Como a natureza semeia suas sementes?

Todos os organismos da natureza são encontrados em determinados locais porque eles se deslocaram até lá. Esse conceito é valido até para espécies sésseis, ou seja, que não se locomovem e vivem fixas, como as plantas. Dispersão e migração são termos utilizados para descrever deslocamentos de organismos em busca de melhores condições para a sobrevivência das espécies. A dispersão está relacionada ao distanciamento aleatório dos organismos entre si, enquanto a migração a movimentos direcionais em massa de um grande número de indivíduos de uma espécie de um local para outro.

Para se dispersarem as plantas utilizam seus diásporos, ou unidades de dispersão, que são os frutos e sementes. A dispersão dos diásporos para longe do seu local de origem é um processo fundamental no ciclo de vida das plantas, pois evita a competição entre as plantas jovens e a elevada predação próximo à planta-mãe. Além disso, se as sementes forem dispersas por uma área ampla, maior será a chance de encontrarem locais favoráveis à sua germinação e estabelecimento.

Devido aos benefícios da dispersão, as plantas desenvolveram muitas adaptações que favorecem a disseminação dos seus frutos e sementes. As características dos frutos e sementes trazem pistas sobre a forma de dispersão de uma espécie. Certas plantas espalham suas sementes sozinhas (autocoria), como é o caso da maria-sem-vergonha ou beijo, cientificamente conhecida como Impatiens walleriana, pois seu nome científico lembra a palavra “impaciente” em referência à cápsula de sementes que explode ao menor contato, espalhando as sementes nos arredores. Outras dependem de agentes dispersantes, como o vento (anemocoria); para isso as espécies produzem frutos e sementes leves e aerodinâmicas, sendo aladas ou plumosas, como é o caso do dente-de-leão. A dispersão também pode ocorrer pela água (hidrocoria), por gotas de chuva, enxurradas, ou rios e mares, por meio de diásporos flutuantes e resistentes ao excesso de umidade, como o coco-da-baía.

Os animais também realizam dispersão, que é denominada zoocoria. A zoocoria pode ocorrer externamente e de forma involuntária (epizoocoria), como é o caso dos carrapichos, que se aderem ao pelo dos animais e às nossas roupas; nesse caso os animais não se beneficiam, pois esses diásporos não são comestíveis. Por outro lado, a zoocoria pode ocorrer também via trato digestivo dos animais (endozoocoria). Nesse caso, os animais consomem os frutos e defecam as sementes inteiras e prontas para germinar; essas sementes, no entanto, devem ter um tegumento resistente para suportar a acidez do estomago e a passagem pelo trato digestivo. A endozoocoria promove uma interação mutualística entre os animais e as plantas, dessa forma, os animais recebem alimento e as plantas são semeadas por grandes distâncias. Além disso, para algumas plantas a passagem da semente no trato digestivo do animal é indispensável para sua germinação.

A frequência dos diferentes modos de dispersão varia entre as formações vegetais, com predomínio de autocoria e anemocoria em vegetações abertas, como os campos, onde o vento atua fortemente, e predomínio de zoocoria em florestas. Em algumas florestas tropicais mais de 90% das plantas apresentam frutos dispersos por animais.

As características dos diásporos determinam qual o grupo de animais vai ser atraído por estes, e assim qual será o dispersor. Peixes como o pacu e o tambaqui se alimentam de frutos que caem de árvores das beiras de rios. Alguns lagartos e tartarugas se alimentam de frutos que apresentam cheiro e coloração forte e que estão próximos ao solo ou caem quando maduros. Os frutos dispersados por mamíferos apresentam cores vivas e muitas vezes cheiros atrativos, como por exemplo, a lobeira, que é consumida e dispersa pelo lobo-guará. O lobo-guará é dependente da lobeira e sem os seus frutos ele é afetado por complicações renais causadas por vermes. Os morcegos frugívoros são os mamíferos mais importantes no processo de dispersão, diferente dos demais mamíferos, os frutos dispersos por morcegos não apresentam cores chamativas, mas possuem odor forte de mofo, rançoso ou de fermentação.

Os animais frugívoros são os jardineiros das nossas matas, pois semeiam as sementes ao longo dos seus caminhos. Dentre os frugívoros destacam-se as aves, pois elas são responsáveis pela dispersão da maioria das plantas. O estudo das aves (ornitologia) tem enfatizado a relação entre as aves frugívoras e as plantas que fornecem esses frutos. Muitas plantas atraem as aves com frutos pequenos em grandes quantidades, exibindo cores vistosas e polpas carnosas e suculentas, como a pitanga do cerrado, o murici e a erva de passarinho, esta só germina após a passagem pelo trato digestivo das aves. Dentre as aves dispersoras destacam-se o jacu, o sanhaço e o sabiá- laranjeira.

A dispersão gera consequências ecológicas grandiosas; ela mantém o equilíbrio entre as populações de plantas e animais, contribuindo para a diversidade biológica e para a contínua dinâmica da comunidade. A remoção de uma espécie de planta pode afetar muitos frugívoros de uma comunidade, que dependiam desse recurso para sua sobrevivência. Consequentemente, a eliminação dos frugívoros tem efeitos negativos no estabelecimento de novas plantas. Dessa forma, a ação da fauna frugívora garante a regeneração natural e a sobrevivência das nossas matas após alterações naturais, como a queda de uma árvore, ou antrópicas, como os desmatamentos e queimadas.

Cássio Cardoso Pereira é biólogo graduado pela Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba. Rúbia Santos Fonseca é bióloga, mestre e doutora em Botânica pela UFV. Atualmente é professora temporária da UFV, campus Rio Paranaíba. Desenvolve pesquisas na área de fenologia e biologia reprodutiva de plantas nativas.