Serpentes brasileiras de importância médica: Como identificá-las?

As Serpentes são répteis, da Ordem Squamata, que estão no planeta há muito tempo. Estima-se que o fóssil da serpente mais antiga tenha 90 milhões de anos, pertencendo ao período Cretáceo. As Serpentes são organismo muito conhecidos e temidos. O que muita gente não sabe, é que das 405 espécies de serpentes brasileiras apenas cerca de 15% delas possuem venenos letais ao ser humano. São essas, as chamadas “serpentes de importância médica” e, no Brasil, elas pertencem a basicamente duas famílias: Viperidae e Elapidae.

A família dos Viperídeos abrange a maioria das serpentes de importância médica do país e é composta por três gêneros: Bothrops, Crotalus e Lachesis. O Bothrops, representado pelas Jararacas, é o grupo de serpentes que mais causa acidentes com seres humanos, sendo responsáveis por cerca de 86,2 % deles. Já o Crotalus, representado pelas famosas Cascavéis, é responsável por 9,2% dos acidentes. Por fim, o Lachesis, onde estão inseridas as Surucucus, é responsável por 3,7% dos acidentes ofídicos. Para identificarmos um Viperídeo devemos verificar a presença da “fosseta loreal”, que é um pequeno orifício localizado entre o olho e a narina, que funciona como um termorreceptor permitindo que elas tenham uma “visão térmica”, facilitando assim a identificação de uma presa ou de um predador. Portanto, diante dos nossos olhos, essa é a característica mais marcante desse grupo de serpentes, e é uma característica exclusiva da família Viperidae.

Já a família dos Elapídeos, representada pelas corais-verdadeiras (com veneno), é responsável por apenas 0,86% dos acidentes e os principais casos são com crianças e pessoas embriagadas. Existem as corais-falsas (sem veneno). Mas, para diferenciar uma da outra, é necessário analisar o tipo de dentição do animal, e isso deve ser feito por um especialista. Portanto, se encontrar uma serpente com anéis de cores vermelhas, pretas, brancas ou amarelas, considere-a como potencialmente perigosa.

Caso ocorra um acidente, é importante procurar manter a calma, lavar o local da picada com água e sabão, manter o corpo hidratado e, se puder, mantenha o local acidentado elevado para evitar ou diminuir o inchaço. Em hipótese alguma amarre o local da picada, pois isso pode agravar a situação. Vá imediatamente ao hospital mais próximo para tomar o soro antiofídico. Vale lembrar que o soro é o único tratamento eficiente para picadas de cobras.

Mas como prevenir os acidentes? Ao andar nas matas, usem vestimentas adequadas, calçados , botas, perneiras e ande sempre prestando atenção no ambiente ao redor. Caso encontre uma serpente, procure não manuseá-la, deixando-a seguir o seu caminho. Sendo em área urbana, deve-se ligar para o corpo de bombeiros que deverá remover a serpente do local com segurança.

O desmatamento das florestas é um dos principais fatores que causa acidentes com “serpentes de importância médica”. Quando se destrói o habitat natural das serpentes, elas se aproximam de áreas urbanas, e, principalmente das propriedades rurais. Atualmente as taxas de desmatamento estão elevadas, e isso gera um risco potencial capaz de agravar os casos de acidentes ofídicos no país. Portanto, é preciso ter em mente a importância da preservação e a defenda o “habitat” dessas serpentes, assim como de todos outros organismos vivos existente no Planeta terra.

Créditos da imagem: Marcus Buononato

Beatriz de Faria Alonso é graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba.


Lucas de Oliveira Ribeiro é graduando em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba.

Cromossomo Y, como ele surgiu?

Provavelmente você já estudou ou ouviu falar sobre cromossomos¹ sexuais e sabe que eles são os responsáveis por determinar o sexo de um indivíduo. Os seres humanos e mamíferos em geral apresentam o que chamamos de sistema sexual XX/XY, onde a fêmea possui as duas cópias do cromossomo X, sendo classificada como homogamética (em grego, homo=igual) e o macho possui uma cópia do X e outra do Y, sendo assim heterogamético (em grego, hetero=diferente).

Mas o que diferencia o Y do X? Como o Y é responsável por determinar o sexo masculino?

Em relação as suas diferenças é possível identificar que o cromossomo Y possui um gene² exclusivo chamado SRY, situado em uma região responsável pelas características masculinas e diferenciação do sexo. Porém, o Y também possui uma região chamada Região Pseudoautossomal, e esta se encontra em homologia³ com o X, o que nos indica que o Y provavelmente surgiu do cromossomo X.

Então como surgiu o Y? E por que o X não possui o gene SRY?

Sabemos que há milhões de anos atrás não existiam cromossomos sexuais em mamíferos e esse grupo apresentava somente cromossomos autossomos⁴. Um desses pares homólogos de cromossomos autossomos apresentava um gene chamado S0X3 e em determinado momento na história evolutiva houve um evento de quebra sobre esse par. Em função disso o gene S0X3 se fusionou com outro gene que era responsável pela expressão bipotencial das gônadas⁵, surgindo assim o gene SRY com sua nova função de determinação dos testículos.

Anos mais tarde, o cromossomo Y acabou sofrendo inversões, processo em que parte do cromossomo se separa e se reorganiza de forma invertida, o que fez com que ele parasse
de se recombinar com o X e, assim, evoluísse de forma independente. Porém uma pequena parcela desse cromossomo Y ainda se recombinava com o X, surgindo então à região pseudoautossomal. Devido a essa evolução independente, o cromossomo Y acabou sofrendo outros eventos, como a perda de seu material genético, ficando assim menor que o X, característica pela qual o reconhecemos hoje. Essa perda do seu material genético fez com que ele se especializasse somente na determinação do sexo.

Inicialmente uma primeira teoria fez-se acreditar que esse evento do surgimento do Y aconteceu somente uma vez na história evolutiva dos mamíferos. Mas, estudos recentes mostram que o cromossomo sexual Y surgiu de forma independente na subclasse Theria (mamíferos placentários e marsupiais) e em Prototheria (mamíferos que colocam ovos, como os ornitorrincos, por exemplo). Ou seja, o Y apareceu duas vezes de forma independente na história evolutiva dos mamíferos. Isso foi descoberto graças às pesquisas que perceberam que os Prototheria possuem um gene AMH para a determinação sexual ao invés do gene SRY presentes no grupo dos marsupiais e placentários.

Em resumo, acredita-se que o cromossomo Y tenha surgido há 180 milhões de anos atrás em Theria com seu gene SRY e há 170 milhões de anos atrás em Prototheria, com seu gene AMH, e desde então prevaleceu no reino animal.

Glossário:
Cromossomo¹: Estrutura altamente organizada de uma célula, que contém o material genético de um organismo;
Gene²: uma sequência específica do DNA que contém as instruções necessárias para a síntese de uma proteína ou molécula de RNA.
Homologia³: estruturas biológicas que podem apresentam diferentes funções, porém possuem origem embrionária semelhantes. ex: Nadadeiras anteriores de baleias e braços de seres humanos são estruturas homólogas;
Cromossomos autossomos⁴: Cromossomo que não estão ligados ao sexo e fazem parte do patrimônio genético da espécie, junto com os cromossomas sexuais. ex: O ser humano possui 44 autossomos que formam 22 pares de cromossomas e mais um par de cromossomos sexuais.
Gônodas⁵: designação genérica das glândulas sexuais (ovário e testículo) que produzem os gametas (óvulos e espermatozoides).

Graves, Jennifer AM. “Did sex chromosome turnover promote divergence of the major mammal groups? De novo sex chromosomes and drastic rearrangements may have posed reproductive barriers between monotremes, marsupials and placental mammals.” Bioessays 38.8 (2016): 734-743.

Priscila Martins de Assis é graduanda em Ciências biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba.

Por que o azul é a cor mais rara da natureza?

Você já viu felinos azuis? Ratos azuis? Cachorros azuis? Quando penso em animais azuis consigo me lembrar de pouquíssimos animais que apresentam essa coloração. Até a chamada baleia azul não é realmente azul, né?

Animais no geral não produzem seus pigmentos do nada, eles são produzidos através dos alimentos que são consumidos. Os flamingos são um exemplo disso, pois a coloração rosa que apresentam é devido às concentrações de carotenoides encontrados nos crustáceos que eles ingerem. Então basicamente, você é o que você come, exceto quando se trata do azul. O fato é que embora essa cor seja uma das cores primárias, ela é a cor mais rara de se encontrar na natureza e quando encontrada, ela se destaca no meio de todas as outras.

Sobre esse tema vamos analisar as borboletas que, no geral, apresentam os padrões mais diversos que podem ser encontrados na natureza, como asas de todas as formas e cores. A razão pela qual essas estruturas são tão diferenciadas é justamente para mandar algumas mensagens para outros animais como “eu sou tóxica”. De acordo com o Doutor Bob Robins, curador de Lepidópteros no Museu Nacional de História Natural da Universidade de Washington D. C., as borboletas são seres incríveis cuja evolução permitiu que fossem ativos durante o dia possibilitando a grande vantagem da comunicação através da luz. Acontece que, podemos perceber nas asas das borboletas estruturas minúsculas que refletem a luz. Essas estruturas são escamas e podem apresentar diversas cores provenientes de pigmentos orgânicos que absorvem todas as cores, exceto aquelas que conseguimos ver.

Já o azul encontrado em suas asas é resultado da reflexão da luz em minúsculas estruturas contidas nas escamas, muito parecido com uma sala de espelhos, onde todas as cores ficam presas exceto a luz azul com seu comprimento de onda menor. Por isso geralmente a cor muda de acordo com a posição que estamos observando o animal. Nos pássaros azuis, a coloração também é resultado de como a luz branca é filtrada por minúsculas estruturas. Assim como os olhos azuis em humanos também são coloridos por estruturas e não pigmentos. O fato é que não existe nenhum animal que produza pigmento azul, exceto por uma borboleta específica, a Nessaea obrinus.

Se pararmos para analisar nem mesmo o céu é azul, ele também é resultado da luz que bate nas moléculas de oxigênio e nitrogênio da atmosfera onde apenas a luz com menor comprimento atravessa. O mar também é azul devido à absorção de todos os outros comprimentos de onda exceto a luz azul.

Mas porque essa cor é proveniente de estruturas da engenharia da natureza, e não de pigmentos? A teoria mais aceita é que há um grande tempo evolutivo atrás, pássaros e borboletas desenvolveram a habilidade de enxergar a luz azul, mas não havia uma maneira de fabricar a coloração em seus corpos. Contudo, se houvesse a coloração azul em seus corpos, seria uma tremenda vantagem de comunicação e sobrevivência. Para criar novos pigmentos azuis, seria necessária uma química totalmente diferente da existente naturalmente, então, como a evolução sempre pega o atalho, foi muito mais fácil modificar
algumas estruturas corporais para que a luz azul refletisse em seus corpos. Esses dilemas das cores, fascinam os seres humanos há muitos séculos.

Isaac Newton, um dos cientistas mais importantes do mundo, conhecido principalmente pelas leis de Newton no âmbito da mecânica, publicou um manuscrito em 1666 chamado Of Colours (Sobre as Cores, em português) onde apresentava ideias sobre a luz e cores dos corpos. Nesse mesmo trabalho, ele percebeu que havia algo diferente sobre a cor azul.
Cientistas estudam sobre isso desde então, sempre fascinados pela beleza do azul na natureza, que não é tão azul assim.

Créditos da imagem: Nessaea Obrinus, Pamsai //flickr.com/photos/39386629@N06

Gabriella Katlheen Leles é Bióloga formada pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba.