Vaga-lumes fantásticos e onde habitam

Você se lembra de quando ficávamos encantados ao ver vaga-lumes durante a noite e como nossos olhos curiosos vidravam em suas atraentes luzes, até os perder de vista? Esse show de luzes ao cair da noite fez parte da infância de muitos de nós e serviu de base para diversas histórias e outras produções culturais no Brasil e no mundo. Por que será que isso é menos comum atualmente?

Os vaga-lumes fazem parte do mais diverso grupo de insetos do planeta, os besouros, pertencentes à ordem Coleóptera. São representantes das famílias Lampyridae, Phengodidae e Elateridae, com mais de 2.000 espécies descritas e distribuídas por todo o globo. São predominantes na América do Sul e Ásia, sendo encontrados geralmente em habitats ecologicamente mais diversos, que vão desde manguezais até mesmo campos agrícolas.

A característica mais marcante dos vaga-lumes, sua bioluminescência, se dá pela reação química de uma enzima conhecida como Luciferase, responsável pela emissão da luz visível que prende nossa atenção durante o voo desses animais. Essa luz é importante no ciclo reprodutivo desses insetos, atuando na comunicação intraespecífica, ou seja, comunicação entre os organismos de uma mesma espécie, e na atração de parceiros para reprodução. Além disso, ela tem um papel fundamental na atração de presas para a alimentação, na camuflagem e na proteção dos indivíduos.

Pesquisas recentes mostram que esses organismos estão desaparecendo e apontam que a perda de habitat tem sido a principal ameaça para a conservação dos vaga-lumes. A expansão das áreas urbanas tem um efeito negativo nesses insetos, por causa da iluminação noturna artificial à qual eles são sensíveis. Como ela afeta diretamente a produção de luz desses organismos, a iluminação noturna artificial também influência no seu comportamento e impacta negativamente seu ciclo reprodutivo.

Além disso, o avanço do agronegócio e o uso intensivo de agrotóxicos são outros fatores que colocam em risco as áreas naturais e consequentemente a sobrevivência dos vaga-lumes. Os pesticidas, por exemplo, utilizados no controle químico contra pragas em diferentes plantações, resultam no acúmulo de resíduos tóxicos em diferentes ambientes, entrando em contato direto com esses organismos. As altas concentrações na água prejudicam o estágio larval de algumas espécies, já no solo, afetam os ovos ali depositados e o desenvolvimento das pupas. A exposição dos adultos ocorre através de seu contato com a superfície contaminada da folhagem, ao pousarem para se reproduzir ou repousar.

Diversas espécies de fauna e flora encontram-se na mesma situação dos vaga-lumes, com populações em declínio e em risco de extinção devido à falta de atenção e cuidados com o meio ambiente. Um grupo tão diverso e encantador como esse estão diminuindo, devido às mudanças ambientais causadas pelo avanço antrópico.

O Brasil é o país que abriga a maior biodiversidade do mundo e situações como essas trazem à tona a necessidade de se abordar temas de conservação ambiental de forma cotidiana. Esses debates devem ser levados às escolas e à comunidade, trazendo a importância de se preservar o meio ambiente como uma parte fundamental da manutenção da vida humana.

Lorenne Kellen Leite de Abreu Almeida é graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa – Campus Rio Paranaíba.

Maria Júlia Maciel Corrêa é bióloga pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e mestranda em Entomologia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) – Campus Viçosa.

O planeta Terra depois da vida

Os ecossistemas do planeta Terra às vezes parecem engrenagens perfeitas que trabalham em conjunto para que toda forma de vida possa continuar existindo. Mas como é possível que o tudo funcione tão bem e abrigue essa enorme diversidade que conhecemos? Os seres vivos são influenciados pelas mudanças do ambiente, entretanto, pode-se afirmar que o ambiente também é modificado pelos seres vivos.

Já se perguntou por que o oceano é salgado? Apesar de muitos outros elementos serem bem abundantes na Terra antes de haverem formas de vida, existem elementos como o cálcio que é aproveitado por determinados organismos para produzir carapaças calcárias, conchas, ossos, placas ósseas e até em processos metabólicos vitais. Basicamente, é possível afirmar que os compostos utilizados pelos organismos de um ambiente, influenciam na disponibilidade desse composto naquele lugar. Pensando assim é fácil compreender que o cloreto de sódio, um dos responsáveis por “salgar” os mares, não possui muita utilidade metabólica para os seres vivos em sua forma bruta. Por não ser tão utilizado, encontra-se em maior quantidade no ambiente.

A forma com a qual um ambiente é habitado pelos seres vivos também molda o planeta. Se pensarmos em um relevo inclinado, sem nenhum tipo de vegetação, a chuva escoa forte pelo lugar, levando parte do solo que dá aquela forma. Se fizermos um comparativo com outro cenário em que o relevo íngreme possui diversas árvores, com raízes profundas e bem ramificadas, a chuva escoará devagar e levará mais tempo para que ela modifique o relevo. Isso ocorre porque a vegetação, além de utilizar grande parte da água recebida pelo solo, também gera certo amortecimento do impacto da chuva no solo, barrando o escoamento que seria bem mais intenso no cenário em que as plantas não aparecem.

As camadas de solo podem ser divididas em diferentes categorias, sendo que as mais superficiais, ou seja, as que são habitadas por seres vivos, possuem aspecto físico e químico bem diferente das camadas mais profundas. É interessante que as mudanças, causadas no ambiente por influência dos organismos, acontece o tempo todo e tem efeito em escala de milhões de anos.

A presença de petróleo em camadas mais profundas da crosta terrestre, por exemplo, é mais uma prova de que a biota modifica a geografia. O petróleo é resultado da decomposição de matéria orgânica em milhares de anos, com ação de bactérias. Se não existisse vida no planeta, essa camada de petróleo não existiria. A atmosfera terrestre também sofreu modificações devido às formas de vida que surgiram com o tempo. Boa parte dos organismos hoje utiliza oxigênio durante a respiração, mas nem sempre foi assim.

Os ciclos dos elementos incluem a participação do elemento no metabolismo dos seres vivos, um exemplo bem claro é todo o processo de fotossíntese durante o qual o gás carbônico é consumido enquanto o oxigênio é liberado. Basta observar o aumento de gases do efeito estufa por ação dos humanos para concluir que o papel da vida na Terra é importante na evolução do planeta.

Existem eventos que são chamados de extinções em massa, em poucas palavras, significa a extinção de várias espécies diferentes em escala global. Conclui-se, através de análise do registro fóssil, que durante a história da vida a presença de determinados organismos em um ambiente causou a extinção de outra espécie. Na atualidade acredita-se que os seres humanos sejam responsáveis por dar o pontapé inicial para uma sexta extinção em massa, já que os gases lançados na atmosfera com queima de combustível fóssil, levam à mudanças climáticas que prejudicam a sobrevivência de muitos outros seres vivos. Entender o papel dos seres vivos nas formações dos ambientes presentes na Terra é importante nos estudos de paleontologia, geografia e evolução, mas o conhecimento vai além e vale como importante lembrete de que nossas ações no presente é que define qual é o futuro do mundo onde as próximas gerações viverão.

Fonte: https://blogdoenem.com.br/biologia-enem-ciclos/

Letícia Fainé Gomes cursa Ciências Biológicas na Universidade Federal de Viçosa.

Referências: Gross, M. 2015, How life shaped Earth.

Dúvidas comuns sobre Paleontologia

Os homens das cavernas caçavam dinossauros?

Os dinossauros foram extintos mais de 60 milhões de anos antes do surgimento dos primeiros hominídeos e portanto, não conviveram com eles.

Porém, outros animais pré-históricos foram contemporâneos dos humanos, como os mamutes, as preguiças gigantes, os tigres de dentes de sabre e muitos outros. Os humanos caçaram e inclusive pintaram alguns destes animais nas cavernas.

Se o ser humano evoluiu a partir do macaco, por que o macaco ainda existe?

O Homo sapiens não se originou de nenhum macaco existente na atualidade. O ser humano e os outros “macacos” compartilham um ancestral comum, e fazem parte do mesmo grupo, o dos primatas.

Nossos parentes mais próximos na atualidade são os chimpanzés e os bonobos, com os quais compartilhamos um mesmo ancestral que encontra-se extinto. Portanto o chimpanzé não deve ser visto como o nosso “avô” e sim como o nosso “primo”.

Qual foi a causa principal da extinção dos dinossauros?

Um meteoro de grandes proporções atingiu a Terra há 65 milhões de anos, no final da era dos dinossauros. A sua cratera ocupa parte da Península de Yucatán e o Golfo do México. Este impacto teria tido conseqüências catastróficas não apenas para os dinossauros, mas também para a muitos seres vivos na Terra, incluindo vários grupos de invertebrados, plantas e protistas que também se extinguiram. No entanto, no caso particular dos répteis, ao parecer mudanças na flora e no clima já afetavam a alguns grupos antes mesmo da queda do meteoro, pelo que a queda deste teria apenas acentuado os problemas que eles já tinham.

Os dinossauros deixaram algum descendente?

De acordo com a maioria dos cientistas na atualidade, as aves são descendentes diretos dos dinossauros, ou seja, podemos dizer que as aves são dinossauros.

Os crocodilianos são parentes próximos dos dinossauros, mas não seus descendentes. O dragão de Komodo, embora de aspecto terrível, não é um dinossauro e sim um lagarto.

Microorganismos também podem se fossilizar?

Alguns microorganismos possuem partes duras, que podem fossilizar-se. Um exemplo destes organismos o constituem os foraminíferos, um grupo de protistas marinhos, principalmente planctônicos, que existe até nossos dias.

Os foraminíferos possuem carapaças formadas por uma proteína chamada quitina e estas tem uma grande capacidade de preservação. Outros microorganismos que se preservam com certa facilidade são os ostracóides (pequenos crustáceos aquáticos) e o pólen de diversas plantas. Pela sua abundância, os microorganismos fósseis são muito úteis para datar rochas através da Bioestratigrafia.

Esqueleto fóssil e reconstituição de um Lystrosaurus sp. Fonte: Museu de Melbourne

Os continentes estiveram mesmo todos unidos no passado? Quais as provas disso?

Os continentes se movimentam. Este fenômeno é conhecido como Deriva Continental, e o mecanismo que o causa chama-se Tectônica de Placas.

Os continentes tem se unido e separado mais de uma vez. A última vez que os continentes uniram-se foi no início do período Triássico, há 250 milhões de anos. Este super continente é denominado Pangéa, e sua existência durou mais de 50 milhões de anos.

Muitas evidências geológicas corroboram o movimento dos continentes, mas os argumentos mais fortes em favor da Deriva Continental tem sido obtidos pela distribuição dos fósseis. Alguns grupos de répteis terrestres extintos são encontrados unicamente na América do Norte e na Europa, e outros unicamente na América do Sul e na África, o que só pode ser explicado satisfatoriamente pela deriva continental. O réptil terrestre do período Triássico Lystrosaurus tem sido encontrado em regiões tão distantes entre si tais como África, Rússia, China, Antártida e Índia.

O movimento dos continentes é muito lento e continua em nossos dias. Se Colombo chegasse hoje a América, a encontraria 30 metros mais longe do que em 1492.

Juan Carlos Cisneros Martínez é biólogo, mestre e doutor em Geociências. Atualmente é professor da Universidade Federal do Piauí e atua na área de Paleontologia.
Esqueleto

Um novo membro já ameaçado

Foi descoberta recentemente nas florestas da Amazônia, uma nova espécie de primata. Conhecida popularmente como zogue-zogue-rabo-de-fogo (Callicebus miltoni), foi avistada pela primeira vez em 2011 no Mato Grosso e possui como característica marcante, e originária de seu nome popular, uma cauda avermelhada. São animais de cerca de 30 cm, de hábito arborícola e diurno e se alimenta principalmente-de-frutos.

Para confirmar a hipótese de que se tratava de uma nova espécie, foram feitos estudos de comparação de cores da pelagem, tamanho do crânio e corpo com as outras espécies do gênero. Os pesquisadores explicam que a primeira característica de comparação já foi suficiente para notar-se que se tratava de uma nova espécie, assim como dados moleculares obtidos posteriormente.

Porém, apesar de recentemente descoberta, a espécie já se encontra ameaçada e extinção, tendo como principal causa o constante desmatamento da região. Devido a isso, pesquisadores alertam a necessidade de mais estudos acerca da nossa biodiversidade, e das medidas a serem implementadas para tornar mais eficiente a conservação da mesma.

Por: Rosana Mesquita.

Desconhecidos e ameaçados

Ana Lúcia Tourinho

 

O que é um opilião?  

Essa questão é bem frequente, mesmo entre alunos de classes de pós-graduação das áreas biológicas e relacionadas. Esses aracnídeos muito abundantes e distribuídos no mundo todo são pouco conhecidos. Possuem hábitos crípticos e noturnos, atingem seu pico de diversidade em regiões tropicais da América do Sul, principalmente o Brasil. Entretanto, diversas espécies brasileiras desses ocultos animais correm o risco de desaparecer do planeta antes mesmo de serem conhecidas.

Os opiliões são aracnídeos.  

Sim, eles parecem aranhas, mas não são. Assim como todas as aranhas, possuem o corpo dividido em dois segmentos, o anterior se chama prosomo ou cefalotórax, e o segundo se chama opistosomo ou abdômen. Também compartilham quatro pares de pernas, um par de pedipalpos (estruturas que parecem pernas, mas são usadas para manusear objetos), e um par de quelíceras (parte do aparelho bucal dos aracnídeos). Porém eles não tecem teias porque não têm fiandeiras (estruturas responsáveis pela emissão dos fios de seda). Além disso, visualmente as duas regiões do corpo dos opiliões não estão separadas por uma cintura como ocorre com o corpo das aranhas.  Ao longo de sua evolução, cinco dos segmentos da região posterior do corpo do animal, o opistosomo, se fundiram à região anterior, o prosomo, formando uma carapaça externa inteiriça chamada de escudo dorsal. Por este motivo a divisão de seu corpo em duas regiões, só pode ser visualmente notada internamente. Diferentemente das aranhas, que possuem muitos olhos (de quatro a oito olhos), eles têm apenas um par de olhos medianos que estão geralmente posicionados em uma pequena elevação localizada na parte anterior de seu corpo, o cômoro ocular. Os olhos laterais presentes nas aranhas e escorpiões estão ausentes nos opiliões. Os opiliões possuem um par de glândulas laterais (as glândulas odoríferas), também na parte anterior do corpo, e quando incomodados ou ameaçados liberam um cheiro no ambiente. Assim, é fácil saber se há um opilião por perto se conhecemos esse odor.  Mas não é só isso, há ainda uma outra característica interessante que torna os opiliões diferentes dos outros aracnídeos: eles têm pênis. É isso mesmo! Eles são os únicos do grupo de aracnídeos em que os machos possuem um pênis para transferência direta de espermatozóides.  Inofensivos aos humanos, os opiliões geralmente se escondem porque precisam de ambientes úmidos e com temperatura elevada para sobreviver. Isso acontece por que os opiliões perdem água com muita facilidade, e se forem expostos por tempo prolongado a ambientes secos e muito quentes não resistem e morrem. Por isso é mais fácil encontra-los  à noite, quando estão se alimentando, locomovendo e procurando um parceiro para reprodução. É também por este motivo que os locais prediletos dos opiliões são cavernas, frestas de árvores, entre pedras e nos paredões rochosos, debaixo das pedras, das folhas e troncos caídos no chão. Também são encontrados atrás e nas concavidades das diferentes folhas de plantas dos sub-bosques florestais e até mesmo enterrados, ou atrás das cascas das árvores.

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Esquema anatômico de um opilião

 

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  Macho da espécie Stygnus nogueirai descrita por Ricardo Pinto da Rocha e Ana Lúcia Tourinho em 2012. A descrição desta espécie foi publicada junto com outras 9 novas espécies na revista científica Zootaxa.

Eles podem caçar insetos e outros aracnídeos, mas em geral são generalistas, isso quer dizer que se alimentam dos recursos que estiverem disponíveis no momento, e são  frequentemente observados se alimentando de matéria em decomposição. Uma grande proporção do que é produzido em florestas é processado pelos organismos detritívoros (aqueles que se alimentam de detritos), como muitas das espécies de opiliões, e muitas ordens de insetos. Portanto esses animais contribuem ativamente para a ciclagem dos nutrientes através da decomposição da matéria orgânica acumulada na liteira (camada de folhas mortas acima do solo), desempenhando um importante papel no cenário ecológico.

Diversidade e endemismo  

Outra característica importante dos opiliões é o endemismo acentuado apresentado por quase todas as espécies. Espécies endêmicas são aquelas que estão distribuídas exclusivamente em um determinado local. Os níveis de universalidade de endemismo podem variar. Existem grupos endêmicos de pequenas manchas florestais, serras e parques, até os endêmicos de grandezas categóricas mais amplas como os biomas, continentes, regiões zoogeográficas e eco regiões. Dados de pesquisas apontam os opiliões da Mata Atlântica como os animais com níveis de endemismos mais altos já registrados (97,8%). Apesar do endemismo acentuado, opiliões estão espalhados pelo mundo todo. A diversidade de espécies de opiliões é alta, existem cerca de 6.300 espécies conhecidas, mas a diversidade máxima é atingida na região Neotropical, e cerca de 900 das espécies conhecidas são endêmicas de biomas brasileiros, ou seja, são exclusivas destes biomas. Mas este número está subestimado, os opiliões são pouco conhecidos até mesmo pela ciência. Muitas espécies novas são encontradas em áreas reconhecidas como regiões de maior diversidade de organismos do mundo, como a Amazônia e a Mata Atlântica. Porém o número de espécies novas encontradas na Amazônia é surpreendentemente alto. Isto ocorre principalmente porque a fauna de opiliões da Mata Atlântica tem recebido mais atenção dos pesquisadores nos últimos 50 anos, já a Amazônia, o Cerrado são consideradas as regiões com a fauna de opiliões mais pobremente conhecida do país. Mesmo assim, na Mata Atlântica o número de espécies novas encontradas ainda é considerado alto, nos últimos cinco anos pelo menos uma espécie nova, endêmica da região, foi descrita por ano. O percentual de espécies novas encontradas por localidade amostral na Amazônia pode chegar a 50%, ou mais, dependendo da área amostrada. Em regiões mais distantes e de difícil acesso, os números por coleta chegam a 90%. Nas grandes cidades, por exemplo, Manaus, no estado do Amazonas, e Belém, no estado do Pará, receberam mais coletas nos últimos 50 anos, portanto o número de espécies conhecidas nesses locais é maior. No entanto, coletas recentes realizadas em fragmentos urbanos da floresta da Universidade Federal do Amazonas, na cidade de Manaus, atingem um percentual de 20% a 30% de espécies ainda desconhecidas para a ciência.  Cerca de 70% do território da Amazônia brasileira nunca recebeu uma visita científica seguida de coleta de opiliões. Espantosamente, essas localidades não incluem somente locais de difícil acesso ou muito distantes das grandes metrópoles amazônicas. Um bom exemplo é o trabalho recentemente realizado pela mestre em ciências biológicas Larissa de Souza Lança na Fazenda Experimental da UFAM. A fazenda está localizada no km 38 da rodovia BR-174, e conta com uma grade de 24 km2, sendo 59 km de trilhas e 41 parcelas implementadas pelo Programa de Pesquisas em Biodiversidade. Lá foram coletadas 26 espécies de opiliões, sendo que 65% delas são prováveis espécies ainda não descritas, ou seja, novas espécies para a ciência.

Ameaça eminente 

Existem os dois lados nesta história de endemismo. Por um lado, as informações de espécies com áreas de distribuição extremamente restritas, juntamente a informações obtidas através de estudos de sistemática e filogenética (classificação e estudo das relações de parentesco dos organismos), fornecem um entendimento maior dos eventos que alteraram o ambiente e acabaram por isolar as faunas levando à especiação. Portanto, estudar os padrões biogeográficos é de extrema importância para o resgate e melhor entendimento histórico dos eventos ocorridos no planeta, e para o estabelecimento e elaboração de políticas de conservação ambientais. Mas por outro lado, espécies com áreas de distribuições muito restritas se tornam muito vulneráveis e passíveis de extinção.  Infelizmente a expansão progressiva do desmatamento das áreas florestais é uma realidade, também representando uma ameaça para muitas espécies de opiliões. Espécies desconhecidas, que não estão presentes em nenhuma coleção científica do mundo, podem desaparecer antes mesmo que cheguem a ser descobertas pelos cientistas. Na região Amazônica brasileira temos o exemplo das florestas ao longo da BR-319. A rodovia que unia Manaus a Porto Velho foi construída na década de 70, durante o período da ditadura militar. Em 1988 ela ficou intransitável em consequência de sua degradação crítica. O governo estadual do Amazonas, com o apoio Ministro dos Transportes e do presidente da época, Luís Inácio Lula da Silva, decidiram retomar às pressas, no meio do ano de 2005, o polêmico projeto de reconstrução da rodovia. O asfaltamento da BR-319 foi então iniciado na época sem um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto ao Meio Ambiente (RIMA), como requerem as leis federais de licenciamento ambiental, apesar da tentativa, sem êxito, da ministra do meio ambiente da época, Marina Silva, de embargar a obra até que tais medidas legais fossem atendidas.

 

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Interflúvio Madeira-Purus no estado do Amazonas, na foto a floresta Amazônica cortada pela estrada BR-319. Crédito da Foto: José Luis Purri – PPBIO  http://ppbio.inpa.gov.br/

 

Informações sobre a obra apressada e suas consequências socioeconômicas e ambientais foram bastante discutidas em jornais locais e publicações científicas de Philip Fearnside (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), mas hoje não se toca mais no assunto. A área em questão está situada ao sul do rio Amazonas, limitada pelos rios Amazonas, Madeira e Purus, e incluída na área classificada como um dos grandes centros de endemismo Amazônico pelo historiador natural Alfred Russel Wallace, e posteriormente confirmada por diversos outros autores importantes, como o alemão Jürgen Haffer, autor da teoria dos refúgios amazônicos. Além da fauna composta por muitas espécies novas o local possui índices elevados de riqueza de espécies, e importantes informações acerca do endemismo de aracnídeos amazônicos, de mamíferos e aves inventariados nos últimos cinco anos pelas equipes de grandes programas institucionais de biodiversidade como o Programa de Pesquisas em Biodiversidade/PPBio e Rede GEOMA. Nas áreas próximas aos Km 81 e 83 da rodovia encontramos a espécie Fissiphallius tucupi, segunda espécie de opilião da família Fissiphalliidae da Amazônia descrita em 2006 por Ana Lúcia Tourinho e Abel Pérez, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e da Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ.  Entre as cidades de Humaitá e Careiro Castanho não existem registros de opiliões além da nova espécie F. tucupi. Particularmente, espécies dos dois grupos citados possuem grande importância para a compreensão tanto da história evolutiva dos opiliões como biogeográfica do grupo na região Amazônica. Infelizmente as áreas do km 81 foram loteadas, as linhas que demarcavam as parcelas e transectos permanentes utilizados para amostragem em nosso inventário já haviam sido incluídas nas divisões do loteamento seis meses após nossa coleta, ainda no ano de 2006. O programa de aceleramento do desenvolvimento nacional (PAC) vem realizando inúmeras obras com o objetivo de alavancar o desenvolvimento do país, através de construções que objetivam, entre outros, garantir e expandir o suprimento de energia e a capacidade de transporte no país. Além dos projetos já em andamento como as polêmicas envolvendo a pavimentação da BR-319 e a construção da hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingú, há planejamento de construção e pavimentação de inúmeras outras estradas e hidrelétricas, bem como outros empreendimentos que geram um impacto negativo sobre a biota. A criação de reservas na área de entorno dessas obras seria uma alternativa tanto para a persistência de algumas dessas espécies, quanto para a contenção do desmatamento. Na verdade existe uma legislação que regula todo esse processo, e para áreas desmatadas ou impactadas por empreendimentos desse porte há necessidade de estabelecimento de unidades de conservação de acordo com a escala da área impactada. Entretanto, nem sempre as medidas mais adequadas são aplicadas e escolhidas para cada empreendimento. As decisões requerem pareceres velozes, seguidas de tomadas de decisões mais velozes ainda em função da pressa política e dos montantes de recursos envolvidos. Existem discussões para implementação de unidades de conservação, porém, estas deixariam de fora áreas importantes, que nunca foram inventariadas por pesquisadores, e, portanto todo o seu potencial científico em termos de biodiversidade é bastante desconhecido até mesmo pelos especialistas. Ponderações científicas realizadas por instituições científicas e governamentais competentes, sempre envolvem equipes especializadas tanto na avaliação dos componentes biológicos como os sociais das regiões, mas para executar análises desse cunho e prever medidas mitigatórias geralmente é necessário mais tempo, tempo esse que geralmente os responsáveis não estão dispostos a dar. Caso as unidades de conservação prometidas sejam concretizadas sem que haja previamente um planejamento por meio de consulta pública, inventários científicos e resultados de EIA/ RIMA, dificilmente estas priorizarão de maneira adequada os componentes biológicos e geográficos locais e a população amazônica. As consultas públicas não são bem divulgadas, e nem sempre todos os aspectos e impactos multifacetados são de fato apresentados nessas ocasiões para a população. Na verdade, este deveria ser um evento onde a população de fato se engajasse, e a mesma também deveria ter uma alfabetização científica maior para que pudesse estar mais consciente de seus interesses nesse caso. Esta última deveria ser colocada a par não apenas das vantagens, mas também das desvantagens, muitas vezes irreversíveis, de todo e qualquer planejamento desenvolvimentista para que pudesse exigir medidas mitigatórias adequadas. Inúmeras outras regiões da Amazônia, e do restante do Brasil, jamais foram amostradas por especialistas e se encontram nesta mesma situação, a maioria delas irá desaparecer antes mesmo que alguns representantes importantes e desconhecidos sejam resgatados e depositados em coleções para pesquisas futuras.  Tal informação, uma vez perdida, estará perdida para sempre.

 

Ana Lúcia Tourinho é bióloga, mestre em Zoologia e doutora em Ecologia. Atua no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, nos Programas de Pós-Graduação em Entomologia e em Ecologia.  É curadora assistente da Coleção Aracnológica do INPA e especialista em Aracnídeos, principalmente das ordens Opiliones, Ricinulei e Araneae

 


 

Como citar esse documento:

Tourinho, A.L. (2013). Desconhecidos e Ameaçados. Folha biológica 4 (1): 2-3

Extinções: ciclos de vida e morte

Pierre Rafael Penteado.

 

Você com certeza já leu ou ouviu “… espécie está em risco de extinção…”, não é mesmo? 

 

Quando todos os indivíduos de uma espécie morrem, podemos dizer que ela está extinta. É um processo natural, esperado de acordo com a teoria da evolução biológica, uma vez que os organismos competem por recursos limitados na natureza. Desse modo, as populações adaptam-se ao longo de gerações, migram ou acabam se extinguindo.  E o que é extinção em massa? Também conhecido como evento de extinção, acontecem quando o ambiente em que os organismos vivem muda bruscamente, em um curto intervalo de tempo, impedindo a adaptação dos mesmos. Alguns cientistas se referem às extinções em massa como um reset da evolução biológica.  De certo modo, podemos dizer que é isso, já que as espécies extintas deixam um ambiente para ser explorado por outras espécies. Também é notável o fato de que existiram muito mais espécies (e que foram extintas) do que o total de espécies atual. Durante toda a história da vida no planeta Terra, a biodiversidade do planeta já sofreu cinco eventos de extinção!

Permiano-Triássico.

Há aproximadamente 250 milhões de anos, cerca de 60% de todos os gêneros (categoria taxonômica que pode agrupar uma ou várias espécies) viventes da foram extintos. Entre eles, estavam os trilobitas (artrópodes bastante diversificados), euriptéridos (escorpiões-marinhos) entre vários grupos que não perderam todas as espécies.  Esse evento é conhecido como a grande extinção do Permiano-Triássico. Mas o que poderia ter causado tamanho efeito na biodiversidade do período?  Após várias hipóteses e estudos, cientistas propuseram que não foi uma causa única: primeiramente, erupções vulcânicas gigantescas, com mais de 2 milhões de Km² num intervalo de milhares de anos, localizadas na Sibéria, Rússia, elevaram a temperatura média do planeta em  aproximadamente 5°C, graças ao efeito estufa causado pelo CO2 liberado. Em seguida, o calor liberou uma grande quantidade de metano armazenada no fundo dos oceanos. Assim, o metano também contribuiu no aumento do efeito estufa, elevando a temperatura média global a 10°C no total. O efeito sobre os organismos produtores nos oceanos foi devastador, e toda a teia alimentar sofreu com isso.

Fim do Cretáceo.

Depois de se recuperar, outras extinções abalaram a biodiversidade da Terra. Os dinossauros, por exemplo, dominaram o meio terrestre do planeta por mais de 130 milhões de anos, até serem extintos no final período Cretáceo, há 65 milhões de anos.  A hipótese mais aceita até o momento para explicar essa extinção é a colisão de um asteroide (10 Km de diâmetro) com a Terra, na península de Yucatán, no México. O impacto teria levantado poeira suficiente para prejudicar a absorção da luz solar pelas plantas, comprometendo parte da teia alimentar, incluindo os dinossauros.  Entretanto, vários grupos conseguiram sobreviver, incluindo os ancestrais das aves, e os nossos obviamente.

 

Extinções ciclos de vida e morte  (PIERRE)

 

Atualmente, fala-se sobre o que seria a 6ª extinção em massa do planeta, com o desaparecimento de inúmeras espécies, causada pelo homem. Mas isso é assunto para outra ocasião.

 

Pierre Rafael Penteado é biólogo e mestre em Biologia Animal pela UFV. Atualmente é professor temporário na Universidade Federal de Viçosa, campus de Rio Paranaíba. Atua na área de genética animal.


 

Como citar esse documento:

Penteado, P.R. (2012). Extinções: ciclos de vida e morte. Folha biológica 3. (1): 3

 

Volume 3, Número 1

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Volume 2, Número 6

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