As plantas que vivem sobre o ferro

As diferentes espécies e formas de vida da vegetação que existem ao nosso redor estão intimamente relacionadas com o tipo de solo em que estão estabelecidas. A fertilidade e a profundidade do solo selecionam as plantas que vão ocupar cada ambiente. Geralmente, onde há florestas os solos são profundos e férteis, pois as árvores são exigentes em nutrientes e em uma área maior de solo para expandir suas raízes, indispensáveis para a sustentação do tronco. Por outro lado, em solos rasos ou mais pobres em nutrientes estabelecem formas de vida de menor porte e adaptadas a essas condições.

Fig 1- Campo rupestre.

Diferentes tipos de vegetação, em resposta a diferentes solos, podem ser observadas na Amazônia, Mata Atlântica e Cerrado. No Cerrado existem vegetações campestres (campo limpo), savânicas (cerrado sensu stricto) e até florestais (cerradão); classificadas em função do hábito dominante, da composição florística e das propriedades dos substratos, que vão de rasos e pobres nos campos a profundos e ricos nas florestas. As vegetações campestres caracterizam-se por serem mais abertas, com predominância de gramíneas e poucas espécies lenhosas. As fitofisionomias savânicas são dominantes na paisagem e ocupam cerca de 65% da área do Cerrado. A vegetação do cerrado sensu stricto é formada por um estrato arbustivo-arbóreo com caule suberoso, ramificado e retorcido e outro herbáceo-graminoso e contínuo. As vegetações florestais apresentam espécies lenhosas com galhos tortuosos, distribuídas de forma mais adensada, com alturas variando de seis a oito metros.

Fig 2- Vegetação de canga.

Em muitos locais no Brasil ocorrem os afloramentos rochosos, como pontos isolados no espaço caracterizados pelo solo raso ou ausente, incluindo vários habitats relacionados com características da rocha. A vegetação associada a afloramentos rochosos sobre topos de serras e chapadas de altitudes superiores a 900 m e em rochas quartzíticas ou areníticas é chamada “campo rupestre” (Figura 1), quando ocorre acima de 1500m e em afloramentos de rochas de granito/gnaisse é denominada campo de altitude (espécies típicas desses campos são as Vellozia spp. (canela-de-ema) e Paepalanthus spp. (sempreviva)). Outros afloramentos que podem ser observados nos diferentes biomas são os de rochas ferruginosas, que apresentam elevada concentração de ferro. No Brasil estima-se que a cobertura total desses ambientes é de 10000 hectares. Em Minas Gerais os campos ferruginosos estão concentrados principalmente no Quadrilátero Ferrífero, com uma área de aproximadamente 7.200km2.

Fig 3. Ipomoea cavalcantei, espécie que ocorre apenas em campo rupestre da Amazônia.

A vegetação associada à afloramentos de rochas ferruginosas (também se inclui o conceito de Campos Rupestres) dá-se o nome de “Campos ferruginosos” ou “Vegetação de canga” (Figura 2). A alta concentração de metais pesados no solo é tóxica para muitas espécies vegetais, exigindo tolerância ao ferro para que consigam se adaptar ao ambiente e manter sua sobrevivência nessas condições. No Brasil, tais campos ocorrem principalmente no Quadrilátero Ferrífero e Triângulo Mineiro (MG), no domínio do Cerrado, e na Serra de Carajás (PA), no domínio da Floresta Amazônica. A vegetação muda completamente em função da natureza da rocha, sendo diretamente influenciada pela disponibilidade e acúmulo de nutrientes. Sendo assim, o cerrado rupestre, por apresentar vegetações inseridas entre as fendas das rochas, onde há um acúmulo maior de nutrientes, possui aspecto de savana (estrato herbáceo e/ou arbustivo-arbóreo), enquanto que em campos ferruginosos há menor proporção de espécies arbóreas devido ao menor acúmulo de nutrientes nas reentrâncias das rochas. Os domínios em que os campos ferruginosos estão inseridos influenciam-nos diretamente. Sobre a canga de Carajás ocorre grande riqueza de espécies distintas, como Ipomoea carajasensis, I. cavalcantei (Figura 3) e I. marabaenses, devido a presença da floresta amazônica circundando-a e do clima diferenciado ali existente. Já em outras cangas do país, a riqueza de espécies é menor: Lychnophora pinaster (Figura 4) ocorre apenas em cangas de Minas Gerais, Arthrocereus glaziovii só ocorre no quadrilátero ferrífero, e há espécies comuns de afloramentos rochosos de todo o Brasil como Vellozia compacta (Figura 5), Tibouchina multiflora e Dasyphyllum candolleanum.

Fig 4- Lychnophora pinaster ocorre apenas em cangas de MG.

Curiosamente, cerca de 97% da reserva de ferro do país está presente nessas áreas, o que faz com que a conservação desses ambientes seja afetada constantemente em função das práticas de mineração muito comuns nesses locais. Apesar disso, a conservação é indispensável, dada à singularidade desses ambientes, tanto em termos estruturais quanto florísticos, quanto por apresentarem nível elevado de endemismo de várias espécies. Os campos rupestres são considerados centros de diversidade de famílias como Eriocaulaceae, Xyridaceae e Velloziaceae, e de vários gêneros de Melastomataceae, Ericaceae e Asteraceae. Além da distribuição restrita, são pouquíssimas as unidades de conservação que contém essas comunidades, sendo o Parque Estadual da Serra do Rola Moça, próximo de Belo Horizonte, a mais destacada.

Fig 5- Vellozia compacta, espécie comum dos campos rupestres brasileiros.

Fernanda de Fátima Santos Soares é bióloga e mestranda na Unicamp na área de Botânica; Rúbia Santos Fonseca é bióloga, mestre e doutora em Botânica pela UFV. Atualmente é professora temporária da UFV, campus Rio Paranaíba. Desenvolve pesquisas na área de fenologia e biologia reprodutiva de plantas nativas

Campos de murundus: Pouco conhecidos e muito ameaçados

Os pequenos animais que vivem no solo desempenham papeis de grande importância, os quais, na maioria das vezes, nem mesmo percebemos. Desde 1881, o grande naturalista Charles Darwin já havia observado a importância das minhocas para a formação dos solos e estabelecimento de diferentes vegetações. Desde então, pôde-se perceber que os distintos animais presentes no solo não são apenas habitantes, são também agentes fundamentais para diversos processos que ocorrem ali, fazendo que esse solo seja um complexo ecossistema. A constante atividade desses seres ao logo do tempo faz com que o ambiente e os elementos que o compõem (tipo de solo, nutrientes do solo, vegetação, etc.) sejam dinâmicos.

Os campos de murundus são exemplos claros da importância da atividade de pequenos animais na formação de um ecossistema diferenciado. Murundus são montes de terra que possuem forma arredondada, distribuídos ao longo de terrenos mais baixos, periodicamente alagados, encontrados em algumas paisagens do Cerrado. Esses “montes de terra” são formados por colonizações sucessivas de cupins, correspondendo a ninhos ativos ou não, que resistem aos processos de erosão do solo. A erosão, processo de carreamento de partículas do solo dos locais mais altos para os mais baixos, tenderia a nivelar a paisagem se não fosse a atividade intensa dos cupins em transportar solo de baixo para a superfície. Esse comportamento contribui para o aumento dos murundus, e consequentemente, para o aumento do território de forrageamento dos cupins durante os períodos de alagamento.

O processo de formação dos murundus é dinâmico, mesmo após a formação de grandes montes de terra, a atividade desses pequenos animais não para, podendo superar 3 metros de altura.

Do ponto de vista ecológico, os murundus são ecossistemas muito interessantes, pois se diferem dos ambientes circundantes, tanto pela constituição dos solos quanto pela vegetação e fauna que os habitam. Nos espaços entre murundus predominam solos com poucos nutrientes, com maior capacidade em reter água e maior proximidade com o lençol freático, o qual pode ser encontrado com um metro de profundidade, mesmo durante a estação seca. Nesses locais são encontradas espécies vegetais campestres resistentes ao período de alagamento, sendo ausente árvores e arbustos. Já nos murundus, os solos são mais drenados, livres do alagamento sazonal e com maior teor de nutrientes, resultantes do aporte de materiais dos cupins e da ciclagem de uma vegetação mais vigorosa, como árvores e arbustos do Cerrado. Durante os períodos de alagamento, os murundus tornam-se verdadeiras ilhas (Figura 2), capazes de abrigar plantas lenhosas que normalmente são intolerantes à saturação hídrica do solo, além dos cupins e outros animais, mantendo-os a salvos dos excessos de água.

Os murundus espalham-se pela paisagem conferindo-lhe um aspecto de micro relevos ou pequenos “mares de morros”, o que proporciona uma beleza peculiar. Além da beleza paisagística, os campos de murundus são importantes por comportarem uma vasta diversidade de espécies do Cerrado, no entanto, também representam um dos ecossistemas mais ameaçados pela antropização. Atualmente, com a expansão das fronteiras agrícolas, esses campos vêm sofrendo um alto grau de perturbação com a implantação de drenos para o escoamento superficial da água do solo e nivelamento da superfície, tornando-os propícios para o desenvolvimento da agricultura extensiva. O risco iminente já foi reconhecido pelo Estado de Goiás, onde os campos de murundus já são considerados Áreas de Preservação Permanente (Lei estadual nº 16.513/2007). No entanto, fora desse Estado, os campos de murundus continuam sendo alvos do avanço agrícola sobre o Cerrado. Por esse motivo, a proteção desses ecossistemas é essencial para que continuem embelezando as paisagens já bastante degradadas, e preservando as espécies, tanto da flora como da fauna do Cerrado.

Cibele de Cássia Silva é bióloga e mestranda em Ecologia e Evolução pela UFG Daniel Meira Arruda é biólogo, mestre e doutorando em Botânica pela Universidade Federal de Viçosa.

A grande riqueza das pequenas espécies do Cerrado

O Cerrado é o segundo maior domínio do Brasil, superado apenas pela Amazônia. Ele cobre uma área de dois milhões de km², e ocorre em 14 estados brasileiros. Nesse domínio ocorrem vegetações distintas, como florestas (os cerradões), campos (os campos limpos e campos rupestres), até formações savânicas, os cerrados sensu stricto, ou cerrado típico, que ocupam 70% da área total.

O cerrado sensu stricto é caracterizado pela existência de árvores de pequeno a médio porte com troncos retorcidos, de modo que as copas dessas árvores não se toquem. Abaixo delas existe um tapete contínuo de plantas de pequeno porte, conhecidas como ervas e arbustos. Essas espécies permanecem toda a sua vida próximas ao nível do solo, e não desenvolvem lenho ou madeira, ou seja, nunca irão virar árvores. Elas germinam suas sementes, crescem, reproduzem e morrem num período de tempo muito curto em relação às árvores, que sobrevivem décadas ou séculos.

Estima-se que para cada árvore exista de cinco a seis ervas, muitas ainda não descobertas pela ciência. O estrato herbáceo, que é a comunidade das ervas, possui espécies temporãs, ou seja, que podem ser visualizadas apenas em uma época do ano, seca ou chuvosa. Essas plantas também apresentam diversas adaptações a falta de água e nutrientes e presença constante do fogo.

Prestonia erecta, uma erva com ocorrência restrita ao Cerrado.

Os primeiros estudos sobre as “plantinhas” do cerrado brasileiro iniciaram na década de 1980, quando começou a se vislumbrar a riqueza e o potencial desconhecido dessas espécies. Tradicionalmente sabemos que as ervas são usadas para alimentação e produção de medicamentos. Outra utilidade é na recuperação de áreas degradadas, uma vez que elas cobrem e protegem o solo, mantendo a umidade e os nutrientes, o que favorece a reconstrução da vida no solo e acima dele. Além disso, devido à variação de cores, formas e beleza, as ervas têm grande potencial para paisagismo e ornamentações em geral. Atenta a essa diversidade também está a indústria química e farmacêutica, já que muitas moléculas são utilizadas na cura de doenças e criação de bioprodutos.

Hoje, a elevada biodiversidade e a presença de espécies que só ocorrem neste local, colocam o Cerrado como um dos ambientes mais diversos e ricos do planeta. Apresentando mais de 12.000 espécies vegetais descritas, sendo que 61% só existem exclusivamente nessa vegetação, por isso é um dos hotspost (pontos quentes) para se conservar no mundo.

Cochlospermum regium, um subarbusto símbolo do cerrado sensu stricto.

Entretanto, o crescimento econômico do país provocou fortes modificações neste bioma, levando a redução de mais de 65% da cobertura original e, consequentemente, à extinção de várias plantas que nem sequer foram descobertas. Para outras espécies, o extrativismo excessivo vem ameaçando a sua sobrevivência, como é o caso do Alecrim-do-campo (Anemopaegma arvense). Seus extratos foram patenteados por grupos de pesquisadores japoneses para o uso em cosméticos, gerando demanda e superexploração dessa espécie, o que a deixou atualmente em perigo de extinção. Para enfrentar esse cenário precisamos de muitos esforços, investimentos e políticas públicas que permitam a formação de cientistas capazes de reconhecer, conservar e manejar de forma sustentável a maior riqueza do planeta: a biodiversidade.

Márcio Venícios Barbosa Xavier, Estudante de Graduação em Engenharia Florestal.UFMG. Rúbia Santos Fonseca, mestre e doutora em Botânica pela UFV. Professora de Dendrologia e Sistemática Vegetal da UFMG

Projeto Amigos do Cerrado

O cenário mundial atual demonstra um aumento da degradação do meio ambiente, o que faz com que a preocupação com a preservação da natureza seja cada vez maior. Assim, a educação ambiental se insere como uma das mais importantes ferramentas para cumprir o papel de destacar a importância de cuidar de todo o meio que nos cerca.

Cientes da importância do conhecimento para a conscientização, alunos do curso de Ciências Biológicas da UFV campus Rio Paranaíba, em parceria com a fazenda Platô Azul, em Tiros-MG, criaram o Projeto Amigos do Cerrado, cujo objetivo é ensinar crianças do ensino fundamental, e consequentemente, pais e professores, sobre a importância do meio natural e da qualidade de vida no meio urbano, destacando a responsabilidade de cada um na preservação da natureza, especialmente do Cerrado, bioma onde a região do Alto Paranaíba está inserido. O projeto contou com o apoio da Drogaria Alves & Lima, Creditiros – Sicoob e Agroboi; e orientação do professor Dr. Donizete A. Batista.

O Projeto foi implantado na Escola Municipal João Francisco Capetinga, no município de Tiros,-MG. Na sua primeira etapa de implantação, que ocorreu entre os meses de março à julho de 2016, participaram crianças de 3 à 11 anos, as quais receberam noções básicas sobre ecologia e meio ambiente, com conteúdo adaptado para a faixa etária do público-alvo.

Na primeira visita à escola, a temática apresentada abordou “O mundo, as relações entre os organismos vivos e a preocupação com os recursos naturais”. Ao final das explicações, a interação dos alunos com os ministrantes ultrapassou quaisquer expectativas, com inúmeras perguntas e uma recepção muito calorosa. Obtivemos reações que variaram do total encanto até o medo tímido que logo foi quebrado, quando apresentamos a coleção entomológica da UFV – CRP. Os alunos perceberam a importância e a beleza dos seres vivos mais diversos do planeta: os insetos.

No segundo encontro, o tema abordado foi “A riqueza do Cerrado”. Mesmo que a cidade esteja inserida neste bioma, havia pouco conhecimento sobre suas características. Para complementar os conhecimentos adquiridos, houve uma exposição de animais empalhados cedidos pelo Laboratório Didático de Biologia Evolutiva de Vertebrados, UFV – CRP, além de plantas típicas do Cerrado. O fascínio das crianças pelos animais foi visível, ajudando na conscientização da riqueza do nosso Cerrado. Houve também um momento de descontração onde as crianças puderam conhecer um pouco mais sobre os frutos nativos da região, através de picolés da Frutos do Cerrado.

No terceiro levamos as crianças do 4º e 5º ano para conhecer a Fazenda Platô Azul, onde foi realizado um passeio pela área de Cerrado preservado, aonde puderam observar tudo que lhes foi apresentado em sala de aula. Além disso, foi possível conhecer o cultivo de café lado a lado com a vegetação nativa, demonstrando cultivar e preservar a biodiversidade, simultaneamente. Ao final da visita houve o plantio mudas de jatobá na sede da fazenda Platô Azul, a experiência mais marcante do dia.

Por fim, na quarta visita, os integrantes do projeto “botaram a mão na massa” e construíram uma horta na escola, contando com a ajuda da prefeitura de Tiros e de diversos parceiros. Usando pneus velhos de tratores e canteiros, os alunos plantaram hortaliças que futuramente seriam usadas no preparo da merenda escolar. Além da diversão garantida, todas as crianças que participaram puderam perceber a importância da atividade e o destaque de como pequenas ações podem ajudar o meio ambiente. A iniciativa foi abraçada pela escola e pelos alunos, que se comprometeram a cuidar da manutenção da horta com todo carinho.

O encerramento do projeto ficou a cargo da Escola, que convidou os pais dos alunos para fazer parte da iniciativa e se tornarem perpetuadores dos conhecimentos adquiridos pelas crianças. Houve a exposição das diversas atividades extraclasse deixadas com as professoras pelos integrantes do projeto, além de lindas homenagens feitas pelos alunos e professores para aqueles que tornaram esse projeto possível.

O resultado não poderia ser diferente, para os alunos ficou enraizada a importância do Cerrado. Para nós, uma experiência única que promoveu ainda mais nosso crescimento e aprendizagem. E, além disso, também ficou um carinho recíproco entre alunos, professores e demais profissionais da escola e nós, os quais tivemos a honra de ensinar algo de tamanha importância.

Autores: Larissa Alves de Lima, Mitchel Iago Alves Costa, Cintya Lisboa e Sabrina Almeida