Carregando as baterias

Karine Frehner Kavalco.

 

Depois de um dia cheio de atividades, uma boa noite de sono costuma ser fundamental. Quando dormimos entramos em um estado de inconsciência, do qual podemos ser despertados por estímulos do ambiente, entre eles os sensoriais. O coma e a anestesia não podem ser considerados sono, embora possuam muitas características semelhantes a este. Durante uma noite normal, todos passam pelo menos por dois “tipos” de sono, o sono de onda lenta, e o sono paradoxal.

 

Enquanto o corpo descansa…

Este tipo de sono é denominado também de sono repousante profundo, sono sem sonho, sono de onda delta ou sono normal. O sono profundo de onda lenta é destituído de sonho, muito relaxante e está associado a uma diminuição tanto do tônus vascular periférico quanto da maior parte das funções vegetativas do organismo. Diminui também a pressão arterial, a frequência respiratória e o índice de metabolismo básico. Esta é uma parte do sono em que o corpo realmente entre em repouso, tanto das funções conscientes quando de parte das funções autônomas, que incluem aquelas que não são controladas por nossa vontade, como a peristalse, por exemplo. Este sono repousante é interrompido periodicamente por um segundo tipo de sono, o sono REM.

 

   … A mente divaga

Durante um período normal de sono ocorrem episódios de sono paradoxal, que duram de 5 a 20 minutos, em média a cada 90 minutos, ocorrendo o primeiro episódio 80 a 100 minutos após a pessoa adormecer. Quando a pessoa está muito cansada, este pode ser bastante curto ou mesmo ausente, porém, à medida que a pessoa descansa, o intervalo do sono paradoxal aumenta. Este sono é aquele em que geralmente temos os sonhos. É mais difícil de despertar do sono paradoxal do que no sono profundo de onda lenta, e a frequência cardíaca  e respiratória tornam-se irregulares, o que é um estado característico do sonho.  Também ocorrem movimentos irregulares, entre eles os dos olhos (por isso este sono pode ser denominado REM, ou sono do movimento rápido dos olhos). No sono paradoxal, o cérebro mostra-se bastante ativo, sem, porém, acontecer à canalização desta atividade cerebral na direção adequada para que a pessoa esteja consciente e acorde. Ou seja, no sono paradoxal nosso cérebro se comporta de forma semelhante à num estado de vigília, ou acordado, e algumas partes dele são ativadas de forma diferente.

 

Carregando as baterias  (karine)

  Mas quando o corpo “sabe” que é preciso dormir?

Acredita-se que uma área do cérebro chamada locus ceruleus seja importante para a manutenção da atividade do sistema ativador reticular, que controla o ciclo entre sono e vigília (dormir e estar acordado).  Lesões no sistema ativador reticular, quando suficientemente grandes, levarão invariavelmente ao coma, sem a possibilidade do despertar. Lesões no locus ceruleus causam sono, semelhante ao sono natural. Além disso, o estímulo em outras regiões cerebrais, como o hipotálamo e o córtex límbico, pode causar um sono muito semelhante ao sono de onda lenta.

Existe um ciclo entre sono e vigília e este ciclo é controlado por nosso cérebro, usando neurônios e substâncias químicas específicas. Cada pessoa tem um ritmo de sono e vigília diferente, ou seja, há pessoas que precisam passar mais tempo “desconectadas” e há pessoas para as quais um pequeno tempo de sono é suficiente para “recarregar as energias”.  Ao manter-se por muito tempo ativo, o cérebro e seus neurônios tornam-se fatigados, e/ou por outros fatores, podem ativar os centros do sono. Em consequência, a retroalimentação positiva dos centros da vigília com o cérebro e periferias começa a diminuir, e o sono fica cada vez mais irresistível.

 

A privação do sono não é natural

O sono causa efeitos sobre o sistema nervoso e sobre outras estruturas do organismo. Normalmente, a falta do sono ou da vigília não causa grandes danos aos órgãos. Porém, a falta do sono afeta as funções do sistema nervoso central.  Quando a vigília prolonga-se podem causar disfunções progressivas da mente e do comportamento do sistema nervoso. Podem ocorrer no final de um estado prolongado de vigília, lentidão de pensamento, irritabilidade, psicose ou até mesmo ter sonhos vívidos.  Certamente nosso corpo foi moldado pela evolução para que hoje tivéssemos esse ajuste preciso do ciclo entre o sono e a vigília, do repousar e despertar, uma vez que na natureza, animal nenhum pode “dormir de touca”.


 

Como citar esse documento:

Kavalco, K.F. (2011). Carregando as baterias. Folha biológica 2 (2):2