A grande riqueza das pequenas espécies do Cerrado

O Cerrado é o segundo maior domínio do Brasil, superado apenas pela Amazônia. Ele cobre uma área de dois milhões de km², e ocorre em 14 estados brasileiros. Nesse domínio ocorrem vegetações distintas, como florestas (os cerradões), campos (os campos limpos e campos rupestres), até formações savânicas, os cerrados sensu stricto, ou cerrado típico, que ocupam 70% da área total.

O cerrado sensu stricto é caracterizado pela existência de árvores de pequeno a médio porte com troncos retorcidos, de modo que as copas dessas árvores não se toquem. Abaixo delas existe um tapete contínuo de plantas de pequeno porte, conhecidas como ervas e arbustos. Essas espécies permanecem toda a sua vida próximas ao nível do solo, e não desenvolvem lenho ou madeira, ou seja, nunca irão virar árvores. Elas germinam suas sementes, crescem, reproduzem e morrem num período de tempo muito curto em relação às árvores, que sobrevivem décadas ou séculos.

Estima-se que para cada árvore exista de cinco a seis ervas, muitas ainda não descobertas pela ciência. O estrato herbáceo, que é a comunidade das ervas, possui espécies temporãs, ou seja, que podem ser visualizadas apenas em uma época do ano, seca ou chuvosa. Essas plantas também apresentam diversas adaptações a falta de água e nutrientes e presença constante do fogo.

Prestonia erecta, uma erva com ocorrência restrita ao Cerrado.

Os primeiros estudos sobre as “plantinhas” do cerrado brasileiro iniciaram na década de 1980, quando começou a se vislumbrar a riqueza e o potencial desconhecido dessas espécies. Tradicionalmente sabemos que as ervas são usadas para alimentação e produção de medicamentos. Outra utilidade é na recuperação de áreas degradadas, uma vez que elas cobrem e protegem o solo, mantendo a umidade e os nutrientes, o que favorece a reconstrução da vida no solo e acima dele. Além disso, devido à variação de cores, formas e beleza, as ervas têm grande potencial para paisagismo e ornamentações em geral. Atenta a essa diversidade também está a indústria química e farmacêutica, já que muitas moléculas são utilizadas na cura de doenças e criação de bioprodutos.

Hoje, a elevada biodiversidade e a presença de espécies que só ocorrem neste local, colocam o Cerrado como um dos ambientes mais diversos e ricos do planeta. Apresentando mais de 12.000 espécies vegetais descritas, sendo que 61% só existem exclusivamente nessa vegetação, por isso é um dos hotspost (pontos quentes) para se conservar no mundo.

Cochlospermum regium, um subarbusto símbolo do cerrado sensu stricto.

Entretanto, o crescimento econômico do país provocou fortes modificações neste bioma, levando a redução de mais de 65% da cobertura original e, consequentemente, à extinção de várias plantas que nem sequer foram descobertas. Para outras espécies, o extrativismo excessivo vem ameaçando a sua sobrevivência, como é o caso do Alecrim-do-campo (Anemopaegma arvense). Seus extratos foram patenteados por grupos de pesquisadores japoneses para o uso em cosméticos, gerando demanda e superexploração dessa espécie, o que a deixou atualmente em perigo de extinção. Para enfrentar esse cenário precisamos de muitos esforços, investimentos e políticas públicas que permitam a formação de cientistas capazes de reconhecer, conservar e manejar de forma sustentável a maior riqueza do planeta: a biodiversidade.

Márcio Venícios Barbosa Xavier, Estudante de Graduação em Engenharia Florestal.UFMG. Rúbia Santos Fonseca, mestre e doutora em Botânica pela UFV. Professora de Dendrologia e Sistemática Vegetal da UFMG

Biodiversidade: … o que é mesmo?!

Muitos já ouviram falar, mas poucos sabem realmente o que é biodiversidade. É o que confirma um estudo feito pela União para o BioComércio Ético (UEBT), a qual ouviu pessoas de 16 países, inclusive o Brasil. Os resultados demonstraram que, pelo menos em nosso país, menos da metade dos entrevistados sabem explicar o que significa o termo, uma média relativamente alta quando comparada à dos demais países participantes da pesquisa. Mas vamos lá: o que significa Biodiversidade?! Ao pé da letra seria “Diversidade da vida”, ou seja, todas as formas de vida existentes estariam incluídas no termo Biodiversidade. Diversos significados são encontrados, mas todos eles envolvem a diversidade da natureza viva. Em 1992, a Convenção da Diversidade Biológica definiu biodiversidade como a variedade de organismos vivos existentes no planeta ou em uma determinada região do globo, incluindo ecossistemas terrestres, marinhos e outros. Além disso, o termo leva em conta a variedade genética dentro das populações e espécies, tanto quanto a variedade de funções ecológicas desempenhadas pelos organismos bem como seus hábitats e ecossistemas. Esclarecer o real significado da palavra, além de contribuir para o conhecimento da população, também é importante para demonstrar a importância da frase: “Devemos todos conservar a Biodiversidade”. Diante disso, cientistas trabalham constantemente na divulgação científica acerca do tema, destacando a importância de preservar a biodiversidade mundial e as maneiras como isso pode ser feito. Compreensão e dedicação são pontos fundamentais nessa luta de preservação.

Fonte:
http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2015/07/biodiversidadeconheco­de­algum­lugar..

Por: Rosana Mesquita

Captura Predatória e Comércio Ilegal de Aves!

Todos sabem que a biodiversidade no Brasil é enorme, e com as aves não é diferente. Nosso país abrange cerca de 1700 espécies de aves, o que garante a ocupação da terceira colocação de maior riqueza de aves do planeta, perdendo apenas para a Colômbia e o Peru.

Apesar dessa riqueza, com os mais diversos tamanhos e cores, o país é um dos que mais sofrem com traficantes da fauna silvestre. Segundo inúmeros sites, o comércio ilegal de animais silvestres, em especial o de aves, é a terceira atividade clandestina que mais move dinheiro ilegal, perdendo apenas para o tráfico de armas e o de drogas.

Existem leis regulamentadas para a venda de animais silvestres, porém, isso se trata de um processo um tanto quanto burocrático, o que leva pessoas com “pouco tempo” e muito dinheiro a abusar do comércio ilegal.

A captura para comércio ilegal de aves envolve métodos totalmente invasivos ao animal e a toda a biodiversidade local, principalmente devido a precariedade dos transportes usados, o que causa danos físicos e “emocionais” às espécie (estimase 9 mortes em cada 10 animais). Os traficantes geralmente adotam práticas agressivas, como cegar o animal, ingestão de calmantes e bebidas alcoólicas, para aquietar os animais, evitando assim complicações com fiscalizações. Filhotes são retirados de seus pais dessa forma, perdendo todo o cuidado parental, processo importante no desenvolvimento do indivíduo. Esses animais são traficados para pet shops, colecionadores particulares que tem prioridade por espécies raras e ameaçadas de extinção. Ao longo do tempo, o animal que vive preso, perde a capacidade de sobreviver e se defender sozinho, dificultando seu processo de soltura na natureza, que deverá ser feito com o acompanhamento de um especialista. E o pior: muitas das espécies de aves que são traficadas, estão escassas no país, com grande risco de extinção, sendo o tráfico ilegal um fator agravante para essa situação. Dentre as espécies podemos citar a Arara Azul (Anodorhynchus hyacinthinus), o Papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis) a Ararajuba (Aratinga guarouba) o Pica-Pau-Rei (Camphepilus robustus) e o Sabiá-Pimenta (Carponis melanocephalus).

O QUE PODEMOS FAZER?

Não comprar animais silvestres e nem incentivar ninguém a comprar em primeiro lugar. Ter espécies nativas em cativeiro, sem comprovação da origem do animal, é crime previsto em lei, e cada indivíduo capturado faz falta ao ambiente e não deixa seus descendentes.

Ajude com a vigilância caso presencie a venda em algum local. Avise a polícia.

Faça denúncias ao IBAMA através da Linha Verde Tel. 0800 61 8080.

Guilherme Wince de Moura é graduando do Curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa Campus Rio Paranaíba MG, Brasil.

Fonte : glbimg.com/jo/g1/f/original/2013/10/11/comerciocacapredatoria.jpg

O que acontece com as espécies quando o clima muda?

Rúbia Santos Fonseca

Em ecologia denominamos comunidade como o conjunto de espécies que interagem entre si em uma área. Cada espécie apresenta um número diferente de indivíduos, por isso na comunidade algumas espécies são raras (com poucos indivíduos) e outras comuns (muitos indivíduos). A presença das espécies em um local, assim como a sua abundância, está relacionada a diversas características essenciais para sua sobrevivência, tais como precipitação, temperatura e recursos do ambiente. Muitas espécies apresentam distribuição restrita a uma pequena região, enquanto outras ocorrem sobre boa parte da superfície terrestre. Esses diferentes padrões de distribuição são relacionados às exigências de cada espécie para a sua sobrevivência, que é o nicho dessa espécie; e quanto mais exigente for a espécie, menos lugares aptos à ocupação ela terá.

Em função da relação das espécies com o clima, mudanças climáticas podem tornar o ambiente em que uma espécie ocorre inapropriado para a sua permanência, e a espécie pode ser extinta ou pode buscar outros locais com condições ideais para a sua sobre vivência. Esse fenômeno, denominado migração, já ocorreu muitas vezes durante o tempo em que a vida é registrada na Terra, nos períodos glaciais e interglaciais. Nos períodos glaciais as espécies das regiões temperadas deslocaram-se para a zona tropical, enquanto as espécies típicas da zona tropical ficaram restritas a pequenos refúgios climáticos. Nos períodos interglaciais, as espécies das regiões

temperadas retornaram para as suas áreas de origem, enquanto os refúgios tropicais se expandiram por toda a zona tropical, formando o padrão de vegetação e de comunidades semelhante ao atual. Alguns exemplos de espécies que migraram para a região tropical, fugindo do resfriamento no período glacial, foram os canídeos (os ancestrais do nosso lobo guará) e felídeos (ancestrais das nossas onças). Essas alterações climáticas ocorreram em períodos longos, por isso, apesar de muitas espécies se extinguirem ou especiarem, muitas outras foram capazes de migrar para ambientes favoráveis e assim sobreviver.

Estamos em um período interglacial, caracterizado por um aumento na temperatura global. No entanto, atividades antrópicas têm promovido a elevação da temperatura e alterações na precipitação em uma velocidade maior que a de evolução de muitas espécies, o que acarreta em perdas na biodiversidade. Os anfíbios são animais especialmente sensíveis a alterações climáticas,

principalmente na intensidade e frequência da precipitação. Não por acaso, o primeiro registro comprovado de extinção pelas atuais mudanças climáticas globais é de um anfíbio. O sapo dourado (Bufo periglenes), restrito a uma floresta nebulosa na Costa Rica, foi declarado como extinto em 1989, apenas 29 anos após ser descoberto. Essa extinção foi atribuída a alterações climáticas ocorridas em 1986 e 1987, que produziram um clima anormalmente quente e seco. Nesse período,

diversos outros anfíbios tiveram suas populações drasticamente reduzidas.

A sobrevivência dos jacarés e tartarugas também é ameaçada pelas mudanças climáticas. Nessas espécies a temperatura do ninho determina o sexo dos filhotes e peque nas alterações na temperatura (<2°C) podem modificar drasticamente o número de machos e fêmeas nascidos. Um estudo desenvolvido com uma tartaruga de água doce norte americana (Chrysemys picta) demonstrou que um aumento na temperatura de 4°C eliminaria a produção de machos, o que promoveria a extinção dessa espécie após a última geração de fêmeas.

As mudanças climáticas também afetam as interações ecológicas. O comportamento fenológico das plantas (época e intensidade do brotamento, floração e frutificação) é relacionado à temperatura e precipitação. Por isso, alterações no clima podem promover mudanças no período e na quantidade de brotos, flores e frutos produzidos. Alterações no brotamento podem afetar espécies de herbívoros, além de alterar as taxas locais de captação de CO2. Mas as variações na floração e frutificação são mais preocupantes para a sobrevivência das espécies de polinizadores e dispersores, pois essas interações são mais específicas; há tipos de flores e de frutos para cada grupo de polinizadores ou dispersores. Por isso, para a manutenção das populações de polinizadores e dispersores em uma comunidade é necessário que flores e frutos sejam produzidos durante todo o ano. Alterações no comportamento fenológico de muitas plantas já foram observadas; em alguns ambientes foram registrados períodos de incoerência da floração com a presença dos polinizadores, fato que influencia diretamente na sobrevivência dessa planta, do polinizador e dos dispersores. Quando lembramos que as comunidades são regidas por redes de interações e que todas as espécies estão interligadas, o problema toma proporções muito maiores.

 

o que acontece com as especies quando o clima muda?

As mudanças climáticas não influenciam apenas espécies, podem influenciar todo um bioma. Elevações na temperatura e diminuições na precipitação têm tornado diversos ambientes mais áridos, promovendo inclusive a desertificação de muitas áreas no nordeste do Brasil. Devido aos indiscutíveis efeitos sobre os ecossistemas naturais, modelos matemáticos baseados no nicho foram desenvolvidos e usados para prever a distribuição das espécies e comunidades nos próximos anos. Esses modelos demonstram quadros muitas vezes preocupantes, com diversas espécies diminuindo a sua área de ocorrência, transformando grandes áreas de ocorrências contínuas em áreas pequenas e disjuntas. Outras espécies, entretanto, podem aumentar muito a sua distribuição, como é o caso de Lutzomyia whitmani, um mosquito vetor da leishmaniose. Se isso ocorrer, a leishmaniose pode expandir para diversas áreas anteriormente livres dessa zoonose. Em relação aos efeitos sobre os biomas, estudos propõem a expansão do cerrado para áreas sul do Brasil que vão se tornar inóspitas para a floresta atlântica, o que pode afetar a sobrevivência das florestas de araucária.

As mudanças climáticas globais não atuam sozinhas na redução da biodiversidade, outras alterações promovidas pelo homem, como destruição e fragmentação de habitats e invasão biológica, também tem grande influência. Nessa realidade, a criação de novas áreas de preservação, de corredores ecológicos, além do estímulo à redução das emissões de CO2 e a programas de sequestro de carbono são ações determinantes para a preservação de muitas espécies.

Rúbia Santos Fonseca é bióloga, mestre e doutora em Botânica pela UFV. Desenvolve pesquisas na área de fenologia e biologia reprodutiva de plantas nativas.


 

Como citar esse documento:

Fonseca, R.S. (2013). O que acontece com as espécies quando o clima muda? Folha biológica 4 (Edição especial 2-3): 2

A preservação começa com a conscientização

Willian Lopes Silva

 

Quando se trata de Conservação da Biodiversidade, um dos grandes problemas que enfrentamos hoje é encontrar uma forma de mudar o foco do homem, de uma visão exploradora para uma visão de sustentabilidade. A consciência humana precisa ser voltada para o mundo não humano. Assim como compreendemos facilmente que nós o “dominamos” e dele usufruímos para nossa sobrevivência, devemos nos ver como seus protetores. É preciso que nos vejamos como promotores da sustentabilidade, vivendo em harmonia no planeta e sobrevivendo com os recursos que dele precisamos. Hoje, desmatar uma área para plantio, botar fogo em uma pastagem, usar excessiva quantidade de agrotóxicos nas lavouras, jogar dejetos nos rios, não são vistos como um atentado à humanidade. A maioria pensa apenas em lucrar e expandir o mercado, esquecendo que a cobertura vegetal e a biodiversidade animal são uma garantia de vida para seus descendentes.

Ecologicamente falando, apenas uma espécie, seja animal ou vegetal, não consegue se manter viva. Existem as necessárias interações ecológicas, que possibilitam a sobrevivência de um ecossistema inteiro. Apenas nós, e algumas espécies de monoculturas, não garantiremos o futuro do planeta, visto que não é só de alimento que precisamos. Também precisamos de novos remédios, de novas fontes de nutrientes, de tantos recursos quanto podemos imaginar.

É necessária uma mudança de atitude quanto à conservação da biodiversidade. Para conseguir isso, um trabalho forte em conscientização precisa ser feito. Mas a conscientização, para ser eficiente, deve vir acompanhada de propostas realizáveis de sustentabilidade. Enquanto apenas algumas pessoas verem a conservação da biodiversidade como algo importante nada vai mudar. Isso tem de ser postulado em caráter de urgência. E não só os profissionais engajados na conservação da biodiversidade têm a obrigação de falar e fazer. Isso é do interesse de todos, economistas, biólogos, advogados, empresários, religiosos, imprensa, políticos e trabalhadores rurais. Todos vivemos em um só lugar, uma só casa: o planeta Terra.  O homem, por milhares de anos, viveu em harmonia com a natureza, retirando dela o que seria usado para seu sustento e nada mais, além disso. O fato é que a população humana no planeta nesse tempo era minoria e nem se imaginava a possibilidade de nos tornarmos sete bilhões e termos que produzir industrialmente quase tudo o que utilizamos para uma manutenção confortável da vida.

Diante disso, o nosso desafio de viver em harmonia com a natureza se tornou muito maior. E o homem demorou muito tempo para perceber isso. Mas as esperanças não foram perdidas. Grandes empresas estão nos dando exemplos de que isso é possível, aliando uma produção em massa com a sustentabilidade e a preservação da biodiversidade. Pelo menos uma empresa brasileira de cosméticos, por exemplo, oferece produtos com matéria prima proveniente de extração sustentável da Amazônia, além do uso de refis em seus produtos, diminuindo a produção de lixo. Ela promove um trabalho junto à população local, oferecendo emprego e ao mesmo tempo conservando a biodiversidade.  Muitas empresas de celulose exibem com orgulho em seus produtos que todo o material vegetal é proveniente de reflorestamentos. Atitudes como essas são seguidas por muitos outros setores de produção industrial e alimentícia. Grandes latifundiários e pequenos agricultores também se aliaram, fazendo plantios programados através da associação e rotação de cultura, conseguindo assim obter lucro e conservar a natureza ao mesmo tempo.

Já está mais que provado que não é preciso aumentar a área plantada para aumentar a produção de grãos. Temos ferramentas como o melhoramento genético a nosso favor. Portanto, é possível, seguindo estes exemplos, mudarmos nosso modo de agir.  Para conseguirmos preservar o nosso meio ambiente precisamos nos ver dentro dele, como parte dele. Uma grande mudança começa em pequenos atos. Em nossos pequenos atos de cuidar do nosso lixo, de dar preferência a produtos biologicamente corretos, enfim, estamos nos conscientizando, e espalhando uma mensagem. E é o consenso das mais diferentes pessoas da sociedade em prol dessa única causa que irá alavancar todo o mundo.

Mudar esse quadro lastimável é um dever nosso. Este pequeno texto, mesmo sendo uma gota d’água no oceano de informações que temos hoje, não se deixou subjugar, e está tentando contribuir para a busca de um mundo melhor. Contribua você também!

 

Willian Lopes Silva é acadêmico do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba e bolsista do programa de Iniciação à Extensão – PIBEX.


 

Como citar esse documento:

Silva, W.L. (2012). A preservação começa com a conscientização. Folha biológica 3. (1): 1

Desbravadores da Natureza

Simone Rodrigues Slusarski

 

Os naturalistas que vieram ao Brasil no século XIX haviam tomado a difícil decisão de viajar, pois além dos perigos da viagem, a comunidade científica não era unânime quanto à valorização do trabalho do viajante.  Muitos dos mais importantes naturalistas europeus nunca viajaram. Para esta função treinava-se jardineiros coletores, desenhistas, pintores e preparadores de animais que acompanhavam ou substituíam os próprios naturalistas.   O exemplo mais conhecido do pesquisador que defendia a viagem como parte indispensável foi Alexander von Humboldt. Acreditava que as impressões estéticas vivenciadas pelo viajante, fazia parte da atividade científica e não podia ser substituída por descrições ou amostras destacadas dos lugares de onde foram tiradas. Alguns dos viajantes-naturalistas que vieram ao Brasil e foram influenciados por esta ideia de Humboldt, como Martius e Saint Hilaire, optaram pelas expedições, pelo simples fato de “ver com os próprios olhos” e assim produzir ciência in loco. Muitos cientistas vieram ao Brasil e cada um deixou uma importante contribuição científica retratando o ambiente, a história e os costumes de nossos povos.

Langsdorff esteve aqui em 1803 e retornou em 1813 como cônsul da Rússia. Em 1820 foi encarregado pelo governo Russo a organizar uma expedição científica, a qual fizera parte Riedel e Freyreiss. Esta missão organizou um herbário com 60.000 exemplares que foi levado para São Petersburg, hoje Leningrado. Sellow nasceu em 1789 na Alemanha, conheceu Humboldt e Langsdorff, veio jovem para o Brasil e com recursos financeiros dos dois amigos pode desenvolver suas pesquisas. Foi Sellow o botânico que forneceu a maior quantidade de material utilizado na Flora Brasiliensis, publicação de Martius.  Maximiliano, um naturalista possuidor de recursos financeiros, viajou pelo Brasil de 1815-1817. Em 1820 publicou “Reise nach Brasilien”, retratando a flora e a fauna, com várias ilustrações de próprio punho. Na mesma época, Auguste de Saint Hilaire, por influência de Conde de Luxemburgo, permaneceu no Brasil de 1816-1822. Além de coleta de material zoológico e botânico, contribuiu com observações da geografia humana, história e etnogeografia. Uma de suas obras mais famosas é a Flora Brasiliae Meridionalis, em colaboração com Jussieu e Cambessedés. Em uma passagem nos relatos de suas expedições, Saint-Hilaire retrata a  diversidade da Mata Atlântica:

“Nada aqui lembra  a cansativa monotonia de nossas florestas de carvalhos e de pinheiros; cada árvore tem, por assim dizer, um porte que lhe é próprio; cada uma tem sua folhagem e oferece frequentemente uma tonalidade de verde diferente das árvores vizinhas. Vegetais, que pertencem a famílias distantes, misturam seus galhos e confundem suas folhas”.  

Ele documentou também a extensa devastação feita em nossas matas pelo homem branco, referindo-se ao fato de que as pastagens são queimadas anualmente a fim de se obter erva fresca para o gado e que os fornos de Ipanema eram aquecidos com toras de peroba. Até o presente momento, estes trabalhos foram relevantes para a flora brasileira, porém a obra mais extensa e de maior importância para o Brasil, no que diz respeito a sua vegetação, foi a de Carl Friedrich Phillipp von Martius.  Martius nasceu na Baviera em 17 de abril de 1794, veio ao Brasil integrante de uma comitiva de sábios reunidos para acompanhar D. Leopoldina, a Arquiduquesa que havia contraído casamento com Pedro I, herdeiro da coroa portuguesa. Os pesquisadores chegaram ao Brasil em 15 de julho de 1817 e iniciaram imediatamente suas expedições pelas matas de Santa Tereza, Tijuca e Niterói.  Além da taxonomia de plantas superiores escreveu também sobre nossas plantas medicinais, criptógamas, observações fitogeográficas, questões etnogeográficas, assuntos linguísticos, costumes indígenas e organizou um mapa fitogeográfico do Brasil. Influenciado por Metternich, Chanceler da Áustria, o imperador desse país e o rei da Bavieria se interessaram pelo trabalho do ilustre botânico e em 1840, foi publicado o primeiro fascículo da Flora Brasiliensis, no formato definitivo como hoje a conhecemos. A obra foi continuada por Eichler e posteriormente por Urban, culminando em 130 fascículos onde são descritas 20 mil espécies.

Muitos outros naturalistas também estiveram aqui com expedições mais restritas, mas também de grande importância. Podemos ressaltar Poeppig (1831-1832), dedicou-se a flora amazônica. Gardner, botânico inglês chegou ao Brasil em 1837, explorou as matas da Tijuca e a Serra dos Órgãos, expandindo mais tarde suas coletas.  Regnell, nascido na Suécia em 1807, veio para o Brasil em 1840, patrocinou expedições com Loefgren, Lindman e Malme.  Barbosa Rodrigues nasceu em 1842 em Minas Gerais, estudou a flora de vários estados, fundou o Museu Botânico que dirigiu até 1889, no ano seguinte foi nomeado Diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.  Outros botânicos como Hermann von Ihering, Pilger, Taubert, Leônidas Damásio, Lutzelburg, Schlechter, Pacheco Leão, Wetts- tein, Alberto Loefgren, além de outros não citados, também tiveram grande contribuição em pesquisas relacionadas com a flora brasileira.

 


 

Como citar esse documento:

Slusarski, S.R. (2011). Desbravadores de natureza. Folha biológica 2 (2):1

 

Zoologia, o estudo da fauna

Ana Lúcia Miranda Tourinho

A zoologia é uma área científica multidisciplinar. De um modo geral, pode ser definida como a ciência que estuda os representantes do reino animal em todos os seus aspectos.

O fascínio dos homens pelos animais atravessa a história, remontando um passado onde pinturas destes, muitos hoje extintos, eram feitas no interior de cavernas. Diversos povos de importância histórica como os egípcios e celtas possuíam tamanho deslumbramento pelos animais que estes eram representados em seus deuses, reverenciados e profundamente admirados.

Apesar desse interesse, foi com o trabalho do grego Aristóteles, “História dos animais”, que a zoologia passou a ser de fato ciência. Ele reuniu todos os fatos zoológicos conhecidos até então, e lançou um sistema de classificação para todos os animais.

Algumas obras importantes sucederam a publicação de Aristóteles, destacando-se Carl Linnaeus que criou o sistema nominal adotando dois nomes em latim (gênero e espécie) que é usado até os dias de hoje.

Entretanto, o grande marco revolucionário na zoologia aconteceu com o desenvolvimento da Teoria da Evolução das Espécies, proposta por Charles Darwin, mudando a atitude expoente do método científico utilizado na classificação dos animais.

A partir de 1950, com a proposição da Sistemática Filogenética por Willi Henning, a classificação passou então a uma teoria consistente de investigação e representação das relações de parentesco entre as espécies.

Pode-se dizer que a zoologia tem como objetivos principais descrever e explicar a diversidade faunística, identificar, avaliar e estudar os ajustes adaptativos das espécies ao meio, ou ecossistemas específicos, além de ocupar-se da história natural dos animais, sua evolução e filogenia. Diversos ramos da ciência são utilizados como base e sustentáculo para os estudos zoológicos.

 

 

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Por exemplo, a anatomia e morfologia consistem basicamente na observação e descrição das estruturas presentes no corpo dos animais, e estudo das organizações estruturais dos organismos. Não se ocupam apenas em descrever, mas também propõem comparações entre organizações estruturais. A Sistemática, Taxonomia e Filogenia estão no domínio da classificação biológica.

A sistemática pode ser definida como o estudo dos tipos e da diversidade da vida na Terra. É um campo de estudo contínuo que vai desde a rotineira atividade de nomear e descrever espécies, passando pela extensa compilação de compêndios faunísticos, até os mais sofisticados estudos dessas espécies  em classificações que descrevem suas relações de parentesco, análises biogeográficas, biologia de populações e genética, estudos evolutivos e de especiação.

A taxonomia envolve descrições de espécies e atribuições de nomes, é profundamente necessária quando um grupo de animais é recém descoberto e/ou está pobremente conhecido. A filogenia trabalha com os estudos evolutivos em si.

Outra área de trabalho para um zoólogo é a zoogeografia, que consiste na biogeografia animal. Biogeografia é uma ciência histórica, estuda os padrões de distribuição geográfica dos seres vivos, cruzando a história da Terra ao longo do tempo com a história morfológica dos seres vi- vos. Isso significa entender como as modificações morfológicas, e suas causas, são refletidas geograficamente.

Conhecer e compreender os mecanismos que governam a vida animal é de suma importância, pois o homem também está sob a regência dos mesmos mecanismos.

Todos os problemas que a humanidade vem  enfrentando ao longo da transição do século XX para o século XXI são biológicos, e estão intimamente relacionados com a zoologia. Esses problemas não poderão ser solucionados sem que conheçamos adequadamente a vida animal no planeta.

Ana Lucia Miranda Tourinho é bióloga, Mestre em Zoologia e Doutora em Ecologia. É pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA e atua na área de biologia de Aracnídeos.

 


Como citar esse documento:

Tourinho, A.L.M. (2010). Zoologia, o estudo da fauna. Folha biológica 1 (4): 1

Genética Ecológica – uma ferramenta para o estudo da biodiversidade

Rubens Pazza

 

Embora pareça novidade, a Genética Ecológica não é uma área nova. Na realidade, suas primeiras impressões vieram dos trabalhos de Darwin e Wallace, que primeiro relacionaram a Genética (variação) com a Ecologia (luta pela sobrevivência). Em termos simples, a Genética Ecológica é uma ciência que trabalha com a análise das variações genéticas inter e intrapopulacionais, que em última instância leva à adaptação e especiação. Assim, diferentes metodologias que avaliem a variabilidade de populações, espécies ou mesmo indivíduos podem ser utilizados como ferramenta para a Genética Ecológica. Mais recentemente, com o advento da biologia molecular, novas ferramentas permitiram a observação de variação em níveis cada vez mais refinados. Não apenas os avanços técnicos, mas também os avanços teóricos foram importantes para a consolidação desta área de estudo, como a teoria de metapopulações e as análises filogenéticas, por exemplo.

Uma das áreas de estudo da genética ecológica envolve a resolução dos problemas taxonômicos. Mas por que motivo os problemas taxonômicos seriam problemas ecológicos? Em primeiro lugar, um naturalista deve se preocupar em saber com que espécie está lidando, pois isso é imprescindível para a avaliação dos seus resultados. Quando um pesquisador afirma que determinada espécie de peixes apresenta desova total na época chuvosa, ele precisou avaliar vários exemplares da mesma espécie em diferentes épocas do ano para chegar a esta conclusão. Toda a sua hipótese depende da correta identificação dos exemplares observados. Entretanto, existem dois grandes problemas associados à identificação de espécies. O primeiro deles é em relação ao conceito de espécie em si. O que realmente é uma espécie? O “conceito biológico” de Mayr-Dobzhansky pode ser útil para muitos organismos, mas não para todos nem para todas as situações.  Em segundo lugar, existem muitos grupos de organismos onde a identificação taxonômica ao nível de espécie é extremamente complicada do ponto de vista morfológico. Para tentar resolver o segundo caso, metodologias mais refinadas como a de marcadores genéticos (citogenética, marcado- res moleculares, sequenciamento de trechos de DNA nuclear e mitocondrial), por exemplo, podem ser úteis. Mais recentemente, a utilização de um pequeno trecho do gene da citocromo oxidase I do DNA mitocondrial (COI) tem apontado para novos rumos na identificação de espécies por meios moleculares. É o chamado código de barras de DNA (DNA barcoding), que pressupõe que a variação encontrada nesta região do genoma mitocondrial é suficiente para identificar espécies distintas.

Os estudos ecológicos ganharam um importante aliado na identificação de espécies por meio de marcadores genéticos. Além das questões ecológicas clássicas, das inter-relações entre populações e espécies em um ecossistema, esta ferramenta também é bastante útil em questões mais aplicadas, como a identificação de espécies quando a morfologia está descaracterizada. Um exemplo interessante é o reconhecimento e a certificação de madeiras como pertencentes a espécies não ameaçadas, evitando ou coibindo crimes ambientais. O mesmo vale para carnes processadas, seja para evitar o uso indevido de espécies ameaçadas, ou mesmo para garantir que o atum enlatado é realmente atum, e não bonito, um peixe da mesma família e de carne semelhante, mas com menor valor de mercado ou ainda, para literalmente, não levar gato por lebre!

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e Doutor em Genética e Evolução. É professor do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.


Como citar esse documento:

Pazza, R. (2010). Genética Ecológica – uma ferramenta para o estudo da biodiversidade. Folha biológica 1 (3): 4

 

Conhecer para preservar e preservar para conhecer.

Karine Frehner Kavalco

 

“Nada na Biologia faz sentido exceto à luz da Evolução”. Foi o que inteligentemente afirmou Theodosius Dobzhansky (que consolidou a nascente ciência da genética no Brasil), depois de observar características genéticas da pequena mosca da fruta, Drosophila melanogaster. Esta afirmação fora usada inúmeras vezes depois dele a ter proferido, e a cada dia ela ganha mais sentido. Desde muito antes de Charles Darwin, vários pesquisadores já tinham notado que as espécies mudavam, mas eles não sabiam como. De posse de ideias de outros pesquisadores sobre a mudança nos padrões de diversidade vistos na natureza e sobre dados demográficos de populações humanas, Darwin pôde dar sentido àquilo que ele encontrou em sua viagem com o navio britânico “H. M. S. Beagle” pela América do Sul. A região Neotropical (que se estende do sul dos Estados Unidos até o norte da Argentina), visitada quase em sua totalidade pelo naturalista em sua aventura, é realmente uma das mais ricas em termos de número de diferentes espécies, seja com relação a plantas ou animais. Darwin viu uma vasta diversidade de formas e tipos, cores e comportamentos, que o levou a indagar sobre os processos que dariam origem a este fenômeno. O arquipélago de Galápagos, formado por mais de 50 ilhas, foi o laboratório natural de Charles Darwin, o local que lhe suscitou tantas dúvidas e o extasiou com tamanha beleza exótica. Essa viagem pode ser considerada o marco de início da Biologia Evolutiva como Ciência. Darwin estabeleceu métodos para análise e propôs os processos biológicos que estariam por trás da biodiversidade que ele observara. Ele analisou uma grande quantidade de diferentes organismos, e fortaleceu suas predições sobre a Seleção Natural com a observação da força da Seleção Artificial feita por criadores.

Hoje, a cada dia, milhares de biólogos evolutivos relatam à comunidade científica fatos que corroboram as ideias de Darwin e de outros grandes cientistas. Depois da introdução de dados de outras Ciências, como a Genética, as observações cotidianas dos processos nos seres vivos foram entendidas de maneira mais plena, e hoje se assume que a Evolução seja o elo que agrega todas as áreas das Ciências Biológicas. Da mesma forma que a Biologia Evolutiva, o Biólogo Evolutivo tem um vasto campo de atuação. Embora seja uma das áreas mais exclusivas das Ciências Biológicas, uma vez que normalmente apenas biólogos estudam com profundidade Evolução Biológica, ainda há muito por se fazer. Descrever padrões na natureza, tentando explicar que processos os produziram, é uma das tarefas mais árduas nesta área. E relatar o mecanismo exato dos processos que produzem esse padrão, como por exemplo, a Seleção Natural, é ainda mais difícil. Mas o encanto que entender como uma forma foi moldada durante centenas de gerações é algo tão profundo, que nenhum biólogo evolutivo foge da oportunidade de entender um pouco mais sobre a natureza. A maneira de fazer esta Ciência mudou muito desde a época de Darwin. Naquela época não havia potentes microscópios, aparelhos de precisão ou modelos matemáticos tão bem desenhados como hoje, que facilitam e permitem um maior aprofundamento nos estudos dos biólogos. Hoje, entretanto, estamos mais limitados à devastação de nossos laboratórios naturais. Junto com a diversidade de formas, tipos, cores, comportamentos, etc., que nos é tolhida dia-a-dia com a destruição da vida natural, de diferentes habitat, perdemos as respostas a tantas perguntas, algumas delas ainda não formuladas, dada a limitação do nosso conhecimento.

Embora tenha visitado apenas quatro das ilhas de Galápagos, o que seria de Darwin se ele fizesse hoje esta viagem e se o governo equatoriano não tivesse decretado Galápagos um Santuário da Vida Selvagem? E o mais importante, o que seria da Ciência se Darwin não tivesse tido a chance de ver o que viu em 1835? Quantos “Darwins” estamos coibindo, quanto conhecimento estamos perdendo a cada árvore que vai ao chão? Conhecer a natureza não nos possibilita apenas conhecer o mundo ao nosso redor. Conhecer a natureza, seus padrões e os processos que a formam, implica em nos conhecermos, uma vez que somos parte dela, aceitemos ou não.

Karine Frehner Kavalco é bióloga, mestre em Genética e Evolução e doutora em Genética. É professora do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Evolução.


Como citar esse documento:

Kavalco, K.F. (2010) Conhecer para preservar e preservar para conhecer. Folha biológica 1 (3): 1

 

O Brasil no Ano Internacional da Biodiversidade.

Rubens Pazza.

A biodiversidade é caracterizada como a diversidade biológica em pelo menos três níveis hierárquicos: diversidade genética, diversidade de espécies e diversidade de ecossistemas. O tema da conservação da biodiversidade tem sido amplamente difundido nos últimos anos, especialmente quando se trata de assuntos econômicos. Afinal de contas, inúmeros fármacos, cosméticos e variedades cultivadas na agricultura são obtidos através do uso de nossa biodiversidade. Entretanto, a necessidade da conservação da biodiversidade vai muito além de questões econômicas. Toda uma cadeia ecológica depende da relação entre as espécies de um determinado ecossistema, onde a perda de uma única peça pode ser altamente prejudicial, alterando as inter-relações e desequilibrando o mesmo. Durante a Eco-92, uma grande convenção internacional sobre meio ambiente realizada no Brasil em 1992, 175 países assinaram um tratado chamado de Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB). Este documento propõe regras para a conservação da biodiversidade, bem como de seu uso sustentável e a repartição justa dos benefícios provenientes do uso econômico dos recursos. Periodicamente, os países signatários deste tratado se reúnem em convenções. Este ano, em outubro, acontecerá a COP-10 (Conferência das Partes, 2010), em Nagoya, no Japão. Nestes encontros, discute-se o que os países têm feito para cumprir sua parte no tratado e quais as medidas e metas que devem ser adotadas a seguir.

O Brasil é signatário deste tratado, tendo legislação apropriada e regulamentada pelo Decreto Nº 2.519 de 16 de março de 1998. Em vistas ao encontro em Nagoya, a Câmara dos Deputados realizou alguns eventos para levantar as ações realizadas pelo governo brasileiro e suas propostas, bem como as propostas da sociedade civil sobre o tema.  Nos dias 13 e 14 de Julho, por exemplo, aconteceu o seminário intitulado “Ano Internacional da Biodiversidade – Quais os Desafios para o Brasil?”. Neste seminário foram discutidos temas como as iniciativas para conservação dos Recifes de Corais no Brasil, como o Brasil está enfrentando os problemas das espécies invasoras, os riscos e impactos à biodiversidade dos empreendimentos de infraestrutura, o turismo e a biodiversidade, o estado de conservação dos principais biomas brasileiros, o impacto das mudanças climáticas sobre a biodiversidade, os instrumentos de prestígio internacional (Reserva da Biosfera, Sítios do Patrimônio da Humanidade e outros) e a Avaliação Ecossistêmica do Milênio e o conhecimento da biodiversidade.

A UFV participou do seminário.

A Universidade Federal de Viçosa foi convidada para apresentar um painel durante o evento. Nesta oportunidade, fui convidado a discutir o tema “Avaliação Ecossistêmica do Milênio e o Conhecimento da Biodiversidade”. A Avaliação Ecossistêmica do Milênio foi um grande projeto internacional que tinha como objetivo mapear a saúde dos principais ecossistemas do mundo em relação à oferta de serviços ambientais, como a produção de alimento, a qualidade e disponibilidade de água, de estoques pesqueiros, a informação genética utilizada na biotecnologia, etc. O Brasil também participou deste esforço internacional, embora de maneira tímida, avaliando apenas a região do cinturão verde de São Paulo.  No relatório é possível observar dados alarmantes. Cerca de 60% dos ecossistemas do planeta são explorados de modo não sustentável; pelo menos ¼ dos estoques comerciais importantes de peixes são superexplorados; a utilização da água doce duplicou desde 1960 e é insustentável; cerca de 70% da água doce é utilizada na agricultura; a taxa de extinção de espécies aumentou cerca de 1000 vezes nos últimos séculos; de 10 a 30% das espécies de aves, mamíferos e anfíbios estão ameaçadas. Um dos grandes desafios da utilização sustentável dos serviços ambientais é que há uma relação direta entre eles, ou seja, a utilização de um deles gera impacto em outro. Em termos econômicos, embora seja difícil atribuir um valor a um serviço ambiental ou à biodiversidade, temos alguns indícios do prejuízo gerado quando algo falha. Por exemplo, no Canadá dos anos 90, em decorrência da superexploração, os estoques de bacalhau caíram drasticamente. Isto obrigou o investimento de cerca de 2 bilhões de dólares em seguro desemprego e treinamento para recolocação de trabalhadores. Em relação ao conhecimento da biodiversidade, alertei para a biodiversidade escondida, que conseguimos tomar conhecimento através dos estudos genéticos, mas este é um tema para uma próxima edição.

Todas as apresentações podem ser vistas no site da Câmara dos Deputados – www.camara.gov.br. A participação do Brasil no encontro em Nagoya é fundamental, pois os países megadiversos, como o nosso, devem tomar a dianteira nas discussões sobre a conservação e utilização sustentável da biodiversidade.

 

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e Doutor em Genética e Evolução. É professor do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.


 

Como citar esse documento:

Pazza, R. (2010). O Brasil no Ano Internacional da Biodiversidade. Folha Biológica 1 (2): 2.