Batcavernas Neotropicais

Como todos nós sabemos muito bem, a batcaverna é o lugar preferido do Batman, assim como a Fortaleza da Solidão é para o Super-Homem. Na batcaverna, o homem-morcego pode bolar tranquilamente seus diversos planos sobre como salvar Gotham do mal, sem que o Alfred venha lhe incomodar, mandando-lhe arrumar a cama. Mas já imaginou se existissem um bocado de batcavernas, quentinhas e aconchegantes, onde morcegos de regiões neotropicais pudessem habitar?

O termo “cavernas quentes” se refere à algumas câmaras subterrâneas localizadas em regiões neotropicais. Essas câmaras servem de moradia para um bocado de morcegos. Mas a vida nas cavernas não é nada fácil,os morcegos que o digam, pois o calor que faz lá é imenso, entre 28 e 40ºC. Isso acontece por causa do calor corporal emanado pela grande quantidade de espécies de morcegos desses locais. Daí vem o nome “cavernas quentes”, que funcionam como “batcavernas coletivas”.

Em um artigo do ano de 2012 publicado pela revista científica Conservation Biology, alguns pesquisadores destacam a importância da fauna das espécies de morcegos para a estabilidade do microclima dessas regiões. Eles dizem que o que diferencia essas cavernas quentes das cavernas tradicionais é a densidade de morcegos, pois, enquanto as cavernas tradicionais possuem um número que é relativamente pequeno de indivíduos, as cavernas quentes podem chegar a ter centenas de milhares de morcegos. Logo, quanto mais morcego, maior será o calor do ambiente.

Além dos morcegos, os autores desse trabalho mencionam que essas cavernas também abrigam outros organismos, como, por exemplo algumas espécies de artrópodes. Acontece que o prato predileto dos artrópodes das cavernas quentes são as fezes (eca!) de nossos morceguinhos. Embora para nós esse cardápio seja um tanto esquisito, outros trabalhos revelam que ele é muito apreciado por vários besouros, e que, tanto o cocô dos morcegos, como o microclima dessas cavernas propiciam o lar adequado para esses artrópodes. Contudo, diferente dos morcegos, a fauna desses artrópodes ainda é muito pouco conhecida, devido à baixa quantidade de estudos sobre eles.

O artigo aproveita também para falar sobre algumas adaptações biofísicas dos morcegos desenvolvidas ao longo do tempo evolutivo, que adequam a vida deles aos ambientes das cavernas quentes. Eles conseguem reduzir sua taxa metabólica, além de possuírem morfologia adequada para a conservação de água: as membranas naturalmente ressecadas de suas asas são essenciais para reduzirem a perda de água quando estão enchendo o papo fora do microclima úmido da floresta.

Agora chegamos ao lado trágico história. Infelizmente, os ambientes das cavernas quentes vêm sendo ameaçado pelas atividades dos seres humanos, principalmente no que diz respeito à extração do guano (nome chique para o cocô do morcego), que é utilizado frequentemente como fertilizante. Além disso, o trabalho também menciona o quanto a urbanização, a agricultura, o turismo e outras ações antrópicas afetam a vida dos organismos que vivem nessas cavernas. De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, mais de 8 milhões de toneladas de cimento são produzidos por ano nas ilhas do Caribe, e isso é possível devido à extração de calcário das cavernas quentes existentes na região.

Mas esse não é o fim da história: no artigo os autores também, apresentam oportunidades para a conservação desses ambientes. Mesmo existindo um bom conhecimento a respeito das cavernas quentes, ainda há muito que se descobrir, e estudar as variáveis ambientais, a ecologia e a distribuição geográfica dos organismos que vivem nesses lugares é um passo decisivo para conhecermos mais sobre seu nicho ecológico. E conhecer o nicho ecológico de um determinado grupo possibilita aos cientistas tomar as medidas adequadas para preservar os seres vivos.

Arthur Filipe da Silva – Graduando em Ciências Biológicas – Universidade Federal de Alagoas.

Referência:
Ladle, R.J. et al. (2012). Unexplored Diversity and Conservation Potential of Neotropical Hot Caves. Conservation Biology. DOI: 10.1111/j.1523­1739.2012.01936.x

Originalmente publicado no blog Causos da Ciência: http://causosdaciencia.blogspot.com.br

Jacaretinga ­- seriam realmente importantes?

O Caiman crocodilus da família Alligatoridae, conhecido popularmente por jacaretinga ou jacaré-­de-­óculos, é encontrado desde o sul do México até o noroeste da América do Sul. É o mais comum dentre os crocodilianos brasileiros, sendo estimado mais de um milhão de animais, apesar de algumas populações terem sido reduzidas. O jacaretinga é um réptil carnívoro que recebe este nome devido ao seu dorso branco, em tupi a palavra tinga significa branco, os indivíduos jovens são mais amarelados com manchas e faixas escuras no corpo e no rabo, porém quando crescem, perdem sua coloração amarelada e as marcas ficam menos distintas, os adultos são verde-­oliva. São também conhecidos como jacaré­-de-­óculos, graças a uma estrutura óssea próxima aos olhos, como um par de óculos. É uma espécie extremamente adaptável encontrada em praticamente todos os habitats fluviais e lacustres, dentro de sua área de distribuição geográfica, e é facilmente encontrado ao longo da bacia amazônica e da bacia Tocantins.

Os machos podem atingir cerca de 2,5 metros e as fêmeas por volta de 1,6 metros, atingem uma média de 40 quilos. As fêmeas atingem a maturidade sexual entre 4 e 7 anos de idade, em geral quando medem 1,2 metros.O cruzamento ocorre na estação chuvosa. A fêmea faz um ninho aglomerando pequenas quantidades de vegetação seca e terra e põe ali entre 14 e 40 ovos, que demoram em média sessenta dias para eclodir; ao nascerem os filhotes possuem cerca de apenas 20 centímetros. Sua alimentação varia com seu crescimento, quando jovens predam uma grande variedade de invertebrados aquáticos como insetos, crustáceos e moluscos, quando adultos grande parte da sua dieta é formada por peixes, anfíbios, répteis, aves aquáticas e pequenos mamíferos.

A criação de animais silvestres em cativeiro para fins comerciais ou econômicos é regulada pelo IBAMA que fornece uma lista com as espécies silvestre onde esse manejo é permitido. O Jacaretinga tem o seu manejo para fins comerciais permitido, visando à venda da carne e do couro do animal. Se bem tratado o abate do animal ocorre aos 2 anos de idade, nesta fase a largura abdominal é de aproximadamente 27 cm, aumentando o valor do animal no mercado. A carne rende 1,7 quilos por animal, sendo vendido para restaurantes especializados, o couro necessita de um cuidado especial tanto para o abate do animal quanto para a retirada do mesmo, para que não ocorra dano ao couro, visando um melhor aproveitamento. A criação de jacaré pode ser lucrativa já que apenas 5% dos animais nascidos na natureza atingem a idade adulta, em cativeiro são 90%.O couro do animal caçado só tem 25% de aproveitamento, em cativeiro é de 100%, levando em consideração que a caça é ilegal.

O Jacaretinga foi categorizado como Menos Preocupante (LC) na lista de animais ameaçados da fauna brasileira, porém ainda assim, a caça e a destruição de habitats são grandes ameaça para algumas subpopulações. Os jacarés são ecologicamente importantes, uma vez que fazem o controle populacional de outras espécies, ao se alimentar dos indivíduos mais fracos e velhos e doentes, que não conseguem fugir realizam um controle biológico.

Planos de conservação e manejo lucrativo, como atrativo turístico local ou para a comercialização da carne e produtos derivados são uma forma de tentar viabilizar a manutenção das populações, e poderiam ser implementados em regiões de ocorrência da espécie dentro de unidades de conservação de uso sustentável,também a aplicação de leis ambientais em áreas de ocorrência da espécie fora de unidade de conservação deve ser urgente, com motivação de proteção dos ambientes aquáticos, dos quais depende diretamente a fauna aquática.

João Rafael Mena Romeiro, Samira Barcelos de Carvalho, Otávio Rodrigues Lopes e Israel Moreno Ferreira Silva – Graduandos do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba.

Ema, a maior ave brasileira – biologia e conservação

Rhea americana americana (Linnaeus, 1758), pertence à classe das Aves, Reino Animalia, e é também conhecida como “ema congo”; “nhandu”, “ñandú“ (que significa “a corredora” em guarani). Esta espécie é considerada a maior ave do Brasil. Em terra é a ave mais veloz das Américas perdendo apenas para o avestruz africano. No livro vermelho são classificadas como quase ameaçadas. Os adultos desta espécie podem medir de 1,27 até 1,40 metros. Estão distribuídas em regiões campestres, cerrados e áreas de uso agropecuário (tais como pastos e plantios de soja), mas apenas em locais onde não é alvo de perseguição. Estas aves são ratitas e utilizam as asas apenas para o equilíbrio. Bebem pouca água e em épocas de muito calor dormem durante o dia e as noites saem em busca do seu alimento. É uma ave onívora, com dieta baseada em insetos, roedores, répteis, capim e sementes.

Esta espécie pode viver em grupos de até 30 indivíduos. A época do acasalamento começa em outubro, e é dada pela dança do acasalamento (que consiste em saltos, abrir das asas, sacudir pescoço e alguns roncos) que é feita pelo macho, desta forma ele tende a reunir de 5 ou 6 fêmeas, e assim escolher um local para fazer o ninho.Cada fêmea põe de 10 a 30 ovos. Estes ficam fora do ninho e o macho se encarrega de arrumá­-los para a choca, rolando-os para dentro do ninho, quando este está cheio. O macho afasta as fêmeas e se responsabiliza por chocar os ovos, e as fêmeas retardatárias têm de botar os ovos apenas do lado do ninho. Os machos chegam a ficar oito semanas sem comer ou beber água ­ vivendo apenas de gordura corporal armazenada ­ para cuidar do ninho. Durante a choca o macho fica extremamente agressivo. Enquanto isso, as fêmeas vão acasalar com outros parceiros, podendo formar até três ninhos diferentes em uma mesma temporada.

Os ovos que não eclodem são colocados para fora do ninho ou são deixados para trás, servindo de alimento para predadores (lagartos, lobo-guará, felinos e gaviões) ou serão adotados por outro grupo de emas. Assim que os filhotes nascem, o cheiro liberado pelo que servirão de alimento dos filhotes. Suas crias ficam aos cuidados dos pais até atingirem a idade adulta. A maturidade sexual chega em torno de um ano e meio de idade ou dois anos.

Registros desta espécie onde a população humana é mais densa são escassos. Quando algo as assusta as emas abaixam o pescoço e se afastam de repente em um zigue-­zague ligeiro abrindo as asas e inflando a plumagem.

A criação desses animais silvestres tem sido uma das alternativas inovadoras econômica-conservacionistas que mais crescem no Brasil e no mundo.

A criação pode ser do tipo 1.intensivo, 2.semi-intensivo e 3.extensivo.

1.Sistema intensivo: os ovos são chocados em chocadeira e depois os filhotes são levados a piquetes onde irão receber alimentação abundante até atingir a época do abate.

2.Sistema semi-­intensivo: utiliza áreas naturais de campo ou cerrado onde pode ser criadas de 50 a 70 emas por hectare.

3. Sistema extensivo: pode ser feito o consórcio com bovinos, caprinas, capivaras e pacas recomendam-­se 10 emas por hectare.

Para deixar o ambiente de criação mais parecido com o natural, afim de evitar estresse e mau condicionamento é preciso algumas atividades que estimulem a busca, o conhecimento, a descoberta e o entretenimento do animal, isto pode ser feito através de certas medidas como:

•  Espalhar alimentos no chão para encorajar os animais a forragearem no solo, ou colocar bandejas em um ponto alto;

•  Introduzir lagos e grandes caixas com areia solta, o que despertará nos animais, o comportamento natural de se limpar;

•  Pendurar galhos com folhas frescas no alto e latas amassadas, tampas de garrafas e bolas coloridas;

•  Os recintos devem ter espaços grandes, com alguns troncos espalhados verticalmente pelo chão, possibilitando aos animais correr a toda velocidade, e afastar-se dos outros quando desejado;

Para iniciar uma criação de emas é preciso de muito planejamento e conhecimento sobre o mercado consumidor dos produtos e também sobre a espécie.

Ana Cláudia Alves, Caroliny Fernandes, Paloma Silva e Nathan Amorim ­- Graduandos do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa ­- Campus Rio Paranaíba.

Conservação ou Preservação?

Willian Lopes Silva

Wagner M. S. Sampaio

 

Os termos Preservação e Conservação são utilizados para estabelecer a relação Homem e Natureza e proteger o meio ambiente, porém são ideologicamente distintos. Esses termos foram introduzidos por dois precursores do ambientalismo Norte Americano com o intuito de proteger o meio ambiente, o naturalista John Muir e o engenheiro florestal e político Gifford Pinchot. O primeiro nos dá o sentido de intocabilidade, onde o ambiente precisa ser preservado no seu estado natural sem nenhuma intervenção humana por ser importante por si mesmo. Já o segundo nos trouxe a ideia da conservação em longo prazo, onde os recursos naturais devem ser usados com parcimônia para não serem esgotados pelas necessidades humanas. As ideias de Muir e Pinchot são muito importantes para proteção da natureza, mas nos trazem um resultado muito diferente quando colocadas em prática e se usadas erroneamente podem trazer prejuízos socioambientais incalculáveis. O Preservacionismo de Muir foi um movimento romântico e espiritual, acreditava que Deus criou o universo para o gozo de todos os seres vivos, e não apenas para os seres humanos. Já o conservacionismo de Pinchot foi um movimento progressista e científico. Fato tão verdadeiro que, por exemplo, a legislação Brasileira e muitos pesquisadores adotam uma integração entre esses termos.  Segundo o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis, para garantir a proteção da diversidade biológica de um país é preciso estabelecer um sistema de áreas protegidas. No Brasil, as áreas protegidas incluem as áreas de proteção permanente, as reservas legais, as reservas indígenas e as unidades de conservação. As unidades de conservação (UC) formam uma categoria de área protegida mais específica e efetiva que englobam bem os conceitos conservacionistas e preservacionistas. No nosso país as UC não possuem apenas função de proteger a diversidade biológica e são justamente estas outras funções que diferenciam as UC. Mas, no geral, as UC podem ser separadas em dois grandes grupos. O primeiro engloba Unidades de Conservação de Proteção Integral que são aquelas onde efetua-se a preservação dos ecossistemas em estado natural com um mínimo de alterações, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais). O segundo inclui as UC de Uso Sustentável (são aquelas onde haverá conservação dos atributos naturais, admitida a exploração de parte dos recursos disponíveis em regime de manejo sustentável). As ferramentas de proteção criadas pela legislação têm a necessidade de embasar suas aplicações em informações biológicas estratégicas, que muitas vezes são escassas ou inexistentes, levando à diminuição da eficiência dessas ferramentas. Os Estudos Ambientais muitas vezes ficam “escondidos” nos órgãos ambientais e nos contratos de confidencialidade entre consultores e empreendores, porém estes estudos precisam cumprir sua função social e científica e isso só será possível quando começarem a ser divulgados. Vê-se, pois, que só assim conseguiremos alcançar nosso objetivo de proteger o meio ambiente para de ele usufruir de forma sustentável ou simplesmente para sua manutenção. A proteção dos recursos naturais é direito público e subjetivo das futuras gerações. Podemos pensar nisso como nos diz a “Carta da Terra”: “A humanidade é parte de um vasto universo em evolução e a proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado de todos e juntos”.

 


 

Willian Lopes Silva é acadêmico do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba.

Wagner M. S. Sampaio é biólogo e mestre em Biologia Animal pela Universidade Federal de Viçosa, e atua na área de Ictiologia.

Como citar esse Documento:

Silva, W.L. ; Sampaio, W.M.S. (2013). Conservação ou Preservação? Folha biológica 4 (1):4

A preservação começa com a conscientização

Willian Lopes Silva

 

Quando se trata de Conservação da Biodiversidade, um dos grandes problemas que enfrentamos hoje é encontrar uma forma de mudar o foco do homem, de uma visão exploradora para uma visão de sustentabilidade. A consciência humana precisa ser voltada para o mundo não humano. Assim como compreendemos facilmente que nós o “dominamos” e dele usufruímos para nossa sobrevivência, devemos nos ver como seus protetores. É preciso que nos vejamos como promotores da sustentabilidade, vivendo em harmonia no planeta e sobrevivendo com os recursos que dele precisamos. Hoje, desmatar uma área para plantio, botar fogo em uma pastagem, usar excessiva quantidade de agrotóxicos nas lavouras, jogar dejetos nos rios, não são vistos como um atentado à humanidade. A maioria pensa apenas em lucrar e expandir o mercado, esquecendo que a cobertura vegetal e a biodiversidade animal são uma garantia de vida para seus descendentes.

Ecologicamente falando, apenas uma espécie, seja animal ou vegetal, não consegue se manter viva. Existem as necessárias interações ecológicas, que possibilitam a sobrevivência de um ecossistema inteiro. Apenas nós, e algumas espécies de monoculturas, não garantiremos o futuro do planeta, visto que não é só de alimento que precisamos. Também precisamos de novos remédios, de novas fontes de nutrientes, de tantos recursos quanto podemos imaginar.

É necessária uma mudança de atitude quanto à conservação da biodiversidade. Para conseguir isso, um trabalho forte em conscientização precisa ser feito. Mas a conscientização, para ser eficiente, deve vir acompanhada de propostas realizáveis de sustentabilidade. Enquanto apenas algumas pessoas verem a conservação da biodiversidade como algo importante nada vai mudar. Isso tem de ser postulado em caráter de urgência. E não só os profissionais engajados na conservação da biodiversidade têm a obrigação de falar e fazer. Isso é do interesse de todos, economistas, biólogos, advogados, empresários, religiosos, imprensa, políticos e trabalhadores rurais. Todos vivemos em um só lugar, uma só casa: o planeta Terra.  O homem, por milhares de anos, viveu em harmonia com a natureza, retirando dela o que seria usado para seu sustento e nada mais, além disso. O fato é que a população humana no planeta nesse tempo era minoria e nem se imaginava a possibilidade de nos tornarmos sete bilhões e termos que produzir industrialmente quase tudo o que utilizamos para uma manutenção confortável da vida.

Diante disso, o nosso desafio de viver em harmonia com a natureza se tornou muito maior. E o homem demorou muito tempo para perceber isso. Mas as esperanças não foram perdidas. Grandes empresas estão nos dando exemplos de que isso é possível, aliando uma produção em massa com a sustentabilidade e a preservação da biodiversidade. Pelo menos uma empresa brasileira de cosméticos, por exemplo, oferece produtos com matéria prima proveniente de extração sustentável da Amazônia, além do uso de refis em seus produtos, diminuindo a produção de lixo. Ela promove um trabalho junto à população local, oferecendo emprego e ao mesmo tempo conservando a biodiversidade.  Muitas empresas de celulose exibem com orgulho em seus produtos que todo o material vegetal é proveniente de reflorestamentos. Atitudes como essas são seguidas por muitos outros setores de produção industrial e alimentícia. Grandes latifundiários e pequenos agricultores também se aliaram, fazendo plantios programados através da associação e rotação de cultura, conseguindo assim obter lucro e conservar a natureza ao mesmo tempo.

Já está mais que provado que não é preciso aumentar a área plantada para aumentar a produção de grãos. Temos ferramentas como o melhoramento genético a nosso favor. Portanto, é possível, seguindo estes exemplos, mudarmos nosso modo de agir.  Para conseguirmos preservar o nosso meio ambiente precisamos nos ver dentro dele, como parte dele. Uma grande mudança começa em pequenos atos. Em nossos pequenos atos de cuidar do nosso lixo, de dar preferência a produtos biologicamente corretos, enfim, estamos nos conscientizando, e espalhando uma mensagem. E é o consenso das mais diferentes pessoas da sociedade em prol dessa única causa que irá alavancar todo o mundo.

Mudar esse quadro lastimável é um dever nosso. Este pequeno texto, mesmo sendo uma gota d’água no oceano de informações que temos hoje, não se deixou subjugar, e está tentando contribuir para a busca de um mundo melhor. Contribua você também!

 

Willian Lopes Silva é acadêmico do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba e bolsista do programa de Iniciação à Extensão – PIBEX.


 

Como citar esse documento:

Silva, W.L. (2012). A preservação começa com a conscientização. Folha biológica 3. (1): 1

Para quê servem as matas ciliares?

Simone Rodrigues Slusarski

 

A vegetação marginal aos cursos de água tem classificação diversificada no Brasil em decorrência, principalmente, da sua ampla distribuição e dos diferentes ambientes em que ocorre. É tratada na literatura com uma nomenclatura variada e confusa, dentre elas, floresta (ou mata) ciliar, de galeria, de várzea, ribeirinha, ripária (ripícola) ou aluvial estão entre as denominações mais comumente utilizadas, das quais mata ciliar é a mais popular. Em relação aos termos, ciliar é derivado de cílio, referindo-se a proteção; ripária significa próximo ao corpo de água; zona ripária é definida como um espaço tridimensional que abrange vegetação, solo e rio e ecossistema ripário quando se inclui sistemas, processos e mecanismos. Essa vegetação às margens dos cursos de água, na interface entre os ambientes aquáticos e terrestres, é denominada ecótono ripário. Alguns autores utilizam o termo vegetação ripária, aplicando-o a toda e qualquer vegetação da margem, pois o termo ripário permite abrangência não apenas da vegetação relacionada ao corpo de água, mas também aquela localizada nas suas margens.  A importância da vegetação ripária está relacionada às suas funções, dentre elas: estabilidade das margens pela manutenção e desenvolvimento de um emaranhado de raízes, evitando a erosão; armazenamento e qualidade da água da micro bacia por meio da filtragem de nutrientes, sedimentos e agrotóxicos; através de suas copas, intercepta e absorve a radiação solar, contribuindo para a estabilidade térmica dos pequenos cursos de água; mantém a biodiversidade do ecossistema aquático e terrestre;  atua como corredores ecológicos que interligam diferentes unidades fitogeográficas e permitem o deslocamento de animais e a dispersão de plantas; promove o aumento da complexidade dos habitats, que constituem abrigo e fonte alimentar para as faunas terrestre e aquática.

Apesar de sua inquestionável importância ambiental e social, as matas ciliares foram fragmentadas e devastadas em benefício do processo de ocupação do Brasil, para dar lugar às cidades, culturas agrícolas e pastagens, o que resultou na destruição dos recursos naturais. Além da falta de planejamento inicial, esse fato também ocorreu devido ao não cumprimento da lei, a falta de fiscalização e ao descaso às questões ambientais.   A faixa marginal aos corpos de água tem sua proteção assegurada no âmbito Federal por meio de Leis, Decretos de Regulamentação, Medidas Provisórias e Resoluções do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), além de legislações estaduais. A primeira lei que estabeleceu proteção das áreas marginais dos cursos de água foi o Código Florestal (Decreto no. 23.793, de 23 de Janeiro de 1934) revogado pelo Novo Código Florestal (Lei no. 4.771, de 15 de Setembro de 1965 e suas alterações, 1986 e 1989). De acordo com o artigo 2o, as matas ciliares abrangem, como área de preservação permanente, as florestas e demais vegetações existentes ao redor dos rios, nascentes, lagoas e reservatórios, especificando a dimensão mínima da faixa marginal a ser preservada (30-500m). Esta lei também impôs a necessidade de florestamento ou reflorestamento em áreas de preservação permanente.

Pelo rigor de suas restrições, atualmente o Novo Código Florestal está sendo amplamente discutido entre os vários setores da sociedade.  Este processo de eliminação das formações vegetais, dentre elas as matas ciliares, resultou num conjunto de problemas ambientais, como extinção de espécies da fauna e da flora, mudanças climáticas locais, erosão dos solos e assoreamento de rios. Em virtude desse panorama de degradação, aliada às questões legais, tem havido iniciativas de restauração da vegetação ripária por meio de pesquisadores vinculados à universidades, centros de pesquisas e órgãos públicos e privados, com objetivos de proteção de reservatórios de abastecimento público, de geração de energia, recuperação de áreas degradadas e, mais recentemente, fundamentadas em questões ecológicas, tais como corredores ecológicos, proteção de populações e/ou comunidades. Em meio a esse cenário, vale a pena refletirmos…

No que estão pautadas nossas decisões e atitudes cotidianas em relação à preservação dos recursos naturais? Tenho a real consciência de sua importância e que faço parte desse complexo meio ambiente? Ou apenas estou sendo levado pela recente “enxurrada” de marketing e modismo ambiental?

 


 

Como citar esse documento:

Slusarski, S.R (2011). Para quê servem as matas ciliares. Folha biológica 2 (1):3

Genética Ecológica – uma ferramenta para o estudo da biodiversidade

Rubens Pazza

 

Embora pareça novidade, a Genética Ecológica não é uma área nova. Na realidade, suas primeiras impressões vieram dos trabalhos de Darwin e Wallace, que primeiro relacionaram a Genética (variação) com a Ecologia (luta pela sobrevivência). Em termos simples, a Genética Ecológica é uma ciência que trabalha com a análise das variações genéticas inter e intrapopulacionais, que em última instância leva à adaptação e especiação. Assim, diferentes metodologias que avaliem a variabilidade de populações, espécies ou mesmo indivíduos podem ser utilizados como ferramenta para a Genética Ecológica. Mais recentemente, com o advento da biologia molecular, novas ferramentas permitiram a observação de variação em níveis cada vez mais refinados. Não apenas os avanços técnicos, mas também os avanços teóricos foram importantes para a consolidação desta área de estudo, como a teoria de metapopulações e as análises filogenéticas, por exemplo.

Uma das áreas de estudo da genética ecológica envolve a resolução dos problemas taxonômicos. Mas por que motivo os problemas taxonômicos seriam problemas ecológicos? Em primeiro lugar, um naturalista deve se preocupar em saber com que espécie está lidando, pois isso é imprescindível para a avaliação dos seus resultados. Quando um pesquisador afirma que determinada espécie de peixes apresenta desova total na época chuvosa, ele precisou avaliar vários exemplares da mesma espécie em diferentes épocas do ano para chegar a esta conclusão. Toda a sua hipótese depende da correta identificação dos exemplares observados. Entretanto, existem dois grandes problemas associados à identificação de espécies. O primeiro deles é em relação ao conceito de espécie em si. O que realmente é uma espécie? O “conceito biológico” de Mayr-Dobzhansky pode ser útil para muitos organismos, mas não para todos nem para todas as situações.  Em segundo lugar, existem muitos grupos de organismos onde a identificação taxonômica ao nível de espécie é extremamente complicada do ponto de vista morfológico. Para tentar resolver o segundo caso, metodologias mais refinadas como a de marcadores genéticos (citogenética, marcado- res moleculares, sequenciamento de trechos de DNA nuclear e mitocondrial), por exemplo, podem ser úteis. Mais recentemente, a utilização de um pequeno trecho do gene da citocromo oxidase I do DNA mitocondrial (COI) tem apontado para novos rumos na identificação de espécies por meios moleculares. É o chamado código de barras de DNA (DNA barcoding), que pressupõe que a variação encontrada nesta região do genoma mitocondrial é suficiente para identificar espécies distintas.

Os estudos ecológicos ganharam um importante aliado na identificação de espécies por meio de marcadores genéticos. Além das questões ecológicas clássicas, das inter-relações entre populações e espécies em um ecossistema, esta ferramenta também é bastante útil em questões mais aplicadas, como a identificação de espécies quando a morfologia está descaracterizada. Um exemplo interessante é o reconhecimento e a certificação de madeiras como pertencentes a espécies não ameaçadas, evitando ou coibindo crimes ambientais. O mesmo vale para carnes processadas, seja para evitar o uso indevido de espécies ameaçadas, ou mesmo para garantir que o atum enlatado é realmente atum, e não bonito, um peixe da mesma família e de carne semelhante, mas com menor valor de mercado ou ainda, para literalmente, não levar gato por lebre!

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e Doutor em Genética e Evolução. É professor do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.


Como citar esse documento:

Pazza, R. (2010). Genética Ecológica – uma ferramenta para o estudo da biodiversidade. Folha biológica 1 (3): 4

 

Caminhando e mudando, de ideias a atitudes

Pierre Rafael Penteado.

 

Quando era pequeno, lembro que às vezes os mais velhos brincavam com um cumprimento, no comecinho da tarde: “Bom dia”, diziam. E quando eu olhava para o fulano com uma cara estranha, justificavam dizendo que ainda não haviam almoçado, então para eles continuava ser ideal usar o “bom dia”. Em algumas vezes fiquei pensando: “Poxa, e se ele não almoçar o dia inteiro?”. Bem, é claro que é apenas uma brincadeira de adultos com crianças. Mas os pequenos levam as histórias ao pé-da-letra, vocês sabem…

Entretanto, já imaginou se cada pessoa exigisse que o mundo só andasse de acordo com o que ela fez ou deixou de fazer?  Ou ainda, pensasse que a natureza só existe com o único propósito de satisfazer suas necessidades? Bem, durante a história, a maneira de o homem pensar seu lugar no universo variou ao longo das épocas. O Teocentrismo, que predominou durante a Idade Média, propunha que Deus é o centro do Universo. Por outro lado, o Antropocentrismo, que foi concebido durante o Renascimento, considera que o universo deve ser percebido de acordo somente na sua relação com o homem, elevando este a um papel central.

Na biologia, por exemplo, uma das classificações biológicas propostas na história, no século IV, foi a de Santo Agostinho, que separou animais nas seguintes categorias: úteis, inúteis ou indiferentes ao homem. Apesar de ele ser uma figura importante no Cristianismo, usou um sistema que é totalmente antropocêntrico, partindo do princípio de que os animais deveriam ser avaliados apenas baseados em sua ligação com o homem. Essa maneira de ver as espécies não “pegou”.

Aliás, muito antes de Agostinho, na antiga Grécia, Aristóteles usava outra classificação, também artificial, mas que se baseava no ambiente em que o animal vivia: terrestre, aéreo ou aquático. E hoje? Seguimos um sistema natural, que considera apenas caracteres intrínsecos das espécies, sejam eles morfológicos, genéticos, evolutivos ou ecológicos.

No fim do ano passado, um caso ficou notório envolvendo a paralização de uma obra do PAC, o “Programa de Aceleração de Crescimento” do governo federal. O motivo? Segundo os jornais, “por causa de uma perereca de 2 cm ”, que inclusive até foi eleita como “novo inimigo do desenvolvimento” pelo presidente Lula. Oras, não é só uma perereca! É uma espécie inteira, batizada como Physalaemus soaresi, desde que foi identificada, na década de 60. Desde então, ela não foi encontrada em nenhum outro lugar do planeta. É o que chamamos de espécie endêmica. Infelizmente, parece que para o presidente, e muitos outros, o modo de ver de Santo Agostinho, pegou…

A maneira de o homem ver a natureza, e como ele se encaixa nela, pode ser a chave para resolvermos os problemas ambientais que enfrentamos. Muitos veem a natureza com olhos de superioridade, valendo-se da racionalidade humana, enquanto poderiam vestir-se de humildade, para quem sabe concluir que a única coisa que temos além das demais espécies, é responsabilidade. Ao passo em que a humanidade pensar que a meio ambiente é uma coisa distante, alheia, que têm apenas o papel de fornecer matéria-prima para suprir nossas necessidades e desejos, pode não haver muito que fazer.

 

Pierre Rafael Penteado é biólogo, mestrando em Biologia Animal pela Universidade Federal de Viçosa.


Como citar esse documento:

Penteado, P.R. (2010) Caminhando e mudando, de ideias a atitudes. Folha biológica 1 (3): 2

 

Conhecer para preservar e preservar para conhecer.

Karine Frehner Kavalco

 

“Nada na Biologia faz sentido exceto à luz da Evolução”. Foi o que inteligentemente afirmou Theodosius Dobzhansky (que consolidou a nascente ciência da genética no Brasil), depois de observar características genéticas da pequena mosca da fruta, Drosophila melanogaster. Esta afirmação fora usada inúmeras vezes depois dele a ter proferido, e a cada dia ela ganha mais sentido. Desde muito antes de Charles Darwin, vários pesquisadores já tinham notado que as espécies mudavam, mas eles não sabiam como. De posse de ideias de outros pesquisadores sobre a mudança nos padrões de diversidade vistos na natureza e sobre dados demográficos de populações humanas, Darwin pôde dar sentido àquilo que ele encontrou em sua viagem com o navio britânico “H. M. S. Beagle” pela América do Sul. A região Neotropical (que se estende do sul dos Estados Unidos até o norte da Argentina), visitada quase em sua totalidade pelo naturalista em sua aventura, é realmente uma das mais ricas em termos de número de diferentes espécies, seja com relação a plantas ou animais. Darwin viu uma vasta diversidade de formas e tipos, cores e comportamentos, que o levou a indagar sobre os processos que dariam origem a este fenômeno. O arquipélago de Galápagos, formado por mais de 50 ilhas, foi o laboratório natural de Charles Darwin, o local que lhe suscitou tantas dúvidas e o extasiou com tamanha beleza exótica. Essa viagem pode ser considerada o marco de início da Biologia Evolutiva como Ciência. Darwin estabeleceu métodos para análise e propôs os processos biológicos que estariam por trás da biodiversidade que ele observara. Ele analisou uma grande quantidade de diferentes organismos, e fortaleceu suas predições sobre a Seleção Natural com a observação da força da Seleção Artificial feita por criadores.

Hoje, a cada dia, milhares de biólogos evolutivos relatam à comunidade científica fatos que corroboram as ideias de Darwin e de outros grandes cientistas. Depois da introdução de dados de outras Ciências, como a Genética, as observações cotidianas dos processos nos seres vivos foram entendidas de maneira mais plena, e hoje se assume que a Evolução seja o elo que agrega todas as áreas das Ciências Biológicas. Da mesma forma que a Biologia Evolutiva, o Biólogo Evolutivo tem um vasto campo de atuação. Embora seja uma das áreas mais exclusivas das Ciências Biológicas, uma vez que normalmente apenas biólogos estudam com profundidade Evolução Biológica, ainda há muito por se fazer. Descrever padrões na natureza, tentando explicar que processos os produziram, é uma das tarefas mais árduas nesta área. E relatar o mecanismo exato dos processos que produzem esse padrão, como por exemplo, a Seleção Natural, é ainda mais difícil. Mas o encanto que entender como uma forma foi moldada durante centenas de gerações é algo tão profundo, que nenhum biólogo evolutivo foge da oportunidade de entender um pouco mais sobre a natureza. A maneira de fazer esta Ciência mudou muito desde a época de Darwin. Naquela época não havia potentes microscópios, aparelhos de precisão ou modelos matemáticos tão bem desenhados como hoje, que facilitam e permitem um maior aprofundamento nos estudos dos biólogos. Hoje, entretanto, estamos mais limitados à devastação de nossos laboratórios naturais. Junto com a diversidade de formas, tipos, cores, comportamentos, etc., que nos é tolhida dia-a-dia com a destruição da vida natural, de diferentes habitat, perdemos as respostas a tantas perguntas, algumas delas ainda não formuladas, dada a limitação do nosso conhecimento.

Embora tenha visitado apenas quatro das ilhas de Galápagos, o que seria de Darwin se ele fizesse hoje esta viagem e se o governo equatoriano não tivesse decretado Galápagos um Santuário da Vida Selvagem? E o mais importante, o que seria da Ciência se Darwin não tivesse tido a chance de ver o que viu em 1835? Quantos “Darwins” estamos coibindo, quanto conhecimento estamos perdendo a cada árvore que vai ao chão? Conhecer a natureza não nos possibilita apenas conhecer o mundo ao nosso redor. Conhecer a natureza, seus padrões e os processos que a formam, implica em nos conhecermos, uma vez que somos parte dela, aceitemos ou não.

Karine Frehner Kavalco é bióloga, mestre em Genética e Evolução e doutora em Genética. É professora do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Evolução.


Como citar esse documento:

Kavalco, K.F. (2010) Conhecer para preservar e preservar para conhecer. Folha biológica 1 (3): 1