A ciência na Roma antiga

 

Flávia Fróes de Motta Budant

Quando o assunto é ciência na Antiguidade, é normal que sejamos expostos atextos e dados  enciclopédicos, mais ilustrativosdo que explicativos. Pouco comum é que nos falem de que forma os antigos encaravam o fazer científico, que era o estudo dos mecanismos da Natureza, e de que maneira isso estava inserido no cotidiano e como se relacionava com a cultura local. É claro, podemos falar só  sobre as descobertas de cada povo – quem mediu a Terra primeiro, qual foi o primeiro homem a falar  em átomo –, mas entender como chegaram a elas nos ajuda a compreender como era de verdade a  ciência naquele tempo. Temos a mania de achar que a nossa época é a mais avançada – temos computadores hipervelozes, enviamos sondas espaciais para explorar a vizinhança galáctica e, acima de  tudo, não atribuímos acontecimentos da natureza a entidades sobrenaturais enfurecidas. Somos  evoluídos. No entanto, devemos admitir que os antigos também tinham um raciocínio tão complexo  quanto o nosso, por mais que não dispusessem da mesma tecnologia.

Para fugir do óbvio, vamos falar  de um povo pouco lembrado quando o assunto é ciência: os romanos. É preciso saber que os estudos,  em Roma, não eram conduzidos por qualquer um, e nem mesmo divulgados a todos. O desenvolvimento  cultural se restringia a uma elite, que mandava os filhos estudar com professores  gregos ou na própria Grécia. Como dizia o poeta Horácio, apesar de os romanos terem conquistado os  gregos, eram os helênicos que os mantinham cativos através da influência cultural.

Adiante, saibamos que, na antiguidade, investigar a Natureza era papel dos filósofos. Muitos textos que  hoje conhecemos por científicos são, na realidade, obras que pertencem a estoicos, epicuristas etc.      Vamos abordar a relação da Natureza com três grandes áreas do conhecimento romano: o Direito, a  retórica e a ética.

Cícero, um dos maiores escritores latinos, nos informa que os estudos naturais estavam bastante ligados ao modo como Roma era administrada através das leis. Lex est ratio summa  insita in natura quae iubet ea quae facienda sunt prohibitque contraria – a lei é a maior razão,  implantada na natureza, que manda as coisas que devem ser feitas e proíbe as contrárias. A natura  legitima a organização social pois esta também provém da ordem cósmica. E, assim como as regras cívicas são naturais, a própria Natureza tem suas leis. Lucrécio, que escreveu uma obra de divulgação  científica epicurista em latim, fala em foedera naturae – estipulações, regularidades que encontramos.  Encontrar simetria no funcionamento do Universo era como ter acesso a verdades encobertas: a partir  de analogias, conexões, sabia-se mais sobre o mundo em que se vivia.

Como espinha dorsal da educação romana, havia a retórica, a arte do discurso, do dizer bem através de manobras da linguagem. Ela  também moldou a forma de compreender a ciência. Sêneca, o filósofo, ao escrever as Questões Naturais,  não poupou construções que visavam conquistar o leitor, ao mesmo tempo em que transmitia informações a respeito dos rios, das estrelas etc. Lucrécio, em meio aos    átomos e às explicações físicas, utiliza ideias e argumentos moldados à maneira dos oradores, também    para trazer o leitor para perto de si e de suas teorias.

Quanto à ética, sabe-se que, como a ciência era feita por filósofos (lembremo-nos da grande interdisciplinaridade da Antiguidade), uma das perguntas   que se faziam era se havia – e quais seriam – as correspondências de seus atos no Universo. O poeta  estoico Lucano, em sua obra Farsália, a respeito da guerra civil entre César e Pompeu, aponta em diversos trechos a Natureza se manifestando de modo simétrico às atrocidades humanas: há  tempestades, eclipses, estrelas alterando o próprio curso, espelhando a barbaridade das batalhas.

Os  estudos científicos se relacionam profundamente com a cultura de cada época. Mas, apesar das grandes  diferenças na maneira de encarar a Natureza, é preciso reconhecer que o que fazia um romano olhar  para o céu e encontrar as constelações é o mesmo que nos faz desmontar um rádio velho para ver como  ele é por dentro. A curiosidade é uma constante humana e é o que nos move continuamente. É o que nos  iga tanto aos que já se foram quanto aos que virão: o mesmo fio evolutivo do amor pelo  conhecimento.

Flávia Fróes de Motta Budant é estudante de Graduação em Letras Português – Latim, na  Universidade Federal do Paraná, com ênfase em estudos da poesia latina.


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Budant. F. (2013).  A ciência na Roma antiga. Folha biológica 4: (4) 4

Alelopatia

Luciano Bueno dos Reis

Quando olhamos para um campo ou mata, diferentemente da aparente calma e convívio harmônico entre as plantas e outros componentes dos ecossistemas, grandes batalhas podem estar sendo travadas entre as plantas. Na competição por luz, água e nutrientes, as plantas podem lançar mão de diversas estratégias e armas para sobrepujar suas adversárias.
Dentre essas estratégias, as plantas podem usar um vasto arsenal bioquímico, com substâncias secretadas pelas raízes, volatilizadas pelas folhas ou mesmo resultantes da decomposição de partes mortas do vegetal. Tais compostos podem interferir no crescimento de outras plantas ou mesmo de microrganismos do solo. Essa interferência no crescimento de uma planta sobre a outra, por meio de uma substância química liberada, é conhecida como alelopatia.
Diversas classes de compostos podem agir como substâncias alelopáticas. Contudo,
o modo de ação de cada substância muitas vezes não é conhecido. Outras vezes, nem mesmo a substância responsável pelo efeito alelopático é identificada. Dessa forma, este é um campo que ainda demanda muita pesquisa científica básica.
Essas pesquisas na área de alelopatia podem ser bastante simples, já que os testes iniciais são realizados comumente verificando o efeito de extratos vegetais sobre a germinação de sementes como as de alface e tomate. E, identificada a ação alelopática, pode-se investir na identificação do composto responsável por esse efeito.
Tais estudos e a identificação de compostos que causam efeitos alelopáticos podem ser bastante úteis, não apenas para se conhecer melhor a ecologia vegetal, mas também porque essas substâncias têm potencialidade de uso na indústria farmacêutica (produção de remédios)e agroquímica (defensivos agrícolas).
No ambiente agrícola também há alelopatia e uma planta bastante conhecida pelos seus efeitos alelopáticos é o sorgo. Algumas culturas não se desenvolvem bem em solo onde sorgo estava plantado. Uma das substâncias alelopáticas produzidas pelo sorgo é a sorgoleona, que inibe a respiração mitocondrial. Dessa forma, o produtor deve tomar cuidado ao escolher a cultura que será plantada onde havia sorgo, pois isso pode interferir no crescimento de determinadas culturas e trazer prejuízos econômicos. A autotoxidez também pode contribuir para a redução da produtividade, como verificado para alguns cultivares de trigo e espécies da família Curcubitaceae, como o melão e pepino. Esses efeitos podem ser minimizados com a rotação de culturas. Em ambientes naturais essa ação autotóxica impede que sementes da mesma espécie germinem próximas das plantas que as produziram. Com isso, a planta “mãe” pode minimizar a competição com as plantas “filhas”. No campus de Rio Paranaíba, da Universidade Federal de Viçosa, alguns estudos sobre o efeito alelopático da macaúba têm sido realizados por estudantes do ensino médio da E. E. Adiron Gonçalves Boaventura, de Rio Paranaíba, vinculados ao programa de Iniciação Científica Júnior fomentado pelo CNPq, FAPEMIG e UFV. Atualmente, Rafaela Rocha e Amanda Mendes, ambas estudantes do 2º ano, trabalham no projeto coordenado pelo professor Luciano Bueno dos Reis.

Luciano Bueno dos Reis é biólogo formado pelaUniversidade Federal de Juiz de Fora, com mestrado e doutorado em Fisiologia Vegetal pela Universidade Federal de Viçosa. Atualmente é professor da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba, atuando nas áreas de Fisiologia Vegetal e Cultura de Tecidos de Plantas.


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Reis. L. (2013). Alelopatia. Folha biológica 4: (3) 4.

Afinal, somos mamíferos.

Karine Frehner Kavalco

Se fizermos uma busca no Google® pela palavra “mamíferos”, logo nas primeiras entradas vem a definição da Wikipédia: “Os mamíferos constituem uma classe de animais vertebrados, que se caracterizam pela presença de glândulas mamárias que, nas fêmeas, produzem leite para alimentação dos filhotes…”. É claro que esta não é a única característica compartilhada pelos mamíferos, mas até o nome “mamífero” indica da importância da lactação na alimentação dos filhotes neste grupo de animais.

Há mamíferos que tem formas incríveis de amamentar seus filhotes, muito diferentes do que estamos acostumados a presenciar em animais domésticos, de fazenda ou na nossa espécie. Há exemplos extremos, como o ornitorrinco. Esse mamífero que põe ovos não possui mamas, mas o leite escorre por poros, sendo lambido pelos filhotes. Nas baleias jubarte, por exemplo, a fêmea vira seu corpo e fica com as mamas próximas da superfície da água, permitindo que o filhote possa respirar com mais facilidade durante as mamadas.

Independente da adaptação de cada mamífero para a amamentação, o leite produzido sempre possui todos os nutrientes que o filhote precisa, embora seja muito variável entre diferentes espécies e mesmo entre raças de uma mesma espécie. Via de regra, todo leite tem água, minerais, carboidratos, lipídios e proteínas, mas as proporções entre estes compostos variam bastante. O leite pode ser extremamente calórico e rico em gordura, como no caso de mamíferos aquáticos e de regiões frias, ou ser um dos menos gordurosos, como o da égua e da asna, mas ele sempre será adequado aos filhotes destas espécies. E como somos também mamíferos, o leite produzido pelas mães é o ideal para a alimentação dos filhotes humanos, os bebês.

Entre os benefícios do aleitamento para o bebê, talvez o mais importante seja a composição perfeita para a sua nutrição e manutenção de sua saúde. Não apenas os nutrientes estão em equilíbrio, mas há água suficiente para deixá-lo hidratado, além de uma gama de compostos que atuam na proteção contra infecções e para o seu desenvolvimento adequado. Se compararmos o leite humano com o leite de vaca, veremos que a grande quantidade de proteínas do segundo, associada a muitos eletrólitos, pode fazer com que um bebê alimentado com leite de vaca tenha uma sobrecarga renal. O leite materno é tão importante que nenhuma fórmula artificial o substitui de maneira totalmente eficiente. Nenhuma.

Leite de mãe não é só amor em estado líquido. Além dos benefícios psicológicos para a mãe e o bebê pelo fortalecimento do vínculo afetivo, há uma lista de vantagens em amamentar e em ser amamentado. Apesar disso, muitas mulheres não o fazem. Algumas delas, contra sua vontade, tornamse inaptas para o aleitamento materno. Outras, acreditam que o ato de amamentar lhes fará mal, como por exemplo, que deixará seus seios flácidos. Esse é um mito que já se provou errado. Há vários fatores que podem deixar as mamas flácidas, mas amamentar não é um deles. Talvez o fato de atrizes e modelos famosas estarem optando pelo parto natural e pelo aleitamento mostre para estas mulheres que não é preciso ter medo de amamentar seu filho. Talvez percebam que seu corpo está preparado para isso. A natureza o tem moldado para esta função há milhões de anos…

Mas e quando a mãe não consegue amamentar o recém-nascido, mesmo sabendo de todos os benefícios para sua nutrição e desenvolvimento? Pela necessidade de alimentar de maneira eficiente bebês mais sensíveis e debilitados, surgiram as inciativas de bancos de leite. No Brasil, só neste ano, pouco mais de 90 mil bebês já receberam leite materno doado. No ano passado, mais de 172 mil recém-nascidos foram beneficiados. Pouca gente conhece a Rede de Bancos de Leite Humano, mas ela faz a diferença para milhares de crianças internadas em unidades neonatais (UTIs e CTIs), muitas delas prematuras ao nascimento. Pode parecer grande, mas o número de recém-nascidos beneficiados pelos bancos é ainda muito pequeno. Estas crianças recebem leite materno selecionado e pasteurizado, o que lhes garante uma fonte de alimento segura, que ajuda a protegê-las de infecções.

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Qualquer mulher que esteja amamentando e que seja saudável (que não esteja usando alguns medicamentos e esteja bem nutrida) pode doar o excedente do seu leite (aquele que não será usado por seu próprio bebê) a um banco de leite. Como a produção de leite materno aumenta conforme a necessidade, ou seja, com a quantidade e com o tempo das mamadas, potencialmente toda mãe tem leite suficiente para seu bebê e para doar. Poucos minutos por dia são suficientes para a coleta do leite, que pode ser guardado no freezer até ser encaminhado ao banco.

Em Minas Gerais, há 12 unidades e 19 postos de coleta da Rede de Bancos de Leite Humano. No mês de maio, a unidade de Uberaba informou que estava com seu estoque baixo, com menos de três litros, e os estoques continuaram baixos no mês de julho. Para saber mais sobre como doar e para obter o endereço dos postos e dos bancos, acesse: http://www.fiocruz.br/redeblh

Karine Frehner Kavalco é bióloga, mestre em Genética e Evolução e doutora em Genética. Atualmente é professora da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.


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Kavalco. K (2013). Afinal, somos mamíferos. Folha biológica 4:(2) 4

Peixes e Educação Ambiental

A educação ambiental é um tema desafiante. Inúmeras são as questões ambientais que afetam nosso dia a dia. Poluição do ar e das águas, lixo e reciclagem, proteção da biodiversidade, desenvolvimento sustentável, são apenas alguns dos assuntos frequentemente debatidos e com ações efetivas.
Em relação a proteção da biodiversidade, os aspectos a serem abordados são inúmeros. Muitos deles dependem diretamente do conhecimento sobre a biodiversidade. Por exemplo, uma Unidade de Conservação pode ser proposta com a finalidade de proteger uma espécie ameaçada. No entanto, como conscientizar a população local de que
isto é necessário? Por outro lado, quanto da biodiversidade estamos perdendo por deixarmos
de estudar determinadas regiões que acabam por tornar-se fronteiras agrícolas, por exemplo? Planos de manejo e conservação de espécies só conseguem ser bem sucedidos quando envolvem completamente a comunidade da região, como por exemplo, o projeto TAMAR que envolve as comunidades de pescadores e suas famílias com o objetivo de proteger as
tartarugas marinhas.
O Laboratório de Genética Ecológica e Evolutiva (LaGEEvo) do Campus de Rio Paranaíba
da Universidade Federal de Viçosa iniciou nos últimos meses a etapa de Educação Ambiental de seu projeto “Biodiversidade da Ictiofauna do rio Paranaíba – Estratégias para a Educação Ambiental”. Financiado pela Fundação Grupo Boticário, o projeto consiste de duas etapas. A primeira visa realizar o levantamento da Ictiofauna do rio Paranaíba em seu trecho inicial,
desde as nascentes no município de Rio Paranaíba até o município de Patos de Minas. Na segunda etapa, a equipe do laboratório promove cursos para professores de Ensino Fundamental e Médio, palestras para estudantes e material didático a ser distribuído nas escolas.

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As palestras sobre diversidade de peixes, importância da água e poluição das águas tem sido ministradas para alunos de todas as idades. Divididos por faixas etárias, as atividades desenvolvidas passaram por dança e pintura com crianças de 1a à 3a série do Ensino Fundamental até palestras sobre a diversidade de peixes com os estudantes de Ensino Médio. O primeiro curso oferecido é o de Peixes do Alto Paranaíba, para professores de Ensino Médio. Informações sobre os cursos e palestras podem ser obtidos pelo site: http://www.biologianaweb.com.br/lageevo.


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LaGEEvo (2013). Peixes e Educação Ambiental. Folha biológica 4: (1) 4

Desconhecidos e ameaçados

Ana Lúcia Tourinho

 

O que é um opilião?  

Essa questão é bem frequente, mesmo entre alunos de classes de pós-graduação das áreas biológicas e relacionadas. Esses aracnídeos muito abundantes e distribuídos no mundo todo são pouco conhecidos. Possuem hábitos crípticos e noturnos, atingem seu pico de diversidade em regiões tropicais da América do Sul, principalmente o Brasil. Entretanto, diversas espécies brasileiras desses ocultos animais correm o risco de desaparecer do planeta antes mesmo de serem conhecidas.

Os opiliões são aracnídeos.  

Sim, eles parecem aranhas, mas não são. Assim como todas as aranhas, possuem o corpo dividido em dois segmentos, o anterior se chama prosomo ou cefalotórax, e o segundo se chama opistosomo ou abdômen. Também compartilham quatro pares de pernas, um par de pedipalpos (estruturas que parecem pernas, mas são usadas para manusear objetos), e um par de quelíceras (parte do aparelho bucal dos aracnídeos). Porém eles não tecem teias porque não têm fiandeiras (estruturas responsáveis pela emissão dos fios de seda). Além disso, visualmente as duas regiões do corpo dos opiliões não estão separadas por uma cintura como ocorre com o corpo das aranhas.  Ao longo de sua evolução, cinco dos segmentos da região posterior do corpo do animal, o opistosomo, se fundiram à região anterior, o prosomo, formando uma carapaça externa inteiriça chamada de escudo dorsal. Por este motivo a divisão de seu corpo em duas regiões, só pode ser visualmente notada internamente. Diferentemente das aranhas, que possuem muitos olhos (de quatro a oito olhos), eles têm apenas um par de olhos medianos que estão geralmente posicionados em uma pequena elevação localizada na parte anterior de seu corpo, o cômoro ocular. Os olhos laterais presentes nas aranhas e escorpiões estão ausentes nos opiliões. Os opiliões possuem um par de glândulas laterais (as glândulas odoríferas), também na parte anterior do corpo, e quando incomodados ou ameaçados liberam um cheiro no ambiente. Assim, é fácil saber se há um opilião por perto se conhecemos esse odor.  Mas não é só isso, há ainda uma outra característica interessante que torna os opiliões diferentes dos outros aracnídeos: eles têm pênis. É isso mesmo! Eles são os únicos do grupo de aracnídeos em que os machos possuem um pênis para transferência direta de espermatozóides.  Inofensivos aos humanos, os opiliões geralmente se escondem porque precisam de ambientes úmidos e com temperatura elevada para sobreviver. Isso acontece por que os opiliões perdem água com muita facilidade, e se forem expostos por tempo prolongado a ambientes secos e muito quentes não resistem e morrem. Por isso é mais fácil encontra-los  à noite, quando estão se alimentando, locomovendo e procurando um parceiro para reprodução. É também por este motivo que os locais prediletos dos opiliões são cavernas, frestas de árvores, entre pedras e nos paredões rochosos, debaixo das pedras, das folhas e troncos caídos no chão. Também são encontrados atrás e nas concavidades das diferentes folhas de plantas dos sub-bosques florestais e até mesmo enterrados, ou atrás das cascas das árvores.

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Esquema anatômico de um opilião

 

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  Macho da espécie Stygnus nogueirai descrita por Ricardo Pinto da Rocha e Ana Lúcia Tourinho em 2012. A descrição desta espécie foi publicada junto com outras 9 novas espécies na revista científica Zootaxa.

Eles podem caçar insetos e outros aracnídeos, mas em geral são generalistas, isso quer dizer que se alimentam dos recursos que estiverem disponíveis no momento, e são  frequentemente observados se alimentando de matéria em decomposição. Uma grande proporção do que é produzido em florestas é processado pelos organismos detritívoros (aqueles que se alimentam de detritos), como muitas das espécies de opiliões, e muitas ordens de insetos. Portanto esses animais contribuem ativamente para a ciclagem dos nutrientes através da decomposição da matéria orgânica acumulada na liteira (camada de folhas mortas acima do solo), desempenhando um importante papel no cenário ecológico.

Diversidade e endemismo  

Outra característica importante dos opiliões é o endemismo acentuado apresentado por quase todas as espécies. Espécies endêmicas são aquelas que estão distribuídas exclusivamente em um determinado local. Os níveis de universalidade de endemismo podem variar. Existem grupos endêmicos de pequenas manchas florestais, serras e parques, até os endêmicos de grandezas categóricas mais amplas como os biomas, continentes, regiões zoogeográficas e eco regiões. Dados de pesquisas apontam os opiliões da Mata Atlântica como os animais com níveis de endemismos mais altos já registrados (97,8%). Apesar do endemismo acentuado, opiliões estão espalhados pelo mundo todo. A diversidade de espécies de opiliões é alta, existem cerca de 6.300 espécies conhecidas, mas a diversidade máxima é atingida na região Neotropical, e cerca de 900 das espécies conhecidas são endêmicas de biomas brasileiros, ou seja, são exclusivas destes biomas. Mas este número está subestimado, os opiliões são pouco conhecidos até mesmo pela ciência. Muitas espécies novas são encontradas em áreas reconhecidas como regiões de maior diversidade de organismos do mundo, como a Amazônia e a Mata Atlântica. Porém o número de espécies novas encontradas na Amazônia é surpreendentemente alto. Isto ocorre principalmente porque a fauna de opiliões da Mata Atlântica tem recebido mais atenção dos pesquisadores nos últimos 50 anos, já a Amazônia, o Cerrado são consideradas as regiões com a fauna de opiliões mais pobremente conhecida do país. Mesmo assim, na Mata Atlântica o número de espécies novas encontradas ainda é considerado alto, nos últimos cinco anos pelo menos uma espécie nova, endêmica da região, foi descrita por ano. O percentual de espécies novas encontradas por localidade amostral na Amazônia pode chegar a 50%, ou mais, dependendo da área amostrada. Em regiões mais distantes e de difícil acesso, os números por coleta chegam a 90%. Nas grandes cidades, por exemplo, Manaus, no estado do Amazonas, e Belém, no estado do Pará, receberam mais coletas nos últimos 50 anos, portanto o número de espécies conhecidas nesses locais é maior. No entanto, coletas recentes realizadas em fragmentos urbanos da floresta da Universidade Federal do Amazonas, na cidade de Manaus, atingem um percentual de 20% a 30% de espécies ainda desconhecidas para a ciência.  Cerca de 70% do território da Amazônia brasileira nunca recebeu uma visita científica seguida de coleta de opiliões. Espantosamente, essas localidades não incluem somente locais de difícil acesso ou muito distantes das grandes metrópoles amazônicas. Um bom exemplo é o trabalho recentemente realizado pela mestre em ciências biológicas Larissa de Souza Lança na Fazenda Experimental da UFAM. A fazenda está localizada no km 38 da rodovia BR-174, e conta com uma grade de 24 km2, sendo 59 km de trilhas e 41 parcelas implementadas pelo Programa de Pesquisas em Biodiversidade. Lá foram coletadas 26 espécies de opiliões, sendo que 65% delas são prováveis espécies ainda não descritas, ou seja, novas espécies para a ciência.

Ameaça eminente 

Existem os dois lados nesta história de endemismo. Por um lado, as informações de espécies com áreas de distribuição extremamente restritas, juntamente a informações obtidas através de estudos de sistemática e filogenética (classificação e estudo das relações de parentesco dos organismos), fornecem um entendimento maior dos eventos que alteraram o ambiente e acabaram por isolar as faunas levando à especiação. Portanto, estudar os padrões biogeográficos é de extrema importância para o resgate e melhor entendimento histórico dos eventos ocorridos no planeta, e para o estabelecimento e elaboração de políticas de conservação ambientais. Mas por outro lado, espécies com áreas de distribuições muito restritas se tornam muito vulneráveis e passíveis de extinção.  Infelizmente a expansão progressiva do desmatamento das áreas florestais é uma realidade, também representando uma ameaça para muitas espécies de opiliões. Espécies desconhecidas, que não estão presentes em nenhuma coleção científica do mundo, podem desaparecer antes mesmo que cheguem a ser descobertas pelos cientistas. Na região Amazônica brasileira temos o exemplo das florestas ao longo da BR-319. A rodovia que unia Manaus a Porto Velho foi construída na década de 70, durante o período da ditadura militar. Em 1988 ela ficou intransitável em consequência de sua degradação crítica. O governo estadual do Amazonas, com o apoio Ministro dos Transportes e do presidente da época, Luís Inácio Lula da Silva, decidiram retomar às pressas, no meio do ano de 2005, o polêmico projeto de reconstrução da rodovia. O asfaltamento da BR-319 foi então iniciado na época sem um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto ao Meio Ambiente (RIMA), como requerem as leis federais de licenciamento ambiental, apesar da tentativa, sem êxito, da ministra do meio ambiente da época, Marina Silva, de embargar a obra até que tais medidas legais fossem atendidas.

 

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Interflúvio Madeira-Purus no estado do Amazonas, na foto a floresta Amazônica cortada pela estrada BR-319. Crédito da Foto: José Luis Purri – PPBIO  http://ppbio.inpa.gov.br/

 

Informações sobre a obra apressada e suas consequências socioeconômicas e ambientais foram bastante discutidas em jornais locais e publicações científicas de Philip Fearnside (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), mas hoje não se toca mais no assunto. A área em questão está situada ao sul do rio Amazonas, limitada pelos rios Amazonas, Madeira e Purus, e incluída na área classificada como um dos grandes centros de endemismo Amazônico pelo historiador natural Alfred Russel Wallace, e posteriormente confirmada por diversos outros autores importantes, como o alemão Jürgen Haffer, autor da teoria dos refúgios amazônicos. Além da fauna composta por muitas espécies novas o local possui índices elevados de riqueza de espécies, e importantes informações acerca do endemismo de aracnídeos amazônicos, de mamíferos e aves inventariados nos últimos cinco anos pelas equipes de grandes programas institucionais de biodiversidade como o Programa de Pesquisas em Biodiversidade/PPBio e Rede GEOMA. Nas áreas próximas aos Km 81 e 83 da rodovia encontramos a espécie Fissiphallius tucupi, segunda espécie de opilião da família Fissiphalliidae da Amazônia descrita em 2006 por Ana Lúcia Tourinho e Abel Pérez, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e da Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ.  Entre as cidades de Humaitá e Careiro Castanho não existem registros de opiliões além da nova espécie F. tucupi. Particularmente, espécies dos dois grupos citados possuem grande importância para a compreensão tanto da história evolutiva dos opiliões como biogeográfica do grupo na região Amazônica. Infelizmente as áreas do km 81 foram loteadas, as linhas que demarcavam as parcelas e transectos permanentes utilizados para amostragem em nosso inventário já haviam sido incluídas nas divisões do loteamento seis meses após nossa coleta, ainda no ano de 2006. O programa de aceleramento do desenvolvimento nacional (PAC) vem realizando inúmeras obras com o objetivo de alavancar o desenvolvimento do país, através de construções que objetivam, entre outros, garantir e expandir o suprimento de energia e a capacidade de transporte no país. Além dos projetos já em andamento como as polêmicas envolvendo a pavimentação da BR-319 e a construção da hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingú, há planejamento de construção e pavimentação de inúmeras outras estradas e hidrelétricas, bem como outros empreendimentos que geram um impacto negativo sobre a biota. A criação de reservas na área de entorno dessas obras seria uma alternativa tanto para a persistência de algumas dessas espécies, quanto para a contenção do desmatamento. Na verdade existe uma legislação que regula todo esse processo, e para áreas desmatadas ou impactadas por empreendimentos desse porte há necessidade de estabelecimento de unidades de conservação de acordo com a escala da área impactada. Entretanto, nem sempre as medidas mais adequadas são aplicadas e escolhidas para cada empreendimento. As decisões requerem pareceres velozes, seguidas de tomadas de decisões mais velozes ainda em função da pressa política e dos montantes de recursos envolvidos. Existem discussões para implementação de unidades de conservação, porém, estas deixariam de fora áreas importantes, que nunca foram inventariadas por pesquisadores, e, portanto todo o seu potencial científico em termos de biodiversidade é bastante desconhecido até mesmo pelos especialistas. Ponderações científicas realizadas por instituições científicas e governamentais competentes, sempre envolvem equipes especializadas tanto na avaliação dos componentes biológicos como os sociais das regiões, mas para executar análises desse cunho e prever medidas mitigatórias geralmente é necessário mais tempo, tempo esse que geralmente os responsáveis não estão dispostos a dar. Caso as unidades de conservação prometidas sejam concretizadas sem que haja previamente um planejamento por meio de consulta pública, inventários científicos e resultados de EIA/ RIMA, dificilmente estas priorizarão de maneira adequada os componentes biológicos e geográficos locais e a população amazônica. As consultas públicas não são bem divulgadas, e nem sempre todos os aspectos e impactos multifacetados são de fato apresentados nessas ocasiões para a população. Na verdade, este deveria ser um evento onde a população de fato se engajasse, e a mesma também deveria ter uma alfabetização científica maior para que pudesse estar mais consciente de seus interesses nesse caso. Esta última deveria ser colocada a par não apenas das vantagens, mas também das desvantagens, muitas vezes irreversíveis, de todo e qualquer planejamento desenvolvimentista para que pudesse exigir medidas mitigatórias adequadas. Inúmeras outras regiões da Amazônia, e do restante do Brasil, jamais foram amostradas por especialistas e se encontram nesta mesma situação, a maioria delas irá desaparecer antes mesmo que alguns representantes importantes e desconhecidos sejam resgatados e depositados em coleções para pesquisas futuras.  Tal informação, uma vez perdida, estará perdida para sempre.

 

Ana Lúcia Tourinho é bióloga, mestre em Zoologia e doutora em Ecologia. Atua no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, nos Programas de Pós-Graduação em Entomologia e em Ecologia.  É curadora assistente da Coleção Aracnológica do INPA e especialista em Aracnídeos, principalmente das ordens Opiliones, Ricinulei e Araneae

 


 

Como citar esse documento:

Tourinho, A.L. (2013). Desconhecidos e Ameaçados. Folha biológica 4 (1): 2-3

Conservação ou Preservação?

Willian Lopes Silva

Wagner M. S. Sampaio

 

Os termos Preservação e Conservação são utilizados para estabelecer a relação Homem e Natureza e proteger o meio ambiente, porém são ideologicamente distintos. Esses termos foram introduzidos por dois precursores do ambientalismo Norte Americano com o intuito de proteger o meio ambiente, o naturalista John Muir e o engenheiro florestal e político Gifford Pinchot. O primeiro nos dá o sentido de intocabilidade, onde o ambiente precisa ser preservado no seu estado natural sem nenhuma intervenção humana por ser importante por si mesmo. Já o segundo nos trouxe a ideia da conservação em longo prazo, onde os recursos naturais devem ser usados com parcimônia para não serem esgotados pelas necessidades humanas. As ideias de Muir e Pinchot são muito importantes para proteção da natureza, mas nos trazem um resultado muito diferente quando colocadas em prática e se usadas erroneamente podem trazer prejuízos socioambientais incalculáveis. O Preservacionismo de Muir foi um movimento romântico e espiritual, acreditava que Deus criou o universo para o gozo de todos os seres vivos, e não apenas para os seres humanos. Já o conservacionismo de Pinchot foi um movimento progressista e científico. Fato tão verdadeiro que, por exemplo, a legislação Brasileira e muitos pesquisadores adotam uma integração entre esses termos.  Segundo o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis, para garantir a proteção da diversidade biológica de um país é preciso estabelecer um sistema de áreas protegidas. No Brasil, as áreas protegidas incluem as áreas de proteção permanente, as reservas legais, as reservas indígenas e as unidades de conservação. As unidades de conservação (UC) formam uma categoria de área protegida mais específica e efetiva que englobam bem os conceitos conservacionistas e preservacionistas. No nosso país as UC não possuem apenas função de proteger a diversidade biológica e são justamente estas outras funções que diferenciam as UC. Mas, no geral, as UC podem ser separadas em dois grandes grupos. O primeiro engloba Unidades de Conservação de Proteção Integral que são aquelas onde efetua-se a preservação dos ecossistemas em estado natural com um mínimo de alterações, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais). O segundo inclui as UC de Uso Sustentável (são aquelas onde haverá conservação dos atributos naturais, admitida a exploração de parte dos recursos disponíveis em regime de manejo sustentável). As ferramentas de proteção criadas pela legislação têm a necessidade de embasar suas aplicações em informações biológicas estratégicas, que muitas vezes são escassas ou inexistentes, levando à diminuição da eficiência dessas ferramentas. Os Estudos Ambientais muitas vezes ficam “escondidos” nos órgãos ambientais e nos contratos de confidencialidade entre consultores e empreendores, porém estes estudos precisam cumprir sua função social e científica e isso só será possível quando começarem a ser divulgados. Vê-se, pois, que só assim conseguiremos alcançar nosso objetivo de proteger o meio ambiente para de ele usufruir de forma sustentável ou simplesmente para sua manutenção. A proteção dos recursos naturais é direito público e subjetivo das futuras gerações. Podemos pensar nisso como nos diz a “Carta da Terra”: “A humanidade é parte de um vasto universo em evolução e a proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado de todos e juntos”.

 


 

Willian Lopes Silva é acadêmico do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba.

Wagner M. S. Sampaio é biólogo e mestre em Biologia Animal pela Universidade Federal de Viçosa, e atua na área de Ictiologia.

Como citar esse Documento:

Silva, W.L. ; Sampaio, W.M.S. (2013). Conservação ou Preservação? Folha biológica 4 (1):4

Carbono Zero: um passo a mais para a sustentabilidade .

Daniel Brianezi

Laércio Antônio Gonçalves Jacovine

Ricardo Martiniano dos Santos

O Brasil é um dos principais emissores de Gases de Efeito Estufa (GEE), principalmente em função do desmatamento e da mudança no uso do solo. Por outro lado, também é um dos países com maior potencial para reduzir as emissões projetadas até 2030, pois o aumento das suas emissões ocorre em taxas menores que a de outros países em desenvolvimento, como China e Índia, e desenvolvidos; estes sujeitos a quotas de redução obrigatórias.

O Brasil, mesmo estando entre os maiores emissores de GEE, é considerado em desenvolvimento no Protocolo de Quioto (não -Anexo I), por isso não possuía metas de redução até 2012. No entanto, na 15a Conferência das Partes (COP-15), ocorrida no final de 2009 em Copenhague, os países signatários, como o Brasil, se comprometeram a reduzir suas emissões de GEE de forma voluntária. Para isso, criou-se a Política Nacional de Mudanças Climáticas (PNMC), que no artigo 12 relata o compromisso nacional de ações de mitigação das emissões de GEE, visando à diminuição de 36,1% a 38,9% das emissões brasileiras projetadas até 2020. Assim, do total das metas de redução de GEE voluntárias que o Brasil propôs em seus NAMAs (Nationally Appropriate Mitigation Action), aproximadamente 90% são originários da agropecuária e da mudança no uso da terra, que representam 75% das emissões de GEE nacionais.

Dentre as medidas estabelecidas pela PNMC para reduzir as emissões de GEE brasileiras está o Programa de Agricultura de Baixo Carbono (ABC), que procura incentivar os produtores rurais a adotar técnicas agrícolas de baixo impacto negativo sobre o meio ambiente, através de atividades que emitam menos GEE. Além disso, tem sido adotada a campanha do Carbono Zero, comum em empresas e escolas dos Estados Unidos e Europa. O Carbono Zero é um tipo de crédito de carbono que consiste em compensar as emissões de GEE por pessoas, empresas ou eventos,

através do sequestro de carbono pelas plantas. Nesse sentido, diversas ações têm sido tomadas de forma voluntária, por segmentos da sociedade. A Universidade Federal de Viçosa (UFV) também tem feito a sua parte, desenvolvendo ações que minimizam o efeito estufa. No ano de 2010, a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UFV – campus Viçosa, organizadora da 81a Semana do Fazendeiro (evento que ocorre em Viçosa-MG), com o Departamento de Engenharia

Florestal da mesma instituição e, em parceria com o Instituto Estadual de Florestas (IEF),

aderiu ao Projeto Carbono Zero. Esse projeto objetiva quantificar as emissões de GEE do

evento e neutralizá-las com o plantio de árvores da Mata Atlântica, vegetação nativa da região, em uma área degradada da UFV, além de trabalhar junto aos produtores rurais questões ligadas às mudanças climáticas e ao meio ambiente. O projeto, executado também nos anos de 2011 e 2012,

terá continuidade em 2013, na 84a Semana do Fazendeiro.

Durante a Semana do Fazendeiro, são quantificadas as emissões de GEE relacionadas aos transportes (ônibus que levam os participantes para os cursos, veículos que trazem artistas para os

shows e também a infraestrutura); à energia (energia elétrica, gás de cozinha e caldeiras a vapor); aos resíduos (sólidos e efluentes); aos animais usados no leilão e na exposição; e às emissões oriundas do plantio. Para o cálculo das emissões de GEE são utilizadas metodologias nacionais e internacionais, como a NBR ISO 14.064:2007, GHG Protocol Brasil e também do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, sigla em inglês). Posteriormente, o montante de emissões de GEE contabilizado é convertido em uma unidade comum (tCO2e – toneladas de dióxido de carbono equivalente), de acordo com o Potencial de Aquecimento Global de cada GEE avaliado. Com base na quantidade de GEE quantificado, calcula-se o número de árvores nativas necessárias para neutralizar tais emissões. Para isso se utilizam dados de estocagem de carbono de florestas similares, advindos de pesquisas científicas desenvolvidas na região de Viçosa.

As árvores são conhecidas como grande sumidouros de carbono terrestre e podem neutralizar as emissões devido à fotossíntese. A capacidade de neutralização variará de acordo com fatores externos, como clima e solo, tratos silviculturais, manejo e fatores intrínsecos à planta. Nos trés anos de projeto, emitiu-se 127,73 tCO2e., sendo 40,60 tCO2e, 38,43 tCO2e e 48,70 tCO2e, nos anos de 2010, 2011 e 2012, respectivamente. As mudas plantadas nos mesmos anos foram 223, 210, 324, totalizando 757 mudas, que neutralizaram as emissões de GEE dos eventos.

Paralelo ao Projeto Carbono Zero foi criada a Tenda Carbono Zero, onde são trabalhadas, junto aos produtores rurais participantes da Semana do Fazendeiro, questões ambientais e ações de mitigação das mudanças climáticas. Além disso, na tenda, são calculadas as emissões de GEE e a estocagem de Carbono pelas propriedadescap rurais. Para isso, faz-se o balanço das emissões e das remoções de GEE e o produtor fica sabendo onde está a maior parte de suas emissões e onde se encontra o maior “sequestro” de CO2 da sua propriedade. Posteriormente, ele é orientado sobre o que pode fazer para reduzir suas emissões e recebe uma muda de espécie arbórea para plantar em sua propriedade e um certificado de colaborador do clima, atestando seu compromisso em plantar a árvore recebida.

Iniciativas de neutralização de carbono, como o Projeto Carbono Zero, são de suma importância para amenizar a problemática das mudanças climáticas e contribuir para a socialização das questões ambientais. Assim, a UFV, instituição já conhecida pelo seu nível de excelência em pesquisa, ensino e extensão no país e no exterior, quer ser referência também na área ambiental, dando exemplo para toda a sociedade.

Daniel Brianezi é Engenheiro Florestal, mestre e doutorando em Ciência Florestal pela Universidade Federal de Viçosa. Atua na área de Economia Ambiental, com ênfase em fixação de carbono; inventário e neutralização de GEE.

Laércio Antônio Gonçalves Jacovine é Engenheiro Florestal, mestre e doutor em Ciência Florestal pela Universidade Federal de Viçosa. Professor Adjunto do Departamento de Engenharia Florestal da UFV. Atua na área de Economia Ambiental, com ênfase em fixação de carbono pelas florestas; certificação florestal e gestão e controle de qualidade nas atividades florestais.

Ricardo Martiniano dos Santos é Analista de Tecnologia de Informação, mestre em Sistemas de Gestão do Meio Ambiente. Atualmente, é assessor da Divisão de Assuntos Culturais – DAC da Universidade Federal de Viçosa e um dos coordenadores do Projeto Carbono Zero.


Como citar esse documento:

Brianezi, D; Jacovine, L.A.G; Santos, R.M (2013). Carbono Zero: um passo a mais para a sustentabilidade. Folha biológica 4 (Edição especial 2-3): 4

Um poema sobre Ciência

Flávia Fróes de Motta Budant

 

Imagine você que seu professor de ciências (biologia, física ou química) chega na sala com um novo texto sobre a matéria. Um texto que fala de animais. Que também fala a respeito da óptica. E também sobre átomos. Em que formato ele viria? Provavelmente em prosa, cheio de nomes gigantes e, dependendo da bondade do autor, com algumas figuras ilustrativas. Bom, talvez não fosse bem assim…

Ciência em versos

Há cerca de dois mil e cem anos vivia em Roma um sujeito chamado Lucrécio, sobre o qual sabemos pouco. O mais seguro que temos é a sua obra: um livro chamado De Rerum Natura – Sobre a natureza das coisas.  Lucrécio era seguidor de Epicuro, um filósofo grego que pregava a busca da felicidade através da dissolução dos medos, como o medo da morte. São eles que nos prendem, que impedem que vivamos bem.  Para os superarmos, precisamos conhecer o universo no qual estamos imersos, do qual somos uma pequena parte. Precisamos entender a natureza das coisas. Lucrécio, que, como bom romano, pagava tributo à cultura helenística (da Grécia Antiga), decidiu fazer uma obra para divulgar essas ideias filosóficas. E a fez – em versos. À época, o verso pertencia não só ao conteúdo lírico, mas também ao épico e ao didático, gênero ao qual pertence o De Rerum Natura.  Ele contém quase oito mil versos, separados em seis livros (ou cantos, divisões como capítulos), que tangem várias áreas do conhecimento: física, química, biologia, geografia, filosofia e – pasme – até teologia!

Mesmo sem vê-lo, ele deveria existir 

Os dois primeiros livros expõem a física epicurista, herdeira de Demócrito, o inventor da palavra átomo (indivisível, em grego).  O átomo é reconhecido como menor parte da matéria, que não pode mais ser quebrada, e constituinte de tudo que existe: são as semina rerum, semente das coisas. Lucrécio deriva suas conclusões empiricamente, ou seja, por meio dos sentidos. Tudo é feito de átomos e de vazio, entrelaçados de maneira diferente, o que permite a diversidade assombrosa de seres e objetos que constituem nosso planeta, e quem sabe até outros mundos.

 

Um poema sobre ciencia

Fisionomia atribuída a Lucrécio de Roma.

 

Vida e morte: um ciclo infinito  

O livro III é sobre a natureza da alma e nele Lucrécio empreende uma refutação aos outros filósofos, como Aristóteles, a respeito da imortalidade da alma. Para o epicurista, a alma existe, mas é mortal, como todo o resto do corpo. Ela é material, é feita de átomos, e, por isso, também é suscetível ao perecimento. Assim, não devemos temer a morte: ela faz parte da Natureza e de nós mesmos.

 

 

Paixão x razão 

O livro IV explica as imagens, as visões que temos das coisas. São como películas que se descolam da superfície das coisas e atingem nossos olhos. Lucrécio escreve, e de maneira bastante poética, também sobre as paixões humanas e como devemos resistir a elas, afinal, nos deixam sem juízo e sem pensar racionalmente (parece que não mudou muito).

 

Origens: a Terra dando seu testemunho 

Os livros V e VI tratam da origem do nosso planeta, de como os seres se desenvolveram, e do funcionamento dos fenômenos naturais – trovões, terremotos, vulcões e até o ímã, com seu misterioso magnetismo.

No fim, o encantamento é o que conta 

Bom, e falando sobre tudo isso, Lucrécio acertou? Quanto ao conteúdo científico, pode-se dizer que sim e que não. Apesar de não ter microscópios e telescópios, muita coisa foi inferida corretamente pelo raciocínio e pela observação.  O que deve ser reconhecido no poema, porém, não é tanto o que foi confirmado pela ciência moderna, mas a beleza com que Lucrécio fala e explica os fenômenos.  Sim, é possível fazer um poema sobre ciência. Desvendar o mundo em que vivemos significa apreciá-lo. Significa apreender e aprender sobre a natureza das coisas, de rerum natura.

 

Flávia Fróes de Motta Budant é estudante de Graduação em Letras Português – Latim, na Universidade Federal do Paraná, com ênfase em estudos da poesia latina.


 

Como citar esse documento:

Budant, F.F.M. (2013). Um poema sobre ciência. Folha biológica 4 (1): 1

Mudanças climáticas globais: verdades e consequências

Daniel Meira Arruda

Atualmente somos bombardeados com notícias sobre aquecimento global e mudanças climáticas, evidenciando causas e as consequências dessas alterações para o mundo em que vivemos. Neste texto, veremos o que são essas mudanças e como elas afetam os processos naturais. Veremos também que as alterações climáticas são um processo natural, que sempre ocorreu, mas que é intensificada pelas atividades do homem.

Nossos cientistas, por meio de diversas técnicas, conseguem obter estimativas do clima que a terra já experimentou ao longo de milhões de anos atrás. Considerando os últimos 65 milhões de anos, o clima global alterou drasticamente pelo menos seis vezes. Essas alterações são variações globais de temperatura entre 5-10°C, que representam os períodos glaciais, quando varia para menos, ou interglaciais, quando variam para mais. Desde o início do período considerado, se manteve uma fase bem quente com temperatura global próxima dos 33°C até 32 milhões de anos, quando tem peratura diminui bastante, formando a primeira geleira permanente na Antártica. Mesmo com algumas oscilações, a queda da temperatura continuou com ritmo acelerado até dois milhões de anos atrás, dando início a Era do Gelo. Nesse período as calotas polares ocupavam dois terços da extensão atual. O volume de água convertida em gelo foi tão grande que o nível dos oceanos era de 120 a 130 metros mais baixo que o atual. Os trópicos também sentiram os efeitos da glaciação, nessa fase a temperatura média tropical estava entre 5 e 10°C e, com a diminuição do nível dos oceanos, a umidade continental ficou bastante reduzida, formando grandes áreas áridas. A partir desse período a temperatura global volta a subir, marcando o fim da última era glacial e início da época interglacial em que vivemos (há 12 mil anos).

Mas o que move essas alterações climáticas globais? Ao longo desses milhões de anos, o vulcanismo e a fotossíntese atuaram de forma contrária nas oscilações climáticas. Atividades vulcânicas, resultantes de movimentos de placas tectônicas, estão associadas à grande liberação de CO2 atmosférico. Esse gás é o principal formador do efeito estufa, pois seu acréscimo na atmosfera impede que a radiação solar seja refletida após atingir a superfície terrestre, causando aumento da temperatura. No entanto, devemos lembrar que o CO2 não é um vilão. Se não houvesse esse gás na atmosfera, a temperatura média na superfície terrestre seria de -18°C e o ambiente seria inapropriado à vida para a maioria dos seres vivos. Os altos níveis de CO2 e as elevadas temperaturas promovem então um aumento da atividade fotossintética, que reduz os níveis desse gás e aloca o carbono em compartimentos não atmosféricos, o que proporciona uma diminuição da temperatura. No entanto, somente a captação de carbono promovida pela fotossíntese não desencadeia uma era glacial. Uma parcela considerável dessa alteração climática é creditada à oscilação das cargas de energia recebidas do sol, seja por ciclos solares ou por variação na orbita da Terra, promovendo alterações nas correntes de ventos e correntes oceânicas, também responsáveis por reger o clima na terra.

Desde a ultima glaciação, oscilações globais caracterizam pequenos aquecimentos e resfriamentos globais. Há 5,5 mil anos, um aquecimento entre 2 a 3 °C na porção temperada do globo promoveu derretimento de gelo e fez com que o nível do mar subisse cerca de 3 a 5 metros. Já entre o século 16 e final do século 19, se estabeleceu uma pequena “Era do Gelo” em que a temperatura média diminuiu cerca de 2 °C em relação a atual. No entanto, no final do século 19, deu-se início a um grande e desenfreado processo de aumento de temperatura, não por atividade vulcânica, impacto de meteoros ou explosões solares, mas pela atividade humana, cujo marco é a revolução industrial. Desde então, a população humana sai de 1,7 bilhões em 1890 para 7 bilhões em 2011. Associado ao grande crescimento e atividade populacional, os níveis de CO2 atmosféricos saíram de 280 ppm (partes por milhão) para 400 ppm, valor atingido em maio desse ano! Como resultado, desde o início da revolução industrial tivemos um aumento da temperatura de 2,4°C, marcando a mais rápida passagem para um período de aquecimento global, chegando na atual temperatura média global de 14,6°C. Esse “progresso” não para por ai, pesquisas recentes estimam que até 2100, teremos uma população entre 9 e 10 bilhões de pessoas, com níveis de CO2 superior à 550 ppm e a temperatura global estará entre 2 e 5 °C mais elevadas que a atual. Estimativas apontam que, se o aquecimento continuar, teremos o derretimento total dos gelos polares, proporcionando um aumento no nível do mar de aproximadamente 50 m. Isso ocasionaria a formação de diversas “Atlântidas” ao redor do mundo, ou seja, importantes cidades como Nova York, Tóquio, Londres, Xangai, Paris e Rio de Janeiro seria submersas. No Brasil, tal aumento proporcionaria também a invasão marinha em boa parte da bacia do rio Amazonas, além de cobrir grande parte da região costeira, porção mais densamente habitada.

O aumento de 2°C na temperatura global, à primeira vista, não parece ser muita coisa. No entanto, devemos lembrar que essas tendências estão diluídas em um planeta grande e com padrões de regimento climático complexos, o que resulta em grandes aumentos de temperatura em alguns lugares e reduções em outros. Por exemplo, dados mostram que a temperatura máxima registrada em alguns locais do nordeste do Brasil aumentou 3,5°C em apenas 45 anos. Essa mudança também reflete o regime de precipitação, agravando a situação da região, já marcada por poucas chuvas ao longo do ano.

No final deste ano, ocorrerá mais uma reunião para negociar medidas relacionadas às mudanças climáticas globais. Essa reunião será em Varsóvia, Polônia, e conta com a presença de 190 países, incluindo os grandes poluidores, Estados Unidos e China. Esta terá como objetivo propor metas para redução de emissão de gases de efeito estufa para não ultrapassar os 2°C acrescidos após a revolução industrial. As discussões sobre as mudanças climáticas nunca

estiveram tão em alta desde o início da década de 1990, com o Protocolo de Kyoto e a Rio 92.

Como vimos, a mudança climática é um processo normal e repetitivo ao longo da história da Terra, mas, sem dúvida, o ser humano tem desempenhado um papel fundamental, fazendo com que essa mudança seja cada vez mais rápida e perceptível. Normalmente, nós utilizamos o clima como assunto para iniciar uma conversa com vizinhos, amigos, etc. É fácil notar que esse costume tem se intensificado, e isso não é por acaso.

Daniel Meira Arruda é biólogo e mestre em Botânica pela UFV. Atualmente é doutorando em Botânica pela UFV. Desenvolve pesquisas na área de fitogeografia e relação solo vegetação.

 


 

Como citar esse documento:

Arruda, D.M. (2013). Mudanças climáticas globais: verdades e consequências. Folha biológica 4 (Edição especial 2-3): 1

Sequestro de Carbono

Silvana da Costa Ferreira

Os impactos ambientais, ocorrentes em todo o planeta, aumentaram consideravelmente durante as últimas décadas do século passado. As emissões poluentes na atmosfera são feitas por todos os países do mundo e o gás dióxido de carbono (CO2), um dos compostos lançados na atmosfera, é produzido em todas as partes do planeta, principalmente pela queima de combustíveis derivados

do petróleo e pela produção de cimento que totalizam 75% das emissões. Os processos de uso da terra, sobretudo os desmatamentos e as queimadas, são responsáveis por grande parte dos 25% restantes.

Porém quando pensamos no título desse artigo, surge a pergunta: sequestro de carbono, como assim? Quem sequestrou o carbono? Na verdade o sequestro de carbono refere-se a processos de absorção e armazenamento de CO2 atmosférico, com intenção de minimizar seus impactos no ambiente, já que se trata de um gás de efeito estufa (GEE). A finalidade desse processo é conter e reverter o acúmulo de CO2 atmosférico, visando a diminuição do efeito estufa. Este processo ocorre principalmente em oceanos, florestas e outros locais onde os organismos por meio de fotossíntese, capturam o carbono e lançam oxigênio na atmosfera. Trata-se de uma captura e estocagem segura do CO2, evitando, deste modo, sua emissão e permanência na atmosfera terrestre.

A forma mais comum de sequestro de carbono é naturalmente realizada pelas florestas. Na fase de crescimento, as árvores demandam uma quantidade muito grande de carbono para se desenvolver e acabam retirando parte do gás carbônico do ar. Esse processo natural ajuda a diminuir consideravelmente a quantidade de CO2 na atmosfera, visto que cada hectare de floresta em desenvolvimento é capaz de absorver cerca de 150 a 200 toneladas de carbono. Deste modo o plantio de árvores é uma das prioridades para a diminuição de poluentes na atmosfera terrestre, sendo a recuperação de áreas plantadas, que foram degradadas durante décadas pelo homem, é uma das possibilidades mais efetivas para ajudar a combater o aquecimento global (figura 1).

Porém esta não é a única maneira de diminuir a concentração de CO2 na atmosfera. Existem estudos avançados para realizar o que os cientistas chamam de sequestro geológico de carbono, uma forma armazenar o carbono no subsolo. Os gases de exaustão produzidos pelas indústrias são separados através de um sistema de filtros que coletam o CO2, esse gás é comprimido, transportado e depois injetado em um reservatório geológico apropriado (figura 1).

Abaixo segue os diferentes tipos de sequestro de carbono:

Campos de petróleo: Os poços maduros, onde não há mais produção de petróleo e gás, podem se transformar em grandes depósitos de CO2. Esse processo já ocorre, visto que as petrolíferas injetam o gás carbônico em campos maduros de petróleo para, por intermédio dessa pressão, aumentar o potencial de extração neles.

Camadas de carvão: Assim como nos campos de petróleo, a injeção de carbono em reservas de carvão também pode ser lucrativa: o carvão retém o CO2 e libera no processo o gás natural, que pode ser explorado e comercializado e nos depósitos localizados em profundidades muito grandes, o gás carbônico pode ser armazenado.

Aquíferos salinos: Em enormes mantos de água no subsolo, a água é tão salobra que não serve para o consumo. Dessa forma, estes locais seriam uma ótima alternativa para estocar carbono. Trata-se das formações com grande capacidade de armazenar CO2, os especialistas estimam que os aquíferos possam reter até 10 mil gigatoneladas do gás.

Esses reservatórios geológicos naturais são altamente eficazes para aprisionar fluidos em profundidade, caso contrário, o forte terremoto que causou o tsunami na Ásia teria rompido diversos depósitos geológicos naturais, porém nenhum campo de gás natural ou petróleo foi comprometido. Vale destacar que os campos de petróleo ou gás natural guardarão esses fluidos por milhões de anos e estes permanecerão intactos desde que não ocorra interferência humana.

 

Sequestro de carbono

Além dos mecanismos acima citados, a partir dos anos 2000, entrou em cena um mercado voltado para a criação de projetos de redução da emissão dos gases que aceleram o processo de aquecimento do planeta. Trata-se do mercado de créditos de carbono, que surgiu a partir do Protocolo de Quioto, acordo internacional que estabeleceu que os países desenvolvidos deveriam reduzir suas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE). Esse protocolo criou o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que prevê a redução certificada das emissões. Uma vez conquistada essa certificação, quem promove a redução da emissão de gases poluentes tem direito a créditos de carbono e pode comercializá-los com os países que têm metas a cumprir. Neste contexto projetos como o Carbono 0, que tem por objetivo neutralizar a emissão de CO2 na atmosfera, vem ganhando espaço mundial e já conhecido por empresas e escolas dos Estados Unidos e Europa.

 

Silvana da Costa Ferreira é bióloga, mestre e doutora em botânica pela UFV e UEFS, respectivamente. Atualmente é professora-adjunta da UFV, campus Rio Paranaíba. Desenvolve pesquisas na área de taxonomia de angiospermas.


 

Como citar esse documento:

Ferreira, S.C. (2013). Sequestro de Carbono. Folha biológica 4 (Edição especial 2-3): 3