Os impactos do Aquecimento Global nos seres vivos

Quando se fala sobre Aquecimento Global, muitos se perguntam imediatamente: “Existe isso mesmo?”. Bem, há evidências abióticas que sustentam tanto a existência quanto a inexistência do mesmo. Ocorre uma certa discussão no meio acadêmico sobre isso, porém já é praticamente consensual que estamos em um período de aquecimento, e isso é baseado em fatos.

Primeiro, há grande emissão de carbono para a atmosfera, devido a diversos fatores (estocado em diferentes formas como petróleo e carvão natural, o que ao longo de eras está sendo retirado das fontes e liberado no ar). Segundo, carbono absorve e conduz calor, assim, simplesmente não tem como despejá-lo na atmosfera e esperar que ela aqueça e, consequente, esquente tudo que entra em contato. O efeito estufa natural, responsável por reter parte da radiação solar no planeta e assim “criar o calor” responsável por sustentar a vida, está então inegavelmente sendo agravado. Esse aumento nas concentrações atmosféricas de gases com o efeito estufa, fez com que as temperaturas médias globais subissem cerca de 0,2°C por década nos últimos 30 anos. Pode não parecer muita coisa para nós que temos tecnologia e alta capacidade de aclimatação, mas, para outros organismos, a menor variação na temperatura pode ser fatal. Em tartarugas marinhas, por exemplo, 1ºC a mais pode fazer com que nasçam apenas fêmeas e isso vai impactar diretamente a estrutura da população, uma vez que vai desbalancear a proporção de machos e fêmeas refletindo na capacidade de reprodução da espécie. A temperatura tem um efeito muito importante nos processos biológicos por causa de sua influência na atividade de enzimas, reações químicas, transportes e fluidez em membranas. Qualquer variação que interfira na homeostase (equilíbrio natural para o bom funcionamento do organismo) de um animal requer gasto de energia para voltar ao equilíbrio, um aumento na temperatura implica em aumento das taxas metabólicas.

As altas concentrações de CO2 na atmosfera são, em parte, absorvidas pelos oceanos, o que deixa a água mais ácida e acrescenta mais uma limitação para os organismos enfrentarem para a sobrevivência no meio. Essa nova acidez afeta corais e fitoplânctons, que são os maiores produtores de energia (derivados dos processos de fotossíntese). Essa produção primária está diminuindo cerca de 6% nas últimas décadas e, como dito anteriormente, causa um impacto direto na biosfera marinha, exatamente em sua base, o que causa um efeito cascata na cadeia alimentar. Além disso, as espécies marinhas não só têm que se aclimatarem à variação de temperatura, mas também à alteração do pH da água, tudo isso em um espaço de tempo muito curto.

Um outro ponto que também pode ser levantado e é sustentado pelo artigo da Science de 2010 denominado The Impact of Climate Change on the World’s Marine Ecosystems, é a crescente redução na complexidade dos hábitats marinhos. Espécies de corais, capim-do-mar, manguezais e gramíneas marinhas, formam um hábitat base ao longo dos anos, o qual abriga milhares de espécies. Isso se deve principalmente ao fato de possuírem uma alta taxa de produtividade primária e, assim, se tornam hostpots de biodiversidade. Com esses organismos sendo afetados e sumindo, novamente temos toda uma cascata de problemas.

De acordo com estudos recentes baseados em dados antigos, algumas espécies já estão respondendo à atmosfera alterada e ao clima do século XX (final da revolução industrial), com impacto na fisiologia e distribuição das mesmas. Sob efeito ou não do agravamento do efeito estufa, espécies vêm desaparecendo ao longo das décadas, o que causa consequentemente uma diminuição na biodiversidade.

Um excelente exemplo de como a espécie humana, apesar de “fingir que não sabe”, depende do bom funcionamento dos ecossistemas, é a crise com o desaparecimento das abelhas na América do Norte. Esse desaparecimento diminui as taxas de polinização e consequentemente afeta a diversidade e a reprodução das plantas, bem como a produção de seus frutos. Com o ambiente marinho discutido neste texto não é diferente, dependemos diretamente dos ciclos e cadeias tróficas do hábitat marinho e este está se deteriorando.

Matheus Lewi C. B. de Campos é graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba e mestre em Zoologia Animal pela Universidade Federal de Belo Horizonte – UFMG.

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