Ema, a maior ave brasileira – biologia e conservação

Rhea americana americana (Linnaeus, 1758), pertence à classe das Aves, Reino Animalia, e é também conhecida como “ema congo”; “nhandu”, “ñandú“ (que significa “a corredora” em guarani). Esta espécie é considerada a maior ave do Brasil. Em terra é a ave mais veloz das Américas perdendo apenas para o avestruz africano. No livro vermelho são classificadas como quase ameaçadas. Os adultos desta espécie podem medir de 1,27 até 1,40 metros. Estão distribuídas em regiões campestres, cerrados e áreas de uso agropecuário (tais como pastos e plantios de soja), mas apenas em locais onde não é alvo de perseguição. Estas aves são ratitas e utilizam as asas apenas para o equilíbrio. Bebem pouca água e em épocas de muito calor dormem durante o dia e as noites saem em busca do seu alimento. É uma ave onívora, com dieta baseada em insetos, roedores, répteis, capim e sementes.

Esta espécie pode viver em grupos de até 30 indivíduos. A época do acasalamento começa em outubro, e é dada pela dança do acasalamento (que consiste em saltos, abrir das asas, sacudir pescoço e alguns roncos) que é feita pelo macho, desta forma ele tende a reunir de 5 ou 6 fêmeas, e assim escolher um local para fazer o ninho.Cada fêmea põe de 10 a 30 ovos. Estes ficam fora do ninho e o macho se encarrega de arrumá­-los para a choca, rolando-os para dentro do ninho, quando este está cheio. O macho afasta as fêmeas e se responsabiliza por chocar os ovos, e as fêmeas retardatárias têm de botar os ovos apenas do lado do ninho. Os machos chegam a ficar oito semanas sem comer ou beber água ­ vivendo apenas de gordura corporal armazenada ­ para cuidar do ninho. Durante a choca o macho fica extremamente agressivo. Enquanto isso, as fêmeas vão acasalar com outros parceiros, podendo formar até três ninhos diferentes em uma mesma temporada.

Os ovos que não eclodem são colocados para fora do ninho ou são deixados para trás, servindo de alimento para predadores (lagartos, lobo-guará, felinos e gaviões) ou serão adotados por outro grupo de emas. Assim que os filhotes nascem, o cheiro liberado pelo que servirão de alimento dos filhotes. Suas crias ficam aos cuidados dos pais até atingirem a idade adulta. A maturidade sexual chega em torno de um ano e meio de idade ou dois anos.

Registros desta espécie onde a população humana é mais densa são escassos. Quando algo as assusta as emas abaixam o pescoço e se afastam de repente em um zigue-­zague ligeiro abrindo as asas e inflando a plumagem.

A criação desses animais silvestres tem sido uma das alternativas inovadoras econômica-conservacionistas que mais crescem no Brasil e no mundo.

A criação pode ser do tipo 1.intensivo, 2.semi-intensivo e 3.extensivo.

1.Sistema intensivo: os ovos são chocados em chocadeira e depois os filhotes são levados a piquetes onde irão receber alimentação abundante até atingir a época do abate.

2.Sistema semi-­intensivo: utiliza áreas naturais de campo ou cerrado onde pode ser criadas de 50 a 70 emas por hectare.

3. Sistema extensivo: pode ser feito o consórcio com bovinos, caprinas, capivaras e pacas recomendam-­se 10 emas por hectare.

Para deixar o ambiente de criação mais parecido com o natural, afim de evitar estresse e mau condicionamento é preciso algumas atividades que estimulem a busca, o conhecimento, a descoberta e o entretenimento do animal, isto pode ser feito através de certas medidas como:

•  Espalhar alimentos no chão para encorajar os animais a forragearem no solo, ou colocar bandejas em um ponto alto;

•  Introduzir lagos e grandes caixas com areia solta, o que despertará nos animais, o comportamento natural de se limpar;

•  Pendurar galhos com folhas frescas no alto e latas amassadas, tampas de garrafas e bolas coloridas;

•  Os recintos devem ter espaços grandes, com alguns troncos espalhados verticalmente pelo chão, possibilitando aos animais correr a toda velocidade, e afastar-se dos outros quando desejado;

Para iniciar uma criação de emas é preciso de muito planejamento e conhecimento sobre o mercado consumidor dos produtos e também sobre a espécie.

Ana Cláudia Alves, Caroliny Fernandes, Paloma Silva e Nathan Amorim ­- Graduandos do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa ­- Campus Rio Paranaíba.

Extraterrestres de um ponto de vista biológico.

Dênis Glauber da Silva Reis

 

A existência de vida extraterrestre é uma hipótese a ser considerada a partir de um ponto de vista biológico e muitos estudos têm sido realizados procurando respostas, dentro e fora de nosso planeta. Será que algum dia terão uma resposta para a pergunta: “Estamos sozinhos no universo ou não?”

O que a maioria dos cientistas que estudam a exobiologia concorda é que a existência de água tenha sido uma condição fundamental para o surgimento e para a manutenção da vida em nosso planeta.

A partir disso, muitos esforços já foram feitos a fim de se detectar corpos celestes que contenham esta molécula e possivelmente vida dentro destes. Ao todo já foram identificados 340 exoplanetas, sendo que 30 destes situam-se em regiões chamadas de zonas habitáveis.

Essas regiões são definidas como as distâncias máximas e mínimas de um planeta em relação à estrela que orbitam e nas quais a temperatura e a iluminação permitem a existência de água no estado líquido. Em nosso sistema solar os principais candidatos para abrigar uma possível forma de vida, devido ao fato de possuírem água são: Marte, Europa (uma lua de Júpiter), Titã e Encélado (luas de Saturno).

Abaixo do solo marciano existe gelo em abundância similar ao permafrost (solo terrestre que jamais descongela). Se microorganismos que se multiplicam no gelo já foram detectados na Antártida, seria razoável admitir que eles possam igualmente habitar o gelo marciano.

 

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O gás metano na atmosfera deste planeta também sugere a presença de microorganismos, já que na terra a liberação deste gás só ocorre pela atividade biológica ou por atividade vulcânica.

A baixa pressão exercida pela rarefeita atmosfera marciana, aliada a altas concentrações de sais e de peróxido de hidrogênio (água oxigenada), permite que a água exista sob a forma líquida em Marte, uma vez que essa mistura atrapalha o congelamento da água, mesmo aos 56ºC negativos de temperatura do planeta. No entanto, a falta de um escudo protetor atmosférico faz com que a quantidade de radiação ultravioleta solar seja altíssima na superfície do solo deste planeta. Consequentemente, quaisquer indícios de organismos viventes estariam no subsolo.

Em Europa existe uma superfície de gelo que varia de 5 a 30 km de espessura, bem como um oceano líquido de aproximadamente 100 km abaixo desta camada gelo. Esse satélite jupteriano é considerado um local propício para algumas formas particulares de vida, pois o fundo de seu oceano poderia abrigar microrganismos associados à fumarolas hidrotermais, similares às existentes no lago Vostok na Antártida.

Recentemente, em Encélado, a sonda Cassini revelou que esta lua também é um potencial local para abrigar vida. Esta sonda detectou partículas e grandes jatos de vapor d’ água a partir da crosta, sugerindo a existência de água líquida abaixo de sua superfície.

Outro ponto importante a ser considerado é o fato de que todo o organismo de nosso planeta tem como base os ácidos nucléicos DNA e RNA. Poderiam existir formas de vida que não se baseassem em tais moléculas?

Um grupo de cientistas do Instituto de Astrobiologia da NASA encontrou uma bactéria, a Gamaproteobactéria GFAJ-I da família das Halomadáceas, uma extremófila, especializada em sobreviver no hostil ambiente hipersalino do lago Mono entre os estados da Califórnia e Nevada. Segundo eles, esta bactéria empregaria arsênico no lugar do fósforo em suas moléculas. O fósforo é um elo chave no esqueleto dos ácidos nucléicos, e existe a possibilidade de esta ser uma forma de vida que possui uma maneira diferente de “armazenar sua informação genética”.

Embora não chegue a ser vida extraterrestre, caso tal hipótese se confirme, teríamos uma expansão da abrangência do fenômeno da vida e do que podemos especular sobre possíveis formas de vida extraterrestre.

Outra forma encontrada pelos cientistas de buscar por formas de vida no espaço é procurando sinais que indiquem a presença de seres capazes de realizar fotossíntese; este é um processo tão bem sucedido que funciona como base de boa parte da vida em nosso planeta.

A fotossíntese surgiu há 3,4 bilhões de anos, com as bactérias fotossintetizantes; elas absorviam luz do infravermelho próximo em vez de luz visível e produziam enxofre e compostos sulfúricos em vez de oxigênio; ela é um processo muito particular que poderia produzir bioassinaturas. As bioassinaturas fotossintéticas poderiam ser de vários tipos; características como a presença de oxigênio, água, ozônio, metano e oxigênio, ciclos sazonais de metano Cloreto de metila, óxido nitroso ou cores da superfície que indiquem a presença de pigmentos especializados como clorofila verde. Em nosso planeta existem organismos adaptados as mais diversas condições de luminosidade ambiental; existem seres adaptados a condições de alta e baixa luminosidade, bem como criaturas aquáticas que se adaptaram a luz filtrada pela água.

Apesar alguns organismos viverem do calor e do metano em fontes hidrotermais, todos os ricos ecossistemas da superfície do planeta dependem da luz solar.

E se existisse vida extraterrestre, qual a probabilidade de encontrarmos seres iguais a nós? E qual a probabilidade de encontrarmos seres que possuam inteligência?

Mesmo que a vida se desenvolva em outros sistemas solares, a chance de encontra-la em um estágio reconhecidamente humano é mínima. Embora sem muita razão, tende-se a ver a inteligência como uma consequência inevitável da evolução. Porem não está claro que a inteligência possui um grande valor de sobrevivência. As bactérias se defendem muito bem sem inteligência, se adaptaram aos mais diversos ambientes e sobreviveriam em nosso planeta caso nos extinguíssemos.

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Dênis Glauber da Silva Reis é acadêmico do curso de Agronomia da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba, e foi bolsista de Iniciação Científica do CNPq.


 

Como citar esse documento:

Reis, D.G.S. (2012). Extraterrestres de um ponto de visto biológico. Folha biológica 3. (Edição Especial 3-6): 2

Um poema sobre Ciência

Flávia Fróes de Motta Budant

 

Imagine você que seu professor de ciências (biologia, física ou química) chega na sala com um novo texto sobre a matéria. Um texto que fala de animais. Que também fala a respeito da óptica. E também sobre átomos. Em que formato ele viria? Provavelmente em prosa, cheio de nomes gigantes e, dependendo da bondade do autor, com algumas figuras ilustrativas. Bom, talvez não fosse bem assim…

Ciência em versos

Há cerca de dois mil e cem anos vivia em Roma um sujeito chamado Lucrécio, sobre o qual sabemos pouco. O mais seguro que temos é a sua obra: um livro chamado De Rerum Natura – Sobre a natureza das coisas.  Lucrécio era seguidor de Epicuro, um filósofo grego que pregava a busca da felicidade através da dissolução dos medos, como o medo da morte. São eles que nos prendem, que impedem que vivamos bem.  Para os superarmos, precisamos conhecer o universo no qual estamos imersos, do qual somos uma pequena parte. Precisamos entender a natureza das coisas. Lucrécio, que, como bom romano, pagava tributo à cultura helenística (da Grécia Antiga), decidiu fazer uma obra para divulgar essas ideias filosóficas. E a fez – em versos. À época, o verso pertencia não só ao conteúdo lírico, mas também ao épico e ao didático, gênero ao qual pertence o De Rerum Natura.  Ele contém quase oito mil versos, separados em seis livros (ou cantos, divisões como capítulos), que tangem várias áreas do conhecimento: física, química, biologia, geografia, filosofia e – pasme – até teologia!

Mesmo sem vê-lo, ele deveria existir 

Os dois primeiros livros expõem a física epicurista, herdeira de Demócrito, o inventor da palavra átomo (indivisível, em grego).  O átomo é reconhecido como menor parte da matéria, que não pode mais ser quebrada, e constituinte de tudo que existe: são as semina rerum, semente das coisas. Lucrécio deriva suas conclusões empiricamente, ou seja, por meio dos sentidos. Tudo é feito de átomos e de vazio, entrelaçados de maneira diferente, o que permite a diversidade assombrosa de seres e objetos que constituem nosso planeta, e quem sabe até outros mundos.

 

Um poema sobre ciencia

Fisionomia atribuída a Lucrécio de Roma.

 

Vida e morte: um ciclo infinito  

O livro III é sobre a natureza da alma e nele Lucrécio empreende uma refutação aos outros filósofos, como Aristóteles, a respeito da imortalidade da alma. Para o epicurista, a alma existe, mas é mortal, como todo o resto do corpo. Ela é material, é feita de átomos, e, por isso, também é suscetível ao perecimento. Assim, não devemos temer a morte: ela faz parte da Natureza e de nós mesmos.

 

 

Paixão x razão 

O livro IV explica as imagens, as visões que temos das coisas. São como películas que se descolam da superfície das coisas e atingem nossos olhos. Lucrécio escreve, e de maneira bastante poética, também sobre as paixões humanas e como devemos resistir a elas, afinal, nos deixam sem juízo e sem pensar racionalmente (parece que não mudou muito).

 

Origens: a Terra dando seu testemunho 

Os livros V e VI tratam da origem do nosso planeta, de como os seres se desenvolveram, e do funcionamento dos fenômenos naturais – trovões, terremotos, vulcões e até o ímã, com seu misterioso magnetismo.

No fim, o encantamento é o que conta 

Bom, e falando sobre tudo isso, Lucrécio acertou? Quanto ao conteúdo científico, pode-se dizer que sim e que não. Apesar de não ter microscópios e telescópios, muita coisa foi inferida corretamente pelo raciocínio e pela observação.  O que deve ser reconhecido no poema, porém, não é tanto o que foi confirmado pela ciência moderna, mas a beleza com que Lucrécio fala e explica os fenômenos.  Sim, é possível fazer um poema sobre ciência. Desvendar o mundo em que vivemos significa apreciá-lo. Significa apreender e aprender sobre a natureza das coisas, de rerum natura.

 

Flávia Fróes de Motta Budant é estudante de Graduação em Letras Português – Latim, na Universidade Federal do Paraná, com ênfase em estudos da poesia latina.


 

Como citar esse documento:

Budant, F.F.M. (2013). Um poema sobre ciência. Folha biológica 4 (1): 1