II Simpósio da Biodiversidade – SIMBIO 2011

O colegiado do Curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa, do Campus de Rio Paranaíba promoveu entre os dias 17 e 20 de maio o II Simpósio da Biodiversidade – SIMBIO. O evento, de abrangência nacional, foi organizado por professores e alunos dos cursos de Ciências Biológicas, Agronomia e Ciências de Alimentos.

Durante os quatro dias do evento, o público assistiu à palestras de especialistas com temas importantes dentro da grande área da biodiversidade. Além disso, houve apresentação de trabalhos inscritos e concurso de fotografia.

Jaqueline Dias Pereira, coordenadora do curso de Ciências Biológicas do Campus de Rio Paranaíba afirma que os temas variados das palestras podem auxiliar os acadêmicos na escolha da especialização que pretendem fazer após a graduação. “ O SIMBIO é o principal evento do curso e é muito importante, pois traz palestrantes de todo o país. Esse contato com professores de outras universidades e de diferentes áreas permite ao aluno já criar uma consciência do que ele vai querer”, afirma Jaqueline.

Rock com Ciência

A novidade no II Simpósio da Biodiversidade foi a gravação do programa de rádio e podcast Rock com Ciência, que é um projeto de extensão em Divulgação Científica do curso de Ciências Biológicas. Foram convidados os professores Edmilson Escher, Orlando Moreira Filho e Claudio Oliveira. Pela primeira vez o programa foi gravado com plateia, que participou fazendo perguntas aos convidados.

O tema do programa, transmitido no dia 21 de maio pela rádio local Maximus FM, foi a popularização da ciência. A divulgação científica foi bastante discutida entre os convidados, uma vez que há um grande conflito entre cientistas e jornalistas nas publicações sobre ciência.

Ciência é uma coisa chata?

Os convidados do Programa Rock com Ciência comentaram também que a popularização da ciência deve ter uma abordagem diferente para cada tipo de público.

A estudante de Ensino Médio, Paloma Silva, é bolsista do BIC-Júnior da UFV – CRP e contou que sempre teve muitas dúvidas a respeito da sua vocação. “Quando eu entrei para o projeto de genética da UFV, percebi que poderia ir além, associar filosofia e genética, conhecer as técnicas e aplicar raciocínio para criar ciência. Hoje eu sei o que eu quero. Estar conhecendo a ciência dessa forma despertou a minha vocação”, afirma Paloma. A estudante completou dizendo que ciência não é uma coisa chata e o aluno precisa apenas procurar qual a área que lhe interessa mais.

Sobre o resultado geral do evento, o presidente da comissão organizadora do SIMBIO, professor Rubens Pazza, foi positivo. “Foi bastante produtivo, tivemos participantes de vários estados, o alcance foi bom. De modo geral o público gostou muito das palestras. São coisas que animam a fazer o próximo Simpósio ainda melhor”, completou o professor.

Janaína Pazza é jornalista e editora-chefe do jornal Folha Universitária do Alto Paranaíba.

A macrovisão da micromudança

A evolução é a ciência que estuda como a natureza se transforma ao longo das gerações, através da acumulação de pequenas mudanças que ocorrem nas populações de organismos vivos. Para entender como a evolução produziu a biodiversidade é preciso que estudemos dois processos:

a) como as espécies mudam através do tempo (microevolução); b) como uma espécie se torna duas espécies ou mais (macroevolução)

Micro x macro

Na verdade, estes dois “processos” são o mesmo, mas vistos em escalas diferentes. É como se tivéssemos um balde sob uma goteira… o constante pingar, em algum momento, encherá o balde, que transbordará. Podemos pensar nessas micromudanças da mesma forma, “pingando” aos poucos na história do grupo. Em algum momento, haverá um transbordamento, e os indivíduos da população, que estavam divergindo aos poucos de suas gerações passadas, podem passar a acumular diferenças cada vez maiores.

O primeiro processo é bastante conhecido e responde como ocorreu o desenvolvimento dos bicos dos tentilhões estudados por Darwin nas Ilhas Galápagos, por exemplo. Também explica o mecanismo de resistência de insetos a pesticidas, o surgimento de superbactérias, resistentes a todos os tipos de antibióticos, e por que nem sempre as vacinas contra a gripe funcionam como gostaríamos.

Entretanto, alguns críticos da teoria da evolução argumentam que a microevolução não poderia explicar a origem de novas espécies, ou a macroevolução. Estes dizem que membros de uma espécie não podem se tornar tão diferentes de outros indivíduos através da variação natural a ponto de se tornarem duas espécies não intercruzantes. Mas será que é isso que os cientistas concluem?

Uma questão de tempo…

Uma das maiores limitações com relação ao entendimento da Evolução é que suas evidências nos mostram uma história que nem sempre está acontecendo em frente a nossos olhos e que nem sempre ocorre do mesmo jeito para todos os seres vivos, uma vez que os protagonistas dessa história tem tempos diferentes para o desenvolvimento de seus papéis. Por exemplo, a gestação de um grande mamífero, como um elefante, pode levar até 22 meses. Em contrapartida, uma geração bacteriana pode durar apenas meia hora.

É fácil perceber, portanto, que se a evolução é a mudança ao longo das gerações, e as gerações entre diferentes organismos tem diferentes durações, não podemos esperar que a evolução opere no mesmo ritmo para todos os organismos. É por isso que é muito mais fácil percebermos que uma população de microorganismos mudou e passou a ter resistência a um composto qualquer, que poderá ser decisiva na sua sobrevivência e levá-la a tornar-se uma nova espécie, do que um organismo mais complexo e com maior tempo de geração adquirir uma grande mudança em sua biologia. Impossível é pensar que vivendo (com sorte) 100 anos, um ser humano seria capaz de ver essa mudança durante o período de sua vida.

Mas isso não significa que não podemos provar que as microevoluções produzem os padrões macroevolutivos. A natureza tem diversos meios de nos mostrar que as mudanças ao longo das gerações são capítulos da história natural dos grupos.

Uma das formas de vermos o registro histórico das mudanças dos grupos é olharmos literalmente para o passado da Terra. Com alguma sorte e a combinação certa entre acaso e solo adequado, um organismo pode passar a figurar como personagem principal na história de sua família.

Outra forma de percebermos que todos os organismos tem ancestrais diretos e um ancestral único comum é vermos as semelhanças que existem em biomoléculas, como o DNA. Em todos os seres vivos, o DNA é composto pelos mesmos elementos químicos e tem o mesmo papel.

Estas são evidências mais que seguras de que todos fazemos parte de uma história que vem acontecendo há muitos e muitos anos.

Karine Frehner Kavalco é bióloga, mestre em Genética e Evolução e doutora em Genética. Atualmente é professora da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.

A grande riqueza das pequenas espécies do Cerrado

O Cerrado é o segundo maior domínio do Brasil, superado apenas pela Amazônia. Ele cobre uma área de dois milhões de km², e ocorre em 14 estados brasileiros. Nesse domínio ocorrem vegetações distintas, como florestas (os cerradões), campos (os campos limpos e campos rupestres), até formações savânicas, os cerrados sensu stricto, ou cerrado típico, que ocupam 70% da área total.

O cerrado sensu stricto é caracterizado pela existência de árvores de pequeno a médio porte com troncos retorcidos, de modo que as copas dessas árvores não se toquem. Abaixo delas existe um tapete contínuo de plantas de pequeno porte, conhecidas como ervas e arbustos. Essas espécies permanecem toda a sua vida próximas ao nível do solo, e não desenvolvem lenho ou madeira, ou seja, nunca irão virar árvores. Elas germinam suas sementes, crescem, reproduzem e morrem num período de tempo muito curto em relação às árvores, que sobrevivem décadas ou séculos.

Estima-se que para cada árvore exista de cinco a seis ervas, muitas ainda não descobertas pela ciência. O estrato herbáceo, que é a comunidade das ervas, possui espécies temporãs, ou seja, que podem ser visualizadas apenas em uma época do ano, seca ou chuvosa. Essas plantas também apresentam diversas adaptações a falta de água e nutrientes e presença constante do fogo.

Prestonia erecta, uma erva com ocorrência restrita ao Cerrado.

Os primeiros estudos sobre as “plantinhas” do cerrado brasileiro iniciaram na década de 1980, quando começou a se vislumbrar a riqueza e o potencial desconhecido dessas espécies. Tradicionalmente sabemos que as ervas são usadas para alimentação e produção de medicamentos. Outra utilidade é na recuperação de áreas degradadas, uma vez que elas cobrem e protegem o solo, mantendo a umidade e os nutrientes, o que favorece a reconstrução da vida no solo e acima dele. Além disso, devido à variação de cores, formas e beleza, as ervas têm grande potencial para paisagismo e ornamentações em geral. Atenta a essa diversidade também está a indústria química e farmacêutica, já que muitas moléculas são utilizadas na cura de doenças e criação de bioprodutos.

Hoje, a elevada biodiversidade e a presença de espécies que só ocorrem neste local, colocam o Cerrado como um dos ambientes mais diversos e ricos do planeta. Apresentando mais de 12.000 espécies vegetais descritas, sendo que 61% só existem exclusivamente nessa vegetação, por isso é um dos hotspost (pontos quentes) para se conservar no mundo.

Cochlospermum regium, um subarbusto símbolo do cerrado sensu stricto.

Entretanto, o crescimento econômico do país provocou fortes modificações neste bioma, levando a redução de mais de 65% da cobertura original e, consequentemente, à extinção de várias plantas que nem sequer foram descobertas. Para outras espécies, o extrativismo excessivo vem ameaçando a sua sobrevivência, como é o caso do Alecrim-do-campo (Anemopaegma arvense). Seus extratos foram patenteados por grupos de pesquisadores japoneses para o uso em cosméticos, gerando demanda e superexploração dessa espécie, o que a deixou atualmente em perigo de extinção. Para enfrentar esse cenário precisamos de muitos esforços, investimentos e políticas públicas que permitam a formação de cientistas capazes de reconhecer, conservar e manejar de forma sustentável a maior riqueza do planeta: a biodiversidade.

Márcio Venícios Barbosa Xavier, Estudante de Graduação em Engenharia Florestal.UFMG. Rúbia Santos Fonseca, mestre e doutora em Botânica pela UFV. Professora de Dendrologia e Sistemática Vegetal da UFMG

Biodiversidade: … o que é mesmo?!

Muitos já ouviram falar, mas poucos sabem realmente o que é biodiversidade. É o que confirma um estudo feito pela União para o BioComércio Ético (UEBT), a qual ouviu pessoas de 16 países, inclusive o Brasil. Os resultados demonstraram que, pelo menos em nosso país, menos da metade dos entrevistados sabem explicar o que significa o termo, uma média relativamente alta quando comparada à dos demais países participantes da pesquisa. Mas vamos lá: o que significa Biodiversidade?! Ao pé da letra seria “Diversidade da vida”, ou seja, todas as formas de vida existentes estariam incluídas no termo Biodiversidade. Diversos significados são encontrados, mas todos eles envolvem a diversidade da natureza viva. Em 1992, a Convenção da Diversidade Biológica definiu biodiversidade como a variedade de organismos vivos existentes no planeta ou em uma determinada região do globo, incluindo ecossistemas terrestres, marinhos e outros. Além disso, o termo leva em conta a variedade genética dentro das populações e espécies, tanto quanto a variedade de funções ecológicas desempenhadas pelos organismos bem como seus hábitats e ecossistemas. Esclarecer o real significado da palavra, além de contribuir para o conhecimento da população, também é importante para demonstrar a importância da frase: “Devemos todos conservar a Biodiversidade”. Diante disso, cientistas trabalham constantemente na divulgação científica acerca do tema, destacando a importância de preservar a biodiversidade mundial e as maneiras como isso pode ser feito. Compreensão e dedicação são pontos fundamentais nessa luta de preservação.

Fonte:
http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2015/07/biodiversidadeconheco­de­algum­lugar..

Por: Rosana Mesquita

Captura Predatória e Comércio Ilegal de Aves!

Todos sabem que a biodiversidade no Brasil é enorme, e com as aves não é diferente. Nosso país abrange cerca de 1700 espécies de aves, o que garante a ocupação da terceira colocação de maior riqueza de aves do planeta, perdendo apenas para a Colômbia e o Peru.

Apesar dessa riqueza, com os mais diversos tamanhos e cores, o país é um dos que mais sofrem com traficantes da fauna silvestre. Segundo inúmeros sites, o comércio ilegal de animais silvestres, em especial o de aves, é a terceira atividade clandestina que mais move dinheiro ilegal, perdendo apenas para o tráfico de armas e o de drogas.

Existem leis regulamentadas para a venda de animais silvestres, porém, isso se trata de um processo um tanto quanto burocrático, o que leva pessoas com “pouco tempo” e muito dinheiro a abusar do comércio ilegal.

A captura para comércio ilegal de aves envolve métodos totalmente invasivos ao animal e a toda a biodiversidade local, principalmente devido a precariedade dos transportes usados, o que causa danos físicos e “emocionais” às espécie (estimase 9 mortes em cada 10 animais). Os traficantes geralmente adotam práticas agressivas, como cegar o animal, ingestão de calmantes e bebidas alcoólicas, para aquietar os animais, evitando assim complicações com fiscalizações. Filhotes são retirados de seus pais dessa forma, perdendo todo o cuidado parental, processo importante no desenvolvimento do indivíduo. Esses animais são traficados para pet shops, colecionadores particulares que tem prioridade por espécies raras e ameaçadas de extinção. Ao longo do tempo, o animal que vive preso, perde a capacidade de sobreviver e se defender sozinho, dificultando seu processo de soltura na natureza, que deverá ser feito com o acompanhamento de um especialista. E o pior: muitas das espécies de aves que são traficadas, estão escassas no país, com grande risco de extinção, sendo o tráfico ilegal um fator agravante para essa situação. Dentre as espécies podemos citar a Arara Azul (Anodorhynchus hyacinthinus), o Papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis) a Ararajuba (Aratinga guarouba) o Pica-Pau-Rei (Camphepilus robustus) e o Sabiá-Pimenta (Carponis melanocephalus).

O QUE PODEMOS FAZER?

Não comprar animais silvestres e nem incentivar ninguém a comprar em primeiro lugar. Ter espécies nativas em cativeiro, sem comprovação da origem do animal, é crime previsto em lei, e cada indivíduo capturado faz falta ao ambiente e não deixa seus descendentes.

Ajude com a vigilância caso presencie a venda em algum local. Avise a polícia.

Faça denúncias ao IBAMA através da Linha Verde Tel. 0800 61 8080.

Guilherme Wince de Moura é graduando do Curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa Campus Rio Paranaíba MG, Brasil.

Fonte : glbimg.com/jo/g1/f/original/2013/10/11/comerciocacapredatoria.jpg

O que acontece com as espécies quando o clima muda?

Rúbia Santos Fonseca

Em ecologia denominamos comunidade como o conjunto de espécies que interagem entre si em uma área. Cada espécie apresenta um número diferente de indivíduos, por isso na comunidade algumas espécies são raras (com poucos indivíduos) e outras comuns (muitos indivíduos). A presença das espécies em um local, assim como a sua abundância, está relacionada a diversas características essenciais para sua sobrevivência, tais como precipitação, temperatura e recursos do ambiente. Muitas espécies apresentam distribuição restrita a uma pequena região, enquanto outras ocorrem sobre boa parte da superfície terrestre. Esses diferentes padrões de distribuição são relacionados às exigências de cada espécie para a sua sobrevivência, que é o nicho dessa espécie; e quanto mais exigente for a espécie, menos lugares aptos à ocupação ela terá.

Em função da relação das espécies com o clima, mudanças climáticas podem tornar o ambiente em que uma espécie ocorre inapropriado para a sua permanência, e a espécie pode ser extinta ou pode buscar outros locais com condições ideais para a sua sobre vivência. Esse fenômeno, denominado migração, já ocorreu muitas vezes durante o tempo em que a vida é registrada na Terra, nos períodos glaciais e interglaciais. Nos períodos glaciais as espécies das regiões temperadas deslocaram-se para a zona tropical, enquanto as espécies típicas da zona tropical ficaram restritas a pequenos refúgios climáticos. Nos períodos interglaciais, as espécies das regiões

temperadas retornaram para as suas áreas de origem, enquanto os refúgios tropicais se expandiram por toda a zona tropical, formando o padrão de vegetação e de comunidades semelhante ao atual. Alguns exemplos de espécies que migraram para a região tropical, fugindo do resfriamento no período glacial, foram os canídeos (os ancestrais do nosso lobo guará) e felídeos (ancestrais das nossas onças). Essas alterações climáticas ocorreram em períodos longos, por isso, apesar de muitas espécies se extinguirem ou especiarem, muitas outras foram capazes de migrar para ambientes favoráveis e assim sobreviver.

Estamos em um período interglacial, caracterizado por um aumento na temperatura global. No entanto, atividades antrópicas têm promovido a elevação da temperatura e alterações na precipitação em uma velocidade maior que a de evolução de muitas espécies, o que acarreta em perdas na biodiversidade. Os anfíbios são animais especialmente sensíveis a alterações climáticas,

principalmente na intensidade e frequência da precipitação. Não por acaso, o primeiro registro comprovado de extinção pelas atuais mudanças climáticas globais é de um anfíbio. O sapo dourado (Bufo periglenes), restrito a uma floresta nebulosa na Costa Rica, foi declarado como extinto em 1989, apenas 29 anos após ser descoberto. Essa extinção foi atribuída a alterações climáticas ocorridas em 1986 e 1987, que produziram um clima anormalmente quente e seco. Nesse período,

diversos outros anfíbios tiveram suas populações drasticamente reduzidas.

A sobrevivência dos jacarés e tartarugas também é ameaçada pelas mudanças climáticas. Nessas espécies a temperatura do ninho determina o sexo dos filhotes e peque nas alterações na temperatura (<2°C) podem modificar drasticamente o número de machos e fêmeas nascidos. Um estudo desenvolvido com uma tartaruga de água doce norte americana (Chrysemys picta) demonstrou que um aumento na temperatura de 4°C eliminaria a produção de machos, o que promoveria a extinção dessa espécie após a última geração de fêmeas.

As mudanças climáticas também afetam as interações ecológicas. O comportamento fenológico das plantas (época e intensidade do brotamento, floração e frutificação) é relacionado à temperatura e precipitação. Por isso, alterações no clima podem promover mudanças no período e na quantidade de brotos, flores e frutos produzidos. Alterações no brotamento podem afetar espécies de herbívoros, além de alterar as taxas locais de captação de CO2. Mas as variações na floração e frutificação são mais preocupantes para a sobrevivência das espécies de polinizadores e dispersores, pois essas interações são mais específicas; há tipos de flores e de frutos para cada grupo de polinizadores ou dispersores. Por isso, para a manutenção das populações de polinizadores e dispersores em uma comunidade é necessário que flores e frutos sejam produzidos durante todo o ano. Alterações no comportamento fenológico de muitas plantas já foram observadas; em alguns ambientes foram registrados períodos de incoerência da floração com a presença dos polinizadores, fato que influencia diretamente na sobrevivência dessa planta, do polinizador e dos dispersores. Quando lembramos que as comunidades são regidas por redes de interações e que todas as espécies estão interligadas, o problema toma proporções muito maiores.

 

o que acontece com as especies quando o clima muda?

As mudanças climáticas não influenciam apenas espécies, podem influenciar todo um bioma. Elevações na temperatura e diminuições na precipitação têm tornado diversos ambientes mais áridos, promovendo inclusive a desertificação de muitas áreas no nordeste do Brasil. Devido aos indiscutíveis efeitos sobre os ecossistemas naturais, modelos matemáticos baseados no nicho foram desenvolvidos e usados para prever a distribuição das espécies e comunidades nos próximos anos. Esses modelos demonstram quadros muitas vezes preocupantes, com diversas espécies diminuindo a sua área de ocorrência, transformando grandes áreas de ocorrências contínuas em áreas pequenas e disjuntas. Outras espécies, entretanto, podem aumentar muito a sua distribuição, como é o caso de Lutzomyia whitmani, um mosquito vetor da leishmaniose. Se isso ocorrer, a leishmaniose pode expandir para diversas áreas anteriormente livres dessa zoonose. Em relação aos efeitos sobre os biomas, estudos propõem a expansão do cerrado para áreas sul do Brasil que vão se tornar inóspitas para a floresta atlântica, o que pode afetar a sobrevivência das florestas de araucária.

As mudanças climáticas globais não atuam sozinhas na redução da biodiversidade, outras alterações promovidas pelo homem, como destruição e fragmentação de habitats e invasão biológica, também tem grande influência. Nessa realidade, a criação de novas áreas de preservação, de corredores ecológicos, além do estímulo à redução das emissões de CO2 e a programas de sequestro de carbono são ações determinantes para a preservação de muitas espécies.

Rúbia Santos Fonseca é bióloga, mestre e doutora em Botânica pela UFV. Desenvolve pesquisas na área de fenologia e biologia reprodutiva de plantas nativas.


 

Como citar esse documento:

Fonseca, R.S. (2013). O que acontece com as espécies quando o clima muda? Folha biológica 4 (Edição especial 2-3): 2

A preservação começa com a conscientização

Willian Lopes Silva

 

Quando se trata de Conservação da Biodiversidade, um dos grandes problemas que enfrentamos hoje é encontrar uma forma de mudar o foco do homem, de uma visão exploradora para uma visão de sustentabilidade. A consciência humana precisa ser voltada para o mundo não humano. Assim como compreendemos facilmente que nós o “dominamos” e dele usufruímos para nossa sobrevivência, devemos nos ver como seus protetores. É preciso que nos vejamos como promotores da sustentabilidade, vivendo em harmonia no planeta e sobrevivendo com os recursos que dele precisamos. Hoje, desmatar uma área para plantio, botar fogo em uma pastagem, usar excessiva quantidade de agrotóxicos nas lavouras, jogar dejetos nos rios, não são vistos como um atentado à humanidade. A maioria pensa apenas em lucrar e expandir o mercado, esquecendo que a cobertura vegetal e a biodiversidade animal são uma garantia de vida para seus descendentes.

Ecologicamente falando, apenas uma espécie, seja animal ou vegetal, não consegue se manter viva. Existem as necessárias interações ecológicas, que possibilitam a sobrevivência de um ecossistema inteiro. Apenas nós, e algumas espécies de monoculturas, não garantiremos o futuro do planeta, visto que não é só de alimento que precisamos. Também precisamos de novos remédios, de novas fontes de nutrientes, de tantos recursos quanto podemos imaginar.

É necessária uma mudança de atitude quanto à conservação da biodiversidade. Para conseguir isso, um trabalho forte em conscientização precisa ser feito. Mas a conscientização, para ser eficiente, deve vir acompanhada de propostas realizáveis de sustentabilidade. Enquanto apenas algumas pessoas verem a conservação da biodiversidade como algo importante nada vai mudar. Isso tem de ser postulado em caráter de urgência. E não só os profissionais engajados na conservação da biodiversidade têm a obrigação de falar e fazer. Isso é do interesse de todos, economistas, biólogos, advogados, empresários, religiosos, imprensa, políticos e trabalhadores rurais. Todos vivemos em um só lugar, uma só casa: o planeta Terra.  O homem, por milhares de anos, viveu em harmonia com a natureza, retirando dela o que seria usado para seu sustento e nada mais, além disso. O fato é que a população humana no planeta nesse tempo era minoria e nem se imaginava a possibilidade de nos tornarmos sete bilhões e termos que produzir industrialmente quase tudo o que utilizamos para uma manutenção confortável da vida.

Diante disso, o nosso desafio de viver em harmonia com a natureza se tornou muito maior. E o homem demorou muito tempo para perceber isso. Mas as esperanças não foram perdidas. Grandes empresas estão nos dando exemplos de que isso é possível, aliando uma produção em massa com a sustentabilidade e a preservação da biodiversidade. Pelo menos uma empresa brasileira de cosméticos, por exemplo, oferece produtos com matéria prima proveniente de extração sustentável da Amazônia, além do uso de refis em seus produtos, diminuindo a produção de lixo. Ela promove um trabalho junto à população local, oferecendo emprego e ao mesmo tempo conservando a biodiversidade.  Muitas empresas de celulose exibem com orgulho em seus produtos que todo o material vegetal é proveniente de reflorestamentos. Atitudes como essas são seguidas por muitos outros setores de produção industrial e alimentícia. Grandes latifundiários e pequenos agricultores também se aliaram, fazendo plantios programados através da associação e rotação de cultura, conseguindo assim obter lucro e conservar a natureza ao mesmo tempo.

Já está mais que provado que não é preciso aumentar a área plantada para aumentar a produção de grãos. Temos ferramentas como o melhoramento genético a nosso favor. Portanto, é possível, seguindo estes exemplos, mudarmos nosso modo de agir.  Para conseguirmos preservar o nosso meio ambiente precisamos nos ver dentro dele, como parte dele. Uma grande mudança começa em pequenos atos. Em nossos pequenos atos de cuidar do nosso lixo, de dar preferência a produtos biologicamente corretos, enfim, estamos nos conscientizando, e espalhando uma mensagem. E é o consenso das mais diferentes pessoas da sociedade em prol dessa única causa que irá alavancar todo o mundo.

Mudar esse quadro lastimável é um dever nosso. Este pequeno texto, mesmo sendo uma gota d’água no oceano de informações que temos hoje, não se deixou subjugar, e está tentando contribuir para a busca de um mundo melhor. Contribua você também!

 

Willian Lopes Silva é acadêmico do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba e bolsista do programa de Iniciação à Extensão – PIBEX.


 

Como citar esse documento:

Silva, W.L. (2012). A preservação começa com a conscientização. Folha biológica 3. (1): 1

Desbravadores da Natureza

Simone Rodrigues Slusarski

 

Os naturalistas que vieram ao Brasil no século XIX haviam tomado a difícil decisão de viajar, pois além dos perigos da viagem, a comunidade científica não era unânime quanto à valorização do trabalho do viajante.  Muitos dos mais importantes naturalistas europeus nunca viajaram. Para esta função treinava-se jardineiros coletores, desenhistas, pintores e preparadores de animais que acompanhavam ou substituíam os próprios naturalistas.   O exemplo mais conhecido do pesquisador que defendia a viagem como parte indispensável foi Alexander von Humboldt. Acreditava que as impressões estéticas vivenciadas pelo viajante, fazia parte da atividade científica e não podia ser substituída por descrições ou amostras destacadas dos lugares de onde foram tiradas. Alguns dos viajantes-naturalistas que vieram ao Brasil e foram influenciados por esta ideia de Humboldt, como Martius e Saint Hilaire, optaram pelas expedições, pelo simples fato de “ver com os próprios olhos” e assim produzir ciência in loco. Muitos cientistas vieram ao Brasil e cada um deixou uma importante contribuição científica retratando o ambiente, a história e os costumes de nossos povos.

Langsdorff esteve aqui em 1803 e retornou em 1813 como cônsul da Rússia. Em 1820 foi encarregado pelo governo Russo a organizar uma expedição científica, a qual fizera parte Riedel e Freyreiss. Esta missão organizou um herbário com 60.000 exemplares que foi levado para São Petersburg, hoje Leningrado. Sellow nasceu em 1789 na Alemanha, conheceu Humboldt e Langsdorff, veio jovem para o Brasil e com recursos financeiros dos dois amigos pode desenvolver suas pesquisas. Foi Sellow o botânico que forneceu a maior quantidade de material utilizado na Flora Brasiliensis, publicação de Martius.  Maximiliano, um naturalista possuidor de recursos financeiros, viajou pelo Brasil de 1815-1817. Em 1820 publicou “Reise nach Brasilien”, retratando a flora e a fauna, com várias ilustrações de próprio punho. Na mesma época, Auguste de Saint Hilaire, por influência de Conde de Luxemburgo, permaneceu no Brasil de 1816-1822. Além de coleta de material zoológico e botânico, contribuiu com observações da geografia humana, história e etnogeografia. Uma de suas obras mais famosas é a Flora Brasiliae Meridionalis, em colaboração com Jussieu e Cambessedés. Em uma passagem nos relatos de suas expedições, Saint-Hilaire retrata a  diversidade da Mata Atlântica:

“Nada aqui lembra  a cansativa monotonia de nossas florestas de carvalhos e de pinheiros; cada árvore tem, por assim dizer, um porte que lhe é próprio; cada uma tem sua folhagem e oferece frequentemente uma tonalidade de verde diferente das árvores vizinhas. Vegetais, que pertencem a famílias distantes, misturam seus galhos e confundem suas folhas”.  

Ele documentou também a extensa devastação feita em nossas matas pelo homem branco, referindo-se ao fato de que as pastagens são queimadas anualmente a fim de se obter erva fresca para o gado e que os fornos de Ipanema eram aquecidos com toras de peroba. Até o presente momento, estes trabalhos foram relevantes para a flora brasileira, porém a obra mais extensa e de maior importância para o Brasil, no que diz respeito a sua vegetação, foi a de Carl Friedrich Phillipp von Martius.  Martius nasceu na Baviera em 17 de abril de 1794, veio ao Brasil integrante de uma comitiva de sábios reunidos para acompanhar D. Leopoldina, a Arquiduquesa que havia contraído casamento com Pedro I, herdeiro da coroa portuguesa. Os pesquisadores chegaram ao Brasil em 15 de julho de 1817 e iniciaram imediatamente suas expedições pelas matas de Santa Tereza, Tijuca e Niterói.  Além da taxonomia de plantas superiores escreveu também sobre nossas plantas medicinais, criptógamas, observações fitogeográficas, questões etnogeográficas, assuntos linguísticos, costumes indígenas e organizou um mapa fitogeográfico do Brasil. Influenciado por Metternich, Chanceler da Áustria, o imperador desse país e o rei da Bavieria se interessaram pelo trabalho do ilustre botânico e em 1840, foi publicado o primeiro fascículo da Flora Brasiliensis, no formato definitivo como hoje a conhecemos. A obra foi continuada por Eichler e posteriormente por Urban, culminando em 130 fascículos onde são descritas 20 mil espécies.

Muitos outros naturalistas também estiveram aqui com expedições mais restritas, mas também de grande importância. Podemos ressaltar Poeppig (1831-1832), dedicou-se a flora amazônica. Gardner, botânico inglês chegou ao Brasil em 1837, explorou as matas da Tijuca e a Serra dos Órgãos, expandindo mais tarde suas coletas.  Regnell, nascido na Suécia em 1807, veio para o Brasil em 1840, patrocinou expedições com Loefgren, Lindman e Malme.  Barbosa Rodrigues nasceu em 1842 em Minas Gerais, estudou a flora de vários estados, fundou o Museu Botânico que dirigiu até 1889, no ano seguinte foi nomeado Diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.  Outros botânicos como Hermann von Ihering, Pilger, Taubert, Leônidas Damásio, Lutzelburg, Schlechter, Pacheco Leão, Wetts- tein, Alberto Loefgren, além de outros não citados, também tiveram grande contribuição em pesquisas relacionadas com a flora brasileira.

 


 

Como citar esse documento:

Slusarski, S.R. (2011). Desbravadores de natureza. Folha biológica 2 (2):1

 

Zoologia, o estudo da fauna

Ana Lúcia Miranda Tourinho

A zoologia é uma área científica multidisciplinar. De um modo geral, pode ser definida como a ciência que estuda os representantes do reino animal em todos os seus aspectos.

O fascínio dos homens pelos animais atravessa a história, remontando um passado onde pinturas destes, muitos hoje extintos, eram feitas no interior de cavernas. Diversos povos de importância histórica como os egípcios e celtas possuíam tamanho deslumbramento pelos animais que estes eram representados em seus deuses, reverenciados e profundamente admirados.

Apesar desse interesse, foi com o trabalho do grego Aristóteles, “História dos animais”, que a zoologia passou a ser de fato ciência. Ele reuniu todos os fatos zoológicos conhecidos até então, e lançou um sistema de classificação para todos os animais.

Algumas obras importantes sucederam a publicação de Aristóteles, destacando-se Carl Linnaeus que criou o sistema nominal adotando dois nomes em latim (gênero e espécie) que é usado até os dias de hoje.

Entretanto, o grande marco revolucionário na zoologia aconteceu com o desenvolvimento da Teoria da Evolução das Espécies, proposta por Charles Darwin, mudando a atitude expoente do método científico utilizado na classificação dos animais.

A partir de 1950, com a proposição da Sistemática Filogenética por Willi Henning, a classificação passou então a uma teoria consistente de investigação e representação das relações de parentesco entre as espécies.

Pode-se dizer que a zoologia tem como objetivos principais descrever e explicar a diversidade faunística, identificar, avaliar e estudar os ajustes adaptativos das espécies ao meio, ou ecossistemas específicos, além de ocupar-se da história natural dos animais, sua evolução e filogenia. Diversos ramos da ciência são utilizados como base e sustentáculo para os estudos zoológicos.

 

 

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Por exemplo, a anatomia e morfologia consistem basicamente na observação e descrição das estruturas presentes no corpo dos animais, e estudo das organizações estruturais dos organismos. Não se ocupam apenas em descrever, mas também propõem comparações entre organizações estruturais. A Sistemática, Taxonomia e Filogenia estão no domínio da classificação biológica.

A sistemática pode ser definida como o estudo dos tipos e da diversidade da vida na Terra. É um campo de estudo contínuo que vai desde a rotineira atividade de nomear e descrever espécies, passando pela extensa compilação de compêndios faunísticos, até os mais sofisticados estudos dessas espécies  em classificações que descrevem suas relações de parentesco, análises biogeográficas, biologia de populações e genética, estudos evolutivos e de especiação.

A taxonomia envolve descrições de espécies e atribuições de nomes, é profundamente necessária quando um grupo de animais é recém descoberto e/ou está pobremente conhecido. A filogenia trabalha com os estudos evolutivos em si.

Outra área de trabalho para um zoólogo é a zoogeografia, que consiste na biogeografia animal. Biogeografia é uma ciência histórica, estuda os padrões de distribuição geográfica dos seres vivos, cruzando a história da Terra ao longo do tempo com a história morfológica dos seres vi- vos. Isso significa entender como as modificações morfológicas, e suas causas, são refletidas geograficamente.

Conhecer e compreender os mecanismos que governam a vida animal é de suma importância, pois o homem também está sob a regência dos mesmos mecanismos.

Todos os problemas que a humanidade vem  enfrentando ao longo da transição do século XX para o século XXI são biológicos, e estão intimamente relacionados com a zoologia. Esses problemas não poderão ser solucionados sem que conheçamos adequadamente a vida animal no planeta.

Ana Lucia Miranda Tourinho é bióloga, Mestre em Zoologia e Doutora em Ecologia. É pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA e atua na área de biologia de Aracnídeos.

 


Como citar esse documento:

Tourinho, A.L.M. (2010). Zoologia, o estudo da fauna. Folha biológica 1 (4): 1

Genética Ecológica – uma ferramenta para o estudo da biodiversidade

Rubens Pazza

 

Embora pareça novidade, a Genética Ecológica não é uma área nova. Na realidade, suas primeiras impressões vieram dos trabalhos de Darwin e Wallace, que primeiro relacionaram a Genética (variação) com a Ecologia (luta pela sobrevivência). Em termos simples, a Genética Ecológica é uma ciência que trabalha com a análise das variações genéticas inter e intrapopulacionais, que em última instância leva à adaptação e especiação. Assim, diferentes metodologias que avaliem a variabilidade de populações, espécies ou mesmo indivíduos podem ser utilizados como ferramenta para a Genética Ecológica. Mais recentemente, com o advento da biologia molecular, novas ferramentas permitiram a observação de variação em níveis cada vez mais refinados. Não apenas os avanços técnicos, mas também os avanços teóricos foram importantes para a consolidação desta área de estudo, como a teoria de metapopulações e as análises filogenéticas, por exemplo.

Uma das áreas de estudo da genética ecológica envolve a resolução dos problemas taxonômicos. Mas por que motivo os problemas taxonômicos seriam problemas ecológicos? Em primeiro lugar, um naturalista deve se preocupar em saber com que espécie está lidando, pois isso é imprescindível para a avaliação dos seus resultados. Quando um pesquisador afirma que determinada espécie de peixes apresenta desova total na época chuvosa, ele precisou avaliar vários exemplares da mesma espécie em diferentes épocas do ano para chegar a esta conclusão. Toda a sua hipótese depende da correta identificação dos exemplares observados. Entretanto, existem dois grandes problemas associados à identificação de espécies. O primeiro deles é em relação ao conceito de espécie em si. O que realmente é uma espécie? O “conceito biológico” de Mayr-Dobzhansky pode ser útil para muitos organismos, mas não para todos nem para todas as situações.  Em segundo lugar, existem muitos grupos de organismos onde a identificação taxonômica ao nível de espécie é extremamente complicada do ponto de vista morfológico. Para tentar resolver o segundo caso, metodologias mais refinadas como a de marcadores genéticos (citogenética, marcado- res moleculares, sequenciamento de trechos de DNA nuclear e mitocondrial), por exemplo, podem ser úteis. Mais recentemente, a utilização de um pequeno trecho do gene da citocromo oxidase I do DNA mitocondrial (COI) tem apontado para novos rumos na identificação de espécies por meios moleculares. É o chamado código de barras de DNA (DNA barcoding), que pressupõe que a variação encontrada nesta região do genoma mitocondrial é suficiente para identificar espécies distintas.

Os estudos ecológicos ganharam um importante aliado na identificação de espécies por meio de marcadores genéticos. Além das questões ecológicas clássicas, das inter-relações entre populações e espécies em um ecossistema, esta ferramenta também é bastante útil em questões mais aplicadas, como a identificação de espécies quando a morfologia está descaracterizada. Um exemplo interessante é o reconhecimento e a certificação de madeiras como pertencentes a espécies não ameaçadas, evitando ou coibindo crimes ambientais. O mesmo vale para carnes processadas, seja para evitar o uso indevido de espécies ameaçadas, ou mesmo para garantir que o atum enlatado é realmente atum, e não bonito, um peixe da mesma família e de carne semelhante, mas com menor valor de mercado ou ainda, para literalmente, não levar gato por lebre!

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e Doutor em Genética e Evolução. É professor do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.


Como citar esse documento:

Pazza, R. (2010). Genética Ecológica – uma ferramenta para o estudo da biodiversidade. Folha biológica 1 (3): 4