos destacar sete das 15 bacias mineiras em termos de riqueza: A bacia do rio São Francisco com 173 espécies, do rio Paranaíba com 103, do rio Grande com 88, do rio Doce com 64, do rio Paraíba do Sul com 55, do rio Mucuri com 51 e do rio Jequitinhonha com 35. As famílias de peixes com maior número de espécies descritas para Minas Gerais são a Loricariidae (sendo representada pelos populares cascudos), a Rivulidae (que possui os peixes temporários) e Characidae (que englobam os lambaris ou piabas), muitas das quais encontram-se em perigo de extinção. As principais ameaças aos peixes de Minas Gerais são a poluição, o assoreamento, o desmatamento, a mineração, a introdução de espécies exóticas, a pesca predatória e a construção de hidrelétricas.  Minas Gerais tem sido foco de usinas hidrelétricas nos últimos 50 anos, e atualmente estima-se em 600 o número de barragens para produção de energia no Estado. O principal foco dos impactos ambientais em rios barrados se direciona aos peixes comerciais que normalmente são as espécies migradoras. Como estes peixes de importância econômica, acabam sendo usados como espécies bandeiras (as que representam os esforços de preservação de determinada área), porém esse procedimento tem contribuído para o declínio de peixes nativos de pequeno porte que também requerem ambientes de cachoeiras ou com correnteza, mas não necessariamente realizam grandes migrações ou apresentam importância econômica. A introdução de espécies exóticas ocorre em todas as bacias mineiras e essa prática ameaça à diversidade de peixes. A aquicultura e os programas de peixamento (introdução de alevinos em rios e represas) são as principais fontes de introdução de espécies, práticas que não estão sendo fiscalizadas e coordenadas com a atenção necessária. Colocar uma espécie exótica (que não pertence naturalmente à bacia) em um sistema hídrico pode trazer sérias consequências ao equilíbrio ambiental. Atualmente existem 63 espécies de peixes introduzidas em Minas Gerais. A bacia com maior número de peixes exóticos é a do Paraíba do Sul com 41 espécies, seguida da bacia do rio Doce com 30 espécies e depois as bacias do Paranaíba e Grande com 20 espécies. O grande número de espécies exóticas na bacia do rio Paraíba do Sul está relacionada ao polo de criação de peixes ornamentais no rio Muriaé, o maior do continente. O Estado de Minas Gerais apresenta-se como uma das regiões chave para entendermos a fauna aquática Sul Americana e para traçamos modelos estratégicos de conservação da biodiversidade. Os motivos para essa consideração são:

  • Sua posição geográfica que incorpora alguns dos mais importantes domínios geohidrológicos onde se encontram os dois principais hotspots do continente (Cerrado e a Mata Atlântica);
  • Englobar a maior parte das bacias brasileiras, exceto a bacia Amazônica.

Estudos recentes levantaram áreas prioritárias de água doce para conservação da biodiversidade, considerando desde níveis de endemismo, estado de conservação do habitat e níveis de proteção desse habitat. A maioria dos peixes com áreas prioritárias de conservação se encontram dentro dos biomas do Cerrado e da Mata Atlântica.  O Brasil possui atualmente 819 espécies com área de vida restrita. Isto é, espécies que vivem em locais de ampla perda de habitat e que podem sofrer extinção se nenhuma medida de conservação for tomada. Dentre as regiões que englobam as bacias mineiras destacam-se a bacia do Paraná, Atlântico Sudeste e do São Francisco com 78%, 37% e 30% respectivamente das espécies com área de vida restrita.  Os problemas para a conservação da ictiofauna de Minas Gerais estão ligados a problemas desde socioeconômicos e políticos, como a questão da conservação de matas ripárias tão desvalorizadas no Projeto do Novo Código Florestal Brasileiro, até os processos de divulgação de inventários e das reais condições da fauna de peixe e das bacias hidrográficas pelas empresas que solicitam estudos e relatórios de impactos ambientais, pois estão atrelados aos licenciamentos do novo modelo energético brasileiro.  Outra questão é a falta de estratégias específicas para a conservação da fauna de peixes. Ictiólogos apontam que talvez a solução fosse pensar em estratégias direcionadas para as microbacias ou microrregiões, a criação de comissões interinstitucionais de cientistas para gerenciar a dinâmica em ambientes de água doce. Assim teríamos maiores condições de concentrar esforços em locais prioritários como riachos de cabeceiras, veredas e córregos intermitentes, conservando importantes sítios de manutenção da diversidade das grandes bacias. A verdade é que precisamos mudar nossas direções para o combate da perda de água doce e começar a pensar na dinâmica do ecossistema como um todo, mitigando os efeitos das influências antrópicas nas assembleias de peixes e na comunidade.

Willian Lopes Silva é acadêmico do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba, e bolsista do Programa de Iniciação à Extensão-PIBEX.

Patrícia Giongo é bióloga, mestranda em Biologia Animal pela Universidade Federal de Viçosa, e atua na área de Ictiologia.

Wagner M. S. Sampaio é biólogo e mestre em Biologia Animal pela Universidade Federal de Viçosa, e atua na área de Ictiologia.


 

Como citar esse documento:

Silva, W.L; Giongo, P; Sampaio, W.M.S. (2012). Os Peixes de Minas Gerais. Folha biológica 3 (1):2

A Ciência da Genômica Nutricional

Sabrina Alves da Silva

 

Um gene é definido como uma sequência de DNA que contém a informação necessária para sintetizar uma molécula de RNA mensageiro, que por sua vez, irá dirigir a síntese de uma proteína; este processo é denominado expressão gênica. Existem vários meios de regular esse processo, garantindo que as proteínas sejam sintetizadas quando e o quanto forem necessárias para cada parte do corpo e esses meios estão relacionados a vários fatores, como a adaptação celular, variação do ambiente, diferenciação celular e desenvolvimento do organismo.  Algumas bactérias, por exemplo, modificam a expressão dos genes quando há presença de lactose no meio, induzindo, assim, a síntese de proteínas ligadas ao metabolismo da lactose; este processo é conhecido como Operon da lactose.  A partir destas informações, alguns cientistas se perguntaram se os nutrientes provindos da dieta poderiam ter algum efeito semelhante a esse no organismo humano. Desta dúvida surgiu um novo campo de estudo, a genômica nutricional.

 

A Ciência da Genômica Nutricional

Um questionamento recente da genômica nutricional, ciência que estuda as interações entre a nutrição e o genoma humano, é entender como os genes interagem com os nutrientes provindos da alimentação, modificando o metabolismo celular, e como os nutrientes podem regular a expressão gênica.  A nutrigenética e a nutrigenômica surgem como alternativas para se estudar e entender como funcionam os efeitos dos nutrientes em nível molecular e qual sua importância na expressão gênica.  A nutrigenômica é um ramo da genômica nutricional que estuda como os nutrientes podem influenciar na expressão dos genes e tem como objetivos identificar componentes da dieta que possam contribuir à saúde mediante a alteração da expressão dos genes. Também procura identificar genes que possam influenciar no risco de doenças relacionadas à dieta, e qual a repercussão de alterações gênicas (mutações) em processos como o metabolismo e a inflamação.  A nutrigenética é outro ramo da genômica nutricional, que estuda os genes e o modo como eles reagem quando submetidos a uma determinada dieta; também analisa as variações genéticas entre indivíduos e suas respostas clínicas a nutrientes específicos, observando como indivíduos respondem de maneiras diferentes quando submetidos a uma mesma dieta.

O conhecimento da nutrigenética permite estabelecer, de forma absolutamente personalizada, o melhor e mais eficaz plano alimentar e nutricional, com base no perfil nutrigenético de cada pessoa, uma vez que cada ser é único do ponto de vista genético (exceto pelos gêmeos idênticos, que compartilham o mesmo genoma). Este tipo de análise já está disponível em alguns laboratórios e pode ser uma alternativa de tratamento para pessoas que apresentam histórico familiar de doenças cardiovasculares, demências e doença de Alzheimer, osteoporose, obesidade e perturbações associadas ao envelhecimento precoce, além de proporcionar uma melhor qualidade de vida e a possibilidade de prevenção a doenças em longo prazo.

 

Sabrina Alves da Silva é acadêmica do curso de Ciências de Alimentos da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba, e foi bolsista de Iniciação Científica pela FAPEMIG.


 

Como citar esse documento:

Silva, S.A. (2012). A Ciência da Genômica Nutricional. Folha biológica 3 (2):1

Macroinvertebrados aquáticos

Nilcilene de F. Resende Souza

Quem são e qual a sua importância? 

Alterações antrópicas (produzidas pelo homem) podem resultar na perda da biodiversidade e consequentemente, na alteração da estrutura das comunidades biológicas, sendo estas bem notáveis nas comunidades aquáticas. A comunidade de invertebrados bentônicos está representada por uma grande variedade de organismos, com indivíduos de vários filos que vivem, pelo menos parte de sua vida, no fundo dos ecossistemas aquáticos. Dentre estes estão os insetos que tem se destacado tanto na riqueza como na abundância de espécies e vem amplamente sendo utilizados em estudos de monitoramento e avaliação da qualidade da água. Algumas vantagens da utilização dos destes organismos com bioindicadores da qualidade da água estão relacionadas com o ciclo de vida longo (quando comparado a outros organismos aquáticos), tamanho do corpo (relativamente grande), baixa mobilidade, fácil amostragem e de baixo custo, identificação taxonômica relativamente simples.

Além disso, estes organismos podem ser utilizados em experimentos de campo e laboratório, e podem acumular poluentes, dentre outras. Os macroinvertebrados bentônicos diferem entre si em relação à poluição orgânica, podendo ser sensíveis e intolerantes, tolerantes ou resistentes. Via de regra, se há organismos mais intolerantes ou sensíveis em dado ambiente, este pode ser considerado menos impactado. Ambientes em só são observados organismos tolerantes à poluição, ou apenas as formas mais resistentes costumam ser mais impactados.

Portanto, diante da importância da comunidade aquática no biomonitoramento ambiental, avaliação de impacto ambiental, identificação de áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade e recuperação e manejo de áreas degradadas, torna-se necessária à preservação e conservação dos ecossistemas de água doce e consequentemente dos organismos aquáticos que neles vivem.

 

Macroinvertebrados aquáticos (nilcilene)

 

 

Nilcilene de F. Resende Souza é bióloga e mestre em Biologia Animal pela Universidade Federal de Viçosa. Atua na área de entomologia.


 

Como citar esse documento:

Souza, N.D.R. (2012). Macroinvertebrados aquáticos. Folha biológica 3. (1): 2

 

Extinções: ciclos de vida e morte

Pierre Rafael Penteado.

 

Você com certeza já leu ou ouviu “… espécie está em risco de extinção…”, não é mesmo? 

 

Quando todos os indivíduos de uma espécie morrem, podemos dizer que ela está extinta. É um processo natural, esperado de acordo com a teoria da evolução biológica, uma vez que os organismos competem por recursos limitados na natureza. Desse modo, as populações adaptam-se ao longo de gerações, migram ou acabam se extinguindo.  E o que é extinção em massa? Também conhecido como evento de extinção, acontecem quando o ambiente em que os organismos vivem muda bruscamente, em um curto intervalo de tempo, impedindo a adaptação dos mesmos. Alguns cientistas se referem às extinções em massa como um reset da evolução biológica.  De certo modo, podemos dizer que é isso, já que as espécies extintas deixam um ambiente para ser explorado por outras espécies. Também é notável o fato de que existiram muito mais espécies (e que foram extintas) do que o total de espécies atual. Durante toda a história da vida no planeta Terra, a biodiversidade do planeta já sofreu cinco eventos de extinção!

Permiano-Triássico.

Há aproximadamente 250 milhões de anos, cerca de 60% de todos os gêneros (categoria taxonômica que pode agrupar uma ou várias espécies) viventes da foram extintos. Entre eles, estavam os trilobitas (artrópodes bastante diversificados), euriptéridos (escorpiões-marinhos) entre vários grupos que não perderam todas as espécies.  Esse evento é conhecido como a grande extinção do Permiano-Triássico. Mas o que poderia ter causado tamanho efeito na biodiversidade do período?  Após várias hipóteses e estudos, cientistas propuseram que não foi uma causa única: primeiramente, erupções vulcânicas gigantescas, com mais de 2 milhões de Km² num intervalo de milhares de anos, localizadas na Sibéria, Rússia, elevaram a temperatura média do planeta em  aproximadamente 5°C, graças ao efeito estufa causado pelo CO2 liberado. Em seguida, o calor liberou uma grande quantidade de metano armazenada no fundo dos oceanos. Assim, o metano também contribuiu no aumento do efeito estufa, elevando a temperatura média global a 10°C no total. O efeito sobre os organismos produtores nos oceanos foi devastador, e toda a teia alimentar sofreu com isso.

Fim do Cretáceo.

Depois de se recuperar, outras extinções abalaram a biodiversidade da Terra. Os dinossauros, por exemplo, dominaram o meio terrestre do planeta por mais de 130 milhões de anos, até serem extintos no final período Cretáceo, há 65 milhões de anos.  A hipótese mais aceita até o momento para explicar essa extinção é a colisão de um asteroide (10 Km de diâmetro) com a Terra, na península de Yucatán, no México. O impacto teria levantado poeira suficiente para prejudicar a absorção da luz solar pelas plantas, comprometendo parte da teia alimentar, incluindo os dinossauros.  Entretanto, vários grupos conseguiram sobreviver, incluindo os ancestrais das aves, e os nossos obviamente.

 

Extinções ciclos de vida e morte  (PIERRE)

 

Atualmente, fala-se sobre o que seria a 6ª extinção em massa do planeta, com o desaparecimento de inúmeras espécies, causada pelo homem. Mas isso é assunto para outra ocasião.

 

Pierre Rafael Penteado é biólogo e mestre em Biologia Animal pela UFV. Atualmente é professor temporário na Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba. Atua na área de genética animal.


 

Como citar esse documento:

Penteado, P.R. (2012). Extinções: ciclos de vida e morte. Folha biológica 3. (1): 3

 

Entre cobras, sapos e lagartos… E milhões de anos de evolução!

 Rodrigo de Mello

 

Certa vez, depois de dizer que participaria de um congresso de herpetologia, minhas sobrinhas – Ana Carolina e Maria Fernanda, de 11 e 8 anos – me perguntaram o que era isso. Logo depois de explicar que tal evento é uma reunião entre pessoas que estudam anfíbios e répteis, detalhando que o primeiro grupo abriga todos os sapos, rãs e pererecas, e o segundo, todos os lagartos, crocodilos, cobras e tartarugas, ouvi: “credo… cobras, sapos e lagartos!”, combinado com os rostos com feições de nojo das meninas. A reação – ou opinião— da Carol e da Fernanda é bem comum; As pessoas geralmente propagam uma imagem asquerosa, perigosa ou maléfica desses animais em desenhos animados, filmes ou lendas. Entretanto, quando vemos esses animais estudados pela herpetologia de outro prisma, começamos a ver quão interessantes eles são começando pela sua história evolutiva.

O surgimento dos primeiros anfíbios e répteis aconteceu entre 300 a 400 milhões de anos atrás, quando a Terra ainda tinha seus continentes diferentes da conformação atual; eles aparecem simultaneamente com inovações evolutivas únicas para a conquista do ambiente terrestre – um lugar até então inexplorado por qualquer vertebrado. Desde então, a herpetofauna se tornou extraordinariamente rica e diversificada, representando porção significativa da fauna de vertebrados, particularmente em ambientes áridos e tropicais, onde são os vertebrados mais abundantes. No mundo todo, são mais de 6.700 espécies de anfíbios e mais de 9.500 espécies de répteis; só no Brasil o número de anfíbios e répteis catalogados está em torno de 900 e 750 espécies, respectivamente.  Esses animais desempenham importantes funções ecológicas na natureza, predadores de vários organismos. Sapos, rãs, pererecas e lagartos se alimentam de vários insetos e aranhas, são toneladas de insetos predadas todo ano; Imagine como seria a quantidade de insetos sem esses predadores! Muitas cobras predam ratos, animais associados à transmissão de algumas doenças e, por vezes, pragas de lavouras. Seus venenos produzem vacinas e salvam mais vidas humanas do que matam ou deixam sequelas, já que cobras só picam pessoas quando se veem ameaçadas por elas. Além disso, anfíbios e répteis também servem de alimento para vários animais como aves e mamíferos.

Portanto, sapos, cobras e lagartos são mais do que ingredientes em poções de bruxas malvadas das histórias ou criaturas que causam asco. Esses fascinantes animais que a herpetologia estuda, além de terem um papel ecológico e evolutivo crucial nos ecossistemas onde vivem, foram (e ainda tem sido!) fundamentais no desenvolvimento de disciplinas como Evolução, Biogeografia, Fisiologia, Ecologia, Conservação, entre outras, já que são ótimos modelos de estudo para o desenvolvimento de pesquisas. Assim, quando olhamos para anfíbios e répteis dessa forma, fica mais fácil compreender as palavras do poeta que diz que “a natureza é o único livro que oferece um conteúdo valioso em todas as suas páginas”

Entre cobras, sapos e lagartos... E milhões de anos de evolução!   (rodrigo)

Rodrigo de Mello é biólogo, mestre em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais, e  doutorando em Ecologia e Evolução pela Universidade Federal de Goiás. Atua na área de filogeografia animal.


 

Como citar esse documento:

Mello, R. (2012). Entre cobras, sapos e lagartos… E milhões de anos de evolução! Folha Biológica 3. (1): 4

A preservação começa com a conscientização

Willian Lopes Silva

 

Quando se trata de Conservação da Biodiversidade, um dos grandes problemas que enfrentamos hoje é encontrar uma forma de mudar o foco do homem, de uma visão exploradora para uma visão de sustentabilidade. A consciência humana precisa ser voltada para o mundo não humano. Assim como compreendemos facilmente que nós o “dominamos” e dele usufruímos para nossa sobrevivência, devemos nos ver como seus protetores. É preciso que nos vejamos como promotores da sustentabilidade, vivendo em harmonia no planeta e sobrevivendo com os recursos que dele precisamos. Hoje, desmatar uma área para plantio, botar fogo em uma pastagem, usar excessiva quantidade de agrotóxicos nas lavouras, jogar dejetos nos rios, não são vistos como um atentado à humanidade. A maioria pensa apenas em lucrar e expandir o mercado, esquecendo que a cobertura vegetal e a biodiversidade animal são uma garantia de vida para seus descendentes.

Ecologicamente falando, apenas uma espécie, seja animal ou vegetal, não consegue se manter viva. Existem as necessárias interações ecológicas, que possibilitam a sobrevivência de um ecossistema inteiro. Apenas nós, e algumas espécies de monoculturas, não garantiremos o futuro do planeta, visto que não é só de alimento que precisamos. Também precisamos de novos remédios, de novas fontes de nutrientes, de tantos recursos quanto podemos imaginar.

É necessária uma mudança de atitude quanto à conservação da biodiversidade. Para conseguir isso, um trabalho forte em conscientização precisa ser feito. Mas a conscientização, para ser eficiente, deve vir acompanhada de propostas realizáveis de sustentabilidade. Enquanto apenas algumas pessoas verem a conservação da biodiversidade como algo importante nada vai mudar. Isso tem de ser postulado em caráter de urgência. E não só os profissionais engajados na conservação da biodiversidade têm a obrigação de falar e fazer. Isso é do interesse de todos, economistas, biólogos, advogados, empresários, religiosos, imprensa, políticos e trabalhadores rurais. Todos vivemos em um só lugar, uma só casa: o planeta Terra.  O homem, por milhares de anos, viveu em harmonia com a natureza, retirando dela o que seria usado para seu sustento e nada mais, além disso. O fato é que a população humana no planeta nesse tempo era minoria e nem se imaginava a possibilidade de nos tornarmos sete bilhões e termos que produzir industrialmente quase tudo o que utilizamos para uma manutenção confortável da vida.

Diante disso, o nosso desafio de viver em harmonia com a natureza se tornou muito maior. E o homem demorou muito tempo para perceber isso. Mas as esperanças não foram perdidas. Grandes empresas estão nos dando exemplos de que isso é possível, aliando uma produção em massa com a sustentabilidade e a preservação da biodiversidade. Pelo menos uma empresa brasileira de cosméticos, por exemplo, oferece produtos com matéria prima proveniente de extração sustentável da Amazônia, além do uso de refis em seus produtos, diminuindo a produção de lixo. Ela promove um trabalho junto à população local, oferecendo emprego e ao mesmo tempo conservando a biodiversidade.  Muitas empresas de celulose exibem com orgulho em seus produtos que todo o material vegetal é proveniente de reflorestamentos. Atitudes como essas são seguidas por muitos outros setores de produção industrial e alimentícia. Grandes latifundiários e pequenos agricultores também se aliaram, fazendo plantios programados através da associação e rotação de cultura, conseguindo assim obter lucro e conservar a natureza ao mesmo tempo.

Já está mais que provado que não é preciso aumentar a área plantada para aumentar a produção de grãos. Temos ferramentas como o melhoramento genético a nosso favor. Portanto, é possível, seguindo estes exemplos, mudarmos nosso modo de agir.  Para conseguirmos preservar o nosso meio ambiente precisamos nos ver dentro dele, como parte dele. Uma grande mudança começa em pequenos atos. Em nossos pequenos atos de cuidar do nosso lixo, de dar preferência a produtos biologicamente corretos, enfim, estamos nos conscientizando, e espalhando uma mensagem. E é o consenso das mais diferentes pessoas da sociedade em prol dessa única causa que irá alavancar todo o mundo.

Mudar esse quadro lastimável é um dever nosso. Este pequeno texto, mesmo sendo uma gota d’água no oceano de informações que temos hoje, não se deixou subjugar, e está tentando contribuir para a busca de um mundo melhor. Contribua você também!

 

Willian Lopes Silva é acadêmico do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba e bolsista do programa de Iniciação à Extensão – PIBEX.


 

Como citar esse documento:

Silva, W.L. (2012). A preservação começa com a conscientização. Folha biológica 3. (1): 1