Conservação ou Preservação?

Willian Lopes Silva

Wagner M. S. Sampaio

 

Os termos Preservação e Conservação são utilizados para estabelecer a relação Homem e Natureza e proteger o meio ambiente, porém são ideologicamente distintos. Esses termos foram introduzidos por dois precursores do ambientalismo Norte Americano com o intuito de proteger o meio ambiente, o naturalista John Muir e o engenheiro florestal e político Gifford Pinchot. O primeiro nos dá o sentido de intocabilidade, onde o ambiente precisa ser preservado no seu estado natural sem nenhuma intervenção humana por ser importante por si mesmo. Já o segundo nos trouxe a ideia da conservação em longo prazo, onde os recursos naturais devem ser usados com parcimônia para não serem esgotados pelas necessidades humanas. As ideias de Muir e Pinchot são muito importantes para proteção da natureza, mas nos trazem um resultado muito diferente quando colocadas em prática e se usadas erroneamente podem trazer prejuízos socioambientais incalculáveis. O Preservacionismo de Muir foi um movimento romântico e espiritual, acreditava que Deus criou o universo para o gozo de todos os seres vivos, e não apenas para os seres humanos. Já o conservacionismo de Pinchot foi um movimento progressista e científico. Fato tão verdadeiro que, por exemplo, a legislação Brasileira e muitos pesquisadores adotam uma integração entre esses termos.  Segundo o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis, para garantir a proteção da diversidade biológica de um país é preciso estabelecer um sistema de áreas protegidas. No Brasil, as áreas protegidas incluem as áreas de proteção permanente, as reservas legais, as reservas indígenas e as unidades de conservação. As unidades de conservação (UC) formam uma categoria de área protegida mais específica e efetiva que englobam bem os conceitos conservacionistas e preservacionistas. No nosso país as UC não possuem apenas função de proteger a diversidade biológica e são justamente estas outras funções que diferenciam as UC. Mas, no geral, as UC podem ser separadas em dois grandes grupos. O primeiro engloba Unidades de Conservação de Proteção Integral que são aquelas onde efetua-se a preservação dos ecossistemas em estado natural com um mínimo de alterações, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais). O segundo inclui as UC de Uso Sustentável (são aquelas onde haverá conservação dos atributos naturais, admitida a exploração de parte dos recursos disponíveis em regime de manejo sustentável). As ferramentas de proteção criadas pela legislação têm a necessidade de embasar suas aplicações em informações biológicas estratégicas, que muitas vezes são escassas ou inexistentes, levando à diminuição da eficiência dessas ferramentas. Os Estudos Ambientais muitas vezes ficam “escondidos” nos órgãos ambientais e nos contratos de confidencialidade entre consultores e empreendores, porém estes estudos precisam cumprir sua função social e científica e isso só será possível quando começarem a ser divulgados. Vê-se, pois, que só assim conseguiremos alcançar nosso objetivo de proteger o meio ambiente para de ele usufruir de forma sustentável ou simplesmente para sua manutenção. A proteção dos recursos naturais é direito público e subjetivo das futuras gerações. Podemos pensar nisso como nos diz a “Carta da Terra”: “A humanidade é parte de um vasto universo em evolução e a proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado de todos e juntos”.

 


 

Willian Lopes Silva é acadêmico do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba.

Wagner M. S. Sampaio é biólogo e mestre em Biologia Animal pela Universidade Federal de Viçosa, e atua na área de Ictiologia.

Como citar esse Documento:

Silva, W.L. ; Sampaio, W.M.S. (2013). Conservação ou Preservação? Folha biológica 4 (1):4

Novo Código Florestal : dilema entre produção e preservação.

 Sandro Ezequiel

 

O Código Florestal brasileiro é um conjunto de normas que definem os critérios de proteção ambiental e uso sustentável dos recursos florestais.

O último código foi promulgado em 1965. A atualização dessa lei é importante frente aos novos dilemas ambientais.

No ano de 2011, a proposta de atualização avançou no Congresso Nacional, onde ocorrem vários debates entre ruralistas e ambientalistas. Os meios de comunicação e os movimentos soci-ais se mobilizaram para apresentar à sociedade as novas propostas que somente recentemente tiveram a aprovação definitiva.

 

Áreas de Preservação Permanentes

 

Dentre as normas dispostas no Código Florestal estão as Áreas de Preservação Permanente, as chamadas (APP´s), que protegem topos de morros, veredas e nascentes.

As APP´s são fundamentais para conservar e proteger as áreas de recarga das nascentes, aumentando a infiltração da água no solo. Elas ainda garantem a qualidade das águas, mantendo a perenidade dos rios, de modo a diminuir o assoreamento e evitar grandes enchentes. Essas áreas devem ser conservadas com vegetação nativa.

 

Reserva Legal

 

Outro termo disposto no código é a área de Reserva Legal (RL), que é uma área dentro da propriedade destinada a preservação da flora e da fauna.

Cada propriedade tem que possuir no mínimo 20% de área destinada a RL. Esse percentual aumenta de acordo o bioma onde se localiza a propriedade.

 

Crescimento x produção de alimento

 

A população do planeta ultrapassou 7 bilhões e continua crescendo. Logo, é necessário aumentar a produção de alimentos, e isso pode ser feito sem derrubar mais nenhuma árvore, apenas recuperando as áreas degradadas e aumentando a produção em áreas já cultivadas.

Os produtores rurais não são inimigos do meio ambiente, pois precisam dele para plantar e colher.

É necessário promover a conscientização do setor agrícola para a aplicação de práticas sustentáveis de manejo dos solos, do uso racional de defensivos agrícolas, promoção e incentivo das técnicas de rotação de culturas e plantio direto, para assim produzir alimentos de qualidade, com práticas que minimizam as intervenções na natureza.

Mais que um código focado apenas nas florestas e no meio rural, é necessário haver no Brasil uma legislação que contemple a proteção e o uso racional de todos os recursos naturais, levando em conta também a regulação das atividades industriais e urbanas como, por exemplo, a obrigatoriedade das “ETE´s” (Estações de Tratamento de Esgoto) que são fundamentais para preservar a vida e manter a qualidade da água nos rios.

Faça do meio ambiente o seu meio de vida!

 

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Legenda:
● 1 – APP em topo de morro
● 2 – APP nas margens do rio
● 3 – Área de Reserva Legal
● 4 – Área de produção

 

Sandro Ezequiel é técnico em Meio Ambiente e acadêmico do curso de Agronomia da Universidade Federal de Viçosa, cam-pus de Rio Paranaíba. Escreve um blog sobre o assunto: www.alerta-ambiental.blogspot.com


 

Como citar esse documento:

Ezequiel, S. (2012).  Novo Código Florestal: dilema entre produção e preservação. Folha biológica 3 (3-6): 4

 

Caminhando e mudando, de ideias a atitudes

Pierre Rafael Penteado.

 

Quando era pequeno, lembro que às vezes os mais velhos brincavam com um cumprimento, no comecinho da tarde: “Bom dia”, diziam. E quando eu olhava para o fulano com uma cara estranha, justificavam dizendo que ainda não haviam almoçado, então para eles continuava ser ideal usar o “bom dia”. Em algumas vezes fiquei pensando: “Poxa, e se ele não almoçar o dia inteiro?”. Bem, é claro que é apenas uma brincadeira de adultos com crianças. Mas os pequenos levam as histórias ao pé-da-letra, vocês sabem…

Entretanto, já imaginou se cada pessoa exigisse que o mundo só andasse de acordo com o que ela fez ou deixou de fazer?  Ou ainda, pensasse que a natureza só existe com o único propósito de satisfazer suas necessidades? Bem, durante a história, a maneira de o homem pensar seu lugar no universo variou ao longo das épocas. O Teocentrismo, que predominou durante a Idade Média, propunha que Deus é o centro do Universo. Por outro lado, o Antropocentrismo, que foi concebido durante o Renascimento, considera que o universo deve ser percebido de acordo somente na sua relação com o homem, elevando este a um papel central.

Na biologia, por exemplo, uma das classificações biológicas propostas na história, no século IV, foi a de Santo Agostinho, que separou animais nas seguintes categorias: úteis, inúteis ou indiferentes ao homem. Apesar de ele ser uma figura importante no Cristianismo, usou um sistema que é totalmente antropocêntrico, partindo do princípio de que os animais deveriam ser avaliados apenas baseados em sua ligação com o homem. Essa maneira de ver as espécies não “pegou”.

Aliás, muito antes de Agostinho, na antiga Grécia, Aristóteles usava outra classificação, também artificial, mas que se baseava no ambiente em que o animal vivia: terrestre, aéreo ou aquático. E hoje? Seguimos um sistema natural, que considera apenas caracteres intrínsecos das espécies, sejam eles morfológicos, genéticos, evolutivos ou ecológicos.

No fim do ano passado, um caso ficou notório envolvendo a paralização de uma obra do PAC, o “Programa de Aceleração de Crescimento” do governo federal. O motivo? Segundo os jornais, “por causa de uma perereca de 2 cm ”, que inclusive até foi eleita como “novo inimigo do desenvolvimento” pelo presidente Lula. Oras, não é só uma perereca! É uma espécie inteira, batizada como Physalaemus soaresi, desde que foi identificada, na década de 60. Desde então, ela não foi encontrada em nenhum outro lugar do planeta. É o que chamamos de espécie endêmica. Infelizmente, parece que para o presidente, e muitos outros, o modo de ver de Santo Agostinho, pegou…

A maneira de o homem ver a natureza, e como ele se encaixa nela, pode ser a chave para resolvermos os problemas ambientais que enfrentamos. Muitos veem a natureza com olhos de superioridade, valendo-se da racionalidade humana, enquanto poderiam vestir-se de humildade, para quem sabe concluir que a única coisa que temos além das demais espécies, é responsabilidade. Ao passo em que a humanidade pensar que a meio ambiente é uma coisa distante, alheia, que têm apenas o papel de fornecer matéria-prima para suprir nossas necessidades e desejos, pode não haver muito que fazer.

 

Pierre Rafael Penteado é biólogo, mestrando em Biologia Animal pela Universidade Federal de Viçosa.


Como citar esse documento:

Penteado, P.R. (2010) Caminhando e mudando, de ideias a atitudes. Folha biológica 1 (3): 2

 

O Mundo fascinante da Botânica.

Jaqueline Dias Pereira

 

A Botânica ou Biologia Vegetal é uma das áreas da Biologia e é um fascinante campo de estudo, pesquisa e aplicações práticas. É o estudo das plantas, e nos possibilita compreender a grande diversidade de plantas presentes em nosso planeta, nos mais diversos ambientes. Estes podem ser aquáticos, terrestres, ou ainda explorados por plantas de hábitos diferentes, como as epífitas, aquelas plantas que vivem sobre outras sem parasitá-las. Existem plantas bem simples como os musgos e samambaias, que não produzem sementes e não apresentam flores e frutos, até plantas com todos os órgãos vegetativos (raiz, caule e folha) e reprodutivos (flor, fruto e semente). É possível verificar plantas com mais de 100m de altura até plantas minúsculas.

Muitas dessas plantas chamam a nossa atenção pelo colorido exuberante de suas flores e pela sua interação direta com certos animais. Dentre as aplicações práticas da botânica, destacam-se o uso das plantas medicinais e as plantas utilizadas como bioindicadores de poluição ambiental, dentre outras. Acredita-se que desde 3000 a.C. os chineses já cultivavam plantas medicinais.  Elas eram utilizadas como purgantes, vermífugos, diuréticos, cosméticos e especiarias para a cozinha, além de líquidos e gomas utilizados para embalsamar múmias. No Brasil, muitas espécies vegetais nativas são utilizadas pela população para fins terapêuticos.

Trabalhos realizados com algumas espécies nativas de plantas com hábito epifítico e terrestre têm demonstrado eficácia como bioindicadoras do ambiente, pois elas reagem aos efeitos da poluição através de alguns “sinais” como necrose, queda de suas folhas, diminuição do crescimento, danos de seus tecidos, etc.

A botânica abrange diversas áreas como: morfologia vegetal, anatomia vegetal, fisiologia vegetal, sistemática vegetal, taxonomia vegetal, botânica econômica, etc. Dependendo da área escolhida, os estudos podem ser realizados no campo ou em laboratório específico, ou até mesmo unindo campo com laboratório.

A morfologia estuda a estrutura externa das plantas, por meio da investigação descritiva e comparativa. Qual a cor da flor de uma planta? Como é a flor? Como é a sua folha? E as características externas de sua raiz e caule? Já a anatomia estuda a estrutura interna dos vegetais, desde as características de suas células, os tecidos e órgãos, podendo ser descritiva, ecológica, com aplicações à taxonomia, etc. Por exemplo, qual é a característica de uma célula que conduz água e sais minerais, considerando que a absorção ocorre nas células das raízes e tem que chegar até as células das folhas? Será que estas células são resistentes? Quem dá essa resistência à célula? Qual o componente químico presente? Será que uma célula que conduz açúcares tem as mesmas características que uma célula que sustenta o corpo da planta?  A fisiologia preocupa-se em explicar o funcionamento dos vegetais, por exemplo, como a planta conduz água e sais minerais? Como ocorre a fotossíntese? Como ocorre a absorção de nutrientes pelas plantas? A sistemática vegetal, por sua vez, dedica-se em inventariar e descrever a biodiversidade e compreender as relações que ocorrem entre os organismos. Inclui a taxonomia, que elabora as leis da classificação das espécies, com suas normas e princípios. Por fim, a botânica econômica estuda as partes ou produtos químicos extraídos das plantas que são utilizados comercialmente, quer seja na indústria farmacêutica, têxtil, alimentícia, para produção de cosméticos, dentre outros. A borracha, por exemplo, é produzida através do látex que é extraído da Hevea brasilienses (Seringueira). Outras plantas são produtoras de óleos e gorduras, outras são aromáticas, outras são medicinais, etc. Dessa forma, verifica-se que para compreender uma planta é necessário relacionar todas as áreas da botânica.

E você, quer conhecer esse mundo fascinante? Que tal participar de expedições a campo ou conhecer o misterioso mundo interno das plantas em laboratório, preparando lâminas histológicas e analisando-as em microscópio? Cursando Ciências Biológicas você terá acesso a tudo isso através das várias disciplinas de botânica. Além disso, terá disciplinas que contemplam o mundo animal, molecular, e também a conservação do meio ambiente.

Jaqueline Dias Peireira é bióloga, mestre em Ciências Biológicas e doutora em Botânica. É professora do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Anatomia Vegetal.


 

Como citar esse documento:

Pereira, J.D. (2010) O Mundo Fascinante da Botânica. Folha Biológica 1 (2): 1