Efeitos do aquecimento global sobre as populações de anuros

Os anuros são o grupo de vertebrados que correm o maior risco de serem extintos perante às alterações climáticas decorrentes do aquecimento global. Isto se dá devido às características fisiológicas, ecológicas, evolutivas e outras adaptações do grupo. Estes animais possuem um importante papel de controle biológico de diversos insetos como baratas, pernilongos, moscas entre outros e sua extinção ou diminuição pode causar um aumento considerável destes bichos.

O aquecimento global pode causar consequências diretas como o aumento da temperatura no planeta e também consequências indiretas, como mudanças no regime hídrico, alteração da umidade, alteração no PH do solo e aumento na incidência de raios UVB no planeta, além de influenciar no tipo e quantidade de presas e na distribuição das espécies de anfíbios.

Sapos, Salamandras e Cecílias são animais ectotérmicos, ou seja, suas funções fisiológicas estão relacionadas com a temperatura do ambiente, portanto, alterações climáticas drásticas podem resultar em mudanças na sua fisiologia e consequentemente nos seus ciclos de vida, o que afetaria a distribuição desse gênero.

As mudanças nos padrões de distribuição de uma espécie podem desencadear outras variações que influenciam na alimentação, relação com microrganismos patogênicos e características da reprodução. O grupo apresenta baixa habilidade de dispersão, portanto não há uma grande disseminação dessas espécies para áreas com características climáticas mais favoráveis à sua sobrevivência, ocorrendo uma alta extinção local de espécies de anuros.

A pele desses animais é extremamente permeável à água, o que os deixa sensíveis ao excesso de radiação solar e outras sustâncias presentes no meio ambiente. Outras características da pele fazem com que eles sejam mais sujeitos a infecções por microrganismos. Acredita-se que alterações nos regimes climáticos possam estar associadas ao aumento da ocorrência de epidemias, causando um grande declínio nas populações de anfíbios, mesmo eles apresentando, além da pele, barreiras de proteção bioquímicas e biológicas contra infecções microbianas.

Como mecanismos biológicos de proteção contra infecções, tem-se uma microbiota na pele composta por fungos e bactérias produtoras de antibióticos. Essa microbiota resistente presente na pele também pode ser vulnerável a alterações da temperatura, incidência de radiação solar, disponibilidade de água e nutrição. O ambiente onde o animal está inserido influencia ainda no perfil de tais comunidades microbianas, portanto a diminuição da distribuição dessas espécies assim como as dispersões e as colonizações de outros locais vão influenciar na proteção biológica contra doenças, o que os deixa ainda mais suscetíveis a contaminação por microrganismos causadores de doenças. Já os mecanismos bioquímicos estão relacionados com a secreção de moléculas bioativas a partir das glândulas dérmicas. Ambas as características têm relação com a modulação das secreções cutâneas, que resultam em uma diferenciação na produção dos peptídeos antimicrobianos e, portanto, em uma maior susceptibilidade a agentes infecciosos na pele.

Temperaturas muito altas também interferem diretamente na reprodução, pois fazem com que as poças de água onde os anfíbios depositam seus ovos sequem ou se aqueçam de modo que os girinos muitas vezes não conseguem sobreviver. A diminuição das chuvas resultará em poças mais rasas com menor quantidade de água, estas secarão mais rápido e com isso espécies com períodos larvários longos ou baixa plasticidade no desenvolvimento terão de mudar os seus habitats de reprodução, depositando seus ovos em locais com água mais volumosas e duradouras ou mudando a época de reprodução (Katzenberger et al, 2012).

A alteração no tempo de metamorfose pode provocar outros problemas como a sobreposição dos períodos de reprodução de várias espécies e com isso o aumento da densidade de girinos nas poças, resultando em uma maior competição por recursos (Katzenberger et al, 2012).

Roberta Silva Castro.

Entre cobras, sapos e lagartos… E milhões de anos de evolução!

 Rodrigo de Mello

 

Certa vez, depois de dizer que participaria de um congresso de herpetologia, minhas sobrinhas – Ana Carolina e Maria Fernanda, de 11 e 8 anos – me perguntaram o que era isso. Logo depois de explicar que tal evento é uma reunião entre pessoas que estudam anfíbios e répteis, detalhando que o primeiro grupo abriga todos os sapos, rãs e pererecas, e o segundo, todos os lagartos, crocodilos, cobras e tartarugas, ouvi: “credo… cobras, sapos e lagartos!”, combinado com os rostos com feições de nojo das meninas. A reação – ou opinião— da Carol e da Fernanda é bem comum; As pessoas geralmente propagam uma imagem asquerosa, perigosa ou maléfica desses animais em desenhos animados, filmes ou lendas. Entretanto, quando vemos esses animais estudados pela herpetologia de outro prisma, começamos a ver quão interessantes eles são começando pela sua história evolutiva.

O surgimento dos primeiros anfíbios e répteis aconteceu entre 300 a 400 milhões de anos atrás, quando a Terra ainda tinha seus continentes diferentes da conformação atual; eles aparecem simultaneamente com inovações evolutivas únicas para a conquista do ambiente terrestre – um lugar até então inexplorado por qualquer vertebrado. Desde então, a herpetofauna se tornou extraordinariamente rica e diversificada, representando porção significativa da fauna de vertebrados, particularmente em ambientes áridos e tropicais, onde são os vertebrados mais abundantes. No mundo todo, são mais de 6.700 espécies de anfíbios e mais de 9.500 espécies de répteis; só no Brasil o número de anfíbios e répteis catalogados está em torno de 900 e 750 espécies, respectivamente.  Esses animais desempenham importantes funções ecológicas na natureza, predadores de vários organismos. Sapos, rãs, pererecas e lagartos se alimentam de vários insetos e aranhas, são toneladas de insetos predadas todo ano; Imagine como seria a quantidade de insetos sem esses predadores! Muitas cobras predam ratos, animais associados à transmissão de algumas doenças e, por vezes, pragas de lavouras. Seus venenos produzem vacinas e salvam mais vidas humanas do que matam ou deixam sequelas, já que cobras só picam pessoas quando se veem ameaçadas por elas. Além disso, anfíbios e répteis também servem de alimento para vários animais como aves e mamíferos.

Portanto, sapos, cobras e lagartos são mais do que ingredientes em poções de bruxas malvadas das histórias ou criaturas que causam asco. Esses fascinantes animais que a herpetologia estuda, além de terem um papel ecológico e evolutivo crucial nos ecossistemas onde vivem, foram (e ainda tem sido!) fundamentais no desenvolvimento de disciplinas como Evolução, Biogeografia, Fisiologia, Ecologia, Conservação, entre outras, já que são ótimos modelos de estudo para o desenvolvimento de pesquisas. Assim, quando olhamos para anfíbios e répteis dessa forma, fica mais fácil compreender as palavras do poeta que diz que “a natureza é o único livro que oferece um conteúdo valioso em todas as suas páginas”

Entre cobras, sapos e lagartos... E milhões de anos de evolução!   (rodrigo)

Rodrigo de Mello é biólogo, mestre em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais, e  doutorando em Ecologia e Evolução pela Universidade Federal de Goiás. Atua na área de filogeografia animal.


 

Como citar esse documento:

Mello, R. (2012). Entre cobras, sapos e lagartos… E milhões de anos de evolução! Folha Biológica 3. (1): 4

Volume 3, Número 1

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