O Brasil no Ano Internacional da Biodiversidade.

Rubens Pazza.

A biodiversidade é caracterizada como a diversidade biológica em pelo menos três níveis hierárquicos: diversidade genética, diversidade de espécies e diversidade de ecossistemas. O tema da conservação da biodiversidade tem sido amplamente difundido nos últimos anos, especialmente quando se trata de assuntos econômicos. Afinal de contas, inúmeros fármacos, cosméticos e variedades cultivadas na agricultura são obtidos através do uso de nossa biodiversidade. Entretanto, a necessidade da conservação da biodiversidade vai muito além de questões econômicas. Toda uma cadeia ecológica depende da relação entre as espécies de um determinado ecossistema, onde a perda de uma única peça pode ser altamente prejudicial, alterando as inter-relações e desequilibrando o mesmo. Durante a Eco-92, uma grande convenção internacional sobre meio ambiente realizada no Brasil em 1992, 175 países assinaram um tratado chamado de Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB). Este documento propõe regras para a conservação da biodiversidade, bem como de seu uso sustentável e a repartição justa dos benefícios provenientes do uso econômico dos recursos. Periodicamente, os países signatários deste tratado se reúnem em convenções. Este ano, em outubro, acontecerá a COP-10 (Conferência das Partes, 2010), em Nagoya, no Japão. Nestes encontros, discute-se o que os países têm feito para cumprir sua parte no tratado e quais as medidas e metas que devem ser adotadas a seguir.

O Brasil é signatário deste tratado, tendo legislação apropriada e regulamentada pelo Decreto Nº 2.519 de 16 de março de 1998. Em vistas ao encontro em Nagoya, a Câmara dos Deputados realizou alguns eventos para levantar as ações realizadas pelo governo brasileiro e suas propostas, bem como as propostas da sociedade civil sobre o tema.  Nos dias 13 e 14 de Julho, por exemplo, aconteceu o seminário intitulado “Ano Internacional da Biodiversidade – Quais os Desafios para o Brasil?”. Neste seminário foram discutidos temas como as iniciativas para conservação dos Recifes de Corais no Brasil, como o Brasil está enfrentando os problemas das espécies invasoras, os riscos e impactos à biodiversidade dos empreendimentos de infraestrutura, o turismo e a biodiversidade, o estado de conservação dos principais biomas brasileiros, o impacto das mudanças climáticas sobre a biodiversidade, os instrumentos de prestígio internacional (Reserva da Biosfera, Sítios do Patrimônio da Humanidade e outros) e a Avaliação Ecossistêmica do Milênio e o conhecimento da biodiversidade.

A UFV participou do seminário.

A Universidade Federal de Viçosa foi convidada para apresentar um painel durante o evento. Nesta oportunidade, fui convidado a discutir o tema “Avaliação Ecossistêmica do Milênio e o Conhecimento da Biodiversidade”. A Avaliação Ecossistêmica do Milênio foi um grande projeto internacional que tinha como objetivo mapear a saúde dos principais ecossistemas do mundo em relação à oferta de serviços ambientais, como a produção de alimento, a qualidade e disponibilidade de água, de estoques pesqueiros, a informação genética utilizada na biotecnologia, etc. O Brasil também participou deste esforço internacional, embora de maneira tímida, avaliando apenas a região do cinturão verde de São Paulo.  No relatório é possível observar dados alarmantes. Cerca de 60% dos ecossistemas do planeta são explorados de modo não sustentável; pelo menos ¼ dos estoques comerciais importantes de peixes são superexplorados; a utilização da água doce duplicou desde 1960 e é insustentável; cerca de 70% da água doce é utilizada na agricultura; a taxa de extinção de espécies aumentou cerca de 1000 vezes nos últimos séculos; de 10 a 30% das espécies de aves, mamíferos e anfíbios estão ameaçadas. Um dos grandes desafios da utilização sustentável dos serviços ambientais é que há uma relação direta entre eles, ou seja, a utilização de um deles gera impacto em outro. Em termos econômicos, embora seja difícil atribuir um valor a um serviço ambiental ou à biodiversidade, temos alguns indícios do prejuízo gerado quando algo falha. Por exemplo, no Canadá dos anos 90, em decorrência da superexploração, os estoques de bacalhau caíram drasticamente. Isto obrigou o investimento de cerca de 2 bilhões de dólares em seguro desemprego e treinamento para recolocação de trabalhadores. Em relação ao conhecimento da biodiversidade, alertei para a biodiversidade escondida, que conseguimos tomar conhecimento através dos estudos genéticos, mas este é um tema para uma próxima edição.

Todas as apresentações podem ser vistas no site da Câmara dos Deputados – www.camara.gov.br. A participação do Brasil no encontro em Nagoya é fundamental, pois os países megadiversos, como o nosso, devem tomar a dianteira nas discussões sobre a conservação e utilização sustentável da biodiversidade.

 

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e Doutor em Genética e Evolução. É professor do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.


 

Como citar esse documento:

Pazza, R. (2010). O Brasil no Ano Internacional da Biodiversidade. Folha Biológica 1 (2): 2.

O Mundo fascinante da Botânica.

Jaqueline Dias Pereira

 

A Botânica ou Biologia Vegetal é uma das áreas da Biologia e é um fascinante campo de estudo, pesquisa e aplicações práticas. É o estudo das plantas, e nos possibilita compreender a grande diversidade de plantas presentes em nosso planeta, nos mais diversos ambientes. Estes podem ser aquáticos, terrestres, ou ainda explorados por plantas de hábitos diferentes, como as epífitas, aquelas plantas que vivem sobre outras sem parasitá-las. Existem plantas bem simples como os musgos e samambaias, que não produzem sementes e não apresentam flores e frutos, até plantas com todos os órgãos vegetativos (raiz, caule e folha) e reprodutivos (flor, fruto e semente). É possível verificar plantas com mais de 100m de altura até plantas minúsculas.

Muitas dessas plantas chamam a nossa atenção pelo colorido exuberante de suas flores e pela sua interação direta com certos animais. Dentre as aplicações práticas da botânica, destacam-se o uso das plantas medicinais e as plantas utilizadas como bioindicadores de poluição ambiental, dentre outras. Acredita-se que desde 3000 a.C. os chineses já cultivavam plantas medicinais.  Elas eram utilizadas como purgantes, vermífugos, diuréticos, cosméticos e especiarias para a cozinha, além de líquidos e gomas utilizados para embalsamar múmias. No Brasil, muitas espécies vegetais nativas são utilizadas pela população para fins terapêuticos.

Trabalhos realizados com algumas espécies nativas de plantas com hábito epifítico e terrestre têm demonstrado eficácia como bioindicadoras do ambiente, pois elas reagem aos efeitos da poluição através de alguns “sinais” como necrose, queda de suas folhas, diminuição do crescimento, danos de seus tecidos, etc.

A botânica abrange diversas áreas como: morfologia vegetal, anatomia vegetal, fisiologia vegetal, sistemática vegetal, taxonomia vegetal, botânica econômica, etc. Dependendo da área escolhida, os estudos podem ser realizados no campo ou em laboratório específico, ou até mesmo unindo campo com laboratório.

A morfologia estuda a estrutura externa das plantas, por meio da investigação descritiva e comparativa. Qual a cor da flor de uma planta? Como é a flor? Como é a sua folha? E as características externas de sua raiz e caule? Já a anatomia estuda a estrutura interna dos vegetais, desde as características de suas células, os tecidos e órgãos, podendo ser descritiva, ecológica, com aplicações à taxonomia, etc. Por exemplo, qual é a característica de uma célula que conduz água e sais minerais, considerando que a absorção ocorre nas células das raízes e tem que chegar até as células das folhas? Será que estas células são resistentes? Quem dá essa resistência à célula? Qual o componente químico presente? Será que uma célula que conduz açúcares tem as mesmas características que uma célula que sustenta o corpo da planta?  A fisiologia preocupa-se em explicar o funcionamento dos vegetais, por exemplo, como a planta conduz água e sais minerais? Como ocorre a fotossíntese? Como ocorre a absorção de nutrientes pelas plantas? A sistemática vegetal, por sua vez, dedica-se em inventariar e descrever a biodiversidade e compreender as relações que ocorrem entre os organismos. Inclui a taxonomia, que elabora as leis da classificação das espécies, com suas normas e princípios. Por fim, a botânica econômica estuda as partes ou produtos químicos extraídos das plantas que são utilizados comercialmente, quer seja na indústria farmacêutica, têxtil, alimentícia, para produção de cosméticos, dentre outros. A borracha, por exemplo, é produzida através do látex que é extraído da Hevea brasilienses (Seringueira). Outras plantas são produtoras de óleos e gorduras, outras são aromáticas, outras são medicinais, etc. Dessa forma, verifica-se que para compreender uma planta é necessário relacionar todas as áreas da botânica.

E você, quer conhecer esse mundo fascinante? Que tal participar de expedições a campo ou conhecer o misterioso mundo interno das plantas em laboratório, preparando lâminas histológicas e analisando-as em microscópio? Cursando Ciências Biológicas você terá acesso a tudo isso através das várias disciplinas de botânica. Além disso, terá disciplinas que contemplam o mundo animal, molecular, e também a conservação do meio ambiente.

Jaqueline Dias Peireira é bióloga, mestre em Ciências Biológicas e doutora em Botânica. É professora do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Anatomia Vegetal.


 

Como citar esse documento:

Pereira, J.D. (2010) O Mundo Fascinante da Botânica. Folha Biológica 1 (2): 1

Quando a idade chega, é preciso pensar bem.

Karine Frehner Kavalco.

Não é incomum que mulheres em idade avançada, próximas da menopausa (época em que alterações hormonais drásticas acontecem), tenham medo de engravidar. Esse medo é totalmente justificado, e apoiado pela ciência. É sabido que a idade materna, além de outros fatores diversos, pode aumentar a chance de ocorrerem problemas na gestação. Embora tenhamos hoje um conhecimento bastante completo das necessidades e características de portadores de alterações cromossômicas, o que faz com que tratamentos diferenciais estejam disponíveis, a maior parte dos futuros pais sabe que cuidar de uma criança especial demanda um preparo maior e potencialmente um esforço maior também.

Grande parte dos portadores de alterações cromossômicas possuem um tipo de alteração chamada aneuploidia. As aneuploidias são caracterizadas pela presença de cromossomos individuais a mais ou a menos no cariótipo (conjunto dos cromossomos) do paciente. As aneuploidias podem ser de vários tipos, mas a mais comum entre humanos é a trissomia, que corresponde à presença de um trio de cromossomos onde normalmente deveria haver um par cromossômico (onde um cromossomo é herdado do pai e um cromossomo é herdado da mãe).

A trissomia mais comum em humanos é a do cromossomo 21, também conhecida como Síndrome de Down. A síndrome recebe esse nome em homenagem ao médico que primeiramente a descreveu em 1862, John Langdon Down. Alguns estudos científicos procuram explicar a associação entre idade materna avançada e trissomias autossômicas, visando criar políticas de prevenção. Apesar de esta relação estar bem estabelecida, ainda não se conhece sua exata causa. Pelo menos 3% das gravidezes reconhecidas são trissômicas e este número sobe para mais de 90% entre os abortos espontâneos. Apenas algumas trissomias são compatíveis com a sobrevivência do recém-nascido (a dos cromossomos X, 13, 18 e 21, por exemplo) e a frequência da maioria das demais trissomias, que acaba sempre em abortos, aumenta com a idade materna. Também se sabe que na maioria dos casos, os gametas femininos (ovócitos) são os responsáveis pelas alterações cromossômicas nas crianças. Uma das hipóteses que pode explicar esta relação é a diminuição da quantidade de ovócitos com o passar do tempo. Durante a vida fetal, os ovócitos de uma menina são estimados em cerca de sete milhões de células, e este número cai drasticamente ao longo da vida da mulher. Desta forma, os pesquisadores indicam que a associação entre a idade cronológica e gravidezes trissômicas implica na associação entre número de ovócitos da mãe e trissomias, onde o risco de uma gravidez trissômica aumenta quando diminuem os números de ovócitos em seus ovários. Como a menopausa ocorre quando o número de folículos nos ovários chega a um limiar, uma das hipóteses é que a menopausa ocorre antes em mulheres que tem gravidezes trissômicas do que em mulheres com gravidezes cromossomicamente normais (tanto quanto a abortos ou nascimentos). A pergunta então seria se a menopausa ocorre naturalmente antes no grupo das mulheres que tiveram abortos espontâneos em que foram diagnosticadas estas alterações cromossômicas.

Estudos atuais mostram que as mulheres que tiveram gravidezes trissômicas chegam à menopausa cerca de um ano, em média, antes das que tiveram gravidezes normais. Embora os estudos mostrem que não se pode associar grau de escolaridade, etnia ou tabagismo com a chegada mais adiantada da menopausa, pode-se fazer esta associação em relação à ocorrência de gravidezes trissômicas. A idade média da menopausa tende a ser menor para todos os tipos de trissomias, com exceção das dos cromossomos 6 a 12. Em relação ao cromossomo 21, existe uma correlação direta entre a idade materna e a incidência da trissomia, e acredita-se que tal relação possa ser feita para a maioria das demais aneuploidias.

 

efeito da maternidade sobre a trissomia do 21 (quando a idade chega é preciso pensar bem)

 

Alguns cientistas acreditam que possa haver alguma alteração hormonal, defeitos na maturação do ovócito ou mudança nos níveis das proteínas responsáveis pela segregação dos cromossomos, que leva a estes resultados. Assim, estas evidências demonstram uma clara relação entre a idade da menopausa materna e gestações de fetos com trissomias cromossômicas. Isso não quer dizer que mulheres mais velhas não possam ser mães, longe disso. É perfeitamente possível que uma mãe com mais de 40 anos tenha um bebê completamente saudável. Mas é preciso que os médicos alertem as futuras mães sobre a probabilidade aumentada de elas terem uma gravidez trissômica, que pode gerar uma criança com necessidades especiais e influenciar a mudança dos planos que toda mulher faz para o futuro de seus filhos.

Karine Frehner Kavalco é bióloga, mestre em Genética e Evolução e doutora em Genética. É professora do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Evolução.


 

Como citar esse documento:

Kavalco, K.F. (2010). Quando a idade chega, é preciso pensar bem. Folha biológica 1 (2): 3

Macaúba de Proveta.

Luciano Bueno dos Reis.

 

A macaúba, conhecida no meio científico como Acrocomia aculeata, é uma palmeira da Família Arecaceae ou Palmae, bastante comum no Sudeste e Centro-oeste do Brasil, sobretudo no bioma do Cerrado. Ela pode atingir até 15m de altura e sua estirpe apresenta muitos espinhos, assim como as folhas e cachos de frutos (coquinhos). No seu nome científico, “aculeata” faz referência à presença destes espinhos, os quais são negros, com cerca de 10 cm de comprimento.

A polpa da macaúba é rica em carotenóides (provitamina A) e em um experimento realizado com ratos, a adição de farinha da polpa de macaúba à ração se mostrou melhor que a adição da Vitamina A industrializada. Esta palmeira também apresenta forte interação com a fauna e seus frutos fazem parte da dieta de araras, capivaras, antas e emas, entre outros animais, os quais são os dispersores das sementes. Grande produtora de óleo de excelente qualidade, a macaúba pode se tornar uma importante fonte de matéria-prima para produção de biodiesel, especialmente em Minas Gerais, onde pode ser encontrada em todo o Estado, adaptando-se a diversas condições ambientais e diversos tipos de solos. Esta espécie produz cerca de quatro toneladas de óleo por hectare. A soja, por exemplo, produz apenas meia tonelada de óleo na mesma área.

Além da produção de biodiesel, o óleo de macaúba também pode ser utilizado na indústria alimentícia e de cosméticos. A confecção de sabão com a macaúba é bastante comum nas comunidades rurais. Após a extração do óleo, a torta que sobra desse processo pode ser utilizada na alimentação do gado ou na adubação de lavouras. O endocarpo (parte escura que envolve a semente) também pode ser aproveitado para produção de carvão de excelente qualidade. Apesar do grande potencial para produção de óleo, esta espécie ainda é pouco estudada e pouco explorada economicamente. Diversos obstáculos impedem sua efetiva utilização econômica, a começar pela dificuldade de propagação em larga escala, pois em condições naturais, suas sementes podem levar cerca de dois anos para germinar.

Atualmente muitas pesquisas estão sendo realizadas com a macaúba, em diversas áreas do conhecimento. Na UFV, Campus de Rio Paranaíba, um projeto financiado pela FAPEMIG investiga o uso da Cultura de Tecidos Vegetais, uma ferramenta da biotecnologia, na propagação in vitro da macaúba. A Cultura de Tecidos Vegetais é um conjunto de técnicas que nos permite manipular a formação de novas plantas in vitro, a partir de células, segmentos de tecidos ou órgãos vegetais isolados de uma planta. Também é a base para obtenção, por exemplo, de clones das mais diversas espécies e também de boa parte das plantas transgênicas. Por meio das técnicas da Cultura de Tecidos Vegetais, como o cultivo de embriões in vitro, é possível obter a germinação da macaúba em apenas quatro semanas, e, pela indução de embriogênese somática, podemos produzir clones de plantas selecionadas com melhores características agronômicas (maior produtividade, menor porte, ausência de espinhos, por exemplo) e produzi-las em larga escala.

As pesquisas com macaúba estão aumentando, mas ainda há muito por se fazer. Apesar de já terem sido obtidos embriões somáticos de macaúba, o protocolo para obtenção desses embriões ainda precisa ser aperfeiçoado, bem como seu crescimento e desenvolvimento in vitro. A Cultura de Tecidos Vegetais tem muito a contribuir para efetiva utilização da macaúba como matéria-prima para produção de biodiesel, sendo este um campo bastante promissor para inserção de biólogos no mercado de trabalho. Na UFV-CRP, os futuros biólogos encontrarão oportunidades de estagiar nesta e em outras pesquisas na área da biotecnologia vegetal.

Luciano Bueno dos Reis é biólogo, mestre e doutor em Fisiologia Vegetal. É professor do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Fisiologia Vegetal e Biotecnologia.


 

Como citar esse documento:

Reis, L.B. (2010). Macaúba de Proveta. Folha biológica 1 (2): 4

Um olhar sobre as Epífitas

Jaqueline Dias Pereira

As epífitas são plantas que vivem sobre outras e, muitas vezes, são confundidas com plantas parasitas, mas elas não emitem estruturas haustoriais (parasitas), portanto, não são plantas parasitas. Não apresentam raízes em contato com o solo e obtêm seus recursos minerais a partir de resíduos ou detritos, como, por exemplo, a poeira que recai sobre si, além de obterem recursos hídricos, a partir da água da chuva e até gotículas de água dispersas no ar, possuindo assim, estruturas especializadas na captação desses recursos. As plantas que sustentam as epífitas sobre si são denominadas de forófitos. O grau em que a diversidade de epífitas numa floresta está diretamente ligada ao tipo de forófito ainda não está bem esclarecido, uma vez que devem ser considerados, em conjunto, os fatores microclimáticos.

Dentre as espécies vasculares (aquelas que apresentam tecidos de condução – xilema e floema), as epífitas contabilizam cerca de 10% com aproximadamente 25.000 espécies, distribuídas em 84 famílias. As famílias Bromeliaceae, Orchidaceae, Araceae e Polypodiaceae concentram a maior parte das espécies, aproximadamente 80%.  A abundância e a diversidade de epífitas são fortemente influenciadas pelas mudanças de condições ecológicas. As epífitas vasculares podem ser classificadas em quatro categorias ecológicas de acordo com os tipos de substratos usados, mecanismos de absorção de água e balanço de nutrientes, arquitetura da planta e relação com o forófito. Dessa forma, são denominadas holoepífitas características, habituais ou verdadeiras aquelas presentes principalmente em ambientes epidêndricos; facultativas, aquelas presentes tanto em ambientes epidêndricos como terrestres; acidentais, aquelas preferencialmente terrestres; e hemiepífitas, aquelas que têm conexão com o solo em alguma fase de sua vida, podendo ser primárias, quando germinam sobre o forófito e, posteriormente, estabelecem contato com o solo ou secundárias, quando germinam no solo e, em seguida, estabelecem contato com o forófito.

O hábito epifítico representa uma estratégia adaptativa que possibilita redução nos prejuízos causados por inundação e pelo fogo, além de evitar a predação por animais terrestres. Entretanto, esta forma de vida pode ser limitada principalmente pela deficiência hídrica, nutricional e pelas condições variadas de intensidade luminosa, de acordo com a estratificação vertical. Água e nutrientes são recursos de difícil acesso já que as epífitas não mantêm raízes em contato direto com o solo, conforme citado anteriormente. Adaptações comuns incluem o uso de húmus acumulado em árvores e características morfológicas que permitem a coleta de húmus, tais como, a formação de “cestas”, “ninhos” ou “tanques”.

As epífitas representam uma importância significativa na manutenção da biodiversidade das florestas tropicais do mundo, contribuem na interação flora e fauna, além de desempenhar um papel essencial na dinâmica de nutrientes das florestas. Proporcionam recursos alimentares (frutos, néctar, pólen e água) e microambientes especializados à fauna do dossel, constituída por uma infinidade de organismos voadores, arborícolas e escansoriais. Por isso, quando se retira uma epífita de seu meio natural, perde-se não só a planta, mas também toda a fauna que depende diretamente da espécie de epífita para a sua sobrevivência.

Tem sido sugerido que várias espécies podem ser usadas como bioindicadores de mudanças climáticas, poluição atmosférica e danos ecológicos. Dessa forma, em função das características fisiológicas e nutricionais das epífitas, seu estudo fornece subsídios importantes sobre a interferência antrópica no ambiente e é essencial para o manejo adequado dos ecossistemas, uma vez que as epífitas também funcionam como bioindicadores do estádio sucessional da floresta, tendo em vista que comunidades em fases secundárias apresentam menor densidade e diversidade epifítica do que comunidades primárias.

Jaqueline Dias Pereira é bióloga, mestre em Ciências Biológicas e doutora em Botânica. É professora do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Anatomia Vegetal.


 

Como citar esse documento:

Pereira, J.D. (2010). Um olhar sobre as Epífitas. Folha Biológica 1 (1): 3

O mundo no aquecimento global

Pierre Rafael Penteado

Aquecimento global é o aumento da temperatura média da superfície terrestre, que segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) é causado principalmente pelo aumento da concentração de gases estufa (dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e clorofluorcarbonetos) na atmosfera, resultado de ações humanas como a queima de combustíveis fósseis e destruição de florestas.

O efeito estufa acontece quando parte da radiação solar é absorvida por gases que aprisionam o calor na atmosfera e consequentemente elevam a temperatura da superfície terrestre, de maneira análoga a uma estufa de cultivo de plantas. O que muitos não sabem, é que sem este efeito a média da temperatura global seria bem diferente, em torno de -18°C, muito abaixo da média em torno de 14°C atual, o que impossibilitaria a vida como a conhecemos.

Centros de pesquisas meteorológicos e climáticos espalhados ao longo do planeta, desde o século 1860, reportam que houve um aumento médio da temperatura em torno de 0,6°C ao longo do século XX. Medições feitas com a sonda espacial Pathfinder, da NASA, de 1981-1998, apontam que a temperatura da superfície terrestre aumentou numa taxa de 0,43°C por década. Entretanto, além de não poder medir mudanças na água e terras cobertas por gelo, fatores como nuvens e erupções vulcânicas poderiam influenciar na leitura exata realizada pelo satélite.

Mas e como os cientistas sabem como era o clima num passado distante?

Há vários indicadores usados, como anéis de troncos de árvores, corais, amostras da acumulação de gelo durante vários anos, que aprisionou pequenas bolhas de ar de vários períodos diferentes (testemunho de gelo) e além de registros históricos. Por exemplo, através de um testemunho de gelo obtido na estação russa Vostok, na Antártica, cientistas puderam inferir que nos últimos 400 mil anos o planeta passou por quatro eventos de glaciação, e essas mudanças climáticas coincidiram com a variação da concentração de CO₂ na atmosfera, além de variações orbitais pelo qual o planeta Terra periodicamente.

Desde 1995, pelas decisões tomadas com o protocolo de Kyoto, vários países procuram uma forma de reduzir as emissões de gases poluentes na atmosfera, mesmo que algumas nações desenvolvidas não aceitem por completo as resoluções desses acordos. O último encontro foi em Copenhague, no fim do ano passado, no qual os países desenvolvidos se comprometeram a reduzir suas emissões em 80% até 2050, entre outros acordos.

Debate – real ou não?

Apesar de 40 sociedades científicas em todo o mundo endossarem o aquecimento global, existe uma pequena parcela de cientistas que se mostra cética quanto os dados mostrados, sugerindo que fatores como a variação natural cíclica do clima da Terra, e outros fatores não antrópicos (como o Sol) são responsáveis pelo aquecimento observado, além de outro grupo de cientistas apontar que os registros de temperaturas do passado não necessariamente indicam aquecimento para o futuro e que o planeta caminha em uma direção contrária, a uma nova era glacial. Estes mesmos cientistas criticam a posição do IPCC e da mídia em geral, que usa o tom alarmista para conseguir maior difusão do assunto. Ainda segundo eles, o assunto ainda tem muito a ser debatido entre especialistas para ser considerado um fato.

De um jeito ou outro é unânime que a humanidade precisa aprimorar novas tecnologias para conseguir reduzir o consumo de fontes limitadas de energia, como petróleo e carvão mineral. Aliados a isso, a redução de lixo e preservação de florestas é fundamental. Real ou não, o aquecimento global não é o único problema ambiental que enfrentamos, e está na hora de revermos como nos relacionamos com a natureza. Afinal, citando uma charge que ficou famosa: “E se for tudo mentira e nós criarmos um mundo melhor sem motivo?”.

Pierre Rafael Penteado é Biólogo, mestre em Biologia Animal pela Universidade Federal de Viçosa.


 

Como citar esse documento:

Penteado. P.R. (2010). O Mundo no Aquecimento Global. Folha biológica 1 (1): 4

 

 

Uma espécie nova na panela

Rubens Pazza

Vez por outra você lê nos jornais, revistas e websites que cientistas descobriram uma nova espécie disso ou daquilo, não lê? Saiba que o que é publicado no jornal não passa da ponta de um “iceberg”, pois nosso desconhecimento sobre a biodiversidade ainda é muito grande. Mas o que afinal significa dizer que os cientistas descobriram uma nova espécie? Será que eles se embrenharam na Mata Amazônica e de repente toparam com uma planta nova, um animal novo?

Nem sempre que se fala da descoberta de uma nova espécie é porque ela era totalmente desconhecida. Muitas vezes você já havia até topado com ela, mas não imaginava que era algo diferente. Embora a metodologia possa variar um pouco dependendo com que organismo estamos lidando, o exemplo que vou utilizar, com peixes, reflete bem o modo como tudo acontece até virar notícia. No ano passado, um dos gigantes portais da web nacional publicou uma notícia sobre a descoberta de uma nova espécie de peixe de água doce, um cascudo da família dos loricariídeos encontrado em um afluente do Amazonas na Colômbia. Será que a descoberta de novas espécies de peixes são furo de reportagem ou a agência de notícias estava sem notícias para divulgar?

Se for o primeiro caso, eles estão perdendo muita notícia, pois revistas especializadas publicam novas espécies de peixes em todos os números. Por exemplo, a revista Neotropical Ichthyology, publicada pela Sociedade Brasileira de Ictiologia, publicou no ano de 2008 nada menos que 44 novas espécies de peixes e no ano de 2009 foram mais 21. Ou seja, uma única revista especializada publicou cerca de 65 novas espécies de peixes apenas dos últimos dois anos. E esta não é nem a única revista do Brasil a publicar novas espécies de peixes todos os meses. Peixes representam a metade de todos os vertebrados da Terra. Somando todos os mamíferos, aves, répteis e anfíbios temos cerca de 24 mil espécies descritas, o que é aproximadamente o mesmo número de espécies descritas para peixes. Apenas no Brasil são cerca de cinco mil espécies em água doce. Entre o que muitos chamam popularmente de cascudos, os peixes que apresentam o corpo revestido por placas dérmicas que parece uma carapaça, existem cerca de 600 espécies. Assim, é muito provável que o cascudo que se pesca no Rio Grande do Sul não seja a mesma espécie que se pesca em Minas Gerais, por exemplo, e dificilmente será a mesma pescada na Amazônia. Com o aumento nos estudos deste grupo a cada dia, novas espécies podem ser identificadas e caracterizadas.

A caracterização de um peixe como uma espécie diferente, nova, se baseia num minucioso estudo de várias características morfológicas externas e internas, comparando-se com exemplares já descritos e mantidos em museus de zoologia do Brasil e do mundo. Para se ter uma ideia, muitas espécies de peixes foram coletadas no Brasil por Darwin e outros naturalistas, descritas por pesquisadores ingleses e atualmente se encontram no Museu de Londres. Quando precisamos saber se um determinado peixe que coletamos é a mesma espécie já descrita, precisamos recorrer a estas amostras nos museus para comparação. Se o que tivermos em mãos for diferente do que está descrito na literatura especializada e depositada no museu, temos uma espécie nova. O próximo passo é descrever detalhadamente todas as características que a diferem das demais espécies, publicar os resultados em uma revista especializada, e depositar os exemplares “tipo” em um museu. A característica de nossas bacias hidrográficas é propícia para processos de especiação, o que faz com que o avanço dos estudos, estimulados pela crescente conscientização acerca da importância da biodiversidade, leve à descrição de cada vez mais espécies novas.

Em alguns casos, no entanto, é possível que as pessoas já a “conheçam” e já a pesquem, pensando se tratar de uma espécie comum no Brasil inteiro até aos olhos dos mais experientes pescadores, quando na verdade se trata de uma espécie nova. Estima-se, inclusive, que muitas espécies de peixes ainda serão extintas antes mesmo que a conheçamos. Conhecer a biodiversidade é muito importante. É a única maneira de planejarmos sua conservação de modo consciente. Por isso, os estudos que levam à descrição de novas espécies são cruciais para processos como a exploração comercial e também para a elaboração de projetos de repovoamento.

Da próxima vez que for pescar, tente imaginar se o peixe que vai para sua panela é o mesmo que está lá no museu. Será que não está levando para a panela uma espécie nova, desconhecida da ciência? Isto sim é consumo consciente!

 

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e Doutor em Genética e Evolução. É docente do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.


 

Como citar esse documento:

Pazza, R. (2010). Uma Espécie nova na Panela. Folha Biológica 1 (1): 2.

Uma ciência para o futuro

Karine Frehner Kavalco

Genética se remete ao estudo das origens. As definições mais rudimentares a consideram a “teoria que explica a origem ou a produção dos seres, parte da biologia que estuda a origem e a transmissão hereditária dos caracteres e das propriedades dos seres vivos”. Atualmente consideramos que se trata do estudo da transferência de informação biológica de célula para célula, dos pais para os filhos, e assim, de geração em geração. A genética também trata da natureza química e física da própria informação.

Gregor Mendel (1822-1884) é considerado o pai da genética embora não a tenha chamado assim, tendo publicado seus experimentos com ervilhas (Pisum sativum) em 1866, realizados no jardim do Mosteiro de Altbrünn, Áustria. Estes trabalhos geraram o fundamento da genética atual, considerada contemporaneamente uma ciência de potenciais. Talvez as mais expressivas contribuições à consolidação da genética como ciência derivam de estudos que identificaram os componentes celulares físicos (biomoléculas) relacionados aos genes, e, portanto, à transmissão das características herdáveis. Embora a composição química do DNA já fosse conhecida, a descoberta da estrutura física bem como do mecanismo de sua replicação, pela dupla J. D. Watson e F. H. C. Crick, revolucionou o estudo da genética na década de 50.

Hoje, a genética oferece nuances diversas e vários horizontes para pesquisa. Começam a pipocar os estudos genômicos, onde todo o conteúdo genético dos organismos passa a ser investigado, bem diferente dos primeiros estudos onde cada gene ou grupo de genes era separadamente analisado. As aplicações dos dados gerados pelos inúmeros projetos “Genoma” são infindáveis, e vão desde o melhoramento genético de muitas espécies de interesse comercial até perspectivas humanizadas, buscando a melhoria da qualidade de vida de muitas pessoas e a cura de doenças que até há pouco mostravam-se impossíveis de aniquilação. Além disso, as contribuições para estudos em biologia evolutiva são inúmeras.

A Engenharia Genética oferece oportunidade de incrementarmos características específicas, ou criarmos organismos “trabalhadores”, que sintetizam compostos como a insulina humana, por exemplo. Talvez os avanços mais marcantes sejam os resultados positivos no incremento de valor nutricional em vegetais e experiências revolucionárias, como a incorporação de vacinas aos alimentos, por meio de transgenia, ou do desenvolvimento de tecidos a partir de células-tronco. A nutrigenética é uma das áreas em expansão no momento, buscando o estudo das interações entre genótipos e alimentação. Hoje o ser humano manipula os genes, e, dando tempo para a ciência testar todas as potencialidades de que dispõem, os resultados prometem aumentar nossa qualidade de vida, que é um dos propósitos das Ciências Biológicas.

O biólogo geneticista pode trabalhar em laboratórios de análises genéticas, onde geralmente se procura os genes de origem para doenças conhecidas. Os métodos de análise podem ser indiretos ou até mesmo incluir o sequenciamento de porções do genoma do paciente. Além disso, esse profissional geralmente precisa ter um bom treinamento em citogenética, já que algumas das alterações genéticas mais frequentemente observadas nas populações são causadas por problemas cromossômicos (que podem ser relacionados com número e macroestrutura dos mesmos). Aspectos de genética bioquímica também são investigados em exames, normalmente quando se procura testar o paciente para um grupo de doenças conhecidas como erros inatos do metabolismo. Outra possível aplicação dos conhecimentos de genética humana são os testes de compatibilidade para transplantes, de seleção de embriões para reprodução assistida e os testes de paternidade, por exemplo.

O planejamento de cruzamentos, o desenvolvimento de raças e linhagens com características específicas (melhoramento) e os testes que envolvem a prática da agropecuária e da criação são igualmente realizados por geneticistas.

Empresas farmacêuticas, desenvolvedores de vacinas, remédios e compostos nutricionais, companhias de biotecnologia envolvidas com remediação de impacto ambiental (por exemplo, no desenvolvimento de micro-organismos que consomem poluentes) ou produção de órgãos e tecidos para transplantes também tem no geneticista um profissional de suma importância. E sempre há os que adotam a docência em nível Superior.

De um modo geral, a formação de um geneticista passa pela graduação e pós-graduação para torná-lo apto ao trabalho.

Karine Frehner Kavalco é bióloga, mestre em Genética e Evolução e Doutora em Genética. Atualmente é docente na Universidade Federal de Viçosa – UFV, Campus de Rio Paranaíba.


Como citar este documento:

Kavalco, K.F. (2010). Uma ciência para o futuro. Folha Biológica 1 (1):1.