Fissura labiopalatina: O que é? O que causa? Como tratar? Como prevenir?

A fissura labiopalatina é uma malformação craniofacial (que envolve a região do crânio e da face) mais frequente na espécie humana. É vista como uma abertura na região do lábio e pode também envolver o osso onde os dentes estão sustentados na cavidade bucal (rebordo alveolar) e/ou céu da boca (palato). No Brasil estima-se que, de cada 650 bebês nascidos vivos, ao menos um deles venha ao mundo com fissura labiopalatina.

As fissuras podem ser formadas em um dos lados do rosto apenas (unilaterais), ou dos dois lados direito e esquerdo (bilaterais), e apresentam diferentes formas desde uma simples cicatriz no lábio ou até a “campainha” dividida (úvula bífida), até formas mais graves com envolvimento do lábio, osso dos dentes e céu da boca no mesmo indivíduo.

Face de criança com fissura labiopalatina, evidenciando a abertura no lábio. Fonte: Silva, T.R. 2011

A formação das fissuras labiopalatinas ocorre durante a gravidez, entre a 4ª. e 12ª. semana depois que a futura mãe iniciou a gestação, devido ao não fechamento do lábio, do osso que acomoda os dentes e/ou céu da boca.

As causas das fissuras estão em grande parte relacionadas com a genética em interação com fatores ambientais, com destaques para tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, falta de vitaminas e medicamentos utilizados no tratamento da epilepsia (fenitoínas).

O tratamento do indivíduo com fissura labiopalatina é longo e altamente especializado, já que a fissura, além de comprometer a parte estética, prejudica também o funcionamento de algumas estruturas funcionais, acarretando em inúmeros casos alterações na fala que na maioria das vezes torna a voz do indivíduo “fanhosa” (hipernasalidade). Ocorre também a saída de alimentos e líquidos pelo nariz dos pacientes com o céu da boca aberto, além de infecções causadas por bactérias na região do ouvido (otites), principalmente.

No município de Bauru, região central do estado de São Paulo, está localizado o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP), onde é oferecido tratamento gratuito, de qualidade e altamente especializado para este grupo de indivíduos, nas mais diversas áreas da saúde: medicina, odontologia, enfermagem, fonoaudiologia, fisioterapia, genética, serviço social entre outros, com o objetivo de reabilitar o paciente como um todo de maneira humanizada.

O tratamento com cirurgias para estes indivíduos tem início aos 3 meses de idade com a realização da cirurgia para a correção do lábio (queiloplastia). Após os 12 meses de idade é realizada a cirurgia de fechamento do céu da boca (palatoplastia), e entre 9 e 12 anos é reabilitado por meio de cirurgia o osso que falta onde ficam os dentes na área da fissura (enxerto alveolar secundário). De acordo com a necessidade de cada indivíduo outras cirurgias são realizadas.

Durante todas estas etapas cirúrgicas os indivíduos com fissura são acompanhados nas demais especialidades de saúde; por exemplo, grande parte deles recebe o tratamento com aparelho para correção da posição dos dentes (ortodontia).

Como o ser humano ainda não é capaz de alterar os genes responsáveis pela formação da fissura labiopalatina, a conduta atual para prevenir a ocorrência desta anomalia consiste em orientar os futuros pais sobre a importância do planejamento da gravidez, com a realização das consultas de pré-natal, uso de vitaminas e do ácido fólico, além da não ingestão de bebidas alcoólicas, bem como extinção do hábito de tabagismo ativo e passivo ao evitar ficar próximo de alguém que esteja fumando.

Marcos Roberto Tovani Palone é Cirurgião-dentista, especialista em odontopediatria, Mestrando em Ciências da Reabilitação no HRAC/USP, atua na área de fissuras orofaciais e anomalias relacionadas.

Thaieny Ribeiro da Silva é Cirurgiã-dentista, especialista em odontopediatria, Mestre em Ciências da Reabilitação, Doutoranda em Ciências da Reabilitação no HRAC/USP, atua na área de fissuras orofaciais e anomalias relacionadas.

Gisele da Silva Dalben é Cirurgiã-dentista no HRAC/ USP, especialista em odontopediatria, Mestre em Ciências da Reabilitação, Doutora em Patologia Bucal, atua na área de fissuras orofaciais e anomalias relacionadas.

Um peixe bem mineiro

Uma das tarefas iniciais mais difíceis quando se é pai (ou mãe) é dar o nome ao filho. Imagino que dar um nome a uma espécie seja uma tarefa no mínimo tão complicada quanto. No entanto, diferentemente dos nomes dos bebês, os nomes de espécies na maioria das vezes são reflexos de suas características morfológicas distinguíveis. Outras vezes são homenagens a outros pesquisadores e até a astros do rock.

Foi publicado no último número da revista Neotropical Ichthyology um artigo descrevendo uma nova espécie de peixes do gênero Hyphessobrycon com nome bastante interessante. A revista Neotropical Ichthyology é uma publicação da Sociedade Brasileira de Ictiologia e é responsável por publicar a descrição de inúmeras espécies novas de peixes todos os meses.

Exemplar de Hyphessobrycon uaiso

Hyphessobrycon uaiso (Uai, sô!). Será que eu preciso dizer que este nome sugere que o espécime tipo (o representante principal da espécie, depositado em um museu) foi coletado em Minas Gerais? Para ser mais exato, a localidade tipo da nova espécie é próximo à cidade mineira de Uberaba, com distribuição na drenagem do rio Grande, um dos formadores e principais afluentes do rio Paraná. É bem verdade que o rio Grande drena uma boa parte do Estado de São Paulo também mas, e daí?

O gênero Hyphessobrycon pertence à família Characidae, da ordem dos Characiformes. Esta ordem é uma das principais dentre os peixes da região Neotropical (Sul da América do Norte até a América do Sul), tendo como principal característica o corpo coberto de escamas lembrando muito as carpas e tilápias que são de outras ordens. Entre os representantes mais conhecidos estão o dourado, a corimba, a traíra, o piau, e os ornamentais Mato-grosso (um Hyphessobrycon) e o tetra neon. Existem mais de 130 espécies de Hyphessobrycon descritas atualmente. São pequenos peixes habitantes de pequenos riachos.

Enfim, um bom exemplo do bom humor dos cientistas, que nem sempre são aqueles seres de jaleco e expressão sisuda.

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e doutor em Genética e Evolução. Atualmente é professor da Universidade Federal de Viçosa, Campus de Rio Paranaíba e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.

Cheiro de quê?

Segundo um trabalho publicado em março desse ano na revista Science, pesquisadores estimam que o nariz humano consegue detectar, através de seus 400 receptores olfativos, mais de 1 trilhão de cheiros ou aromas! Para se ter uma idéia de quão grande é esse número, podemos comparar com o número de estímulos que outros sentidos humanos conseguem distinguir: nosso olho usa três receptores de luz que trabalham juntos para ver até 10 milhões de cores, enquanto que o ouvido pode ouvir “apenas” meio milhão de tons.

Nós somos adaptados para sentir cheiros, e reagir de acordo, assim como outros animais. Existem vários cheiros característicos que você conhece, e que podem ter um significado adaptativo.

Por exemplo, sabe quando começa a chover, e logo você sente aquele cheiro bem agradável de terra molhada? Esse cheiro é chamado Petricor, e acontece devido a uma combinação de duas substâncias: a primeira, um óleo que é liberado por algumas plantas no período de seca e que é absorvido pela terra e pedras argilosas. Esse óleo retarda a germinação de sementes e desenvolvimento inicial da planta.

A segunda é a geosmina, uma molécula que é produzida principalmente por algumas bactérias do grupo Actinobacteria. É possível que sua função seja controle de inimigos, então é liberada no solo antes da chuva para se espalhar melhor pelo ambiente. O olfato humano pode detectar concentrações extremamente baixas de geosmina, a partir de 5 partes por trilhão! Uma hipótese para explicar essa sensibilidade, é que nossos ancestrais usaram esse odor para identificar fontes de água.

É interessante que certos peixes que se alimentam de detritos e sedimentos do fundo dos rios, como por exemplo a carpa e a curimba (papa-terra), podem acumular geosmina em seus tecidos, deixando sua carne com um gosto característico de terra ou barro.

Ok, mas você já ouviu alguém dizer que sentiu o cheiro de chuva antes dela cair?

As descargas elétricas, como os raios, comuns antes das chuvas de verão, dividem as moléculas de nitrogênio (N2) e oxigênio (O2) atmosférico em átomos isolados, levando alguns desses átomos a formar o óxido nítrico (NO), que por sua fez reage com outros componentes da atmosfera, produzindo uma molécula com 3 átomos de hidrogênio (O3). E é através dessa molécula que nosso nariz pode perceber que vem chuva por aí, numa concentração de apenas 10 partes por bilhão. O nome dessa molécula? É o famoso ozônio!

E o cheiro da vovó e do vovô?

Uma pesquisa publicada em 2012 na revista PLOS One indica que as pessoas reconhecem o cheio de idosos não porque eles têm um odor forte, mas sim porque é único comparado às pessoas mais jovens. E se os idosos têm um odor característico, ele é mais agradável do que se pode pensar. Isso se deve a um composto orgânico que é encontrado em maior quantidade no suor e na pele de pessoas acima de 40 anos, que possui um leve odor gramíneo e oleoso, que é agradável à maioria das pessoas.

Mas nem tudo cheira bem nessa história…

Quando animais morrem, liberam um cheiro péssimo e nauseabundo, correto?

Esse cheiro se deve principalmente a dois compostos nitrogenados, a cadaverina e putrescina (que nomes, hein?) que são normalmente são produzidas por bactérias durante a putrefação dos organismos.

Mas então, porque alguns cheiros são agradáveis ao nosso nariz, enquanto outros cheiros são totalmente desagradáveis?

Somos adaptados para diferenciar entre o bom e o mau cheiro porque cheiros distintos devem resultar em diferentes comportamentos.Os maus cheiros nos dão um alerta de baixa qualidade do ar, comida estragada, veneno ou doenças, que demandam uma reação imediata para evitar aquilo que pode representar perigo.

Já os cheiro agradáveis, como o de frutas maduras e frescas não necessitam de uma rápida resposta comportamental, já que não representam perigo algum.A não ser que seja uma ação rápida para sair comendo tudo!

Pierre Penteado é biólogo e Mestre em Biologia Animal

Como a natureza semeia suas sementes?

Todos os organismos da natureza são encontrados em determinados locais porque eles se deslocaram até lá. Esse conceito é valido até para espécies sésseis, ou seja, que não se locomovem e vivem fixas, como as plantas. Dispersão e migração são termos utilizados para descrever deslocamentos de organismos em busca de melhores condições para a sobrevivência das espécies. A dispersão está relacionada ao distanciamento aleatório dos organismos entre si, enquanto a migração a movimentos direcionais em massa de um grande número de indivíduos de uma espécie de um local para outro.

Para se dispersarem as plantas utilizam seus diásporos, ou unidades de dispersão, que são os frutos e sementes. A dispersão dos diásporos para longe do seu local de origem é um processo fundamental no ciclo de vida das plantas, pois evita a competição entre as plantas jovens e a elevada predação próximo à planta-mãe. Além disso, se as sementes forem dispersas por uma área ampla, maior será a chance de encontrarem locais favoráveis à sua germinação e estabelecimento.

Devido aos benefícios da dispersão, as plantas desenvolveram muitas adaptações que favorecem a disseminação dos seus frutos e sementes. As características dos frutos e sementes trazem pistas sobre a forma de dispersão de uma espécie. Certas plantas espalham suas sementes sozinhas (autocoria), como é o caso da maria-sem-vergonha ou beijo, cientificamente conhecida como Impatiens walleriana, pois seu nome científico lembra a palavra “impaciente” em referência à cápsula de sementes que explode ao menor contato, espalhando as sementes nos arredores. Outras dependem de agentes dispersantes, como o vento (anemocoria); para isso as espécies produzem frutos e sementes leves e aerodinâmicas, sendo aladas ou plumosas, como é o caso do dente-de-leão. A dispersão também pode ocorrer pela água (hidrocoria), por gotas de chuva, enxurradas, ou rios e mares, por meio de diásporos flutuantes e resistentes ao excesso de umidade, como o coco-da-baía.

Os animais também realizam dispersão, que é denominada zoocoria. A zoocoria pode ocorrer externamente e de forma involuntária (epizoocoria), como é o caso dos carrapichos, que se aderem ao pelo dos animais e às nossas roupas; nesse caso os animais não se beneficiam, pois esses diásporos não são comestíveis. Por outro lado, a zoocoria pode ocorrer também via trato digestivo dos animais (endozoocoria). Nesse caso, os animais consomem os frutos e defecam as sementes inteiras e prontas para germinar; essas sementes, no entanto, devem ter um tegumento resistente para suportar a acidez do estomago e a passagem pelo trato digestivo. A endozoocoria promove uma interação mutualística entre os animais e as plantas, dessa forma, os animais recebem alimento e as plantas são semeadas por grandes distâncias. Além disso, para algumas plantas a passagem da semente no trato digestivo do animal é indispensável para sua germinação.

A frequência dos diferentes modos de dispersão varia entre as formações vegetais, com predomínio de autocoria e anemocoria em vegetações abertas, como os campos, onde o vento atua fortemente, e predomínio de zoocoria em florestas. Em algumas florestas tropicais mais de 90% das plantas apresentam frutos dispersos por animais.

As características dos diásporos determinam qual o grupo de animais vai ser atraído por estes, e assim qual será o dispersor. Peixes como o pacu e o tambaqui se alimentam de frutos que caem de árvores das beiras de rios. Alguns lagartos e tartarugas se alimentam de frutos que apresentam cheiro e coloração forte e que estão próximos ao solo ou caem quando maduros. Os frutos dispersados por mamíferos apresentam cores vivas e muitas vezes cheiros atrativos, como por exemplo, a lobeira, que é consumida e dispersa pelo lobo-guará. O lobo-guará é dependente da lobeira e sem os seus frutos ele é afetado por complicações renais causadas por vermes. Os morcegos frugívoros são os mamíferos mais importantes no processo de dispersão, diferente dos demais mamíferos, os frutos dispersos por morcegos não apresentam cores chamativas, mas possuem odor forte de mofo, rançoso ou de fermentação.

Os animais frugívoros são os jardineiros das nossas matas, pois semeiam as sementes ao longo dos seus caminhos. Dentre os frugívoros destacam-se as aves, pois elas são responsáveis pela dispersão da maioria das plantas. O estudo das aves (ornitologia) tem enfatizado a relação entre as aves frugívoras e as plantas que fornecem esses frutos. Muitas plantas atraem as aves com frutos pequenos em grandes quantidades, exibindo cores vistosas e polpas carnosas e suculentas, como a pitanga do cerrado, o murici e a erva de passarinho, esta só germina após a passagem pelo trato digestivo das aves. Dentre as aves dispersoras destacam-se o jacu, o sanhaço e o sabiá- laranjeira.

A dispersão gera consequências ecológicas grandiosas; ela mantém o equilíbrio entre as populações de plantas e animais, contribuindo para a diversidade biológica e para a contínua dinâmica da comunidade. A remoção de uma espécie de planta pode afetar muitos frugívoros de uma comunidade, que dependiam desse recurso para sua sobrevivência. Consequentemente, a eliminação dos frugívoros tem efeitos negativos no estabelecimento de novas plantas. Dessa forma, a ação da fauna frugívora garante a regeneração natural e a sobrevivência das nossas matas após alterações naturais, como a queda de uma árvore, ou antrópicas, como os desmatamentos e queimadas.

Cássio Cardoso Pereira é biólogo graduado pela Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba. Rúbia Santos Fonseca é bióloga, mestre e doutora em Botânica pela UFV. Atualmente é professora temporária da UFV, campus Rio Paranaíba. Desenvolve pesquisas na área de fenologia e biologia reprodutiva de plantas nativas.

As plantas que vivem sobre o ferro

As diferentes espécies e formas de vida da vegetação que existem ao nosso redor estão intimamente relacionadas com o tipo de solo em que estão estabelecidas. A fertilidade e a profundidade do solo selecionam as plantas que vão ocupar cada ambiente. Geralmente, onde há florestas os solos são profundos e férteis, pois as árvores são exigentes em nutrientes e em uma área maior de solo para expandir suas raízes, indispensáveis para a sustentação do tronco. Por outro lado, em solos rasos ou mais pobres em nutrientes estabelecem formas de vida de menor porte e adaptadas a essas condições.

Fig 1- Campo rupestre.

Diferentes tipos de vegetação, em resposta a diferentes solos, podem ser observadas na Amazônia, Mata Atlântica e Cerrado. No Cerrado existem vegetações campestres (campo limpo), savânicas (cerrado sensu stricto) e até florestais (cerradão); classificadas em função do hábito dominante, da composição florística e das propriedades dos substratos, que vão de rasos e pobres nos campos a profundos e ricos nas florestas. As vegetações campestres caracterizam-se por serem mais abertas, com predominância de gramíneas e poucas espécies lenhosas. As fitofisionomias savânicas são dominantes na paisagem e ocupam cerca de 65% da área do Cerrado. A vegetação do cerrado sensu stricto é formada por um estrato arbustivo-arbóreo com caule suberoso, ramificado e retorcido e outro herbáceo-graminoso e contínuo. As vegetações florestais apresentam espécies lenhosas com galhos tortuosos, distribuídas de forma mais adensada, com alturas variando de seis a oito metros.

Fig 2- Vegetação de canga.

Em muitos locais no Brasil ocorrem os afloramentos rochosos, como pontos isolados no espaço caracterizados pelo solo raso ou ausente, incluindo vários habitats relacionados com características da rocha. A vegetação associada a afloramentos rochosos sobre topos de serras e chapadas de altitudes superiores a 900 m e em rochas quartzíticas ou areníticas é chamada “campo rupestre” (Figura 1), quando ocorre acima de 1500m e em afloramentos de rochas de granito/gnaisse é denominada campo de altitude (espécies típicas desses campos são as Vellozia spp. (canela-de-ema) e Paepalanthus spp. (sempreviva)). Outros afloramentos que podem ser observados nos diferentes biomas são os de rochas ferruginosas, que apresentam elevada concentração de ferro. No Brasil estima-se que a cobertura total desses ambientes é de 10000 hectares. Em Minas Gerais os campos ferruginosos estão concentrados principalmente no Quadrilátero Ferrífero, com uma área de aproximadamente 7.200km2.

Fig 3. Ipomoea cavalcantei, espécie que ocorre apenas em campo rupestre da Amazônia.

A vegetação associada à afloramentos de rochas ferruginosas (também se inclui o conceito de Campos Rupestres) dá-se o nome de “Campos ferruginosos” ou “Vegetação de canga” (Figura 2). A alta concentração de metais pesados no solo é tóxica para muitas espécies vegetais, exigindo tolerância ao ferro para que consigam se adaptar ao ambiente e manter sua sobrevivência nessas condições. No Brasil, tais campos ocorrem principalmente no Quadrilátero Ferrífero e Triângulo Mineiro (MG), no domínio do Cerrado, e na Serra de Carajás (PA), no domínio da Floresta Amazônica. A vegetação muda completamente em função da natureza da rocha, sendo diretamente influenciada pela disponibilidade e acúmulo de nutrientes. Sendo assim, o cerrado rupestre, por apresentar vegetações inseridas entre as fendas das rochas, onde há um acúmulo maior de nutrientes, possui aspecto de savana (estrato herbáceo e/ou arbustivo-arbóreo), enquanto que em campos ferruginosos há menor proporção de espécies arbóreas devido ao menor acúmulo de nutrientes nas reentrâncias das rochas. Os domínios em que os campos ferruginosos estão inseridos influenciam-nos diretamente. Sobre a canga de Carajás ocorre grande riqueza de espécies distintas, como Ipomoea carajasensis, I. cavalcantei (Figura 3) e I. marabaenses, devido a presença da floresta amazônica circundando-a e do clima diferenciado ali existente. Já em outras cangas do país, a riqueza de espécies é menor: Lychnophora pinaster (Figura 4) ocorre apenas em cangas de Minas Gerais, Arthrocereus glaziovii só ocorre no quadrilátero ferrífero, e há espécies comuns de afloramentos rochosos de todo o Brasil como Vellozia compacta (Figura 5), Tibouchina multiflora e Dasyphyllum candolleanum.

Fig 4- Lychnophora pinaster ocorre apenas em cangas de MG.

Curiosamente, cerca de 97% da reserva de ferro do país está presente nessas áreas, o que faz com que a conservação desses ambientes seja afetada constantemente em função das práticas de mineração muito comuns nesses locais. Apesar disso, a conservação é indispensável, dada à singularidade desses ambientes, tanto em termos estruturais quanto florísticos, quanto por apresentarem nível elevado de endemismo de várias espécies. Os campos rupestres são considerados centros de diversidade de famílias como Eriocaulaceae, Xyridaceae e Velloziaceae, e de vários gêneros de Melastomataceae, Ericaceae e Asteraceae. Além da distribuição restrita, são pouquíssimas as unidades de conservação que contém essas comunidades, sendo o Parque Estadual da Serra do Rola Moça, próximo de Belo Horizonte, a mais destacada.

Fig 5- Vellozia compacta, espécie comum dos campos rupestres brasileiros.

Fernanda de Fátima Santos Soares é bióloga e mestranda na Unicamp na área de Botânica; Rúbia Santos Fonseca é bióloga, mestre e doutora em Botânica pela UFV. Atualmente é professora temporária da UFV, campus Rio Paranaíba. Desenvolve pesquisas na área de fenologia e biologia reprodutiva de plantas nativas

Campos de murundus: Pouco conhecidos e muito ameaçados

Os pequenos animais que vivem no solo desempenham papeis de grande importância, os quais, na maioria das vezes, nem mesmo percebemos. Desde 1881, o grande naturalista Charles Darwin já havia observado a importância das minhocas para a formação dos solos e estabelecimento de diferentes vegetações. Desde então, pôde-se perceber que os distintos animais presentes no solo não são apenas habitantes, são também agentes fundamentais para diversos processos que ocorrem ali, fazendo que esse solo seja um complexo ecossistema. A constante atividade desses seres ao logo do tempo faz com que o ambiente e os elementos que o compõem (tipo de solo, nutrientes do solo, vegetação, etc.) sejam dinâmicos.

Os campos de murundus são exemplos claros da importância da atividade de pequenos animais na formação de um ecossistema diferenciado. Murundus são montes de terra que possuem forma arredondada, distribuídos ao longo de terrenos mais baixos, periodicamente alagados, encontrados em algumas paisagens do Cerrado. Esses “montes de terra” são formados por colonizações sucessivas de cupins, correspondendo a ninhos ativos ou não, que resistem aos processos de erosão do solo. A erosão, processo de carreamento de partículas do solo dos locais mais altos para os mais baixos, tenderia a nivelar a paisagem se não fosse a atividade intensa dos cupins em transportar solo de baixo para a superfície. Esse comportamento contribui para o aumento dos murundus, e consequentemente, para o aumento do território de forrageamento dos cupins durante os períodos de alagamento.

O processo de formação dos murundus é dinâmico, mesmo após a formação de grandes montes de terra, a atividade desses pequenos animais não para, podendo superar 3 metros de altura.

Do ponto de vista ecológico, os murundus são ecossistemas muito interessantes, pois se diferem dos ambientes circundantes, tanto pela constituição dos solos quanto pela vegetação e fauna que os habitam. Nos espaços entre murundus predominam solos com poucos nutrientes, com maior capacidade em reter água e maior proximidade com o lençol freático, o qual pode ser encontrado com um metro de profundidade, mesmo durante a estação seca. Nesses locais são encontradas espécies vegetais campestres resistentes ao período de alagamento, sendo ausente árvores e arbustos. Já nos murundus, os solos são mais drenados, livres do alagamento sazonal e com maior teor de nutrientes, resultantes do aporte de materiais dos cupins e da ciclagem de uma vegetação mais vigorosa, como árvores e arbustos do Cerrado. Durante os períodos de alagamento, os murundus tornam-se verdadeiras ilhas (Figura 2), capazes de abrigar plantas lenhosas que normalmente são intolerantes à saturação hídrica do solo, além dos cupins e outros animais, mantendo-os a salvos dos excessos de água.

Os murundus espalham-se pela paisagem conferindo-lhe um aspecto de micro relevos ou pequenos “mares de morros”, o que proporciona uma beleza peculiar. Além da beleza paisagística, os campos de murundus são importantes por comportarem uma vasta diversidade de espécies do Cerrado, no entanto, também representam um dos ecossistemas mais ameaçados pela antropização. Atualmente, com a expansão das fronteiras agrícolas, esses campos vêm sofrendo um alto grau de perturbação com a implantação de drenos para o escoamento superficial da água do solo e nivelamento da superfície, tornando-os propícios para o desenvolvimento da agricultura extensiva. O risco iminente já foi reconhecido pelo Estado de Goiás, onde os campos de murundus já são considerados Áreas de Preservação Permanente (Lei estadual nº 16.513/2007). No entanto, fora desse Estado, os campos de murundus continuam sendo alvos do avanço agrícola sobre o Cerrado. Por esse motivo, a proteção desses ecossistemas é essencial para que continuem embelezando as paisagens já bastante degradadas, e preservando as espécies, tanto da flora como da fauna do Cerrado.

Cibele de Cássia Silva é bióloga e mestranda em Ecologia e Evolução pela UFG Daniel Meira Arruda é biólogo, mestre e doutorando em Botânica pela Universidade Federal de Viçosa.

A ciência na Roma antiga

 

Flávia Fróes de Motta Budant

Quando o assunto é ciência na Antiguidade, é normal que sejamos expostos atextos e dados  enciclopédicos, mais ilustrativosdo que explicativos. Pouco comum é que nos falem de que forma os antigos encaravam o fazer científico, que era o estudo dos mecanismos da Natureza, e de que maneira isso estava inserido no cotidiano e como se relacionava com a cultura local. É claro, podemos falar só  sobre as descobertas de cada povo – quem mediu a Terra primeiro, qual foi o primeiro homem a falar  em átomo –, mas entender como chegaram a elas nos ajuda a compreender como era de verdade a  ciência naquele tempo. Temos a mania de achar que a nossa época é a mais avançada – temos computadores hipervelozes, enviamos sondas espaciais para explorar a vizinhança galáctica e, acima de  tudo, não atribuímos acontecimentos da natureza a entidades sobrenaturais enfurecidas. Somos  evoluídos. No entanto, devemos admitir que os antigos também tinham um raciocínio tão complexo  quanto o nosso, por mais que não dispusessem da mesma tecnologia.

Para fugir do óbvio, vamos falar  de um povo pouco lembrado quando o assunto é ciência: os romanos. É preciso saber que os estudos,  em Roma, não eram conduzidos por qualquer um, e nem mesmo divulgados a todos. O desenvolvimento  cultural se restringia a uma elite, que mandava os filhos estudar com professores  gregos ou na própria Grécia. Como dizia o poeta Horácio, apesar de os romanos terem conquistado os  gregos, eram os helênicos que os mantinham cativos através da influência cultural.

Adiante, saibamos que, na antiguidade, investigar a Natureza era papel dos filósofos. Muitos textos que  hoje conhecemos por científicos são, na realidade, obras que pertencem a estoicos, epicuristas etc.      Vamos abordar a relação da Natureza com três grandes áreas do conhecimento romano: o Direito, a  retórica e a ética.

Cícero, um dos maiores escritores latinos, nos informa que os estudos naturais estavam bastante ligados ao modo como Roma era administrada através das leis. Lex est ratio summa  insita in natura quae iubet ea quae facienda sunt prohibitque contraria – a lei é a maior razão,  implantada na natureza, que manda as coisas que devem ser feitas e proíbe as contrárias. A natura  legitima a organização social pois esta também provém da ordem cósmica. E, assim como as regras cívicas são naturais, a própria Natureza tem suas leis. Lucrécio, que escreveu uma obra de divulgação  científica epicurista em latim, fala em foedera naturae – estipulações, regularidades que encontramos.  Encontrar simetria no funcionamento do Universo era como ter acesso a verdades encobertas: a partir  de analogias, conexões, sabia-se mais sobre o mundo em que se vivia.

Como espinha dorsal da educação romana, havia a retórica, a arte do discurso, do dizer bem através de manobras da linguagem. Ela  também moldou a forma de compreender a ciência. Sêneca, o filósofo, ao escrever as Questões Naturais,  não poupou construções que visavam conquistar o leitor, ao mesmo tempo em que transmitia informações a respeito dos rios, das estrelas etc. Lucrécio, em meio aos    átomos e às explicações físicas, utiliza ideias e argumentos moldados à maneira dos oradores, também    para trazer o leitor para perto de si e de suas teorias.

Quanto à ética, sabe-se que, como a ciência era feita por filósofos (lembremo-nos da grande interdisciplinaridade da Antiguidade), uma das perguntas   que se faziam era se havia – e quais seriam – as correspondências de seus atos no Universo. O poeta  estoico Lucano, em sua obra Farsália, a respeito da guerra civil entre César e Pompeu, aponta em diversos trechos a Natureza se manifestando de modo simétrico às atrocidades humanas: há  tempestades, eclipses, estrelas alterando o próprio curso, espelhando a barbaridade das batalhas.

Os  estudos científicos se relacionam profundamente com a cultura de cada época. Mas, apesar das grandes  diferenças na maneira de encarar a Natureza, é preciso reconhecer que o que fazia um romano olhar  para o céu e encontrar as constelações é o mesmo que nos faz desmontar um rádio velho para ver como  ele é por dentro. A curiosidade é uma constante humana e é o que nos move continuamente. É o que nos  iga tanto aos que já se foram quanto aos que virão: o mesmo fio evolutivo do amor pelo  conhecimento.

Flávia Fróes de Motta Budant é estudante de Graduação em Letras Português – Latim, na  Universidade Federal do Paraná, com ênfase em estudos da poesia latina.


Como Citar esse documento.

Budant. F. (2013).  A ciência na Roma antiga. Folha biológica 4: (4) 4

Alelopatia

Luciano Bueno dos Reis

Quando olhamos para um campo ou mata, diferentemente da aparente calma e convívio harmônico entre as plantas e outros componentes dos ecossistemas, grandes batalhas podem estar sendo travadas entre as plantas. Na competição por luz, água e nutrientes, as plantas podem lançar mão de diversas estratégias e armas para sobrepujar suas adversárias.
Dentre essas estratégias, as plantas podem usar um vasto arsenal bioquímico, com substâncias secretadas pelas raízes, volatilizadas pelas folhas ou mesmo resultantes da decomposição de partes mortas do vegetal. Tais compostos podem interferir no crescimento de outras plantas ou mesmo de microrganismos do solo. Essa interferência no crescimento de uma planta sobre a outra, por meio de uma substância química liberada, é conhecida como alelopatia.
Diversas classes de compostos podem agir como substâncias alelopáticas. Contudo,
o modo de ação de cada substância muitas vezes não é conhecido. Outras vezes, nem mesmo a substância responsável pelo efeito alelopático é identificada. Dessa forma, este é um campo que ainda demanda muita pesquisa científica básica.
Essas pesquisas na área de alelopatia podem ser bastante simples, já que os testes iniciais são realizados comumente verificando o efeito de extratos vegetais sobre a germinação de sementes como as de alface e tomate. E, identificada a ação alelopática, pode-se investir na identificação do composto responsável por esse efeito.
Tais estudos e a identificação de compostos que causam efeitos alelopáticos podem ser bastante úteis, não apenas para se conhecer melhor a ecologia vegetal, mas também porque essas substâncias têm potencialidade de uso na indústria farmacêutica (produção de remédios)e agroquímica (defensivos agrícolas).
No ambiente agrícola também há alelopatia e uma planta bastante conhecida pelos seus efeitos alelopáticos é o sorgo. Algumas culturas não se desenvolvem bem em solo onde sorgo estava plantado. Uma das substâncias alelopáticas produzidas pelo sorgo é a sorgoleona, que inibe a respiração mitocondrial. Dessa forma, o produtor deve tomar cuidado ao escolher a cultura que será plantada onde havia sorgo, pois isso pode interferir no crescimento de determinadas culturas e trazer prejuízos econômicos. A autotoxidez também pode contribuir para a redução da produtividade, como verificado para alguns cultivares de trigo e espécies da família Curcubitaceae, como o melão e pepino. Esses efeitos podem ser minimizados com a rotação de culturas. Em ambientes naturais essa ação autotóxica impede que sementes da mesma espécie germinem próximas das plantas que as produziram. Com isso, a planta “mãe” pode minimizar a competição com as plantas “filhas”. No campus de Rio Paranaíba, da Universidade Federal de Viçosa, alguns estudos sobre o efeito alelopático da macaúba têm sido realizados por estudantes do ensino médio da E. E. Adiron Gonçalves Boaventura, de Rio Paranaíba, vinculados ao programa de Iniciação Científica Júnior fomentado pelo CNPq, FAPEMIG e UFV. Atualmente, Rafaela Rocha e Amanda Mendes, ambas estudantes do 2º ano, trabalham no projeto coordenado pelo professor Luciano Bueno dos Reis.

Luciano Bueno dos Reis é biólogo formado pelaUniversidade Federal de Juiz de Fora, com mestrado e doutorado em Fisiologia Vegetal pela Universidade Federal de Viçosa. Atualmente é professor da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba, atuando nas áreas de Fisiologia Vegetal e Cultura de Tecidos de Plantas.


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Reis. L. (2013). Alelopatia. Folha biológica 4: (3) 4.

Afinal, somos mamíferos.

Karine Frehner Kavalco

Se fizermos uma busca no Google® pela palavra “mamíferos”, logo nas primeiras entradas vem a definição da Wikipédia: “Os mamíferos constituem uma classe de animais vertebrados, que se caracterizam pela presença de glândulas mamárias que, nas fêmeas, produzem leite para alimentação dos filhotes…”. É claro que esta não é a única característica compartilhada pelos mamíferos, mas até o nome “mamífero” indica da importância da lactação na alimentação dos filhotes neste grupo de animais.

Há mamíferos que tem formas incríveis de amamentar seus filhotes, muito diferentes do que estamos acostumados a presenciar em animais domésticos, de fazenda ou na nossa espécie. Há exemplos extremos, como o ornitorrinco. Esse mamífero que põe ovos não possui mamas, mas o leite escorre por poros, sendo lambido pelos filhotes. Nas baleias jubarte, por exemplo, a fêmea vira seu corpo e fica com as mamas próximas da superfície da água, permitindo que o filhote possa respirar com mais facilidade durante as mamadas.

Independente da adaptação de cada mamífero para a amamentação, o leite produzido sempre possui todos os nutrientes que o filhote precisa, embora seja muito variável entre diferentes espécies e mesmo entre raças de uma mesma espécie. Via de regra, todo leite tem água, minerais, carboidratos, lipídios e proteínas, mas as proporções entre estes compostos variam bastante. O leite pode ser extremamente calórico e rico em gordura, como no caso de mamíferos aquáticos e de regiões frias, ou ser um dos menos gordurosos, como o da égua e da asna, mas ele sempre será adequado aos filhotes destas espécies. E como somos também mamíferos, o leite produzido pelas mães é o ideal para a alimentação dos filhotes humanos, os bebês.

Entre os benefícios do aleitamento para o bebê, talvez o mais importante seja a composição perfeita para a sua nutrição e manutenção de sua saúde. Não apenas os nutrientes estão em equilíbrio, mas há água suficiente para deixá-lo hidratado, além de uma gama de compostos que atuam na proteção contra infecções e para o seu desenvolvimento adequado. Se compararmos o leite humano com o leite de vaca, veremos que a grande quantidade de proteínas do segundo, associada a muitos eletrólitos, pode fazer com que um bebê alimentado com leite de vaca tenha uma sobrecarga renal. O leite materno é tão importante que nenhuma fórmula artificial o substitui de maneira totalmente eficiente. Nenhuma.

Leite de mãe não é só amor em estado líquido. Além dos benefícios psicológicos para a mãe e o bebê pelo fortalecimento do vínculo afetivo, há uma lista de vantagens em amamentar e em ser amamentado. Apesar disso, muitas mulheres não o fazem. Algumas delas, contra sua vontade, tornamse inaptas para o aleitamento materno. Outras, acreditam que o ato de amamentar lhes fará mal, como por exemplo, que deixará seus seios flácidos. Esse é um mito que já se provou errado. Há vários fatores que podem deixar as mamas flácidas, mas amamentar não é um deles. Talvez o fato de atrizes e modelos famosas estarem optando pelo parto natural e pelo aleitamento mostre para estas mulheres que não é preciso ter medo de amamentar seu filho. Talvez percebam que seu corpo está preparado para isso. A natureza o tem moldado para esta função há milhões de anos…

Mas e quando a mãe não consegue amamentar o recém-nascido, mesmo sabendo de todos os benefícios para sua nutrição e desenvolvimento? Pela necessidade de alimentar de maneira eficiente bebês mais sensíveis e debilitados, surgiram as inciativas de bancos de leite. No Brasil, só neste ano, pouco mais de 90 mil bebês já receberam leite materno doado. No ano passado, mais de 172 mil recém-nascidos foram beneficiados. Pouca gente conhece a Rede de Bancos de Leite Humano, mas ela faz a diferença para milhares de crianças internadas em unidades neonatais (UTIs e CTIs), muitas delas prematuras ao nascimento. Pode parecer grande, mas o número de recém-nascidos beneficiados pelos bancos é ainda muito pequeno. Estas crianças recebem leite materno selecionado e pasteurizado, o que lhes garante uma fonte de alimento segura, que ajuda a protegê-las de infecções.

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Qualquer mulher que esteja amamentando e que seja saudável (que não esteja usando alguns medicamentos e esteja bem nutrida) pode doar o excedente do seu leite (aquele que não será usado por seu próprio bebê) a um banco de leite. Como a produção de leite materno aumenta conforme a necessidade, ou seja, com a quantidade e com o tempo das mamadas, potencialmente toda mãe tem leite suficiente para seu bebê e para doar. Poucos minutos por dia são suficientes para a coleta do leite, que pode ser guardado no freezer até ser encaminhado ao banco.

Em Minas Gerais, há 12 unidades e 19 postos de coleta da Rede de Bancos de Leite Humano. No mês de maio, a unidade de Uberaba informou que estava com seu estoque baixo, com menos de três litros, e os estoques continuaram baixos no mês de julho. Para saber mais sobre como doar e para obter o endereço dos postos e dos bancos, acesse: http://www.fiocruz.br/redeblh

Karine Frehner Kavalco é bióloga, mestre em Genética e Evolução e doutora em Genética. Atualmente é professora da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.


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Kavalco. K (2013). Afinal, somos mamíferos. Folha biológica 4:(2) 4

Peixes e Educação Ambiental

A educação ambiental é um tema desafiante. Inúmeras são as questões ambientais que afetam nosso dia a dia. Poluição do ar e das águas, lixo e reciclagem, proteção da biodiversidade, desenvolvimento sustentável, são apenas alguns dos assuntos frequentemente debatidos e com ações efetivas.
Em relação a proteção da biodiversidade, os aspectos a serem abordados são inúmeros. Muitos deles dependem diretamente do conhecimento sobre a biodiversidade. Por exemplo, uma Unidade de Conservação pode ser proposta com a finalidade de proteger uma espécie ameaçada. No entanto, como conscientizar a população local de que
isto é necessário? Por outro lado, quanto da biodiversidade estamos perdendo por deixarmos
de estudar determinadas regiões que acabam por tornar-se fronteiras agrícolas, por exemplo? Planos de manejo e conservação de espécies só conseguem ser bem sucedidos quando envolvem completamente a comunidade da região, como por exemplo, o projeto TAMAR que envolve as comunidades de pescadores e suas famílias com o objetivo de proteger as
tartarugas marinhas.
O Laboratório de Genética Ecológica e Evolutiva (LaGEEvo) do Campus de Rio Paranaíba
da Universidade Federal de Viçosa iniciou nos últimos meses a etapa de Educação Ambiental de seu projeto “Biodiversidade da Ictiofauna do rio Paranaíba – Estratégias para a Educação Ambiental”. Financiado pela Fundação Grupo Boticário, o projeto consiste de duas etapas. A primeira visa realizar o levantamento da Ictiofauna do rio Paranaíba em seu trecho inicial,
desde as nascentes no município de Rio Paranaíba até o município de Patos de Minas. Na segunda etapa, a equipe do laboratório promove cursos para professores de Ensino Fundamental e Médio, palestras para estudantes e material didático a ser distribuído nas escolas.

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As palestras sobre diversidade de peixes, importância da água e poluição das águas tem sido ministradas para alunos de todas as idades. Divididos por faixas etárias, as atividades desenvolvidas passaram por dança e pintura com crianças de 1a à 3a série do Ensino Fundamental até palestras sobre a diversidade de peixes com os estudantes de Ensino Médio. O primeiro curso oferecido é o de Peixes do Alto Paranaíba, para professores de Ensino Médio. Informações sobre os cursos e palestras podem ser obtidos pelo site: http://www.biologianaweb.com.br/lageevo.


Como citar esse documento.

LaGEEvo (2013). Peixes e Educação Ambiental. Folha biológica 4: (1) 4