Aves frugívoras: Ecologia e conservação

Os serviços ecológicos, ecossistêmicos ou ambientais, são os papéis que cada espécie exerce no planeta. Estes serviços influenciam na vida e sobrevivência de todo ser vivo, inclusive na nossa. Ao admirar o fascinante tucano, com aquela beleza que mais parece uma pintura; ao ouvir a barulhenta vocalização das maritacas; ao contemplar a elegância do canto de um sanhaço ou de um sabiá, muitos nem imaginam o quão estamos ligados ecologicamente às aves.

Ave da família Psittacidae se alimentando de um fruto (PEREIRA, 2010)

As aves frugívoras, por exemplo, podem ser consideradas espécies dispersoras de sementes. Funciona assim, ao se alimentarem de alguns frutos as aves podem excretar ou regurgitar suas sementes, além de ocasionalmente carregarem alguns grãos em seu bico ou em suas garras, os eliminando durante o voo e o pouso. Em muitos casos, as sementes carregadas ao serem dispersas germinam no local depositado. Considerando que as aves, de forma geral, visitam muitos locais durante o dia, estes animais são muito importantes na dispersão de espécies, podendo transportar sementes a quilômetros de distância da planta mãe, fazendo assim que grupos vegetais prevaleçam e conquistem novos territórios. Devido a isso pode-se dizer que as aves auxiliam na restauração natural de áreas degradadas, sem que haja intervenção humana.

Em um estudo publicado na revista PeerJ em 2016, intitulado “Internal seed dispersal by parrots: na overview of a neglected mutualism”, foi observada a eliminação de sementes viáveis para germinação, em fezes de aves da família Psittacidae. Essa família trata-se do grupo ao qual pertencem aves como as maritacas, papagaios e araras, frugívoras que são tidas como predadoras e não dispersoras de sementes, uma vez que podem esmagar as sementes antes de engoli-las. Estes resultados ressaltam ainda mais a importância ecológica destas aves, visto que os predadores de sementes também tem importante papel na natureza, controlando a dispersão das plantas predadas e impedindo o aumento do número de plantas de determinada espécie, que poderia levar ao desequilíbrio ecológico.

É importante entender que, os benefícios que uma espécie proporciona a outra não são intencionais, mas sim consequências das interações entre elas. Fica evidente, portanto, a importância do entendimento destas interações, para melhor compreensão dos impactos causados por alterações ambientais ocasionadas pelo homem. A degradação de áreas naturais provoca a extinção de espécies como aves frugívoras de grande porte, as quais dispersam sementes grandes. Foi observado em um estudo nomeado “Functional Extinction of Birds Drives Rapid Evolutionary Changes in Seed Size”, publicado na revista Sciece em 2013, que as espécies de aves frugívoras que permanecem em áreas degradadas, são geralmente de pequeno porte, sendo assim, incapazes de dispersar sementes grandes. Ao longo dos anos, houve uma diminuição no diâmetro das sementes dessas plantas, visto que somente as sementes menores eram dispersas. Isso pode ser um problema para a vegetação, se considerado que as sementes menores por apresentar menor reserva energética e menor capacidade de resistir à seca, tem menor chance de sobrevivência. É Destacada a necessidade de se desenvolver consciência ambiental, para que possamos viver em harmonia com a natureza, a qual fazemos parte e cuja deterioração também nos afeta. Que a partir de agora, estas aves sejam vistas como realmente são, importantes atores ambientais e não apenas por sua beleza e canto.

Lays Martins Coelho é técnica em meio ambiente e cursa Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba.

Espécies alienígenas: uma grande ameaça em ação

A invasão, antes vista somente em filmes antigos com grandes nações que guerreavam por um trono ou em tramas que envolviam super-espiões ou heróis, recebe uma nova categoria, a biológica. Isso ocorre quando uma espécie é inserida em outro ambiente que não seja o de sua origem ou ocorrência natural (espécie exótica), nele se adapta e prolifera gerando desequilíbrio ecológico e se tornando uma espécie exótica-invasora.

A invasão biológica é uma das grandes vilãs na perda da biodiversidade mundial, pois altera toda dinâmica do ecossistema e coloca em risco a vida das espécies nativas. A questão é tão preocupante que o assunto foi o tema central na conferência da ONU sobre biodiversidade em Montreal, no Canadá, e desde 2001 o Ministério do Meio Ambiente adota medidas de combate a esse tipo de problema. O mosquito-da-dengue (Aedes aegypti), o gato-doméstico (Felis catus), o bambu (Bambusa sp.), a abelha europeia/africana (Apis mellifera) e a Minhoca- gigante-africana (Eudrilus eugeniae) são algumas das espécies exóticas que se estabeleceram no Brasil.

Achatina fulica, espécie de caramujo introduzida no Brasil desde a década de 1980.

Grande parte das plantas exóticas e invasoras possui hábito herbáceo-arbustivo, isto é, plantas de pequeno a médio porte e ciclo de vida curto. Poucos vegetais invasores são árvores, como por exemplo, Acácia (Acacia mangium) e o Nim indiano (Azadirachta indica). Contudo, a existência de diversos atributos torna algumas espécies invasoras autossuficientes, como a independência de polinizadores e dispersores para a produção e distribuição das suas sementes. A dispersão comumente ocorre por anemocoria ou autocoria, respectivamente pelo vento e ação da própria planta, o que promove uma rápida e eficaz dispersão em ambientes degradados. As áreas degradadas são preferidas pelas plantas invasoras, pois seu desequilibro facilita a entrada e o domínio dessas espécies. Em áreas conservadas, a grande competição existente entre as muitas espécies nativas que coexistem dificulta ou impede a entrada dessas invasoras, pois os recursos do ambiente já estão sendo usados por espécies altamente especializadas.

Há bastante tempo atrás o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) já percebia em seus trabalhos a presença de espécies comuns em vários lugares que não eram o de origem, o que evidenciava invasão biológica. Naquele tempo, não foi dada a merecida atenção a esse fenômeno, pois jamais se imaginaria os seus efeitos. O caso mais curioso é o do Caracol-gigante-africano (Achatina fulica), uma espécie de molusco introduzida no país na década de 1980 como uma forma alternativa ao escargot (Helix aspersa), um prato caro servido nos mais finos restaurantes. Pelo fato de possuir de rápida reprodução e poucos predadores naturais, tornou-se uma praga agrícola que se alastrou rapidamente pelo território.

Recentemente, pesquisas realizadas na África do Sul, Austrália, Brasil, Estados Unidos da América, Índia e Reino Unido, revelaram introdução de mais120 mil espécies exóticas de vegetais, microorganismos, animais. Estão nesta lista algumas que invadiram o Brasil, os pardais (Passerdomesticus), braquiária (Brachiaria decumbens) e o pombo (Columba livia). A invasão biológica tem degradado ambientes, promovido a dispersão de doenças, como o mosquito-da-dengue, e gerado muitos milhões em prejuízo para a sociedade. A complexidade do tema reforça a necessidade de estudos e a mobilização dos órgãos responsáveis para traçarem estratégias de combate ao avanço invasão alienígena, que ameaça a maior biodiversidade do planeta, a brasileira.

Márcio Venícius Barbosa Xavier é estudante de Graduação em Engenharia Florestal
pela UFMG.

Rúbia Santos Fonseca é Bióloga, mestre e doutorada em Botânica pela UFV e professora de Dendrologia e Sistemática Vegetal da UFMG.

Genética Ecológica – uma ferramenta para o estudo da biodiversidade

Rubens Pazza

 

Embora pareça novidade, a Genética Ecológica não é uma área nova. Na realidade, suas primeiras impressões vieram dos trabalhos de Darwin e Wallace, que primeiro relacionaram a Genética (variação) com a Ecologia (luta pela sobrevivência). Em termos simples, a Genética Ecológica é uma ciência que trabalha com a análise das variações genéticas inter e intrapopulacionais, que em última instância leva à adaptação e especiação. Assim, diferentes metodologias que avaliem a variabilidade de populações, espécies ou mesmo indivíduos podem ser utilizados como ferramenta para a Genética Ecológica. Mais recentemente, com o advento da biologia molecular, novas ferramentas permitiram a observação de variação em níveis cada vez mais refinados. Não apenas os avanços técnicos, mas também os avanços teóricos foram importantes para a consolidação desta área de estudo, como a teoria de metapopulações e as análises filogenéticas, por exemplo.

Uma das áreas de estudo da genética ecológica envolve a resolução dos problemas taxonômicos. Mas por que motivo os problemas taxonômicos seriam problemas ecológicos? Em primeiro lugar, um naturalista deve se preocupar em saber com que espécie está lidando, pois isso é imprescindível para a avaliação dos seus resultados. Quando um pesquisador afirma que determinada espécie de peixes apresenta desova total na época chuvosa, ele precisou avaliar vários exemplares da mesma espécie em diferentes épocas do ano para chegar a esta conclusão. Toda a sua hipótese depende da correta identificação dos exemplares observados. Entretanto, existem dois grandes problemas associados à identificação de espécies. O primeiro deles é em relação ao conceito de espécie em si. O que realmente é uma espécie? O “conceito biológico” de Mayr-Dobzhansky pode ser útil para muitos organismos, mas não para todos nem para todas as situações.  Em segundo lugar, existem muitos grupos de organismos onde a identificação taxonômica ao nível de espécie é extremamente complicada do ponto de vista morfológico. Para tentar resolver o segundo caso, metodologias mais refinadas como a de marcadores genéticos (citogenética, marcado- res moleculares, sequenciamento de trechos de DNA nuclear e mitocondrial), por exemplo, podem ser úteis. Mais recentemente, a utilização de um pequeno trecho do gene da citocromo oxidase I do DNA mitocondrial (COI) tem apontado para novos rumos na identificação de espécies por meios moleculares. É o chamado código de barras de DNA (DNA barcoding), que pressupõe que a variação encontrada nesta região do genoma mitocondrial é suficiente para identificar espécies distintas.

Os estudos ecológicos ganharam um importante aliado na identificação de espécies por meio de marcadores genéticos. Além das questões ecológicas clássicas, das inter-relações entre populações e espécies em um ecossistema, esta ferramenta também é bastante útil em questões mais aplicadas, como a identificação de espécies quando a morfologia está descaracterizada. Um exemplo interessante é o reconhecimento e a certificação de madeiras como pertencentes a espécies não ameaçadas, evitando ou coibindo crimes ambientais. O mesmo vale para carnes processadas, seja para evitar o uso indevido de espécies ameaçadas, ou mesmo para garantir que o atum enlatado é realmente atum, e não bonito, um peixe da mesma família e de carne semelhante, mas com menor valor de mercado ou ainda, para literalmente, não levar gato por lebre!

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e Doutor em Genética e Evolução. É professor do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.


Como citar esse documento:

Pazza, R. (2010). Genética Ecológica – uma ferramenta para o estudo da biodiversidade. Folha biológica 1 (3): 4