Zoológicos: heróis ou vilões?

A história dos zoológicos se iniciou há milhares de anos. De acordo com estudos das civilizações antigas, o homem desde o início de sua adaptação ao ambiente urbano, mantém animais selvagens em cativeiro em benefício próprio, como proteção e alimentação. No século XV, as realezas europeias também iniciaram o aprisionamento de animais a fim de seu próprio entretenimento e demonstração de seu domínio sobre terras estrangeiras.

Com a Revolução Industrial, e a ascensão da burguesia, esses zoológicos sustentados pela realeza começaram a passar por diversas mudanças. Animais antes “propriedade” da realeza, foram transferidos para burgueses e emergentes e assim, em meados do século XIX, os zoológicos abertos à visitação pública através do pagamento de ingressos começaram a se popularizar. Com isso, zoológicos foram considerados por muitos anos meros entretenimentos, sem considerar o bem-estar animal.

Se a história dos zoológicos não é conhecida por priorizar o bem estar animal, pode se dizer que hoje isso é primordial para um zoológico funcionar, tanto pela ética quanto pela moral. A partir do século XX surgiu uma maior preocupação com a importância dos bichos e seu bem-estar físico e mental e com isso, a existência de animais selvagens em cativeiro só é possível para conservar as espécies, a biodiversidade e o patrimônio natural.

Para tal, a educação ambiental é extremamente importante, bem como o pensamento conservacionista e o fomento a ciência. Apesar do que ouvimos falar sobre a visitação aberta ao público, é necessário entender que ela é muito importante para a educação ambiental, pois somente assim, chegaremos ao respeito e consciência coletiva da importância da biodiversidade para o planeta. Além disso, em teoria, o valor arrecadado pelos ingressos é destinado para a sobrevivência do próprio zoológico.

Atualmente os animais encontrados em zoológicos, em sua grande maioria, são aqueles que não conseguem mais sobreviver na natureza, muitas vezes vítimas das próprias ações humanas. Há inúmeros papéis importantes que os zoológicos desempenham. No Brasil essas instituições trabalham efetivamente na reprodução de animais em cativeiros como, por exemplo, o mutum-de-alagoas que é uma espécie extinta na natureza, mas que apresenta sucesso de reprodução em cativeiro. Em casos como esse o zoológico age como um suporte a preservação desses organismos que futuramente, com auxilio de pesquisadores e demais órgão ambientais competentes poderão ser reintroduzidos na natureza.

Contudo, não podemos fechar os olhos para os diversos zoológicos que não visam à preservação, conservação e bem-estar dos animais. Um caso famoso desse tipo de instituição é o antigo zoológico de Luján, situado na Argentina. Considerado como um ponto turístico imperdível em Buenos Aires esse jardim zoológico foi fechado por apresentar praticar antiéticas como aplicação de sedativos nos animais para a aproximação do publico. É fato que ainda existem diversas falhas nos zoológicos atuais, mas precisamos enxergar um futuro para essas instituições tão importantes para a vida selvagem. A ideia é a priorização total do animal, depois o restante, como a educação ambiental. Para isso precisamos lembrar que de nada adianta demonizar toda uma ideia, onde diversas instituições e profissionais sérios trabalham incansavelmente em prol da biodiversidade se não cobrarmos e lutarmos para que a vida em todas as suas formas, em todos os ambientes e por todas as pessoas, começando por nós mesmos, seja respeitada. É preciso sempre confrontar e questionar, mas também entender e respeitar.

Gabriella Katlheen Leles é Bióloga formada pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba.

Pontos quentes para conservação? O que são os hotspots?

Entende-se por hotspots (pontos quentes) áreas naturais com prioridade em se conservar a níveis globais em virtude de elevada diversidade biológica, mas que grande parte de sua extensão (mais de 70%) tenha desaparecido ou passa por degradação intensiva. O conceito surgiu diante de um questionamento recorrente entre ecólogos: dentre todas as áreas nativas do mundo, quais possuem proeminente diversidade em risco de desaparecimento e que necessitam de urgente proteção?

Mata Atlântica, Hotspots que ocupa o primeiro lugar em urgência para se conservar no planeta.

A expressão hotspots foi empregada no ramo da biodiversidade em 1988 pelo ecólogo inglês Norman Myers, no entanto, não existiam indicadores quantitativos para tal definição. Contudo, a partir de 1996, uma região deveria abrigar pelo menos 1.500 espécies vasculares endêmicas, ou seja, exclusivas do local, além de ter 75% de sua vegetação inicial derrubada para ser considerada hotspot.

Na atualidade existem 35 hotspots, os quais denotam uma riqueza de 77% de todos os animais terrestres, sendo que mais de 40% são endêmicos e abrigam quase 50% de toda a diversidade da flora existente num espaço que corresponde a 2,3% do território mundial. Logo, se todos estes locais fossem destruídos, a humanidade perderia mais de 75% das espécies de répteis, aves, mamíferos e anfíbios e praticamente 25% da riqueza vegetal global. Não obstante, o extermínio de somente uma dessas áreas seria uma perda inestimável, dado que todos os hotspots possuem biodiversidade única. Isso causaria uma catástrofe em todos os seguimentos da vida, já que se perderia o avanço em todas as ciências, como por exemplo, potencialidades para a cura de doenças como AIDS e câncer, alimentos ainda não descobertos e a ligação com a cultura e história das civilizações. No Brasil existem dois hotspots, a Mata Atlântica e o Cerrado. A Mata Atlântica foi o primeiro a sofrer modificações humanas, já que se concentra no litoral, local de chegada e colonização inicial dos Portugueses. A sua urbanização foi intensa ao ponto de se desenvolver os centros mais populosos da América do Sul (Rio de Janeiro e São Paulo), ocupando boa parte de sua porção. Este processo fez com que uma extensão natural de 1.200.000 km² fosse reduzida para menos de 60.000 km² (5%). Ressalta- -se que a maior parte deste total remanescente (4,1%) se encontra protegido por lei em unidades de conservação. Este hotspot guarda 20.000 espécies vegetais vasculares catalogadas, sendo 8.000 de ocorrência exclusiva. A fauna também é valiosa, 1.020 espécies de aves, 340 anfíbios, 261 mamíferos e 197 espécies de répteis. Por essa razão, dentre todos os hotspots, este é o mais criticamente ameaçado.

Ocupando um território original de 2.000.000 km², detendo 5% das espécies mundiais e 30% da biodiversidade brasileira, o Cerrado é outro importante hotspot nacional. Diferente da Mata Atlântica, está situado em meio ao continente, predominantemente no Brasil Central. No século XVIII se iniciavam os primeiros esforços de melhoria de infraestrutura, industrialização e avanço na pesquisa agropecuária e de solos nesta localidade, culminando num importante polo do agronegócio do país. Contudo, este crescimento gerou a derrubada de mais de 55% de sua cobertura primária. O domínio retém aproximadamente 12.000 espécies de plantas sendo 4.000 endêmicas. Além disso, abriga 837 espécies de aves, 199 mamíferos, 150 anfíbios e 120 espécies de répteis. Estes números fizeram com que o Cerrado brasileiro fosse eleito a savana neotropical mais rica de todas as nações.

Cerrado, Hotspots eleito a savana mais rica do planeta.

Apesar de tamanha importância, menos de 3% da área remanescente se encontra protegido na forma de unidades de conservação de proteção integral. A pressão exercida pelo crescimento populacional descontrolado sem se preocupar com o meio ambiente trouxe enormes prejuízos para biodiversidade do planeta. Através da consciência de proteção destas áreas foram propostos os hotspots ecológicos e alguns poucos instrumentos protetores de áreas estratégicas para conservação. No entanto, muito ainda deve ser feito, bem como criação de leis, parques e principalmente a conscientização, em razão dos recursos naturais serem finitos. O Brasil possui a flora mais rica do planeta. Sua conservação, permitirá mais pesquisas científicas e o uso racional da biodiversidade, trazendo novas perspectivas e levará o país ao avanço rumo à Bioeconomia. Vamos conservar esses bens naturais da biodiversidade!

Márcio Venícius Barbosa Xavier Graduando em Engenharia Florestal Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG Instituto de Ciências Agrárias Montes Claros, MG, Brasil.

Curiosidade: por que os pandas são pretos e brancos?!

Cientistas resolveram estudar o porquê dos pandas (Ailuropoda melanoleuca) apresentarem o padrão de coloração preto e branco. Isso já foi descoberto para as zebras, que utilizam a distribuição de suas listras como uma maneira de repelir insetos voadores que as picam. Mas e nos pandas? Qual a finalidade?

“O nome em chinês para panda significa urso-gato, mas há registros históricos de que a grafia significa comedor de bambu”.

No estudo, os pesquisadores fizeram a comparação das partes separadas do corpo do panda com outras espécies de urso. Os resultados encontrados apontam que as marcações servem para camuflagem e comunicação entre a espécie. A mistura entre a coloração preta e branca permite que o animal consiga se camuflar tanto na época quente quando na frio, já que habitam ambientes de florestas tropicais e também montanhas nevadas. Além disso, o padrão de cores facilita o reconhecimento entre os indivíduos da população. Orelhas escuras podem indicar ferocidade, e o preto ao redor dos olhos pode auxiliar na identificação entre eles e até mesmo significar agressividade em momentos de competição.

A camuflagem é de extrema importância para esses animais. Mas por que? A alimentação dos pandas é baseada praticamente em bambus. Sendo assim, sua reserva energética é limitada, não permitindo que consiga hibernar por longos períodos, como várias outras espécies de ursos. Diante disso, precisam estar ativos durante todo o ano, variando de habitats para a busca de seu alimento.

Medidas de conservação são amplamente aplicadas nesses animais, já que sua caça acontece com certa frequência. A principal finalidade da caça está relacionada com a comercialização da pele do panda, já que é muito valorizada no mercado asiático pra fabricação de casacos e cobertores.

Como resultado de ações conservacionistas, a espécies, que antes era dada como ameaçada de extinção, agora se encontra na lista de espécies vulneráveis. A intensificação de sua proteção é imprescindível para a melhora na classificação da espécie de acordo com seu risco de extinção e manutenção de suas populações no ambiente.

Rosana Mesquita é bióloga e mestranda em Manejo e Conservação de Ecossistemas Naturais e Agrários na Universidade Federal de Viçosa – Campus Florestal.

Batcavernas Neotropicais

Como todos nós sabemos muito bem, a batcaverna é o lugar preferido do Batman, assim como a Fortaleza da Solidão é para o Super-Homem. Na batcaverna, o homem-morcego pode bolar tranquilamente seus diversos planos sobre como salvar Gotham do mal, sem que o Alfred venha lhe incomodar, mandando-lhe arrumar a cama. Mas já imaginou se existissem um bocado de batcavernas, quentinhas e aconchegantes, onde morcegos de regiões neotropicais pudessem habitar?

O termo “cavernas quentes” se refere à algumas câmaras subterrâneas localizadas em regiões neotropicais. Essas câmaras servem de moradia para um bocado de morcegos. Mas a vida nas cavernas não é nada fácil,os morcegos que o digam, pois o calor que faz lá é imenso, entre 28 e 40ºC. Isso acontece por causa do calor corporal emanado pela grande quantidade de espécies de morcegos desses locais. Daí vem o nome “cavernas quentes”, que funcionam como “batcavernas coletivas”.

Em um artigo do ano de 2012 publicado pela revista científica Conservation Biology, alguns pesquisadores destacam a importância da fauna das espécies de morcegos para a estabilidade do microclima dessas regiões. Eles dizem que o que diferencia essas cavernas quentes das cavernas tradicionais é a densidade de morcegos, pois, enquanto as cavernas tradicionais possuem um número que é relativamente pequeno de indivíduos, as cavernas quentes podem chegar a ter centenas de milhares de morcegos. Logo, quanto mais morcego, maior será o calor do ambiente.

Além dos morcegos, os autores desse trabalho mencionam que essas cavernas também abrigam outros organismos, como, por exemplo algumas espécies de artrópodes. Acontece que o prato predileto dos artrópodes das cavernas quentes são as fezes (eca!) de nossos morceguinhos. Embora para nós esse cardápio seja um tanto esquisito, outros trabalhos revelam que ele é muito apreciado por vários besouros, e que, tanto o cocô dos morcegos, como o microclima dessas cavernas propiciam o lar adequado para esses artrópodes. Contudo, diferente dos morcegos, a fauna desses artrópodes ainda é muito pouco conhecida, devido à baixa quantidade de estudos sobre eles.

O artigo aproveita também para falar sobre algumas adaptações biofísicas dos morcegos desenvolvidas ao longo do tempo evolutivo, que adequam a vida deles aos ambientes das cavernas quentes. Eles conseguem reduzir sua taxa metabólica, além de possuírem morfologia adequada para a conservação de água: as membranas naturalmente ressecadas de suas asas são essenciais para reduzirem a perda de água quando estão enchendo o papo fora do microclima úmido da floresta.

Agora chegamos ao lado trágico história. Infelizmente, os ambientes das cavernas quentes vêm sendo ameaçado pelas atividades dos seres humanos, principalmente no que diz respeito à extração do guano (nome chique para o cocô do morcego), que é utilizado frequentemente como fertilizante. Além disso, o trabalho também menciona o quanto a urbanização, a agricultura, o turismo e outras ações antrópicas afetam a vida dos organismos que vivem nessas cavernas. De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, mais de 8 milhões de toneladas de cimento são produzidos por ano nas ilhas do Caribe, e isso é possível devido à extração de calcário das cavernas quentes existentes na região.

Mas esse não é o fim da história: no artigo os autores também, apresentam oportunidades para a conservação desses ambientes. Mesmo existindo um bom conhecimento a respeito das cavernas quentes, ainda há muito que se descobrir, e estudar as variáveis ambientais, a ecologia e a distribuição geográfica dos organismos que vivem nesses lugares é um passo decisivo para conhecermos mais sobre seu nicho ecológico. E conhecer o nicho ecológico de um determinado grupo possibilita aos cientistas tomar as medidas adequadas para preservar os seres vivos.

Arthur Filipe da Silva – Graduando em Ciências Biológicas – Universidade Federal de Alagoas.

Referência:
Ladle, R.J. et al. (2012). Unexplored Diversity and Conservation Potential of Neotropical Hot Caves. Conservation Biology. DOI: 10.1111/j.1523­1739.2012.01936.x

Originalmente publicado no blog Causos da Ciência: http://causosdaciencia.blogspot.com.br

Jacaretinga ­- seriam realmente importantes?

O Caiman crocodilus da família Alligatoridae, conhecido popularmente por jacaretinga ou jacaré-­de-­óculos, é encontrado desde o sul do México até o noroeste da América do Sul. É o mais comum dentre os crocodilianos brasileiros, sendo estimado mais de um milhão de animais, apesar de algumas populações terem sido reduzidas. O jacaretinga é um réptil carnívoro que recebe este nome devido ao seu dorso branco, em tupi a palavra tinga significa branco, os indivíduos jovens são mais amarelados com manchas e faixas escuras no corpo e no rabo, porém quando crescem, perdem sua coloração amarelada e as marcas ficam menos distintas, os adultos são verde-­oliva. São também conhecidos como jacaré­-de-­óculos, graças a uma estrutura óssea próxima aos olhos, como um par de óculos. É uma espécie extremamente adaptável encontrada em praticamente todos os habitats fluviais e lacustres, dentro de sua área de distribuição geográfica, e é facilmente encontrado ao longo da bacia amazônica e da bacia Tocantins.

Os machos podem atingir cerca de 2,5 metros e as fêmeas por volta de 1,6 metros, atingem uma média de 40 quilos. As fêmeas atingem a maturidade sexual entre 4 e 7 anos de idade, em geral quando medem 1,2 metros.O cruzamento ocorre na estação chuvosa. A fêmea faz um ninho aglomerando pequenas quantidades de vegetação seca e terra e põe ali entre 14 e 40 ovos, que demoram em média sessenta dias para eclodir; ao nascerem os filhotes possuem cerca de apenas 20 centímetros. Sua alimentação varia com seu crescimento, quando jovens predam uma grande variedade de invertebrados aquáticos como insetos, crustáceos e moluscos, quando adultos grande parte da sua dieta é formada por peixes, anfíbios, répteis, aves aquáticas e pequenos mamíferos.

A criação de animais silvestres em cativeiro para fins comerciais ou econômicos é regulada pelo IBAMA que fornece uma lista com as espécies silvestre onde esse manejo é permitido. O Jacaretinga tem o seu manejo para fins comerciais permitido, visando à venda da carne e do couro do animal. Se bem tratado o abate do animal ocorre aos 2 anos de idade, nesta fase a largura abdominal é de aproximadamente 27 cm, aumentando o valor do animal no mercado. A carne rende 1,7 quilos por animal, sendo vendido para restaurantes especializados, o couro necessita de um cuidado especial tanto para o abate do animal quanto para a retirada do mesmo, para que não ocorra dano ao couro, visando um melhor aproveitamento. A criação de jacaré pode ser lucrativa já que apenas 5% dos animais nascidos na natureza atingem a idade adulta, em cativeiro são 90%.O couro do animal caçado só tem 25% de aproveitamento, em cativeiro é de 100%, levando em consideração que a caça é ilegal.

O Jacaretinga foi categorizado como Menos Preocupante (LC) na lista de animais ameaçados da fauna brasileira, porém ainda assim, a caça e a destruição de habitats são grandes ameaça para algumas subpopulações. Os jacarés são ecologicamente importantes, uma vez que fazem o controle populacional de outras espécies, ao se alimentar dos indivíduos mais fracos e velhos e doentes, que não conseguem fugir realizam um controle biológico.

Planos de conservação e manejo lucrativo, como atrativo turístico local ou para a comercialização da carne e produtos derivados são uma forma de tentar viabilizar a manutenção das populações, e poderiam ser implementados em regiões de ocorrência da espécie dentro de unidades de conservação de uso sustentável,também a aplicação de leis ambientais em áreas de ocorrência da espécie fora de unidade de conservação deve ser urgente, com motivação de proteção dos ambientes aquáticos, dos quais depende diretamente a fauna aquática.

João Rafael Mena Romeiro, Samira Barcelos de Carvalho, Otávio Rodrigues Lopes e Israel Moreno Ferreira Silva – Graduandos do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba.

Ema, a maior ave brasileira – biologia e conservação

Rhea americana americana (Linnaeus, 1758), pertence à classe das Aves, Reino Animalia, e é também conhecida como “ema congo”; “nhandu”, “ñandú“ (que significa “a corredora” em guarani). Esta espécie é considerada a maior ave do Brasil. Em terra é a ave mais veloz das Américas perdendo apenas para o avestruz africano. No livro vermelho são classificadas como quase ameaçadas. Os adultos desta espécie podem medir de 1,27 até 1,40 metros. Estão distribuídas em regiões campestres, cerrados e áreas de uso agropecuário (tais como pastos e plantios de soja), mas apenas em locais onde não é alvo de perseguição. Estas aves são ratitas e utilizam as asas apenas para o equilíbrio. Bebem pouca água e em épocas de muito calor dormem durante o dia e as noites saem em busca do seu alimento. É uma ave onívora, com dieta baseada em insetos, roedores, répteis, capim e sementes.

Esta espécie pode viver em grupos de até 30 indivíduos. A época do acasalamento começa em outubro, e é dada pela dança do acasalamento (que consiste em saltos, abrir das asas, sacudir pescoço e alguns roncos) que é feita pelo macho, desta forma ele tende a reunir de 5 ou 6 fêmeas, e assim escolher um local para fazer o ninho.Cada fêmea põe de 10 a 30 ovos. Estes ficam fora do ninho e o macho se encarrega de arrumá­-los para a choca, rolando-os para dentro do ninho, quando este está cheio. O macho afasta as fêmeas e se responsabiliza por chocar os ovos, e as fêmeas retardatárias têm de botar os ovos apenas do lado do ninho. Os machos chegam a ficar oito semanas sem comer ou beber água ­ vivendo apenas de gordura corporal armazenada ­ para cuidar do ninho. Durante a choca o macho fica extremamente agressivo. Enquanto isso, as fêmeas vão acasalar com outros parceiros, podendo formar até três ninhos diferentes em uma mesma temporada.

Os ovos que não eclodem são colocados para fora do ninho ou são deixados para trás, servindo de alimento para predadores (lagartos, lobo-guará, felinos e gaviões) ou serão adotados por outro grupo de emas. Assim que os filhotes nascem, o cheiro liberado pelo que servirão de alimento dos filhotes. Suas crias ficam aos cuidados dos pais até atingirem a idade adulta. A maturidade sexual chega em torno de um ano e meio de idade ou dois anos.

Registros desta espécie onde a população humana é mais densa são escassos. Quando algo as assusta as emas abaixam o pescoço e se afastam de repente em um zigue-­zague ligeiro abrindo as asas e inflando a plumagem.

A criação desses animais silvestres tem sido uma das alternativas inovadoras econômica-conservacionistas que mais crescem no Brasil e no mundo.

A criação pode ser do tipo 1.intensivo, 2.semi-intensivo e 3.extensivo.

1.Sistema intensivo: os ovos são chocados em chocadeira e depois os filhotes são levados a piquetes onde irão receber alimentação abundante até atingir a época do abate.

2.Sistema semi-­intensivo: utiliza áreas naturais de campo ou cerrado onde pode ser criadas de 50 a 70 emas por hectare.

3. Sistema extensivo: pode ser feito o consórcio com bovinos, caprinas, capivaras e pacas recomendam-­se 10 emas por hectare.

Para deixar o ambiente de criação mais parecido com o natural, afim de evitar estresse e mau condicionamento é preciso algumas atividades que estimulem a busca, o conhecimento, a descoberta e o entretenimento do animal, isto pode ser feito através de certas medidas como:

•  Espalhar alimentos no chão para encorajar os animais a forragearem no solo, ou colocar bandejas em um ponto alto;

•  Introduzir lagos e grandes caixas com areia solta, o que despertará nos animais, o comportamento natural de se limpar;

•  Pendurar galhos com folhas frescas no alto e latas amassadas, tampas de garrafas e bolas coloridas;

•  Os recintos devem ter espaços grandes, com alguns troncos espalhados verticalmente pelo chão, possibilitando aos animais correr a toda velocidade, e afastar-se dos outros quando desejado;

Para iniciar uma criação de emas é preciso de muito planejamento e conhecimento sobre o mercado consumidor dos produtos e também sobre a espécie.

Ana Cláudia Alves, Caroliny Fernandes, Paloma Silva e Nathan Amorim ­- Graduandos do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa ­- Campus Rio Paranaíba.

Conservação ou Preservação?

Willian Lopes Silva

Wagner M. S. Sampaio

 

Os termos Preservação e Conservação são utilizados para estabelecer a relação Homem e Natureza e proteger o meio ambiente, porém são ideologicamente distintos. Esses termos foram introduzidos por dois precursores do ambientalismo Norte Americano com o intuito de proteger o meio ambiente, o naturalista John Muir e o engenheiro florestal e político Gifford Pinchot. O primeiro nos dá o sentido de intocabilidade, onde o ambiente precisa ser preservado no seu estado natural sem nenhuma intervenção humana por ser importante por si mesmo. Já o segundo nos trouxe a ideia da conservação em longo prazo, onde os recursos naturais devem ser usados com parcimônia para não serem esgotados pelas necessidades humanas. As ideias de Muir e Pinchot são muito importantes para proteção da natureza, mas nos trazem um resultado muito diferente quando colocadas em prática e se usadas erroneamente podem trazer prejuízos socioambientais incalculáveis. O Preservacionismo de Muir foi um movimento romântico e espiritual, acreditava que Deus criou o universo para o gozo de todos os seres vivos, e não apenas para os seres humanos. Já o conservacionismo de Pinchot foi um movimento progressista e científico. Fato tão verdadeiro que, por exemplo, a legislação Brasileira e muitos pesquisadores adotam uma integração entre esses termos.  Segundo o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis, para garantir a proteção da diversidade biológica de um país é preciso estabelecer um sistema de áreas protegidas. No Brasil, as áreas protegidas incluem as áreas de proteção permanente, as reservas legais, as reservas indígenas e as unidades de conservação. As unidades de conservação (UC) formam uma categoria de área protegida mais específica e efetiva que englobam bem os conceitos conservacionistas e preservacionistas. No nosso país as UC não possuem apenas função de proteger a diversidade biológica e são justamente estas outras funções que diferenciam as UC. Mas, no geral, as UC podem ser separadas em dois grandes grupos. O primeiro engloba Unidades de Conservação de Proteção Integral que são aquelas onde efetua-se a preservação dos ecossistemas em estado natural com um mínimo de alterações, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais). O segundo inclui as UC de Uso Sustentável (são aquelas onde haverá conservação dos atributos naturais, admitida a exploração de parte dos recursos disponíveis em regime de manejo sustentável). As ferramentas de proteção criadas pela legislação têm a necessidade de embasar suas aplicações em informações biológicas estratégicas, que muitas vezes são escassas ou inexistentes, levando à diminuição da eficiência dessas ferramentas. Os Estudos Ambientais muitas vezes ficam “escondidos” nos órgãos ambientais e nos contratos de confidencialidade entre consultores e empreendores, porém estes estudos precisam cumprir sua função social e científica e isso só será possível quando começarem a ser divulgados. Vê-se, pois, que só assim conseguiremos alcançar nosso objetivo de proteger o meio ambiente para de ele usufruir de forma sustentável ou simplesmente para sua manutenção. A proteção dos recursos naturais é direito público e subjetivo das futuras gerações. Podemos pensar nisso como nos diz a “Carta da Terra”: “A humanidade é parte de um vasto universo em evolução e a proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado de todos e juntos”.

 


 

Willian Lopes Silva é acadêmico do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba.

Wagner M. S. Sampaio é biólogo e mestre em Biologia Animal pela Universidade Federal de Viçosa, e atua na área de Ictiologia.

Como citar esse Documento:

Silva, W.L. ; Sampaio, W.M.S. (2013). Conservação ou Preservação? Folha biológica 4 (1):4

A preservação começa com a conscientização

Willian Lopes Silva

 

Quando se trata de Conservação da Biodiversidade, um dos grandes problemas que enfrentamos hoje é encontrar uma forma de mudar o foco do homem, de uma visão exploradora para uma visão de sustentabilidade. A consciência humana precisa ser voltada para o mundo não humano. Assim como compreendemos facilmente que nós o “dominamos” e dele usufruímos para nossa sobrevivência, devemos nos ver como seus protetores. É preciso que nos vejamos como promotores da sustentabilidade, vivendo em harmonia no planeta e sobrevivendo com os recursos que dele precisamos. Hoje, desmatar uma área para plantio, botar fogo em uma pastagem, usar excessiva quantidade de agrotóxicos nas lavouras, jogar dejetos nos rios, não são vistos como um atentado à humanidade. A maioria pensa apenas em lucrar e expandir o mercado, esquecendo que a cobertura vegetal e a biodiversidade animal são uma garantia de vida para seus descendentes.

Ecologicamente falando, apenas uma espécie, seja animal ou vegetal, não consegue se manter viva. Existem as necessárias interações ecológicas, que possibilitam a sobrevivência de um ecossistema inteiro. Apenas nós, e algumas espécies de monoculturas, não garantiremos o futuro do planeta, visto que não é só de alimento que precisamos. Também precisamos de novos remédios, de novas fontes de nutrientes, de tantos recursos quanto podemos imaginar.

É necessária uma mudança de atitude quanto à conservação da biodiversidade. Para conseguir isso, um trabalho forte em conscientização precisa ser feito. Mas a conscientização, para ser eficiente, deve vir acompanhada de propostas realizáveis de sustentabilidade. Enquanto apenas algumas pessoas verem a conservação da biodiversidade como algo importante nada vai mudar. Isso tem de ser postulado em caráter de urgência. E não só os profissionais engajados na conservação da biodiversidade têm a obrigação de falar e fazer. Isso é do interesse de todos, economistas, biólogos, advogados, empresários, religiosos, imprensa, políticos e trabalhadores rurais. Todos vivemos em um só lugar, uma só casa: o planeta Terra.  O homem, por milhares de anos, viveu em harmonia com a natureza, retirando dela o que seria usado para seu sustento e nada mais, além disso. O fato é que a população humana no planeta nesse tempo era minoria e nem se imaginava a possibilidade de nos tornarmos sete bilhões e termos que produzir industrialmente quase tudo o que utilizamos para uma manutenção confortável da vida.

Diante disso, o nosso desafio de viver em harmonia com a natureza se tornou muito maior. E o homem demorou muito tempo para perceber isso. Mas as esperanças não foram perdidas. Grandes empresas estão nos dando exemplos de que isso é possível, aliando uma produção em massa com a sustentabilidade e a preservação da biodiversidade. Pelo menos uma empresa brasileira de cosméticos, por exemplo, oferece produtos com matéria prima proveniente de extração sustentável da Amazônia, além do uso de refis em seus produtos, diminuindo a produção de lixo. Ela promove um trabalho junto à população local, oferecendo emprego e ao mesmo tempo conservando a biodiversidade.  Muitas empresas de celulose exibem com orgulho em seus produtos que todo o material vegetal é proveniente de reflorestamentos. Atitudes como essas são seguidas por muitos outros setores de produção industrial e alimentícia. Grandes latifundiários e pequenos agricultores também se aliaram, fazendo plantios programados através da associação e rotação de cultura, conseguindo assim obter lucro e conservar a natureza ao mesmo tempo.

Já está mais que provado que não é preciso aumentar a área plantada para aumentar a produção de grãos. Temos ferramentas como o melhoramento genético a nosso favor. Portanto, é possível, seguindo estes exemplos, mudarmos nosso modo de agir.  Para conseguirmos preservar o nosso meio ambiente precisamos nos ver dentro dele, como parte dele. Uma grande mudança começa em pequenos atos. Em nossos pequenos atos de cuidar do nosso lixo, de dar preferência a produtos biologicamente corretos, enfim, estamos nos conscientizando, e espalhando uma mensagem. E é o consenso das mais diferentes pessoas da sociedade em prol dessa única causa que irá alavancar todo o mundo.

Mudar esse quadro lastimável é um dever nosso. Este pequeno texto, mesmo sendo uma gota d’água no oceano de informações que temos hoje, não se deixou subjugar, e está tentando contribuir para a busca de um mundo melhor. Contribua você também!

 

Willian Lopes Silva é acadêmico do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba e bolsista do programa de Iniciação à Extensão – PIBEX.


 

Como citar esse documento:

Silva, W.L. (2012). A preservação começa com a conscientização. Folha biológica 3. (1): 1

Para quê servem as matas ciliares?

Simone Rodrigues Slusarski

 

A vegetação marginal aos cursos de água tem classificação diversificada no Brasil em decorrência, principalmente, da sua ampla distribuição e dos diferentes ambientes em que ocorre. É tratada na literatura com uma nomenclatura variada e confusa, dentre elas, floresta (ou mata) ciliar, de galeria, de várzea, ribeirinha, ripária (ripícola) ou aluvial estão entre as denominações mais comumente utilizadas, das quais mata ciliar é a mais popular. Em relação aos termos, ciliar é derivado de cílio, referindo-se a proteção; ripária significa próximo ao corpo de água; zona ripária é definida como um espaço tridimensional que abrange vegetação, solo e rio e ecossistema ripário quando se inclui sistemas, processos e mecanismos. Essa vegetação às margens dos cursos de água, na interface entre os ambientes aquáticos e terrestres, é denominada ecótono ripário. Alguns autores utilizam o termo vegetação ripária, aplicando-o a toda e qualquer vegetação da margem, pois o termo ripário permite abrangência não apenas da vegetação relacionada ao corpo de água, mas também aquela localizada nas suas margens.  A importância da vegetação ripária está relacionada às suas funções, dentre elas: estabilidade das margens pela manutenção e desenvolvimento de um emaranhado de raízes, evitando a erosão; armazenamento e qualidade da água da micro bacia por meio da filtragem de nutrientes, sedimentos e agrotóxicos; através de suas copas, intercepta e absorve a radiação solar, contribuindo para a estabilidade térmica dos pequenos cursos de água; mantém a biodiversidade do ecossistema aquático e terrestre;  atua como corredores ecológicos que interligam diferentes unidades fitogeográficas e permitem o deslocamento de animais e a dispersão de plantas; promove o aumento da complexidade dos habitats, que constituem abrigo e fonte alimentar para as faunas terrestre e aquática.

Apesar de sua inquestionável importância ambiental e social, as matas ciliares foram fragmentadas e devastadas em benefício do processo de ocupação do Brasil, para dar lugar às cidades, culturas agrícolas e pastagens, o que resultou na destruição dos recursos naturais. Além da falta de planejamento inicial, esse fato também ocorreu devido ao não cumprimento da lei, a falta de fiscalização e ao descaso às questões ambientais.   A faixa marginal aos corpos de água tem sua proteção assegurada no âmbito Federal por meio de Leis, Decretos de Regulamentação, Medidas Provisórias e Resoluções do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), além de legislações estaduais. A primeira lei que estabeleceu proteção das áreas marginais dos cursos de água foi o Código Florestal (Decreto no. 23.793, de 23 de Janeiro de 1934) revogado pelo Novo Código Florestal (Lei no. 4.771, de 15 de Setembro de 1965 e suas alterações, 1986 e 1989). De acordo com o artigo 2o, as matas ciliares abrangem, como área de preservação permanente, as florestas e demais vegetações existentes ao redor dos rios, nascentes, lagoas e reservatórios, especificando a dimensão mínima da faixa marginal a ser preservada (30-500m). Esta lei também impôs a necessidade de florestamento ou reflorestamento em áreas de preservação permanente.

Pelo rigor de suas restrições, atualmente o Novo Código Florestal está sendo amplamente discutido entre os vários setores da sociedade.  Este processo de eliminação das formações vegetais, dentre elas as matas ciliares, resultou num conjunto de problemas ambientais, como extinção de espécies da fauna e da flora, mudanças climáticas locais, erosão dos solos e assoreamento de rios. Em virtude desse panorama de degradação, aliada às questões legais, tem havido iniciativas de restauração da vegetação ripária por meio de pesquisadores vinculados à universidades, centros de pesquisas e órgãos públicos e privados, com objetivos de proteção de reservatórios de abastecimento público, de geração de energia, recuperação de áreas degradadas e, mais recentemente, fundamentadas em questões ecológicas, tais como corredores ecológicos, proteção de populações e/ou comunidades. Em meio a esse cenário, vale a pena refletirmos…

No que estão pautadas nossas decisões e atitudes cotidianas em relação à preservação dos recursos naturais? Tenho a real consciência de sua importância e que faço parte desse complexo meio ambiente? Ou apenas estou sendo levado pela recente “enxurrada” de marketing e modismo ambiental?

 


 

Como citar esse documento:

Slusarski, S.R (2011). Para quê servem as matas ciliares. Folha biológica 2 (1):3