A perda diária da biodiversidade

Fonte: google.imagens

O sistema de transporte brasileiro consiste principalmente em uma matriz rodoviária, onde ocorre mais de 60% do escoamento dos produtos devido,
principalmente, à falta de investimentos e limitação do país nos sistemas fluviais, aéreos e ferroviários.

O uso de rodovias aumenta constantemente as taxas de atropelamentos de animais silvestres. De acordo com o Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE), da Universidade Federal de Lavras em Minas Gerais, a cada um segundo, 15 animais são atropelados no Brasil, dado que pode ser ainda mais assombroso, já que segundo pesquisas, até 475 milhões de animais silvestres morrem em nossas rodovias por ano. Esses números ainda são subestimados, pois existe pouca fiscalização, além de fatores como a taxa de remoção, a qual pode ser feita por exemplo pela chuva ou vento, o que dificulta estimar com precisão os reais dados.

A grande maioria dos animais silvestres atropelados, são pequenos vertebrados, sendo aproximadamente 90% dos casos, como por exemplo: sapos, cobras e pequenas aves. Segundo o CBEE, o restante está dividido entre animais de médio porte, cerca de 9%, como por exemplo: macacos, tamanduás mirins e veados. E 1% em animais de grande porte, como por exemplo: onças pintadas, lobo-guarás e capivaras. Onde muitas dessas espécies estão nas listas vermelhas de risco de extinção, prejudicando assim a biodiversidade brasileira.

O problema é que as estradas afetam de várias formas os ecossistemas, seja fisicamente por causa da erosão, aeração, sedimentação e a hidrologia local, quanto quimicamente, por causa da poluição e contaminação de metais pesados, poeira, ozônio, que poluem o ar, água e solo do local. Mas o problema maior gira em torno dos fatores biológicos. Isso se dá principalmente pelo efeito de borda, fragmentação do ambiente, introdução de espécies exóticas, diminuição de fluxo gênico entre as espécies e alterações nos comportamentos dos animais, muito relacionada com o estresse causado pela poluição sonora dos veículos.

Porém, existem espécies mais susceptíveis ao atropelamento, como os répteis, os quais usam o asfalto como fonte de calor para seu metabolismo; animais com hábitos noturnos, arbóreos, lentos, de visão pobre; e os que “congelam” por causa da luminosidade dos faróis dos veículos. Por outro lado, alguns atropelamentos acontecem de forma intencional, principalmente em serpentes, por causa da “cultura” do brasileiro em achar que esses animais são perigosos. Mas esses acidentes sendo intencionais ou não, causam perdas econômicas e também podem provocar mortes humanas.

Mas o que podemos fazer para diminuir os índices de atropelamentos de animais silvestres em rodovias brasileiras?! A solução pode ser encontrada através dos princípios da ecologia de estradas,um ramo da ecologia aplicada que procura encontrar e implantar soluções para esse problema. Algumas maneiras de amenizar esses acontecimentos se baseiam na educação ambiental e aumento de placas de sinalização que podem ser educativas e radares nas
estradas, servindo como alerta para diminuir a velocidade. Ou também na implantação de passagem de fauna, colocando telas para direcionar os animais, método já adotado em muitos países da Europa, porém acaba selecionando apenas alguns grupos de animais, o que pode ser um problema. E, por fim, o monitoramento das taxas de atropelamentos, o que permite determinar os hot-spots de perda da fauna e, assim, criar medidas mitigatórias de preservação da nossa biodiversidade.

Sendo assim, o CBEE propôs o “Sistema Urubu”, hoje dada como a maior rede social de conservação da biodiversidade brasileira. O Sistema reuni, sistematiza e disponibiliza informações sobre a mortalidade de fauna selvagem nas rodovias e ferrovias e tem por objetivo auxiliar o governo e as concessionárias na tomada de decisões para redução destes impactos. O aplicativo é muito fácil de ser utilizado e pode ser baixado gratuitamente através do link abaixo. Desse modo, todos podemos ajudar pesquisadores e autoridades a encontrar soluções para diminuir esses índices preocupantes. Conservar a
biodiversidade, tarefa de todos!

Link à respeito do aplicativo: Http://cbee.ufla.br/portal/sistema_urubu/urubu_mobile.php

Beatriz Cranchi Pazetto, graduanda do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa, Campus Rio Paranaíba.

Peixes e Educação Ambiental

A educação ambiental é um tema desafiante. Inúmeras são as questões ambientais que afetam nosso dia a dia. Poluição do ar e das águas, lixo e reciclagem, proteção da biodiversidade, desenvolvimento sustentável, são apenas alguns dos assuntos frequentemente debatidos e com ações efetivas.
Em relação a proteção da biodiversidade, os aspectos a serem abordados são inúmeros. Muitos deles dependem diretamente do conhecimento sobre a biodiversidade. Por exemplo, uma Unidade de Conservação pode ser proposta com a finalidade de proteger uma espécie ameaçada. No entanto, como conscientizar a população local de que
isto é necessário? Por outro lado, quanto da biodiversidade estamos perdendo por deixarmos
de estudar determinadas regiões que acabam por tornar-se fronteiras agrícolas, por exemplo? Planos de manejo e conservação de espécies só conseguem ser bem sucedidos quando envolvem completamente a comunidade da região, como por exemplo, o projeto TAMAR que envolve as comunidades de pescadores e suas famílias com o objetivo de proteger as
tartarugas marinhas.
O Laboratório de Genética Ecológica e Evolutiva (LaGEEvo) do Campus de Rio Paranaíba
da Universidade Federal de Viçosa iniciou nos últimos meses a etapa de Educação Ambiental de seu projeto “Biodiversidade da Ictiofauna do rio Paranaíba – Estratégias para a Educação Ambiental”. Financiado pela Fundação Grupo Boticário, o projeto consiste de duas etapas. A primeira visa realizar o levantamento da Ictiofauna do rio Paranaíba em seu trecho inicial,
desde as nascentes no município de Rio Paranaíba até o município de Patos de Minas. Na segunda etapa, a equipe do laboratório promove cursos para professores de Ensino Fundamental e Médio, palestras para estudantes e material didático a ser distribuído nas escolas.

Captura de tela de 2015-07-16 10:17:16

As palestras sobre diversidade de peixes, importância da água e poluição das águas tem sido ministradas para alunos de todas as idades. Divididos por faixas etárias, as atividades desenvolvidas passaram por dança e pintura com crianças de 1a à 3a série do Ensino Fundamental até palestras sobre a diversidade de peixes com os estudantes de Ensino Médio. O primeiro curso oferecido é o de Peixes do Alto Paranaíba, para professores de Ensino Médio. Informações sobre os cursos e palestras podem ser obtidos pelo site: http://www.biologianaweb.com.br/lageevo.


Como citar esse documento.

LaGEEvo (2013). Peixes e Educação Ambiental. Folha biológica 4: (1) 4

Um olhar sobre as Epífitas

Jaqueline Dias Pereira

As epífitas são plantas que vivem sobre outras e, muitas vezes, são confundidas com plantas parasitas, mas elas não emitem estruturas haustoriais (parasitas), portanto, não são plantas parasitas. Não apresentam raízes em contato com o solo e obtêm seus recursos minerais a partir de resíduos ou detritos, como, por exemplo, a poeira que recai sobre si, além de obterem recursos hídricos, a partir da água da chuva e até gotículas de água dispersas no ar, possuindo assim, estruturas especializadas na captação desses recursos. As plantas que sustentam as epífitas sobre si são denominadas de forófitos. O grau em que a diversidade de epífitas numa floresta está diretamente ligada ao tipo de forófito ainda não está bem esclarecido, uma vez que devem ser considerados, em conjunto, os fatores microclimáticos.

Dentre as espécies vasculares (aquelas que apresentam tecidos de condução – xilema e floema), as epífitas contabilizam cerca de 10% com aproximadamente 25.000 espécies, distribuídas em 84 famílias. As famílias Bromeliaceae, Orchidaceae, Araceae e Polypodiaceae concentram a maior parte das espécies, aproximadamente 80%.  A abundância e a diversidade de epífitas são fortemente influenciadas pelas mudanças de condições ecológicas. As epífitas vasculares podem ser classificadas em quatro categorias ecológicas de acordo com os tipos de substratos usados, mecanismos de absorção de água e balanço de nutrientes, arquitetura da planta e relação com o forófito. Dessa forma, são denominadas holoepífitas características, habituais ou verdadeiras aquelas presentes principalmente em ambientes epidêndricos; facultativas, aquelas presentes tanto em ambientes epidêndricos como terrestres; acidentais, aquelas preferencialmente terrestres; e hemiepífitas, aquelas que têm conexão com o solo em alguma fase de sua vida, podendo ser primárias, quando germinam sobre o forófito e, posteriormente, estabelecem contato com o solo ou secundárias, quando germinam no solo e, em seguida, estabelecem contato com o forófito.

O hábito epifítico representa uma estratégia adaptativa que possibilita redução nos prejuízos causados por inundação e pelo fogo, além de evitar a predação por animais terrestres. Entretanto, esta forma de vida pode ser limitada principalmente pela deficiência hídrica, nutricional e pelas condições variadas de intensidade luminosa, de acordo com a estratificação vertical. Água e nutrientes são recursos de difícil acesso já que as epífitas não mantêm raízes em contato direto com o solo, conforme citado anteriormente. Adaptações comuns incluem o uso de húmus acumulado em árvores e características morfológicas que permitem a coleta de húmus, tais como, a formação de “cestas”, “ninhos” ou “tanques”.

As epífitas representam uma importância significativa na manutenção da biodiversidade das florestas tropicais do mundo, contribuem na interação flora e fauna, além de desempenhar um papel essencial na dinâmica de nutrientes das florestas. Proporcionam recursos alimentares (frutos, néctar, pólen e água) e microambientes especializados à fauna do dossel, constituída por uma infinidade de organismos voadores, arborícolas e escansoriais. Por isso, quando se retira uma epífita de seu meio natural, perde-se não só a planta, mas também toda a fauna que depende diretamente da espécie de epífita para a sua sobrevivência.

Tem sido sugerido que várias espécies podem ser usadas como bioindicadores de mudanças climáticas, poluição atmosférica e danos ecológicos. Dessa forma, em função das características fisiológicas e nutricionais das epífitas, seu estudo fornece subsídios importantes sobre a interferência antrópica no ambiente e é essencial para o manejo adequado dos ecossistemas, uma vez que as epífitas também funcionam como bioindicadores do estádio sucessional da floresta, tendo em vista que comunidades em fases secundárias apresentam menor densidade e diversidade epifítica do que comunidades primárias.

Jaqueline Dias Pereira é bióloga, mestre em Ciências Biológicas e doutora em Botânica. É professora do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Anatomia Vegetal.


 

Como citar esse documento:

Pereira, J.D. (2010). Um olhar sobre as Epífitas. Folha Biológica 1 (1): 3

Volume 4, Número 1

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Volume 3, Número 1

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