Espécies alienígenas: uma grande ameaça em ação

A invasão, antes vista somente em filmes antigos com grandes nações que guerreavam por um trono ou em tramas que envolviam super-espiões ou heróis, recebe uma nova categoria, a biológica. Isso ocorre quando uma espécie é inserida em outro ambiente que não seja o de sua origem ou ocorrência natural (espécie exótica), nele se adapta e prolifera gerando desequilíbrio ecológico e se tornando uma espécie exótica-invasora.

A invasão biológica é uma das grandes vilãs na perda da biodiversidade mundial, pois altera toda dinâmica do ecossistema e coloca em risco a vida das espécies nativas. A questão é tão preocupante que o assunto foi o tema central na conferência da ONU sobre biodiversidade em Montreal, no Canadá, e desde 2001 o Ministério do Meio Ambiente adota medidas de combate a esse tipo de problema. O mosquito-da-dengue (Aedes aegypti), o gato-doméstico (Felis catus), o bambu (Bambusa sp.), a abelha europeia/africana (Apis mellifera) e a Minhoca- gigante-africana (Eudrilus eugeniae) são algumas das espécies exóticas que se estabeleceram no Brasil.

Achatina fulica, espécie de caramujo introduzida no Brasil desde a década de 1980.

Grande parte das plantas exóticas e invasoras possui hábito herbáceo-arbustivo, isto é, plantas de pequeno a médio porte e ciclo de vida curto. Poucos vegetais invasores são árvores, como por exemplo, Acácia (Acacia mangium) e o Nim indiano (Azadirachta indica). Contudo, a existência de diversos atributos torna algumas espécies invasoras autossuficientes, como a independência de polinizadores e dispersores para a produção e distribuição das suas sementes. A dispersão comumente ocorre por anemocoria ou autocoria, respectivamente pelo vento e ação da própria planta, o que promove uma rápida e eficaz dispersão em ambientes degradados. As áreas degradadas são preferidas pelas plantas invasoras, pois seu desequilibro facilita a entrada e o domínio dessas espécies. Em áreas conservadas, a grande competição existente entre as muitas espécies nativas que coexistem dificulta ou impede a entrada dessas invasoras, pois os recursos do ambiente já estão sendo usados por espécies altamente especializadas.

Há bastante tempo atrás o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) já percebia em seus trabalhos a presença de espécies comuns em vários lugares que não eram o de origem, o que evidenciava invasão biológica. Naquele tempo, não foi dada a merecida atenção a esse fenômeno, pois jamais se imaginaria os seus efeitos. O caso mais curioso é o do Caracol-gigante-africano (Achatina fulica), uma espécie de molusco introduzida no país na década de 1980 como uma forma alternativa ao escargot (Helix aspersa), um prato caro servido nos mais finos restaurantes. Pelo fato de possuir de rápida reprodução e poucos predadores naturais, tornou-se uma praga agrícola que se alastrou rapidamente pelo território.

Recentemente, pesquisas realizadas na África do Sul, Austrália, Brasil, Estados Unidos da América, Índia e Reino Unido, revelaram introdução de mais120 mil espécies exóticas de vegetais, microorganismos, animais. Estão nesta lista algumas que invadiram o Brasil, os pardais (Passerdomesticus), braquiária (Brachiaria decumbens) e o pombo (Columba livia). A invasão biológica tem degradado ambientes, promovido a dispersão de doenças, como o mosquito-da-dengue, e gerado muitos milhões em prejuízo para a sociedade. A complexidade do tema reforça a necessidade de estudos e a mobilização dos órgãos responsáveis para traçarem estratégias de combate ao avanço invasão alienígena, que ameaça a maior biodiversidade do planeta, a brasileira.

Márcio Venícius Barbosa Xavier é estudante de Graduação em Engenharia Florestal
pela UFMG.

Rúbia Santos Fonseca é Bióloga, mestre e doutorada em Botânica pela UFV e professora de Dendrologia e Sistemática Vegetal da UFMG.

Genética Ecológica – uma ferramenta para o estudo da biodiversidade

Rubens Pazza

 

Embora pareça novidade, a Genética Ecológica não é uma área nova. Na realidade, suas primeiras impressões vieram dos trabalhos de Darwin e Wallace, que primeiro relacionaram a Genética (variação) com a Ecologia (luta pela sobrevivência). Em termos simples, a Genética Ecológica é uma ciência que trabalha com a análise das variações genéticas inter e intrapopulacionais, que em última instância leva à adaptação e especiação. Assim, diferentes metodologias que avaliem a variabilidade de populações, espécies ou mesmo indivíduos podem ser utilizados como ferramenta para a Genética Ecológica. Mais recentemente, com o advento da biologia molecular, novas ferramentas permitiram a observação de variação em níveis cada vez mais refinados. Não apenas os avanços técnicos, mas também os avanços teóricos foram importantes para a consolidação desta área de estudo, como a teoria de metapopulações e as análises filogenéticas, por exemplo.

Uma das áreas de estudo da genética ecológica envolve a resolução dos problemas taxonômicos. Mas por que motivo os problemas taxonômicos seriam problemas ecológicos? Em primeiro lugar, um naturalista deve se preocupar em saber com que espécie está lidando, pois isso é imprescindível para a avaliação dos seus resultados. Quando um pesquisador afirma que determinada espécie de peixes apresenta desova total na época chuvosa, ele precisou avaliar vários exemplares da mesma espécie em diferentes épocas do ano para chegar a esta conclusão. Toda a sua hipótese depende da correta identificação dos exemplares observados. Entretanto, existem dois grandes problemas associados à identificação de espécies. O primeiro deles é em relação ao conceito de espécie em si. O que realmente é uma espécie? O “conceito biológico” de Mayr-Dobzhansky pode ser útil para muitos organismos, mas não para todos nem para todas as situações.  Em segundo lugar, existem muitos grupos de organismos onde a identificação taxonômica ao nível de espécie é extremamente complicada do ponto de vista morfológico. Para tentar resolver o segundo caso, metodologias mais refinadas como a de marcadores genéticos (citogenética, marcado- res moleculares, sequenciamento de trechos de DNA nuclear e mitocondrial), por exemplo, podem ser úteis. Mais recentemente, a utilização de um pequeno trecho do gene da citocromo oxidase I do DNA mitocondrial (COI) tem apontado para novos rumos na identificação de espécies por meios moleculares. É o chamado código de barras de DNA (DNA barcoding), que pressupõe que a variação encontrada nesta região do genoma mitocondrial é suficiente para identificar espécies distintas.

Os estudos ecológicos ganharam um importante aliado na identificação de espécies por meio de marcadores genéticos. Além das questões ecológicas clássicas, das inter-relações entre populações e espécies em um ecossistema, esta ferramenta também é bastante útil em questões mais aplicadas, como a identificação de espécies quando a morfologia está descaracterizada. Um exemplo interessante é o reconhecimento e a certificação de madeiras como pertencentes a espécies não ameaçadas, evitando ou coibindo crimes ambientais. O mesmo vale para carnes processadas, seja para evitar o uso indevido de espécies ameaçadas, ou mesmo para garantir que o atum enlatado é realmente atum, e não bonito, um peixe da mesma família e de carne semelhante, mas com menor valor de mercado ou ainda, para literalmente, não levar gato por lebre!

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e Doutor em Genética e Evolução. É professor do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.


Como citar esse documento:

Pazza, R. (2010). Genética Ecológica – uma ferramenta para o estudo da biodiversidade. Folha biológica 1 (3): 4