O fantástico mundo das orquídeas

As orquídeas, plantas de uma exuberante beleza, pertencem à família Orchidaceae, umas das maiores dentre as angiospermas. Este grupo é composto por aproximadamente 790 gêneros e o número de espécies é estimado em 25000 a 30000. Possuem ampla distribuição, não sendo encontradas apenas em regiões polares e desérticas, e a maior diversidade localiza-se nas regiões tropicais da América e da Ásia.

Há estimativas que no Brasil ocorram cerca de 195 gêneros e entre 2500 e 3000 espécies de orquídeas distribuídas em todos os biomas. Nosso país é o terceiro em número de espécies destas plantas, precedido apenas pela Colômbia e Equador.

As Orchidaceae apresentam hábitos diversos, entre eles: rupícolas, crescendo sobre rochas; epífitas, crescendo sobre arbustos e árvores próximas ao solo abrigadas da luz, ou perto do topo das árvores e cactos, submetidas a bastante luz; terrestres, crescendo tanto em campinas e savanas em meio à relva, como sobre o solo de florestas.

As características morfológicas e reprodutivas das orquídeas são bastante diversificadas. Como exemplo, existem orquídeas com variadas dimensões, desde plantas extremamente pequenas, até plantas com mais de três metros de altura. Entretanto, elas são classificadas em uma única família devido às estruturas florais idênticas.

Em uma flor típica de orquídea, existem três sépalas e três pétalas. Uma destas pétalas é o labelo, bem diferente das outras, sendo maior, mais vistoso, projetando-se do centro da flor e auxiliando na reprodução. A partir deste labelo, surge um órgão carnudo (coluna ou ginostêmio), resultado da fusão dos órgãos femininos (carpelos) e masculinos (estames).

O desenvolvimento das orquídeas é bastante lento, pois sua multiplicação por sementes é demorada (das 2,5 milhões de sementes produzidas em uma cápsula, apenas 5% germinam), e a divisão de uma muda leva, praticamente, dois anos.

Na natureza, as orquídeas estão associadas a fungos micorrízicos (fungos que vivem no solo em associação com plantas). Por não possuírem grande reserva nutricional, as sementes precisam de uma fonte externa de energia para germinar. Essa energia é provida pelo fungo, que é capaz de colonizar as sementes e fornecer açúcares simples, proporcionando sua germinação simbiótica. Essa associação, que é obrigatória na fase juvenil, pode permanecer por todo ciclo de vida da planta.

Elas são excelentes bioindicadores ambientais, pois são sensíveis às interferências antrópicas em matas primárias devido à ocupação dos nichos. Este fato é verificado em fragmentos florestais, preservados e conservados após intervenção do homem, nos quais a abundância e diversidade desta família apresentam baixos índices.

Orquídea do gênero Vanilla. Fonte: World Wide Web.

Algumas poucas espécies apresentam uso na indústria. A partir dos frutos de algumas espécies do gênero Vanilla, pode ser fabricada a baunilha. Algumas espécies produzem compostos de aplicação medicinal, como a espécie Cyrtopodium cardiochilum Lindl.

Entretanto, a maior importância das orquídeas é o potencial ornamental de suas flores. Por serem tão belas, garantem especial destaque em ambientes externos e internos.Também por isso são alvo da ação humana em coletas irregulares, um dos fatores responsáveis pelo seu declínio na natureza.

O cultivo em vasos para o comércio está crescendo e, infelizmente, reduzindo o número de populações naturais rapidamente. A coleta predatória é ato comum em determinados lugares onde existem pessoas interessadas no lucro ou no papel ornamental destas plantas. Muitos não sabem quais são as consequências que este tipo de ação causa ao habitat onde os exemplares estavam inseridos e como isso interfere no processo de desaparecimento e possível extinção de espécies.

Neste aspecto, torna-se importante o desenvolvimento de práticas de educação ambiental para a preservação e conscientização de populações locais, afim de abranger todas as idades, todas pessoas, do quão importante é preservar nossa biodiversidade. Afinal, é preciso conhecer para preservar!

Dinaíza Abadia Rocha Reis é acadêmica do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba e Bolsista de Iniciação Científica pela FAPEMIG.

Um olhar sobre as Epífitas

Jaqueline Dias Pereira

As epífitas são plantas que vivem sobre outras e, muitas vezes, são confundidas com plantas parasitas, mas elas não emitem estruturas haustoriais (parasitas), portanto, não são plantas parasitas. Não apresentam raízes em contato com o solo e obtêm seus recursos minerais a partir de resíduos ou detritos, como, por exemplo, a poeira que recai sobre si, além de obterem recursos hídricos, a partir da água da chuva e até gotículas de água dispersas no ar, possuindo assim, estruturas especializadas na captação desses recursos. As plantas que sustentam as epífitas sobre si são denominadas de forófitos. O grau em que a diversidade de epífitas numa floresta está diretamente ligada ao tipo de forófito ainda não está bem esclarecido, uma vez que devem ser considerados, em conjunto, os fatores microclimáticos.

Dentre as espécies vasculares (aquelas que apresentam tecidos de condução – xilema e floema), as epífitas contabilizam cerca de 10% com aproximadamente 25.000 espécies, distribuídas em 84 famílias. As famílias Bromeliaceae, Orchidaceae, Araceae e Polypodiaceae concentram a maior parte das espécies, aproximadamente 80%.  A abundância e a diversidade de epífitas são fortemente influenciadas pelas mudanças de condições ecológicas. As epífitas vasculares podem ser classificadas em quatro categorias ecológicas de acordo com os tipos de substratos usados, mecanismos de absorção de água e balanço de nutrientes, arquitetura da planta e relação com o forófito. Dessa forma, são denominadas holoepífitas características, habituais ou verdadeiras aquelas presentes principalmente em ambientes epidêndricos; facultativas, aquelas presentes tanto em ambientes epidêndricos como terrestres; acidentais, aquelas preferencialmente terrestres; e hemiepífitas, aquelas que têm conexão com o solo em alguma fase de sua vida, podendo ser primárias, quando germinam sobre o forófito e, posteriormente, estabelecem contato com o solo ou secundárias, quando germinam no solo e, em seguida, estabelecem contato com o forófito.

O hábito epifítico representa uma estratégia adaptativa que possibilita redução nos prejuízos causados por inundação e pelo fogo, além de evitar a predação por animais terrestres. Entretanto, esta forma de vida pode ser limitada principalmente pela deficiência hídrica, nutricional e pelas condições variadas de intensidade luminosa, de acordo com a estratificação vertical. Água e nutrientes são recursos de difícil acesso já que as epífitas não mantêm raízes em contato direto com o solo, conforme citado anteriormente. Adaptações comuns incluem o uso de húmus acumulado em árvores e características morfológicas que permitem a coleta de húmus, tais como, a formação de “cestas”, “ninhos” ou “tanques”.

As epífitas representam uma importância significativa na manutenção da biodiversidade das florestas tropicais do mundo, contribuem na interação flora e fauna, além de desempenhar um papel essencial na dinâmica de nutrientes das florestas. Proporcionam recursos alimentares (frutos, néctar, pólen e água) e microambientes especializados à fauna do dossel, constituída por uma infinidade de organismos voadores, arborícolas e escansoriais. Por isso, quando se retira uma epífita de seu meio natural, perde-se não só a planta, mas também toda a fauna que depende diretamente da espécie de epífita para a sua sobrevivência.

Tem sido sugerido que várias espécies podem ser usadas como bioindicadores de mudanças climáticas, poluição atmosférica e danos ecológicos. Dessa forma, em função das características fisiológicas e nutricionais das epífitas, seu estudo fornece subsídios importantes sobre a interferência antrópica no ambiente e é essencial para o manejo adequado dos ecossistemas, uma vez que as epífitas também funcionam como bioindicadores do estádio sucessional da floresta, tendo em vista que comunidades em fases secundárias apresentam menor densidade e diversidade epifítica do que comunidades primárias.

Jaqueline Dias Pereira é bióloga, mestre em Ciências Biológicas e doutora em Botânica. É professora do campus de Rio Paranaíba da UFV e atua na área de Anatomia Vegetal.


 

Como citar esse documento:

Pereira, J.D. (2010). Um olhar sobre as Epífitas. Folha Biológica 1 (1): 3