Efeitos do aquecimento global sobre as populações de anuros

Os anuros são o grupo de vertebrados que correm o maior risco de serem extintos perante às alterações climáticas decorrentes do aquecimento global. Isto se dá devido às características fisiológicas, ecológicas, evolutivas e outras adaptações do grupo. Estes animais possuem um importante papel de controle biológico de diversos insetos como baratas, pernilongos, moscas entre outros e sua extinção ou diminuição pode causar um aumento considerável destes bichos.

O aquecimento global pode causar consequências diretas como o aumento da temperatura no planeta e também consequências indiretas, como mudanças no regime hídrico, alteração da umidade, alteração no PH do solo e aumento na incidência de raios UVB no planeta, além de influenciar no tipo e quantidade de presas e na distribuição das espécies de anfíbios.

Sapos, Salamandras e Cecílias são animais ectotérmicos, ou seja, suas funções fisiológicas estão relacionadas com a temperatura do ambiente, portanto, alterações climáticas drásticas podem resultar em mudanças na sua fisiologia e consequentemente nos seus ciclos de vida, o que afetaria a distribuição desse gênero.

As mudanças nos padrões de distribuição de uma espécie podem desencadear outras variações que influenciam na alimentação, relação com microrganismos patogênicos e características da reprodução. O grupo apresenta baixa habilidade de dispersão, portanto não há uma grande disseminação dessas espécies para áreas com características climáticas mais favoráveis à sua sobrevivência, ocorrendo uma alta extinção local de espécies de anuros.

A pele desses animais é extremamente permeável à água, o que os deixa sensíveis ao excesso de radiação solar e outras sustâncias presentes no meio ambiente. Outras características da pele fazem com que eles sejam mais sujeitos a infecções por microrganismos. Acredita-se que alterações nos regimes climáticos possam estar associadas ao aumento da ocorrência de epidemias, causando um grande declínio nas populações de anfíbios, mesmo eles apresentando, além da pele, barreiras de proteção bioquímicas e biológicas contra infecções microbianas.

Como mecanismos biológicos de proteção contra infecções, tem-se uma microbiota na pele composta por fungos e bactérias produtoras de antibióticos. Essa microbiota resistente presente na pele também pode ser vulnerável a alterações da temperatura, incidência de radiação solar, disponibilidade de água e nutrição. O ambiente onde o animal está inserido influencia ainda no perfil de tais comunidades microbianas, portanto a diminuição da distribuição dessas espécies assim como as dispersões e as colonizações de outros locais vão influenciar na proteção biológica contra doenças, o que os deixa ainda mais suscetíveis a contaminação por microrganismos causadores de doenças. Já os mecanismos bioquímicos estão relacionados com a secreção de moléculas bioativas a partir das glândulas dérmicas. Ambas as características têm relação com a modulação das secreções cutâneas, que resultam em uma diferenciação na produção dos peptídeos antimicrobianos e, portanto, em uma maior susceptibilidade a agentes infecciosos na pele.

Temperaturas muito altas também interferem diretamente na reprodução, pois fazem com que as poças de água onde os anfíbios depositam seus ovos sequem ou se aqueçam de modo que os girinos muitas vezes não conseguem sobreviver. A diminuição das chuvas resultará em poças mais rasas com menor quantidade de água, estas secarão mais rápido e com isso espécies com períodos larvários longos ou baixa plasticidade no desenvolvimento terão de mudar os seus habitats de reprodução, depositando seus ovos em locais com água mais volumosas e duradouras ou mudando a época de reprodução (Katzenberger et al, 2012).

A alteração no tempo de metamorfose pode provocar outros problemas como a sobreposição dos períodos de reprodução de várias espécies e com isso o aumento da densidade de girinos nas poças, resultando em uma maior competição por recursos (Katzenberger et al, 2012).

Roberta Silva Castro.

Mudanças climáticas globais: verdades e consequências

Daniel Meira Arruda

Atualmente somos bombardeados com notícias sobre aquecimento global e mudanças climáticas, evidenciando causas e as consequências dessas alterações para o mundo em que vivemos. Neste texto, veremos o que são essas mudanças e como elas afetam os processos naturais. Veremos também que as alterações climáticas são um processo natural, que sempre ocorreu, mas que é intensificada pelas atividades do homem.

Nossos cientistas, por meio de diversas técnicas, conseguem obter estimativas do clima que a terra já experimentou ao longo de milhões de anos atrás. Considerando os últimos 65 milhões de anos, o clima global alterou drasticamente pelo menos seis vezes. Essas alterações são variações globais de temperatura entre 5-10°C, que representam os períodos glaciais, quando varia para menos, ou interglaciais, quando variam para mais. Desde o início do período considerado, se manteve uma fase bem quente com temperatura global próxima dos 33°C até 32 milhões de anos, quando tem peratura diminui bastante, formando a primeira geleira permanente na Antártica. Mesmo com algumas oscilações, a queda da temperatura continuou com ritmo acelerado até dois milhões de anos atrás, dando início a Era do Gelo. Nesse período as calotas polares ocupavam dois terços da extensão atual. O volume de água convertida em gelo foi tão grande que o nível dos oceanos era de 120 a 130 metros mais baixo que o atual. Os trópicos também sentiram os efeitos da glaciação, nessa fase a temperatura média tropical estava entre 5 e 10°C e, com a diminuição do nível dos oceanos, a umidade continental ficou bastante reduzida, formando grandes áreas áridas. A partir desse período a temperatura global volta a subir, marcando o fim da última era glacial e início da época interglacial em que vivemos (há 12 mil anos).

Mas o que move essas alterações climáticas globais? Ao longo desses milhões de anos, o vulcanismo e a fotossíntese atuaram de forma contrária nas oscilações climáticas. Atividades vulcânicas, resultantes de movimentos de placas tectônicas, estão associadas à grande liberação de CO2 atmosférico. Esse gás é o principal formador do efeito estufa, pois seu acréscimo na atmosfera impede que a radiação solar seja refletida após atingir a superfície terrestre, causando aumento da temperatura. No entanto, devemos lembrar que o CO2 não é um vilão. Se não houvesse esse gás na atmosfera, a temperatura média na superfície terrestre seria de -18°C e o ambiente seria inapropriado à vida para a maioria dos seres vivos. Os altos níveis de CO2 e as elevadas temperaturas promovem então um aumento da atividade fotossintética, que reduz os níveis desse gás e aloca o carbono em compartimentos não atmosféricos, o que proporciona uma diminuição da temperatura. No entanto, somente a captação de carbono promovida pela fotossíntese não desencadeia uma era glacial. Uma parcela considerável dessa alteração climática é creditada à oscilação das cargas de energia recebidas do sol, seja por ciclos solares ou por variação na orbita da Terra, promovendo alterações nas correntes de ventos e correntes oceânicas, também responsáveis por reger o clima na terra.

Desde a ultima glaciação, oscilações globais caracterizam pequenos aquecimentos e resfriamentos globais. Há 5,5 mil anos, um aquecimento entre 2 a 3 °C na porção temperada do globo promoveu derretimento de gelo e fez com que o nível do mar subisse cerca de 3 a 5 metros. Já entre o século 16 e final do século 19, se estabeleceu uma pequena “Era do Gelo” em que a temperatura média diminuiu cerca de 2 °C em relação a atual. No entanto, no final do século 19, deu-se início a um grande e desenfreado processo de aumento de temperatura, não por atividade vulcânica, impacto de meteoros ou explosões solares, mas pela atividade humana, cujo marco é a revolução industrial. Desde então, a população humana sai de 1,7 bilhões em 1890 para 7 bilhões em 2011. Associado ao grande crescimento e atividade populacional, os níveis de CO2 atmosféricos saíram de 280 ppm (partes por milhão) para 400 ppm, valor atingido em maio desse ano! Como resultado, desde o início da revolução industrial tivemos um aumento da temperatura de 2,4°C, marcando a mais rápida passagem para um período de aquecimento global, chegando na atual temperatura média global de 14,6°C. Esse “progresso” não para por ai, pesquisas recentes estimam que até 2100, teremos uma população entre 9 e 10 bilhões de pessoas, com níveis de CO2 superior à 550 ppm e a temperatura global estará entre 2 e 5 °C mais elevadas que a atual. Estimativas apontam que, se o aquecimento continuar, teremos o derretimento total dos gelos polares, proporcionando um aumento no nível do mar de aproximadamente 50 m. Isso ocasionaria a formação de diversas “Atlântidas” ao redor do mundo, ou seja, importantes cidades como Nova York, Tóquio, Londres, Xangai, Paris e Rio de Janeiro seria submersas. No Brasil, tal aumento proporcionaria também a invasão marinha em boa parte da bacia do rio Amazonas, além de cobrir grande parte da região costeira, porção mais densamente habitada.

O aumento de 2°C na temperatura global, à primeira vista, não parece ser muita coisa. No entanto, devemos lembrar que essas tendências estão diluídas em um planeta grande e com padrões de regimento climático complexos, o que resulta em grandes aumentos de temperatura em alguns lugares e reduções em outros. Por exemplo, dados mostram que a temperatura máxima registrada em alguns locais do nordeste do Brasil aumentou 3,5°C em apenas 45 anos. Essa mudança também reflete o regime de precipitação, agravando a situação da região, já marcada por poucas chuvas ao longo do ano.

No final deste ano, ocorrerá mais uma reunião para negociar medidas relacionadas às mudanças climáticas globais. Essa reunião será em Varsóvia, Polônia, e conta com a presença de 190 países, incluindo os grandes poluidores, Estados Unidos e China. Esta terá como objetivo propor metas para redução de emissão de gases de efeito estufa para não ultrapassar os 2°C acrescidos após a revolução industrial. As discussões sobre as mudanças climáticas nunca

estiveram tão em alta desde o início da década de 1990, com o Protocolo de Kyoto e a Rio 92.

Como vimos, a mudança climática é um processo normal e repetitivo ao longo da história da Terra, mas, sem dúvida, o ser humano tem desempenhado um papel fundamental, fazendo com que essa mudança seja cada vez mais rápida e perceptível. Normalmente, nós utilizamos o clima como assunto para iniciar uma conversa com vizinhos, amigos, etc. É fácil notar que esse costume tem se intensificado, e isso não é por acaso.

Daniel Meira Arruda é biólogo e mestre em Botânica pela UFV. Atualmente é doutorando em Botânica pela UFV. Desenvolve pesquisas na área de fitogeografia e relação solo vegetação.

 


 

Como citar esse documento:

Arruda, D.M. (2013). Mudanças climáticas globais: verdades e consequências. Folha biológica 4 (Edição especial 2-3): 1

Sequestro de Carbono

Silvana da Costa Ferreira

Os impactos ambientais, ocorrentes em todo o planeta, aumentaram consideravelmente durante as últimas décadas do século passado. As emissões poluentes na atmosfera são feitas por todos os países do mundo e o gás dióxido de carbono (CO2), um dos compostos lançados na atmosfera, é produzido em todas as partes do planeta, principalmente pela queima de combustíveis derivados

do petróleo e pela produção de cimento que totalizam 75% das emissões. Os processos de uso da terra, sobretudo os desmatamentos e as queimadas, são responsáveis por grande parte dos 25% restantes.

Porém quando pensamos no título desse artigo, surge a pergunta: sequestro de carbono, como assim? Quem sequestrou o carbono? Na verdade o sequestro de carbono refere-se a processos de absorção e armazenamento de CO2 atmosférico, com intenção de minimizar seus impactos no ambiente, já que se trata de um gás de efeito estufa (GEE). A finalidade desse processo é conter e reverter o acúmulo de CO2 atmosférico, visando a diminuição do efeito estufa. Este processo ocorre principalmente em oceanos, florestas e outros locais onde os organismos por meio de fotossíntese, capturam o carbono e lançam oxigênio na atmosfera. Trata-se de uma captura e estocagem segura do CO2, evitando, deste modo, sua emissão e permanência na atmosfera terrestre.

A forma mais comum de sequestro de carbono é naturalmente realizada pelas florestas. Na fase de crescimento, as árvores demandam uma quantidade muito grande de carbono para se desenvolver e acabam retirando parte do gás carbônico do ar. Esse processo natural ajuda a diminuir consideravelmente a quantidade de CO2 na atmosfera, visto que cada hectare de floresta em desenvolvimento é capaz de absorver cerca de 150 a 200 toneladas de carbono. Deste modo o plantio de árvores é uma das prioridades para a diminuição de poluentes na atmosfera terrestre, sendo a recuperação de áreas plantadas, que foram degradadas durante décadas pelo homem, é uma das possibilidades mais efetivas para ajudar a combater o aquecimento global (figura 1).

Porém esta não é a única maneira de diminuir a concentração de CO2 na atmosfera. Existem estudos avançados para realizar o que os cientistas chamam de sequestro geológico de carbono, uma forma armazenar o carbono no subsolo. Os gases de exaustão produzidos pelas indústrias são separados através de um sistema de filtros que coletam o CO2, esse gás é comprimido, transportado e depois injetado em um reservatório geológico apropriado (figura 1).

Abaixo segue os diferentes tipos de sequestro de carbono:

Campos de petróleo: Os poços maduros, onde não há mais produção de petróleo e gás, podem se transformar em grandes depósitos de CO2. Esse processo já ocorre, visto que as petrolíferas injetam o gás carbônico em campos maduros de petróleo para, por intermédio dessa pressão, aumentar o potencial de extração neles.

Camadas de carvão: Assim como nos campos de petróleo, a injeção de carbono em reservas de carvão também pode ser lucrativa: o carvão retém o CO2 e libera no processo o gás natural, que pode ser explorado e comercializado e nos depósitos localizados em profundidades muito grandes, o gás carbônico pode ser armazenado.

Aquíferos salinos: Em enormes mantos de água no subsolo, a água é tão salobra que não serve para o consumo. Dessa forma, estes locais seriam uma ótima alternativa para estocar carbono. Trata-se das formações com grande capacidade de armazenar CO2, os especialistas estimam que os aquíferos possam reter até 10 mil gigatoneladas do gás.

Esses reservatórios geológicos naturais são altamente eficazes para aprisionar fluidos em profundidade, caso contrário, o forte terremoto que causou o tsunami na Ásia teria rompido diversos depósitos geológicos naturais, porém nenhum campo de gás natural ou petróleo foi comprometido. Vale destacar que os campos de petróleo ou gás natural guardarão esses fluidos por milhões de anos e estes permanecerão intactos desde que não ocorra interferência humana.

 

Sequestro de carbono

Além dos mecanismos acima citados, a partir dos anos 2000, entrou em cena um mercado voltado para a criação de projetos de redução da emissão dos gases que aceleram o processo de aquecimento do planeta. Trata-se do mercado de créditos de carbono, que surgiu a partir do Protocolo de Quioto, acordo internacional que estabeleceu que os países desenvolvidos deveriam reduzir suas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE). Esse protocolo criou o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que prevê a redução certificada das emissões. Uma vez conquistada essa certificação, quem promove a redução da emissão de gases poluentes tem direito a créditos de carbono e pode comercializá-los com os países que têm metas a cumprir. Neste contexto projetos como o Carbono 0, que tem por objetivo neutralizar a emissão de CO2 na atmosfera, vem ganhando espaço mundial e já conhecido por empresas e escolas dos Estados Unidos e Europa.

 

Silvana da Costa Ferreira é bióloga, mestre e doutora em botânica pela UFV e UEFS, respectivamente. Atualmente é professora-adjunta da UFV, campus Rio Paranaíba. Desenvolve pesquisas na área de taxonomia de angiospermas.


 

Como citar esse documento:

Ferreira, S.C. (2013). Sequestro de Carbono. Folha biológica 4 (Edição especial 2-3): 3

O que acontece com as espécies quando o clima muda?

Rúbia Santos Fonseca

Em ecologia denominamos comunidade como o conjunto de espécies que interagem entre si em uma área. Cada espécie apresenta um número diferente de indivíduos, por isso na comunidade algumas espécies são raras (com poucos indivíduos) e outras comuns (muitos indivíduos). A presença das espécies em um local, assim como a sua abundância, está relacionada a diversas características essenciais para sua sobrevivência, tais como precipitação, temperatura e recursos do ambiente. Muitas espécies apresentam distribuição restrita a uma pequena região, enquanto outras ocorrem sobre boa parte da superfície terrestre. Esses diferentes padrões de distribuição são relacionados às exigências de cada espécie para a sua sobrevivência, que é o nicho dessa espécie; e quanto mais exigente for a espécie, menos lugares aptos à ocupação ela terá.

Em função da relação das espécies com o clima, mudanças climáticas podem tornar o ambiente em que uma espécie ocorre inapropriado para a sua permanência, e a espécie pode ser extinta ou pode buscar outros locais com condições ideais para a sua sobre vivência. Esse fenômeno, denominado migração, já ocorreu muitas vezes durante o tempo em que a vida é registrada na Terra, nos períodos glaciais e interglaciais. Nos períodos glaciais as espécies das regiões temperadas deslocaram-se para a zona tropical, enquanto as espécies típicas da zona tropical ficaram restritas a pequenos refúgios climáticos. Nos períodos interglaciais, as espécies das regiões

temperadas retornaram para as suas áreas de origem, enquanto os refúgios tropicais se expandiram por toda a zona tropical, formando o padrão de vegetação e de comunidades semelhante ao atual. Alguns exemplos de espécies que migraram para a região tropical, fugindo do resfriamento no período glacial, foram os canídeos (os ancestrais do nosso lobo guará) e felídeos (ancestrais das nossas onças). Essas alterações climáticas ocorreram em períodos longos, por isso, apesar de muitas espécies se extinguirem ou especiarem, muitas outras foram capazes de migrar para ambientes favoráveis e assim sobreviver.

Estamos em um período interglacial, caracterizado por um aumento na temperatura global. No entanto, atividades antrópicas têm promovido a elevação da temperatura e alterações na precipitação em uma velocidade maior que a de evolução de muitas espécies, o que acarreta em perdas na biodiversidade. Os anfíbios são animais especialmente sensíveis a alterações climáticas,

principalmente na intensidade e frequência da precipitação. Não por acaso, o primeiro registro comprovado de extinção pelas atuais mudanças climáticas globais é de um anfíbio. O sapo dourado (Bufo periglenes), restrito a uma floresta nebulosa na Costa Rica, foi declarado como extinto em 1989, apenas 29 anos após ser descoberto. Essa extinção foi atribuída a alterações climáticas ocorridas em 1986 e 1987, que produziram um clima anormalmente quente e seco. Nesse período,

diversos outros anfíbios tiveram suas populações drasticamente reduzidas.

A sobrevivência dos jacarés e tartarugas também é ameaçada pelas mudanças climáticas. Nessas espécies a temperatura do ninho determina o sexo dos filhotes e peque nas alterações na temperatura (<2°C) podem modificar drasticamente o número de machos e fêmeas nascidos. Um estudo desenvolvido com uma tartaruga de água doce norte americana (Chrysemys picta) demonstrou que um aumento na temperatura de 4°C eliminaria a produção de machos, o que promoveria a extinção dessa espécie após a última geração de fêmeas.

As mudanças climáticas também afetam as interações ecológicas. O comportamento fenológico das plantas (época e intensidade do brotamento, floração e frutificação) é relacionado à temperatura e precipitação. Por isso, alterações no clima podem promover mudanças no período e na quantidade de brotos, flores e frutos produzidos. Alterações no brotamento podem afetar espécies de herbívoros, além de alterar as taxas locais de captação de CO2. Mas as variações na floração e frutificação são mais preocupantes para a sobrevivência das espécies de polinizadores e dispersores, pois essas interações são mais específicas; há tipos de flores e de frutos para cada grupo de polinizadores ou dispersores. Por isso, para a manutenção das populações de polinizadores e dispersores em uma comunidade é necessário que flores e frutos sejam produzidos durante todo o ano. Alterações no comportamento fenológico de muitas plantas já foram observadas; em alguns ambientes foram registrados períodos de incoerência da floração com a presença dos polinizadores, fato que influencia diretamente na sobrevivência dessa planta, do polinizador e dos dispersores. Quando lembramos que as comunidades são regidas por redes de interações e que todas as espécies estão interligadas, o problema toma proporções muito maiores.

 

o que acontece com as especies quando o clima muda?

As mudanças climáticas não influenciam apenas espécies, podem influenciar todo um bioma. Elevações na temperatura e diminuições na precipitação têm tornado diversos ambientes mais áridos, promovendo inclusive a desertificação de muitas áreas no nordeste do Brasil. Devido aos indiscutíveis efeitos sobre os ecossistemas naturais, modelos matemáticos baseados no nicho foram desenvolvidos e usados para prever a distribuição das espécies e comunidades nos próximos anos. Esses modelos demonstram quadros muitas vezes preocupantes, com diversas espécies diminuindo a sua área de ocorrência, transformando grandes áreas de ocorrências contínuas em áreas pequenas e disjuntas. Outras espécies, entretanto, podem aumentar muito a sua distribuição, como é o caso de Lutzomyia whitmani, um mosquito vetor da leishmaniose. Se isso ocorrer, a leishmaniose pode expandir para diversas áreas anteriormente livres dessa zoonose. Em relação aos efeitos sobre os biomas, estudos propõem a expansão do cerrado para áreas sul do Brasil que vão se tornar inóspitas para a floresta atlântica, o que pode afetar a sobrevivência das florestas de araucária.

As mudanças climáticas globais não atuam sozinhas na redução da biodiversidade, outras alterações promovidas pelo homem, como destruição e fragmentação de habitats e invasão biológica, também tem grande influência. Nessa realidade, a criação de novas áreas de preservação, de corredores ecológicos, além do estímulo à redução das emissões de CO2 e a programas de sequestro de carbono são ações determinantes para a preservação de muitas espécies.

Rúbia Santos Fonseca é bióloga, mestre e doutora em Botânica pela UFV. Desenvolve pesquisas na área de fenologia e biologia reprodutiva de plantas nativas.


 

Como citar esse documento:

Fonseca, R.S. (2013). O que acontece com as espécies quando o clima muda? Folha biológica 4 (Edição especial 2-3): 2

O mundo no aquecimento global

Pierre Rafael Penteado

Aquecimento global é o aumento da temperatura média da superfície terrestre, que segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) é causado principalmente pelo aumento da concentração de gases estufa (dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e clorofluorcarbonetos) na atmosfera, resultado de ações humanas como a queima de combustíveis fósseis e destruição de florestas.

O efeito estufa acontece quando parte da radiação solar é absorvida por gases que aprisionam o calor na atmosfera e consequentemente elevam a temperatura da superfície terrestre, de maneira análoga a uma estufa de cultivo de plantas. O que muitos não sabem, é que sem este efeito a média da temperatura global seria bem diferente, em torno de -18°C, muito abaixo da média em torno de 14°C atual, o que impossibilitaria a vida como a conhecemos.

Centros de pesquisas meteorológicos e climáticos espalhados ao longo do planeta, desde o século 1860, reportam que houve um aumento médio da temperatura em torno de 0,6°C ao longo do século XX. Medições feitas com a sonda espacial Pathfinder, da NASA, de 1981-1998, apontam que a temperatura da superfície terrestre aumentou numa taxa de 0,43°C por década. Entretanto, além de não poder medir mudanças na água e terras cobertas por gelo, fatores como nuvens e erupções vulcânicas poderiam influenciar na leitura exata realizada pelo satélite.

Mas e como os cientistas sabem como era o clima num passado distante?

Há vários indicadores usados, como anéis de troncos de árvores, corais, amostras da acumulação de gelo durante vários anos, que aprisionou pequenas bolhas de ar de vários períodos diferentes (testemunho de gelo) e além de registros históricos. Por exemplo, através de um testemunho de gelo obtido na estação russa Vostok, na Antártica, cientistas puderam inferir que nos últimos 400 mil anos o planeta passou por quatro eventos de glaciação, e essas mudanças climáticas coincidiram com a variação da concentração de CO₂ na atmosfera, além de variações orbitais pelo qual o planeta Terra periodicamente.

Desde 1995, pelas decisões tomadas com o protocolo de Kyoto, vários países procuram uma forma de reduzir as emissões de gases poluentes na atmosfera, mesmo que algumas nações desenvolvidas não aceitem por completo as resoluções desses acordos. O último encontro foi em Copenhague, no fim do ano passado, no qual os países desenvolvidos se comprometeram a reduzir suas emissões em 80% até 2050, entre outros acordos.

Debate – real ou não?

Apesar de 40 sociedades científicas em todo o mundo endossarem o aquecimento global, existe uma pequena parcela de cientistas que se mostra cética quanto os dados mostrados, sugerindo que fatores como a variação natural cíclica do clima da Terra, e outros fatores não antrópicos (como o Sol) são responsáveis pelo aquecimento observado, além de outro grupo de cientistas apontar que os registros de temperaturas do passado não necessariamente indicam aquecimento para o futuro e que o planeta caminha em uma direção contrária, a uma nova era glacial. Estes mesmos cientistas criticam a posição do IPCC e da mídia em geral, que usa o tom alarmista para conseguir maior difusão do assunto. Ainda segundo eles, o assunto ainda tem muito a ser debatido entre especialistas para ser considerado um fato.

De um jeito ou outro é unânime que a humanidade precisa aprimorar novas tecnologias para conseguir reduzir o consumo de fontes limitadas de energia, como petróleo e carvão mineral. Aliados a isso, a redução de lixo e preservação de florestas é fundamental. Real ou não, o aquecimento global não é o único problema ambiental que enfrentamos, e está na hora de revermos como nos relacionamos com a natureza. Afinal, citando uma charge que ficou famosa: “E se for tudo mentira e nós criarmos um mundo melhor sem motivo?”.

Pierre Rafael Penteado é Biólogo, mestre em Biologia Animal pela Universidade Federal de Viçosa.


 

Como citar esse documento:

Penteado. P.R. (2010). O Mundo no Aquecimento Global. Folha biológica 1 (1): 4