A Explosão do Cambriano: a maior diversificação da vida na Terra

O evento conhecido como a Explosão do Cambriano é um episódio único na história da vida na Terra, pois ele caracteriza a maior diversificação de animais marinhos até hoje, onde originou a maioria das formas corporais conhecidas atualmente. Todos os filos de animais identificados no registro fóssil surgiram no Cambriano, período datado como entre 542 milhões de anos atrás (M.a.) e cerca de 488 M.a.. No período Cambriano, havia uma vasta extensão de mares rasos que estavam sobre grandes áreas continentais, o então recém-formado megacontinente da Gondwana se posicionava onde hoje chamamos de polo sul.

O termo “explosão” pode dar uma impressão errônea sobre a diversidade e surgimento da vida na Terra. A vida não apareceu do nada, como em um estalo de dedos, ela foi se desenvolvendo ao longo de milhões de anos através da evolução proposta por Charles Darwin e Alfred Wallace, onde vários filos se diversificaram ao longo de diferentes eras. Muitos fósseis de animais já foram encontrados datando de antes do Cambriano, como por exemplo, a “estranha” fauna que viveu nos oceanos do período Ediacarano há cerca de 575 milhões de anos atrás. Muitas dos ancestrais das linhagens Cambrianas podem ser pertencentes à fauna Ediacarana.

Antes da “explosão” do Cambriano ocorrer, no período Ediacarano, os ecossistemas no fundo do mar raso eram dominados por recifes de pináculos formados por cianobactérias. Nesse período, os mares que sustentavam uma fauna quase “alienígena”, tinham tão pouco oxigênio que nenhum peixe moderno seria capaz de sobreviver ali. Um tapete de microorganismos cobria o fundo oceânico, onde os animais de planos corporais exóticos sobreviviam. A maioria desses animais era séssil (fixo no solo ou outro substrato), mas alguns eram capazes de se locomover cegamente sobre os tapetes microbianos. A vida animal era bastante simples e não havia a presença de predadores especializados.

O surgimento de um novo ecossistema mais complexo tomou o lugar do anterior, culminando em um mundo governado por animais extremamente móveis e cheios de características anatômicas inovadoras. Havia vermes com brânquias e com agilidade suficiente para esmagar suas presas, móveis ou imóveis com a força de suas mandíbulas, grandes artrópodes com olhos e pernas compostos também apareceram nesse período.

Há muito se especula sobre o que ocasionou essa grande “explosão” evolutiva da vida. Alguns estudiosos argumentam sobre o aumento do oxigênio nos oceanos, que colocando mais energia no ecossistema teria provocado tal explosão. Outros argumentam sobre as novidades evolutivas, como a visão e nova habilidade de forrageio (como o organismo procura e captura sua presa), que teriam surgido e impulsionado a diversificação dos grupos numa corrida presa/predador. Atualmente, através de estudos, sabe-se mais sobre as características físicas e químicas daquele período e com isso, muitas teorias sobre o que ocasionou esse evento se mostram bastante simplistas. Com isso, sabe-se hoje que o que realmente ocasionou essa diversificação foi não só uma, mas várias pequenas mudanças no ambiente e consequentemente nos organismos, desencadeando uma alta pressão seletiva que culminou em um grande evento evolutivo. De fato, o surgimento de predadores foi o grande passo evolutivo que cruzou limites ecológicos, impulsionando a diversificação dos mais diversos seres devido à necessidade de sobrevivência na relação predador-presa. A ascensão dos predadores levou à explosão de diferentes formas corporais e comportamentos que foram capazes então de encher os ecossistemas oceânicos da época.

Em resumo, muitos cientistas dizem que a “explosão Cambriana” é, sem dúvidas, o evento mais significativo da evolução e diversificação da vida na Terra, devido à grande quantidade de novidades evolutivas que apareceram em um “curto” período de tempo.

Gabriella Katlheen Leles cursa Ciências Biológicas na Universidade Federal de Viçosa.

Fontes: 1. Fox D (2016) What sparked the Cambrian explosion? Nature, 530(7590), 268–270. doi:10.1038/530268a Marshall CR (2006) EXPLAINING THE CAMBRIAN “EXPLOSION” OF ANIMALS. Annual Review of Earth and Planetary Sciences, 34(1), 355–384.

Volume 3, Número 1

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