Spinosaurus: o dinossauro mais badalado do século

Spinosaurus é um dos gêneros de dinossauros mais populares atualmente. Ele se tornou bem conhecido pelo público em 2001, após aparecer no filme Jurassic Park 3 derrotando o dinossauro mais popular de todos: o T. rex. A história desse dinossauro começa no início do século XX no Egito, com a nomeação de Spinosaurus aegyptiacus por Ernst Stromer em 1915. O que mais chamou a atenção de Stromer foram os estranhos espinhos nas costas do animal que em vida sustentavam uma vela dorsal bastante característica.

Infelizmente o exemplar estudado por Stromer foi armazenado em um museu alemão e destruído em um bombardeio na segunda guerra mundial. Somente mais tarde, com a descoberta de outras espécies próximas e mais restos fragmentários do Spinosaurus, que mais informações sobre sua biologia foram conhecidas. Naquele momento, sabia-se que o Spinosaurus tinha um focinho comprido semelhante a um crocodilo, dentes cônicos, narina recuada para trás no crânio e que tinha nos peixes sua principal fonte de alimento.

No entanto, as novidades acerca da biologia do Spinosaurus estavam, e ainda estão, longe de acabar. Em 2014 o paleontólogo Nizar Ibrahim e colaboradores descreveram um novo espécime descoberto nas Camadas Kem Kem do Marrocos, o novo fóssil exibiu pernas e pélvis curtas em comparação com o resto do esqueleto, sugerindo que o animal deveria ser quadrúpede! Além disso, a equipe também apontou uma alta densidade em alguns ossos do animal, o que o permitia submergir com mais facilidade na água, além propor um formato de “M” para sua vela dorsal e estimar seu tamanho em estrondosos 15 metros.

Seis anos mais tarde, o mesmo Nizar Ibrahim e seus colaboradores colocaram novamente os holofotes sobre o Spinosaurus. Dessa vez com a descoberta de uma cauda no mesmo local, o que indica serem mais restos do mesmo indivíduo anunciado em 2014. A nova cauda exibia prolongamentos neurais que em vida sustentariam uma espécie de barbatana, e elementos em sua estrutura indicavam que ela era muito mais eficiente em impulsionar o animal pela água do que as caudas de outros dinossauros. Além disso, é possível que ela servisse como um contrapeso para o resto do corpo, permitindo ao animal ser bípede mesmo com as pernas curtas.

Pode parecer que essas novas descobertas solucionaram os mistérios do Spinosaurus, mas na verdade levantaram muito mais perguntas. Não existem evidências suficientes para sustentar a vela em forma de “M” proposta por Ibrahim e colaboradores, assim o real formato da vela segue incerto. Outra dúvida é sua postura, alguns paleontólogos têm sugerido uma postura mais ereta, com as costas inclinadas na diagonal e a cauda próxima ao chão, outros permanecem fiéis à postura tradicional com cauda e costas alinhadas horizontalmente. Por fim, fica a dúvida se as adaptações para hábitos semi-aquáticos do Spinosaurus significam que ele era um caçador ativo, perseguindo suas presas enquanto nadava, ou um predador semelhante a garças, que vagava por águas rasas e capturava os peixes com rápidos e ferozes movimentos. Ficamos ansiosos à espera de novos fósseis que nos ajudem a responder essas perguntas.

Reconstrução de Spinosaurus nadando no pôr do sol do Cretáceo (Ilustração: Igor Henrique Rodrigues Oliveira)

Igor Henrique Rodrigues Oliveira é graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba e mestrando em Manejo e Conservação de Ecossistemas Naturais e Agrários pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Florestal.

SARS-CoV-2, de onde você veio?

Ilustração da morfologia ultraestrutural dos coronavírus (Foto: CDC, Centers of Diseases Controls and Prevention)

Desde o início de 2020 uma palavra até então inédita no vocabulário de muitas pessoas passou a ser a mais frequente em nosso dia a dia: Coronavírus. Tudo começou em 08 de dezembro de 2019, quando um novo coronavírus foi detectado em pacientes com pneumonia na cidade de Wuhan, localizada na província de Hubei, China.  Naquele momento, a humanidade não só estava diante de um novo vírus, como também de uma nova doença respiratória: a COVID-19, cujo significado em português é Doença do Coronavírus de 2019.

O novo vírus foi nomeado como SARS-CoV-2, cujo significado em português seria Coronavírus 2 da Síndrome Respiratória Aguda Grave. Como o próprio nome já diz esse não é o primeiro coronavírus que causa doenças em seres humanos. Na verdade, existem outros seis coronavírus em humanos. Desses seis, quatro causam resfriados leves e apenas outros dois coronavírus causam doenças graves. O contato prévio com esses dois coronavírus são uma das justificativas de porque alguns países, como a China, Coréia do Sul e Taiwan, souberam controlar a disseminação do vírus em seus territórios de forma bem melhor que o Brasil.

Esses dois coronavírus são chamados SARS-CoV e MERS-Cov, e são os agentes etiológicos das enfermidades chamadas SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) e MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio). A semelhança desses coronavírus com o SARS-CoV-2 não para apenas no nome, suas enfermidades também são semelhantes à COVID-19. Tendo isso em mente, é natural pensar que eles são parentes próximos do SARS-CoV-2, não? Mas na realidade, não é bem assim…

Análises moleculares têm demonstrado que a similaridade genética entre esses coronavírus com o SARS-CoV-2 é bem baixa (79,6% para o SARS-CoV e 50% para o MERS-CoV). O coronavírus mais semelhante geneticamente ao SARS-CoV-2 foi encontrado em morcegos: o BATCoV RaTG13 (96,2% de similaridade). Desde 2013, já se sabe da existência de coronavírus em morcegos que são capazes de usar o ACE2, um receptor celular que o SARS-CoV usava para invadir células humanas. Esse conjunto de informações tem sido usado desde o início da pandemia como evidência de uma possível origem do SARS-CoV-2 a partir de morcegos.

Porém, ainda não é possível afirmar que o SARS-CoV-2 “saltou” dos morcegos para humanos. Apesar da alta similaridade entre o SARS-CoV-2 e o BATCoV RaTG13, essa semelhança genética ainda é menor do que a encontrada em humanos e chimpanzés, por exemplo. Além disso, outros coronavírus muito semelhantes ao SARS-CoV-2 foram encontrados em pangolins. Dessa forma, é bem provável a existência de um animal intermediário entre o morcego e os humanos na transmissão do SARS-CoV-2.

Essas questões só podem ser solucionadas com mais pesquisas sobre o tema. A pandemia em que vivemos ressalta a importância da ciência e da pesquisa básica, afinal, se um pesquisador dissesse que trabalha com vírus de morcegos muitos questionariam a importância de seu trabalho, mas a pesquisa básica pode ajudar no nosso entendimento e nos antecipar no enfrentamento de grandes problemas que o futuro nos reserva.

Igor Henrique Rodrigues Oliveira é graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba e mestrando em Manejo e Conservação de Ecossistemas Naturais e Agrários pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Florestal.

Aves frugívoras: Ecologia e conservação

Os serviços ecológicos, ecossistêmicos ou ambientais, são os papéis que cada espécie exerce no planeta. Estes serviços influenciam na vida e sobrevivência de todo ser vivo, inclusive na nossa. Ao admirar o fascinante tucano, com aquela beleza que mais parece uma pintura; ao ouvir a barulhenta vocalização das maritacas; ao contemplar a elegância do canto de um sanhaço ou de um sabiá, muitos nem imaginam o quão estamos ligados ecologicamente às aves.

Ave da família Psittacidae se alimentando de um fruto (PEREIRA, 2010)

As aves frugívoras, por exemplo, podem ser consideradas espécies dispersoras de sementes. Funciona assim, ao se alimentarem de alguns frutos as aves podem excretar ou regurgitar suas sementes, além de ocasionalmente carregarem alguns grãos em seu bico ou em suas garras, os eliminando durante o voo e o pouso. Em muitos casos, as sementes carregadas ao serem dispersas germinam no local depositado. Considerando que as aves, de forma geral, visitam muitos locais durante o dia, estes animais são muito importantes na dispersão de espécies, podendo transportar sementes a quilômetros de distância da planta mãe, fazendo assim que grupos vegetais prevaleçam e conquistem novos territórios. Devido a isso pode-se dizer que as aves auxiliam na restauração natural de áreas degradadas, sem que haja intervenção humana.

Em um estudo publicado na revista PeerJ em 2016, intitulado “Internal seed dispersal by parrots: na overview of a neglected mutualism”, foi observada a eliminação de sementes viáveis para germinação, em fezes de aves da família Psittacidae. Essa família trata-se do grupo ao qual pertencem aves como as maritacas, papagaios e araras, frugívoras que são tidas como predadoras e não dispersoras de sementes, uma vez que podem esmagar as sementes antes de engoli-las. Estes resultados ressaltam ainda mais a importância ecológica destas aves, visto que os predadores de sementes também tem importante papel na natureza, controlando a dispersão das plantas predadas e impedindo o aumento do número de plantas de determinada espécie, que poderia levar ao desequilíbrio ecológico.

É importante entender que, os benefícios que uma espécie proporciona a outra não são intencionais, mas sim consequências das interações entre elas. Fica evidente, portanto, a importância do entendimento destas interações, para melhor compreensão dos impactos causados por alterações ambientais ocasionadas pelo homem. A degradação de áreas naturais provoca a extinção de espécies como aves frugívoras de grande porte, as quais dispersam sementes grandes. Foi observado em um estudo nomeado “Functional Extinction of Birds Drives Rapid Evolutionary Changes in Seed Size”, publicado na revista Sciece em 2013, que as espécies de aves frugívoras que permanecem em áreas degradadas, são geralmente de pequeno porte, sendo assim, incapazes de dispersar sementes grandes. Ao longo dos anos, houve uma diminuição no diâmetro das sementes dessas plantas, visto que somente as sementes menores eram dispersas. Isso pode ser um problema para a vegetação, se considerado que as sementes menores por apresentar menor reserva energética e menor capacidade de resistir à seca, tem menor chance de sobrevivência. É Destacada a necessidade de se desenvolver consciência ambiental, para que possamos viver em harmonia com a natureza, a qual fazemos parte e cuja deterioração também nos afeta. Que a partir de agora, estas aves sejam vistas como realmente são, importantes atores ambientais e não apenas por sua beleza e canto.

Lays Martins Coelho é técnica em meio ambiente e cursa Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba.

Aquilo ali é um Bem-te-vi?

Provavelmente em algum momento de sua vida você já avistou um bem-te-vi em algum local, certo? Este bichinho carismático é facilmente reconhecido pelas cores e pelo seu canto. Você provavelmente já o observou ou ouviu, seja em uma viagem de acampamento, na praça de sua cidade ou mesmo no fio dos postes próximo a sua casa. Sua plumagem é característica: ventre amarelado, dorso castanho, garganta branca e cabeça preta com uma máscara branca.

Apesar de essas aves apresentarem muitas semelhanças elas também possuem particularidades que podem ser usadas para diferencia-las. Uma espécie que muitos acreditam ser “filhote de bem-te-vi”, devido ao seu tamanho e plumagem, é a Cambacica (Coereba flaveola). Apesar de possuir o padrão de cor parecido seu bico é bem mais fino e seus tarços menos compridos, além de possuir uma estatura menor.

O Neinei (Megarynchus pitangua), conhecido por bem-te-vi-bico-chato, é uma das espécies mais confundidas com o verdadeiro bem-te-vi. Sua principal diferença esta no tamanho do bico, que é bem mais robusto e mais achatado. Além disso, sua vocalização difere do conhecido “bem-te-viiii!” que ouvimos. Temos também o Suiriri (Tyrannus melancholicus), que embora tenha as mesmas cores que o bem-te-vi não apresenta as marcas brancas na face juntamente a cabeça preta.

Mas e quando as espécies são tão parecidas que não conseguimos identifica-las através da morfologia? É aqui que temos o conceito de Espécies crípticas!

Foto: Ilustração Tomas Sigrist/ Arte TG

Espécies crípticas são duas ou mais espécies que morfologicamente falando são, frequentemente, indistinguíveis. Porém, geneticamente possuem uma grande diferença, sendo assim consideradas espécies diferentes. Podem ser diferenciadas também, ecologicamente, através de alguns comportamentos distintos como, por exemplo, o padrão de canto ou do ninho.

O termo espécie críptica se aplica a unidades taxonômicas cujos componentes se confundem com outros de espécies distintas quando se utilizam caracteres “tradicionais”, geralmente morfológicos. Seu reconhecimento não é evidente e depende geralmente de comparações baseadas em biologia molecular.

Espécies crípticas tiveram sua origem de um ancestral comum e passaram por um processo de especiação relativamente recente, possuindo hábitos semelhantes e muitas das vezes compartilhando nichos, embora sejam isoladas reprodutivamente.

Graças a diversos estudos, hoje sabemos que essas espécies não são a mesma, e que podemos cada vez mais entender a particularidade de cada uma delas, que, apesar de serem semelhantes, possuem diferenças que as tornam únicas!

Guilherme Wince de Moura é Biólogo formado pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba.

Zoológicos: heróis ou vilões?

A história dos zoológicos se iniciou há milhares de anos. De acordo com estudos das civilizações antigas, o homem desde o início de sua adaptação ao ambiente urbano, mantém animais selvagens em cativeiro em benefício próprio, como proteção e alimentação. No século XV, as realezas europeias também iniciaram o aprisionamento de animais a fim de seu próprio entretenimento e demonstração de seu domínio sobre terras estrangeiras.

Com a Revolução Industrial, e a ascensão da burguesia, esses zoológicos sustentados pela realeza começaram a passar por diversas mudanças. Animais antes “propriedade” da realeza, foram transferidos para burgueses e emergentes e assim, em meados do século XIX, os zoológicos abertos à visitação pública através do pagamento de ingressos começaram a se popularizar. Com isso, zoológicos foram considerados por muitos anos meros entretenimentos, sem considerar o bem-estar animal.

Se a história dos zoológicos não é conhecida por priorizar o bem estar animal, pode se dizer que hoje isso é primordial para um zoológico funcionar, tanto pela ética quanto pela moral. A partir do século XX surgiu uma maior preocupação com a importância dos bichos e seu bem-estar físico e mental e com isso, a existência de animais selvagens em cativeiro só é possível para conservar as espécies, a biodiversidade e o patrimônio natural.

Para tal, a educação ambiental é extremamente importante, bem como o pensamento conservacionista e o fomento a ciência. Apesar do que ouvimos falar sobre a visitação aberta ao público, é necessário entender que ela é muito importante para a educação ambiental, pois somente assim, chegaremos ao respeito e consciência coletiva da importância da biodiversidade para o planeta. Além disso, em teoria, o valor arrecadado pelos ingressos é destinado para a sobrevivência do próprio zoológico.

Atualmente os animais encontrados em zoológicos, em sua grande maioria, são aqueles que não conseguem mais sobreviver na natureza, muitas vezes vítimas das próprias ações humanas. Há inúmeros papéis importantes que os zoológicos desempenham. No Brasil essas instituições trabalham efetivamente na reprodução de animais em cativeiros como, por exemplo, o mutum-de-alagoas que é uma espécie extinta na natureza, mas que apresenta sucesso de reprodução em cativeiro. Em casos como esse o zoológico age como um suporte a preservação desses organismos que futuramente, com auxilio de pesquisadores e demais órgão ambientais competentes poderão ser reintroduzidos na natureza.

Contudo, não podemos fechar os olhos para os diversos zoológicos que não visam à preservação, conservação e bem-estar dos animais. Um caso famoso desse tipo de instituição é o antigo zoológico de Luján, situado na Argentina. Considerado como um ponto turístico imperdível em Buenos Aires esse jardim zoológico foi fechado por apresentar praticar antiéticas como aplicação de sedativos nos animais para a aproximação do publico. É fato que ainda existem diversas falhas nos zoológicos atuais, mas precisamos enxergar um futuro para essas instituições tão importantes para a vida selvagem. A ideia é a priorização total do animal, depois o restante, como a educação ambiental. Para isso precisamos lembrar que de nada adianta demonizar toda uma ideia, onde diversas instituições e profissionais sérios trabalham incansavelmente em prol da biodiversidade se não cobrarmos e lutarmos para que a vida em todas as suas formas, em todos os ambientes e por todas as pessoas, começando por nós mesmos, seja respeitada. É preciso sempre confrontar e questionar, mas também entender e respeitar.

Gabriella Katlheen Leles é Bióloga formada pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba.

Árvores Filogenéticas: o que são e como interpretá-las?

Caso você queira seguir uma carreira dentro da grande área das Ciências biológicas é quase impossível que em algum momento você não se depare com o que nós chamamos de Árvore Filogenética. Mas afinal, o que é isso? Uma árvore filogenética é uma representação gráfica em forma de árvore que mostra as relações evolutivas entre indivíduos, linhagens, populações, espécies e etc. Para simplificar, essas representações se assemelham muito a uma que provavelmente todos conhecem muito bem: a Árvore Genealógica.

A árvore genealógica mostra as relações de parentesco entre diferentes pessoas de uma mesma família, partindo de um ancestral em comum (por exemplo: um bisavô), onde nas ramificações internas teríamos os descendentes intermediários (avôs, avós, pais e mães) e no final dos ramos os últimos descendentes (irmãos e primos). Neste caso, os ramos que originam os irmãos partem de uma mesma ramificação (que representa sua mãe ou pai) e que não inclui seus primos. A árvore filogenética pode ser considerada uma extrapolação da árvore genealógica de algumas décadas ou séculos para centenas de milhares ou milhões de anos. A árvore filogenética segue dois preceitos importantes da evolução darwiniana. O primeiro preceito é a ancestralidade em comum, neste caso a origem da árvore representaria o ancestral comum do grupo e, portanto, de todas as espécies (como o “bisavô” das espécies). Já as ramificações internas representam os ancestrais intermediários entre algumas espécies, mas não todas (seriam como os pais, mães, avôs e avós), e os ramos terminais as espécies atuais. O segundo preceito é a Cladogênese, onde uma espécie ancestral origina duas ou mais espécies descendentes, processo que chamamos de especiação.

A maioria das pessoas tem dificuldade de compreender a ancestralidade em comum de todas as espécies ou como a cladogênese funciona, mas para simplificar vamos novamente recorrer ao exemplo da árvore genealógica. Imagine que estamos acompanhando uma mesma família brasileira bem numerosa por alguns séculos que se originou a partir de uma decavó que existiu no ano 1700 no sul do país (esse seria o primeiro preceito, a ancestralidade em comum). Agora, se nós pegarmos primos distantes descendentes dessa ancestral (10º grau ou mais) eles seriam tão diferentes que nem os reconheceríamos como membros da mesma família.

As diferenças seriam ainda mais drásticas se estivessem em diferentes estados e regiões. Imagine que um dos ancestrais intermediários dessa família decidiu mudar para um estado no norte do país e construir sua família lá, seus descendentes ao se casarem e gerarem filhos(as) com as pessoas do novo estado teriam cultura, hábitos, sotaque e até mesmo aparência bem diferentes dos parentes do sul (esse seria o segundo preceito, a cladogênese). Se você entendeu imagine todo esse processo em milhões de anos e compreenderá como espécies muito diferentes se originaram de ancestrais comuns a partir de vários eventos de cladogênese.

Igor Henrique Rodrigues Oliveira é formado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba e mestrando no programa de pós-graduação de Manejo e Conservação de Ecossistemas Naturais e Agrários da Universidade Federal de Viçosa – Campus Florestal

Os impactos do Aquecimento Global nos seres vivos

Quando se fala sobre Aquecimento Global, muitos se perguntam imediatamente: “Existe isso mesmo?”. Bem, há evidências abióticas que sustentam tanto a existência quanto a inexistência do mesmo. Ocorre uma certa discussão no meio acadêmico sobre isso, porém já é praticamente consensual que estamos em um período de aquecimento, e isso é baseado em fatos.

Primeiro, há grande emissão de carbono para a atmosfera, devido a diversos fatores (estocado em diferentes formas como petróleo e carvão natural, o que ao longo de eras está sendo retirado das fontes e liberado no ar). Segundo, carbono absorve e conduz calor, assim, simplesmente não tem como despejá-lo na atmosfera e esperar que ela aqueça e, consequente, esquente tudo que entra em contato. O efeito estufa natural, responsável por reter parte da radiação solar no planeta e assim “criar o calor” responsável por sustentar a vida, está então inegavelmente sendo agravado. Esse aumento nas concentrações atmosféricas de gases com o efeito estufa, fez com que as temperaturas médias globais subissem cerca de 0,2°C por década nos últimos 30 anos. Pode não parecer muita coisa para nós que temos tecnologia e alta capacidade de aclimatação, mas, para outros organismos, a menor variação na temperatura pode ser fatal. Em tartarugas marinhas, por exemplo, 1ºC a mais pode fazer com que nasçam apenas fêmeas e isso vai impactar diretamente a estrutura da população, uma vez que vai desbalancear a proporção de machos e fêmeas refletindo na capacidade de reprodução da espécie. A temperatura tem um efeito muito importante nos processos biológicos por causa de sua influência na atividade de enzimas, reações químicas, transportes e fluidez em membranas. Qualquer variação que interfira na homeostase (equilíbrio natural para o bom funcionamento do organismo) de um animal requer gasto de energia para voltar ao equilíbrio, um aumento na temperatura implica em aumento das taxas metabólicas.

As altas concentrações de CO2 na atmosfera são, em parte, absorvidas pelos oceanos, o que deixa a água mais ácida e acrescenta mais uma limitação para os organismos enfrentarem para a sobrevivência no meio. Essa nova acidez afeta corais e fitoplânctons, que são os maiores produtores de energia (derivados dos processos de fotossíntese). Essa produção primária está diminuindo cerca de 6% nas últimas décadas e, como dito anteriormente, causa um impacto direto na biosfera marinha, exatamente em sua base, o que causa um efeito cascata na cadeia alimentar. Além disso, as espécies marinhas não só têm que se aclimatarem à variação de temperatura, mas também à alteração do pH da água, tudo isso em um espaço de tempo muito curto.

Um outro ponto que também pode ser levantado e é sustentado pelo artigo da Science de 2010 denominado The Impact of Climate Change on the World’s Marine Ecosystems, é a crescente redução na complexidade dos hábitats marinhos. Espécies de corais, capim-do-mar, manguezais e gramíneas marinhas, formam um hábitat base ao longo dos anos, o qual abriga milhares de espécies. Isso se deve principalmente ao fato de possuírem uma alta taxa de produtividade primária e, assim, se tornam hostpots de biodiversidade. Com esses organismos sendo afetados e sumindo, novamente temos toda uma cascata de problemas.

De acordo com estudos recentes baseados em dados antigos, algumas espécies já estão respondendo à atmosfera alterada e ao clima do século XX (final da revolução industrial), com impacto na fisiologia e distribuição das mesmas. Sob efeito ou não do agravamento do efeito estufa, espécies vêm desaparecendo ao longo das décadas, o que causa consequentemente uma diminuição na biodiversidade.

Um excelente exemplo de como a espécie humana, apesar de “fingir que não sabe”, depende do bom funcionamento dos ecossistemas, é a crise com o desaparecimento das abelhas na América do Norte. Esse desaparecimento diminui as taxas de polinização e consequentemente afeta a diversidade e a reprodução das plantas, bem como a produção de seus frutos. Com o ambiente marinho discutido neste texto não é diferente, dependemos diretamente dos ciclos e cadeias tróficas do hábitat marinho e este está se deteriorando.

Matheus Lewi C. B. de Campos é graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba e mestre em Zoologia Animal pela Universidade Federal de Belo Horizonte – UFMG.

Monotrematas: animais chocantes

Ilustração naturalista de ornitorrincos, representantes dos monotrematas. Duck Billed Platypus Schnabeltier (Heinrich Harder, 1916).

Os animais conhecidos como monotremados, fazem parte da subclasse Prototheria, que possui apenas três espécies viventes: duas representadas pelos ornitorrincos e uma espécie de équidna, com ocorrência na Oceania. São animais com características consideradas ancestrais, compartilhadas com répteis e mamíferos da subclasse Theria. Os monotremados põem ovos e possuem um tipo de cloaca, ou seja, uma abertura na qual desembocam os sistemas digestório, excretor e reprodutor, assim como os répteis. Em comum aos mamíferos, possuem pelos, glândulas mamárias e são endotérmicos (produzem seu próprio calor para se aquecerem através do seu metabolismo).

Os ornitorrincos chamam muita atenção pela sua aparência peculiar, pois possuem pelos e um bico coriáceo que lembra o dos patos. Suas patas e rabo são achatados e auxiliam na natação. Já as équidnas possuem espinhos nas costas para defesa, patas com garras para cavar e um bico comprido para obtenção de alimentos.

Os monotrematas, animais tão particulares, eram os únicos mamíferos conhecidos com a capacidade de perceber impulsos elétricos no ambiente, ou seja, possuem capacidade eletrorreceptora. Atualmente, porém, foi descoberto que um golfinho da Guiana também possui essa capacidade. As estruturas responsáveis pela eletrorrecepção nesses animais são glândulas mucosas especializadas, com grande inervação e uma porção que se expande acima da pele. Para percepção elétrica, os ornitorrincos possuem cerca de 40.000 glândulas mucosas altamente inervadas na porção superior e inferior do seu bico. Nas equidnas há apenas cerca de 100 dessas glândulas na ponta de seu bico.

Esses sensores foram primeiramente descobertos nos ornitorrincos, pois se procurava entender como esses animais capturam as presas. Ornitorrincos possuem um hábito aquático e quando entram na água para forrageio, seus olhos, ouvidos e narinas ficam protegidos por uma estrutura membranosa que os deixam cegos e surdos bem debaixo d’água. É a percepção elétrica que permite que eles detectem suas presas, com bastante precisão, através do campo elétrico que elas produzem com suas contrações musculares enquanto se deslocam pela água.

Após a descoberta do eletrorreceptor dos ornitorrincos, os cientistas se perguntaram se todos os representantes dos monotremados possuíam essa capacidade ou se era exclusivo dos ornitorrincos, já que era mais fácil imaginar o sentido de um eletrorreceptor em um animal aquático do que em um animal terrestre como as équidnas. Depois disso, foi descoberto que cerca de ¼ das glândulas mucosas do bico das equidnas possuem inervações sensoriais, mas ainda não se sabe o papel deste sensor em suas atividades de forrageio. É interessante destacar que as équidnas têm uma habilidade incomum para detectar presas, quando o solo está úmido e logo após uma chuva, elas se tornam mais ativas que o comum.

Assim, percebe-se a importância de mais estudos sobre esses animais tão diferentes, principalmente das équidnas, pois ainda não se sabe ao certo se é uma estrutura vestigial ou se possui, de fato, alguma função e vantagem em seu comportamento de captura de presas.

Gabriella Katlheen Leles é Bióloga formada pela Universidade Federal de Viçosa.

Fonte: Electroreception in the Guiana dolphin (Sotalia guianensis). Proc. R. Soc. B (2012) 279,
663–668. (doi:10.1098/ rspb.2011.1127)


Sensory receptors in monotremes. Phil. Trans. R. Soc. Lond. B (1998) 353, 1187–1198.(doi:10.1098/ rstb.1998.0275)

É PANC!

Provavelmente você já ouviu essa palavra, “Punk”, como referência àqueles que provocam a ordem social vigente. Por aqui, o acrônimo PANC, criado pelo Biólogo Valdely Ferreira Kinupp, quer dizer “plantas alimentícias não convencionais”. Mas o que são essas plantas alimentícias não convencionais mesmo? Nunca ouvi falar! Então, são plantas nativas ou mesmo exóticas que podem ser comestíveis e consumíveis, e que não são comuns no dia a dia da grande maioria da população de uma região ou de um país.

No Brasil, existe uma grande diversidade de alimentos convencionais e não convencionais, que tornam nossa culinária a soma e o resultado de diversas culturas étnicas. Isso estabeleceu uma rica troca de alimentos, especiarias, condimentos e hábitos alimentares, que muitas vezes se relacionam com a identidade de um lugar ou de uma região. Também revela tradições e potenciais de uma área, considerando que o uso de algumas dessas plantas não convencionais possui fins artesanais (decorativo) e medicinais (chás).

Algumas plantas não convencionais muitas vezes passam despercebidas por nossos olhos, como é o caso da PANC Turnera subulata sm. Nativa da América Tropical, ela se faz presente em praticamente todo o território brasileiro e é popularmente conhecida como Chanana. Talvez você já tenha visto uma de manhã em sua rua. Geralmente elas são encontradas entre passeios nas cidades ou brotam de forma arbustiva, desde que encontre condições favoráveis para crescer. Essa espécie possui algumas características como o tamanho médio de 50 cm de altura, caule pouco ramificado e folhas simples. Suas flores são solitárias, de cor verde amarelada e têm um sabor adocicado, podendo ser consumidas. Suas folhas podem ser submetidas à infusão para preparação de chás (secas ou moídas). Uma curiosidade sobre suas flores é que elas se abrem pela manhã e se fecham logo após o meio-dia.

Flor de Chanana (Foto: Acervo. PEDROSA, Celso)

Cada planta alimentícia não convencional apresenta um modo de consumo diferente. Algumas PANCs precisam ser cozidas ou refogadas antes serem ingeridas. O cozimento deve-se ao fato de que muitas plantas carregam substâncias tóxicas, que podem causar problemas à saúde sem o preparo adequado. Existe um incentivo ao consumo destas plantas alimentícias não convencionais, pois elas podem ser importantes para a diversidade alimentícia da população, contribuindo para uma dieta mais rica. Só não vale consumir plantas que você não conhece e que não tenham o devido conhecimento científico a respeito de sua espécie, identificação ou de sua procedência, pois elas podem ser tóxicas!

Celso dos Santos Pedrosa é graduado em Pedagogia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) com Especialização em Desenvolvimento, Etnicidade e Políticas Públicas na Amazônia pelo Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM).

Fonte: CORDEIRO, Sandra Zorat. Turnera subulata Sm. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO. Acesso em 28 de Julho de 2020. (Mídia Digital). Disponível em: http://www. unirio.br/ccbs/ibio/herbariohuni/turnera-subulata-sm

KINUPP, Valdely Ferreira, LORENZI, Harri. Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas. São Paulo Instituto Plantarum de Estudos da Flora, 2014.

Vaga-lumes fantásticos e onde habitam

Você se lembra de quando ficávamos encantados ao ver vaga-lumes durante a noite e como nossos olhos curiosos vidravam em suas atraentes luzes, até os perder de vista? Esse show de luzes ao cair da noite fez parte da infância de muitos de nós e serviu de base para diversas histórias e outras produções culturais no Brasil e no mundo. Por que será que isso é menos comum atualmente?

Os vaga-lumes fazem parte do mais diverso grupo de insetos do planeta, os besouros, pertencentes à ordem Coleóptera. São representantes das famílias Lampyridae, Phengodidae e Elateridae, com mais de 2.000 espécies descritas e distribuídas por todo o globo. São predominantes na América do Sul e Ásia, sendo encontrados geralmente em habitats ecologicamente mais diversos, que vão desde manguezais até mesmo campos agrícolas.

A característica mais marcante dos vaga-lumes, sua bioluminescência, se dá pela reação química de uma enzima conhecida como Luciferase, responsável pela emissão da luz visível que prende nossa atenção durante o voo desses animais. Essa luz é importante no ciclo reprodutivo desses insetos, atuando na comunicação intraespecífica, ou seja, comunicação entre os organismos de uma mesma espécie, e na atração de parceiros para reprodução. Além disso, ela tem um papel fundamental na atração de presas para a alimentação, na camuflagem e na proteção dos indivíduos.

Pesquisas recentes mostram que esses organismos estão desaparecendo e apontam que a perda de habitat tem sido a principal ameaça para a conservação dos vaga-lumes. A expansão das áreas urbanas tem um efeito negativo nesses insetos, por causa da iluminação noturna artificial à qual eles são sensíveis. Como ela afeta diretamente a produção de luz desses organismos, a iluminação noturna artificial também influência no seu comportamento e impacta negativamente seu ciclo reprodutivo.

Além disso, o avanço do agronegócio e o uso intensivo de agrotóxicos são outros fatores que colocam em risco as áreas naturais e consequentemente a sobrevivência dos vaga-lumes. Os pesticidas, por exemplo, utilizados no controle químico contra pragas em diferentes plantações, resultam no acúmulo de resíduos tóxicos em diferentes ambientes, entrando em contato direto com esses organismos. As altas concentrações na água prejudicam o estágio larval de algumas espécies, já no solo, afetam os ovos ali depositados e o desenvolvimento das pupas. A exposição dos adultos ocorre através de seu contato com a superfície contaminada da folhagem, ao pousarem para se reproduzir ou repousar.

Diversas espécies de fauna e flora encontram-se na mesma situação dos vaga-lumes, com populações em declínio e em risco de extinção devido à falta de atenção e cuidados com o meio ambiente. Um grupo tão diverso e encantador como esse estão diminuindo, devido às mudanças ambientais causadas pelo avanço antrópico.

O Brasil é o país que abriga a maior biodiversidade do mundo e situações como essas trazem à tona a necessidade de se abordar temas de conservação ambiental de forma cotidiana. Esses debates devem ser levados às escolas e à comunidade, trazendo a importância de se preservar o meio ambiente como uma parte fundamental da manutenção da vida humana.

Lorenne Kellen Leite de Abreu Almeida é graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba.

Maria Júlia Maciel Corrêa é bióloga pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e mestranda em Entomologia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) – Campus Viçosa.