Do planeta Krypton ao Planeta Diário: O nicho ecológico do Superman

Vejam! O que será aquilo no alto? Um pássaro, um avião, um disco voador? Ah, mas como não adivinhamos antes? Só poderia ser o super herói mais popular da Liga da Justiça: é o Superman! Jornalista do Planeta Diário nas horas vagas e salvador de Metrópolis quando em serviço, Superman (ou Clark, para os mais íntimos) é nada menos que um extraterrestre naturalizado no planeta Terra. Veremos a seguir o que a história deste famoso herói tem a ver com um conceito essencial da Ecologia, o nicho ecológico.

Um fato interessante foi a preocupação de Jor-El na escolha do planeta Terra como a próxima casa do futuro Superman: após estudar criteriosamente o assunto, Jor-El chegou à conclusão de que a Terra, dentre todos os outros planetas do Sistema Solar, era o único que abrigava condições ambientais semelhantes às de Krypton. Seria, portanto, o destino mais adequado que poderia reservar para o filho. Podemos então dizer que essas condições ambientais que favoreceram o desenvolvimento do jovem Clark Kent constituem o que os cientistas chamam de nicho ecológico.

Definir o que exatamente seria o nicho ecológico já deu dor de cabeça em um bocado de biólogos ao longo da História. Mas foi somente em 1957 que este conceito ganhou mais forma, com a definição de um cara chamado Hutchinson. Hutchinson disse que o nicho é nada menos que um conjunto de condições bióticas e abióticas que favorecem a sobrevivência de uma espécie. Assim, se determinado ambiente reúne essas condições, a espécie em questão é capaz de permanecer e de se reproduzir ali.

É importante não confundirmos os conceitos de nicho e hábitat. O hábitat é o local onde um indivíduo vive; no caso do Superman, seus hábitats foram as cidades de Smallville (onde ele passou a infância e adolescência) e Metrópolis (onde ele vive até hoje). Já o nicho são as condições que o ambiente oferece; essas podem ser bióticas (que envolvem as relações intra e interespecíficas) ou abióticas (que são as características não biológicas, como a temperatura e o pH). Por apresentar esses dois tipos, os quais, por sua vez, possuem uma série de características, o nicho também pode ser chamado de nicho multidimensional.

De fato, Jor-El estava certo, e o planeta Terra apresentava sim as condições ambientais apropriadas para a vida de seu filho, ou seja, seu nicho ecológico. Aqui, o organismo de Clark se desenvolveu de tal modo que já criança possuía super poderes. Jonathan, seu pai adotivo, que o diga, pois se não fosse graças à incrível adaptação de Clark às condições climáticas de nosso planeta, aquele carro o esmagaria, e ele teria batido as botas há muito tempo.

Arthur Filipe da Silva é graduando em Ciências Biológicas na Universidade Federal do Alagoas e estagiário do Laboratório de Ecologia Quantitativa.

Revelando o passado

Desde o surgimento dos primeiros seres vivos na Terra até os dias de hoje, muitas mudanças ocorreram em nosso planeta, tais como as variações de temperatura, oscilações na quantidade de oxigênio na atmosfera e intensas atividades vulcânicas. Algumas dessas modificações foram tão bruscas que conseguiram modificas ou excluir completamente os organismos que viviam naquela época.

Alguns dos organismos que possuíam essa susceptibilidade de sobrevivência eram as trilobites, pertencentes ao filo Arthropoda, ao qual também fazem parte os insetos modernos. Esses animais viveram nos antigos oceanos durante cerca de 300 milhões de anos, entre os períodos Cambriano (há 550 milhões de anos) até o Permiano (há 250 milhões de anos). O surgimento das trilobitas está associado à explosão cambriana, onde a maioria dos filos e classes dos animais marinhos com esqueleto, viventes daquela época, apareceram rapidamente no registro fóssil.

As trilobitas possuíam um corpo oval, achatado e segmentado, o qual era dividido em três partes: cabeça, tórax e cauda, e é devido à essa divisão em três lobos a escolha do nome “Trilobites”. Além disso, possuíam um exoesqueleto composto por quitina e carbonato de cálcio, o que favoreceu os processos de preservação em fossilização dos seus exemplares (tais compostos conferem alta rigidez). Ao longo de seu crescimento, as trilobites sofriam várias mudas, descartando seu exoesqueleto sucessivamente, tal como ocorre hoje com os artrópodes. Esse pode ser um dos motivos de se encontrar tanta abundância de indivíduos desse grupo no registro fóssil.

Acredita-se que, em sua maioria, se tratava de animais marinhos bentônicos, ou seja, aqueles que vivem no fundo dos oceanos. Além disso, eram também cosmopolitas (encontrados no mundo todo). No Brasil, por exemplo, já foram encontrados registros fósseis de representantes desse grupo nas bacias do Paraná e Amazonas.

Do ponto de vista evolutivo, as trilobites se destacam pela sua extraordinária diversidade morfológica. Analisando os registros fósseis, é possível a identificação e classificação de mais de 1500 gêneros distintos e de 20000 espécies, as quais se diferem no formato, hábito de vida e tamanho (desde 1mm até mais de 70 cm). Por esta razão, é considerado como um dos grupos de animais extintos mais diversos que já habitaram a Terra. Essa sua diversidade de formas sugere que esses animais ocupavam um extenso nicho ecológico, assim possuíam diversos modos de vida, o que também incluía uma variedade de ocupações nos níveis tróficos, já que sua alimentação poderia ser filtradora, detritívora ou carnívora (predadora ou carniceira).

Outro fator marcante desse grupo, eram os olhos compostos de várias lentes em cada, o que é, de acordo com alguns evolucionistas, algo bastante complexo e sofisticado para aquele período. Esse fato acabou surpreendendo diversos pesquisadores, os quais acreditavam que os animais evoluíam suas características de algo mais simples para o mais complexo, ou “melhorado”. A questão é que esses olhos eram muito sensíveis aos movimentos e à variação de luz, eram constituídos de um mineral chamado calcita, o que conferia às lentes rigidez e não permitiam o ajuste do foco, assim como acontece nos olhos humanos. Porém, ela também podia eliminar as distorções de imagem, auxiliando assim as trilobites na busca por suas presas e fuga de predadores. Isso reforça que Evolução não significa melhoria, mas apenas mudança.

As trilobites eram animais fantásticos, abundantes e tão complexos quanto qualquer organismo encontrado atualmente. Conseguiram reinar nos oceanos antigos por milhões de anos e o formato de seus olhos pode ser uma das chaves para entender seu sucesso adaptativo e ampla diversidade de espécies. Além disso, o compreendimento das características e morfologias desse grupo, vem em auxílio para a ciência na construção da história evolutiva da vida na Terra, justificando a tamanha importância do grupo.

Texto: Beatriz Cranchi Pazetto, Graduanda em Ciências Biológicas

O que é uma espécie?

O que caracteriza e como podemos definir “espécie”? Qual a primeira observação que fazemos para classificar um indivíduo como pertencente a uma e não a outra? O conceito de espécie é muito discutido pela comunidade científica, e existem diferentes tipos. O biológico diz que podem ser considerados da mesma espécie, indivíduos capazes de intercruzar e produzir descentes férteis. Entretanto, o que amplamente utilizamos para distinguir uma espécie de outra é a morfologia externa ou mesmo interna que os indivíduos apresentam.

Os problemas da classificação morfológica aparecem a partir do momento em que não são encontradas diferenças evidentes entre indivíduos. Exemplo disso são as espécies crípticas encontradas em muitos grupos. Mesmo semelhantes, são diferentes e provavelmente apresentam diferenças em aspectos não tão facilmente observáveis, tais como fatores ecológicos de seu nicho (requisitos alimentares ou padrões de comportamento reprodutivo) e genéticos (diferenças cariotípicas). Com isso, o que antes era classificado como populações de uma espécie, pode representar, na verdade, um conjunto de espécies que respondem de formas diferentes às pressões seletivas naturais ou às impostas pelo homem em processos de fragmentação e degradação de hábitat.

Um exemplo de organismos que apresentam espécies de difícil distinção morfológica são os parasitoides da família Trichogrammattidae. Parasitoides são uma classe de organismos que parasitam outros insetos, principalmente depositando seus ovos no corpo de seus hospedeiros. Essa é uma relação extremamente espécie-específica muito utilizada no controle biológico de pragas na agricultura. Mas para que esse controle seja eficaz, é essencial a identificação correta do tipo de parasitoide.

Essas incertezas taxonômicas são encontradas em organismos dos mais distintos e podem afetar também a saúde humana. Um estudo recente com a espécie de fungo Paracoccidiodes brasiliensis, mostrou que o que era considerado uma única espécie que, na fase de levedura, causa micose sistêmica, na verdade se trata de um complexo de quatro espécies diferentes. Os pesquisadores acreditavam que era possível que isso estivesse interferindo em diversos aspectos da doença, inclusive no diagnostico positivo através de soro. Em um dos testes realizados, foi verificado que em uma das espécies, o gene que produz o antígeno (molécula que induz a produção de anticorpos), acumulava maior numero de mutações não sinônimas, que são aquelas que interferem no aminoácido codificado pelos nucleotídeos. Isso significa maior variabilidade na molécula produzida por uma das espécies do fungo, gerando respostas variáveis nos pacientes infectados pela mesma.

Que a biodiversidade no planeta Terra é imensa é um fato conhecido por todos. Uma surpresa é imaginar que essa mesma pode ser ainda maior do que estimamos, e que espécies que ainda nem conhecemos são extintas todos os dias. Dessa forma, identificar se o que é considerado uma única espécie trata-se de mais de uma unidade taxonômica e evolutiva, é essencial para planejar formas de manejo eficazes que atendam as necessidades de cada uma delas e, assim, aumentar a contribuição pra a conservação da diversidade e do meio ambiente.

Snaydia Resende é bióloga, mestranda em Manejo e Conservação de Ecossistemas Naturais e Agrários na UFV campus Florestal.

Fazendas flutuantes

Segundo dados da ONU, estima-se que a população irá crescer de 6,9 bilhões em 2010, para 8,3 bilhões em 2030 e, depois, para 9,1 bilhões em 2050. A previsão é de que, até 2030, a demanda de alimentos aumente em até 50%; e em 70% em 2050.

A produção mundial de alimentos ainda é maior que a demanda, mas no entanto a fome é um problema em muitos países, devido a distribuição descentralizada de alimentos o que leva à grande quantidade de alimento desperdiçado em alguns locais do mundo e a falta em outros.

Devido essa realidade o escritório Forward Thinking Architecture elaborou um projeto de fazendas flutuantes. A plataforma das fazendas flutuantes consistem em múltiplas camadas. O primeiro andar apresenta coletores de água de chuva para irrigação e painéis fotovoltaicos para obtenção de energia. O segundo andar possui uma estufa e um sistema de cultivo hidropônico que permite o cultivo o ano todo, sem preocupações com o tipo de solo, condições climáticas ou desastres naturais. O térreo focaria na aquicultura, que é o cultivo de organismos aquáticos em condições controladas, e estaria equipado com pontos de acesso para água, uma plantaforma de dessalinização, barreiras de proteção contra as ondas, assim como um área para o processamento e embalamento dos produtos.

Uma das maiores vantagens da estrutura é sua mobilidade, podendo ser transportada para que essas fiquem localizadas em áreas onde os alimentos são mais necessários a fim de tentar solucionar o problema da falta de alimento em alguns locais.

Esse projeto ainda não foi posto em prática mas pode ser uma opção para o futuro quando a produção de alimento não mais suprir a demanda e a falta de alimento não for um problema apenas em países subdesenvolvidos.

Texto por: Roberta Silva Castro

Como fragmentos de DNA podem servir como marcador molecular?

O RFLP (Polimorfismo no Comprimento de Fragmentos de Restrição) é uma técnica da biologia molecular que analisa pedaços de DNA que foram cortados por enzimas de restrição (esses pedaços são chamados de fragmentos de restrição). O funcionamento é bem simples: existem enzimas que conseguem cortar o DNA em algumas regiões. Essas enzimas são chamadas de enzimas de restrição e apresentam vá- rios tipos, que cortam apenas sequências reconhecidas por elas. Porém, o que fica entre essas regiões pode variar de tamanho. A primeira vez que pesquisadores sugeriram essa técnica foi em 1974 e em pouco tempo ela se tornou uma ferramenta eficaz para inúmeros procedimentos de biologia molecular e biotecnologia. Quatro anos depois da descoberta dessa técnica, os pesquisadores responsáveis (Arber, Nathans e Smith) receberam o prêmio Nobel em Medicina ou Fisiologia.

Para entendermos o funcionamento dessa técnica devemos entender o que é um marcador molecular: uma região do DNA será um marcador molecular quando ela apresentar características específicas para um grupo de análise (seja esse grupo uma espécie, uma família…). Assim, o RFLP será um marcador quando apresentar variabilidade suficiente que permita análises individuais ou populacionais.

Ok, mas como verificar o tamanho desse fragmento de DNA? Bom, a resposta é simples. Existe uma técnica chamada Eletroforese em gel, que consiste na migração de uma molécula em um gel a partir da diferença de potencial elétrico. Para que isso ocorra é preparado um gel com agarose (polissacarídeo gelatinoso encontrado em algas) que prenderá as moléculas durante a migração. Após isso, é colocado o DNA em poços (pequenas cavidades no gel) e é aplicada uma corrente elétrica.

O DNA tem carga negativa, então ele será atraído pelo polo positivo. Entretanto, para chegar a esse polo, a molécula deve migrar através do gel. Os fragmentos de DNA menores irão migrar mais rapidamente do que os fragmentos maiores. Após terminar o tempo de “corrida”, é aplicada uma luz ultravioleta (UV) nesse gel, visto que antes da aplicação o DNA é tratado com uma molécula que “brilha” quando exposta a essa luz UV. Quando aplicada a luz, vê-se no gel algumas faixas de luz brilhantes, que correspondem ao DNA.

Mas como saber qual o tamanho exato desse DNA para que se possa prosseguir na análise? Para isso, utiliza-se um Ladder, que nada mais é do que uma sequência de DNA de tamanho conhecido, que aparecerá no gel. Assim, é possível comparar a amostra que o pesquisador desconhece com a conhecida, descobrindo assim o tamanho da amostra. Esse ladder é medido em pares de base, ou seja, quantas bases nitrogenadas (componentes do DNA) tem naquele fragmento.

Para facilitar ainda mais a visualização das bandas, faz-se uma técnica chamada de Southern Blot, que consiste em transferir o DNA do gel da eletroforese para uma membrana de nylon ou nitrocelulose. Cada indivíduo ou grupo apresentará um padrão de fragmentos (bandas), que é chamado de perfil de digestão, que é detectado pelo número e tamanho dos fragmentos gerados. Assim, essa técnica pode servir para identificar genótipos heterozigotos, visto que é um marcador codominante; para mapear o genoma de um grupo; para teste de paternidade; para detecção de doenças hereditárias e muitas outras aplicações.

Com isso, vemos que o RFLP é um bom marcador molecular, por apresentar diversidade em aplicações e ser um marcador codominante, ou seja, onde é possível se diferenciar homozigotos de heterozigotos. Este marcador pode apontar relações de cruzamento entre casais, determinar relações de parentesco e até auxiliar na genética forense para resolução de crimes. Porém, entre as desvantagens dessa metodologia podemos citar o fato desta ser cara para execução (demanda de aparelhos e reagentes caros), utilizar sondas que são tóxicas (necessitam de cuidado no manuseio) e é relativamente trabalhoso.

Texto por: Francisco Sassi

A evolução do voo e a origem das aves

O Planeta Terra como conhecemos hoje, passou por diversas mudanças ao longo dos milhares de anos para se tornar habitável. Como exemplo disso, temos as eras de gelo e as extinções em massa. Além disso, foram necessários alguns milhares de anos, e a ação de seres vivos como as bactérias, para que o oxigênio se tornasse presente na Terra, permitindo o início da expansão da diversidade no planeta. Isso foi um ponto positivo para que plantas terrestres se estabilizassem no ambiente, aumentando o oxigênio disponível, e permitindo que a “vida” saísse da água para colonizar o ambiente terrestre.

Dentre os animais que conseguiram se adaptar em um determinado momento da história na Terra, antes de serem extintos, podemos citar os dinossauros. Como sabemos, existiram várias espécies destes, algumas delas carnívoras, herbívoras, com um tamanho corporal maior ou com tamanho reduzido, e, em especial, as que utilizavam as quatro pernas (tetrápodes) e aquelas que só utilizavam duas (terópodes).

Um exemplo terópode é a espécie Microraptor zhaoianus, que apresentava penas por todo o corpo. Era uma espécie carnívora, sendo um dos menores dinossauros que já viveram na Terra, e que demonstram uma estreita relação evolutiva entre as aves e dinossauros, já que possuía longas penas em suas patas e cauda.

A origem das aves ainda é algo muito debatido no mundo acadêmico, e a teoria mais aceita é a de que as essas teriam evoluído a partir de pequenos e ágeis dinossauros terópodes, que com os milhões de anos adquiriram as penas e só depois aprenderam a voar. Em relação ao surgimento das penas, nos dinossauros terópodes, acredita-se que, em um primeiro momento, não surgiram para o voo propriamente dito, e sim com uma função metabólica, como a regulação da temperatura corporal para manter o corpo aquecido. Uma curiosidade sobre as penas, é que elas são distribuídas assimetricamente no corpo dos animais, o que é muito importante nas asas que possuem a função de voo, pois permite uma maior estabilidade do mesmo.

Quanto à origem do voo nos ancestrais das aves, duas teorias tentam buscar explicações. A primeira é a teoria arborícola, ou top-down (de cima pra baixo), que considera que os ancestrais das aves viviam no topo das árvores, e dessa forma pulavam de galho em galho entre elas. Além disso, aqueles que conseguissem se descolocar mais teriam uma vantagem na hora de fugir de predadores ou mesmo na busca por alimento, e, os que possuíssem uma maior força e habilidade na hora de planar teriam um sucesso relativamente maior. Um exemplo é o próprio Microraptor, onde a partir de experimentos em laboratório, tentando reproduzir como era o voo nessa espécie, viram que, por ser um animal escalador, saltava em busca de suas presas. Outra inferência com o estudo foi o fato de que esses indivíduos conseguiam alcançar distâncias maiores caso pulassem de perna fechada em relação à perna aberta.

A segunda é a teoria terrícola, ou bottom-up (de baixo pra cima), onde afirma que os ancestrais das aves eram na verdade corredores bípedes, e começaram a voar correndo ou se impulsionando do solo. Isso pode ter sido tanto para que conseguissem dar pequenos e rápidos saltos para escapar de predadores, ou mesmo para dar saltos sobre suas presas, utilizando suas asas primitivas para capturá-las contra o solo ou apenas derrubá-las no chão.

Portanto, embora ainda existam lacunas quanto à origem e evolução das aves, principalmente devido ao registro fóssil desse grupo não ser completo, a partir dessas informações, é possível obter uma compreensão razoável sobre o assunto. Espera-se que através de mais descobertas fósseis seja possível o esclarecimento sobre a origem desse grupo que tanto é debatido.

Elisa Gabriella Martins, Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa, Campus Rio Paranaíba.

Armas biológicas

As descobertas científicas desencadearam avanços em diversas áreas, sendo um exemplo o desenvolvimento e a potencialização de armas. Observações históricas mostram que o progresso da ciência está associado à evolução das armas biológicas.

A utilização de organismos patogênicos ou toxinas produzidas por microrganismos e plantas para causar enfermidades ou a morte proposital de animais, vegetais e humanos já é relatada a milhares de anos. Um dos registros mais antigos da utilização de microrganismos em conflitos datam do início do século VI a.C., quando os assírios contaminavam os poços de seus inimigos com animais mortos.

Um dos mais conhecidos e desastrosos usos de armas biológicas foi o lançamento de cadáveres vítimas da peste negra sobre a cidade de Kaffa, pelos tártaros em 1346, alastrando a doença pela cidade e levando os exércitos inimigos à rendição. Acredita-se que esse episódio possa ter agravado a situação da peste negra, que se espalhou por todo o continente.

No século XV, Pizarro presenteou nativos com roupas contaminadas com varíola, levando a dizimação de tribos inteiras. Em 1754-1767, tropas inglesas também distribuíram cobertores contaminados com varíola durante a guerra Franco-Indiana e durante a Guerra da Independência dos Estados Unidos.

De 1932 até o final da Segunda Guerra Mundial, o Japão conduziu pesquisas com armas biológicas que utilizava os agentes biológicos da peste, antraz, cólera, entre outros, com a finalidade de obter conhecimento e desenvolver técnicas que permitissem um uso mais eficiente desse tipo de armas. Na segunda metade do século XX, durante a Guerra Fria, os Estados Unidos e a então União Soviética, implantaram programas para o desenvolvimento de armas biológicas também, assim como o Canadá e o Reino Unido.

O uso de ataques bioterroristas se tornaram causa de medo e discussão por parte da população em geral após o ataque bioterrorista nos EUA, com a disseminação de antraz pelo correio postal, que seguiram os acontecimentos dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

A primeira geração de armas biológicas foi usada durante a I Guerra Mundial, que consistia na manipulação rudimentar de microrganismos nesse período. A eficiência delas ainda era precária devido à falta de conhecimento quanto à dispersão do agente biológico, período de incubação, entre outros, tornando assim difícil seu uso generalizado. Por isso, as principais armas utilizadas na I Guerra Mundial eram as armas químicas.

Nos anos 40, durante a II Grande Guerra, os estudos relativos ao desenvolvimento, dispersão e efeitos de diferentes agentes biológicos deram um grande salto, o que possibilitou a criação da segunda geração de armas biológicas, e, antes mesmo de a guerra começar, os alemães realizaram inúmeros testes de dispersão atmosférica com bactérias não patogênicas. Não só o desenvolvimento do conhecimento na área da microbiologia, mas também na área da biologia molecular com a descoberta do DNA e sua estrutura, despertou o interesse da utilização de conhecimentos biológicos para cada vez mais potencializar o poder destrutivo das armas biológicas.

Organismos vivos sempre foram usados como armas biológicas, mas foi a partir de 1970 com a revolução da biotecnologia e invenção da técnica do DNA recombinante, que muitos militares observaram grande potencial para novas armas. Com a manipulação genética se desenvolveu então a terceira geração de armas biológicas, a partir desse momento a munição passou a ser os microrganismos patogênicos geneticamente modificados.

A quarta geração de armas biológicas foi desenvolvida no século XXI em consequência de uma fusão das duas principais ciências desenvolvidas na II Guerra Mundial, a física quântica e a biologia molecular. Foi essa fusão que proporcionou o nascimento da nanobiotecnologia. O potencial dessa ciência unifica aminoácidos e proteínas, criando novos processos celulares, novos vírus e novas bactérias. Esta, desponta então como a grande ameaça, pois a manipulação do material genético de agentes patogênicos com finalidade bélica, a nível nanotecnológico, afasta cada vez mais a possibilidade de utilização de técnicas para a defesa dos estados.

No Brasil há poucos casos confirmados de ataques com agentes biológicos e as ameaças quanto a utilização deste tipo de armas no pais estão relacionados com o setor da agroindústria, onde o pais se destaca e desperta maior atenção na esfera internacional. Há suspeita de que, na década de 80, o inseto-bicudo do algodoeiro (Anthonomus grandis) tenha sido introduzido de forma maliciosa, visando destruir a cotonicultura nacional. Acredita-se também que a introdução da praga conhecida como vassoura de bruxa nas plantações de cacau no estado da Bahia também tenha sido resultado de um ataque com agentes biológicos.

Desenvolvimento de soro antiveneno para abelhas africanas

Abelhas podem ser encontradas tanto em regiões de mata como em áreas urbanas. É muito comum esses indivíduos atacarem seres humanos a fi m de protegerem seu território. No último levantamento do ministério da Saúde foram registrados no país cerca de 10 mil casos de picadas de abelhas em 2013, provocando a morte de 40 pessoas.

Ao atacar, as abelhas exalam alguns feromônios que atraem todo um enxame. Quando uma pessoa leva mais de 100 ferroadas, podem ocorrer lesões nos rins, fígado e coração, debilitando esses órgãos. A maioria das mortes acontece devido à falência dos rins.

É por isso que o Instituto Butantan e os cientistas da UNESP, estão desenvolvendo um soro antiveneno para tratar as pessoas atingidas pelas picadas da Apis mellifera melífera, espécie conhecida como abelha africana que, pertencente ao gênero Apis, é muito comum no Brasil.

O soro está sendo sintetizado a partir do próprio veneno das abelhas, que é inoculado em cavalos cujo sistema imunológico reage produzindo anticorpos, esses anticorpos compõem então o soro e combatem o envenenamento tóxico causado pelas picadas que, em casos extremos, pode matar rapidamente.

Paca: conhecendo um pouco mais

Dentro do grupo dos roedores, que é muito amplo e diversificado, encontramos a Cuniculus paca, mais conhecida como Paca, encontrada preferencialmente em florestas tropicais.

O animal possui porte médio, podendo chegar, quando adulto, à pesar entre 5 e 10kg, ou até aos 14kg, e medir de 30 a 60 cm de comprimento, perdendo apenas para a capivara, que é o maior roedor do mundo. Seu corpo é robusto e alongado, com patas curtas e fortes e unhas grandes, que são pró- prias para a corrida e escavação de tocas, sua cauda é muito pequena e o corpo é protegido por pelos ásperos e curtos, apresentando de três a cinco listras longitudinais, de manchas claras de cada lado do corpo, com coloração variando do avermelhado até o marrom escuro. No ventre, os pelos são mais fi nos e de cor branca ou amarelada e tem dois pares de mamilos (dianteiro e traseiro). Possuem a cabeça alongada, com orelhas pequenas, dentes grandes e mandíbulas poderosas e é dotada de um olfato privilegiado.

A paca é uma espécie considerada generalista quanto à sua dieta, ou seja, é baseada em frutos, folhas, raízes, talos, casca de árvores, cana-de-açúcar e outras coisas conforme a estação, não se prendendo à um único tipo de alimento. Esses animais possuem como uma de suas características os dentes da frente grandes, pois crescem continuamente enquanto o animal os desgasta roendo madeira ou objetos duros. São considerados dispersores de sementes pequenas e predadores das grandes sementes, mas podem ser dispersores das grandes sementes também, uma vez que se afastam de um local carregando as sementes e posteriormente não conseguem consumi-las totalmente.

Na reprodução as fêmeas atingem a maturidade sexual com cerca de 9 meses de idade, enquanto os machos a atingem com um ano. O sucesso reprodutivo é baixo, porém a produção de esperma nos machos é contínua. De acordo com alguns estudos as fêmeas são mais receptivas em Dezembro e Janeiro, de modo que a maioria dos nascimentos ocorrem entre Abril e Maio. A gestação, segundo a literatura, não ultrapassaria 115 dias. Normalmente, nasce um filhote por parto ou, dificilmente, dois ou três.

A criação desses animais silvestres pode ser uma importante alternativa econômica, visto que o consumo da carne deles é uma realidade mesmo sem a existência de um mercado formal deste produto. Com a domesticação deste animal em cativeiro pode-se, portanto, influenciar na sua conservação através do aumento populacional e na diminuição da pressão que vem da caça e do tráfico. Isso também auxiliaria na conservação das matas, pois a utilização de espécies silvestres adaptadas às condições ambientais locais causaria menores danos ao meio ambiente em relação, por exemplo, a bovinocultura que modifica drasticamente um ambiente.

O valor comercial da paca é a referente à sua carne, tendo um sabor especial que agrada a todos, é muito valorizada devido a pequena oferta. É considerada de boa qualidade, rica em proteínas e minerais e encontrada em restaurantes sofisticados. O couro pode ser utilizado para confecção de pulseiras, relógio, luvas e outras peças pequenas de artesanato.

Por apresentarem algumas características, como tamanho mediano, baixo custo de manutenção e curto período de prenhes, as pacas são consideradas animais experimentais para a criação em cativeiro que, futuramente, pode ter um grande sucesso no comércio de carnes.

Liliane de A. Melo; Mitchel, I.A. Costa; Maiza, C. Camargos e Michelle Scalabrini.

Efeitos do aquecimento global sobre as populações de anuros

Os anuros são o grupo de vertebrados que correm o maior risco de serem extintos perante às alterações climáticas decorrentes do aquecimento global. Isto se dá devido às características fisiológicas, ecológicas, evolutivas e outras adaptações do grupo. Estes animais possuem um importante papel de controle biológico de diversos insetos como baratas, pernilongos, moscas entre outros e sua extinção ou diminuição pode causar um aumento considerável destes bichos.

O aquecimento global pode causar consequências diretas como o aumento da temperatura no planeta e também consequências indiretas, como mudanças no regime hídrico, alteração da umidade, alteração no PH do solo e aumento na incidência de raios UVB no planeta, além de influenciar no tipo e quantidade de presas e na distribuição das espécies de anfíbios.

Sapos, Salamandras e Cecílias são animais ectotérmicos, ou seja, suas funções fisiológicas estão relacionadas com a temperatura do ambiente, portanto, alterações climáticas drásticas podem resultar em mudanças na sua fisiologia e consequentemente nos seus ciclos de vida, o que afetaria a distribuição desse gênero.

As mudanças nos padrões de distribuição de uma espécie podem desencadear outras variações que influenciam na alimentação, relação com microrganismos patogênicos e características da reprodução. O grupo apresenta baixa habilidade de dispersão, portanto não há uma grande disseminação dessas espécies para áreas com características climáticas mais favoráveis à sua sobrevivência, ocorrendo uma alta extinção local de espécies de anuros.

A pele desses animais é extremamente permeável à água, o que os deixa sensíveis ao excesso de radiação solar e outras sustâncias presentes no meio ambiente. Outras características da pele fazem com que eles sejam mais sujeitos a infecções por microrganismos. Acredita-se que alterações nos regimes climáticos possam estar associadas ao aumento da ocorrência de epidemias, causando um grande declínio nas populações de anfíbios, mesmo eles apresentando, além da pele, barreiras de proteção bioquímicas e biológicas contra infecções microbianas.

Como mecanismos biológicos de proteção contra infecções, tem-se uma microbiota na pele composta por fungos e bactérias produtoras de antibióticos. Essa microbiota resistente presente na pele também pode ser vulnerável a alterações da temperatura, incidência de radiação solar, disponibilidade de água e nutrição. O ambiente onde o animal está inserido influencia ainda no perfil de tais comunidades microbianas, portanto a diminuição da distribuição dessas espécies assim como as dispersões e as colonizações de outros locais vão influenciar na proteção biológica contra doenças, o que os deixa ainda mais suscetíveis a contaminação por microrganismos causadores de doenças. Já os mecanismos bioquímicos estão relacionados com a secreção de moléculas bioativas a partir das glândulas dérmicas. Ambas as características têm relação com a modulação das secreções cutâneas, que resultam em uma diferenciação na produção dos peptídeos antimicrobianos e, portanto, em uma maior susceptibilidade a agentes infecciosos na pele.

Temperaturas muito altas também interferem diretamente na reprodução, pois fazem com que as poças de água onde os anfíbios depositam seus ovos sequem ou se aqueçam de modo que os girinos muitas vezes não conseguem sobreviver. A diminuição das chuvas resultará em poças mais rasas com menor quantidade de água, estas secarão mais rápido e com isso espécies com períodos larvários longos ou baixa plasticidade no desenvolvimento terão de mudar os seus habitats de reprodução, depositando seus ovos em locais com água mais volumosas e duradouras ou mudando a época de reprodução (Katzenberger et al, 2012).

A alteração no tempo de metamorfose pode provocar outros problemas como a sobreposição dos períodos de reprodução de várias espécies e com isso o aumento da densidade de girinos nas poças, resultando em uma maior competição por recursos (Katzenberger et al, 2012).

Roberta Silva Castro.