Gatos: “animais sozinhos”? Por quê?

Avida em bando pode significar inúmeras coisas, e como tudo nesse mundo, há vantagens e desvantagens. E é aí que surge a dúvida: viver em grupo ou sozinho? Como isso é “moldado” ao longo do tempo?

Zebras, por exemplo, são animais que preferem viver em bando, já que assim, a probabilidade individual de ser atacadas por predadores é menor. Leões também vivem em grupos, o que facilita no trabalho de predação e defesa de território. Já os gatos, animais domésticos dóceis, ou nem tanto, preferem a vida solitária. Mas por que?

Segundo o biólogo John Fryxell, do Canadá, em um dado momento, viver no coletivo significa grandes desvantagens, como principalmente reduzir a própria quantidade de comida individual. “Os benefícios da vida coletiva em alguns casos não compensa a desvantagem de ter que dividir comida com os outros.” Gatos geralmente caçam pequenos animais, o que seria alimento necessário somente para um indivíduo, sem ser possível dividir com mais algum parceiro de grupo. Isso seria um fator crucial para a “decisão” de optarem viver solitários.

A escolha de viver solitários é tão dos gatos, que nem humanos conseguem mudar isso através da domesticação. Aliás, gatos não são domesticados! São donos da sua própria vontade, não é mesmo?! Tanto é que o início da relação homem e gato se deu por vontade desses animais, por perceberem a facilidade em conseguir alimento e diminuir o gasto de energia procurando presas nas florestas.

Mas espere um pouco, você pode me dizer: “Mas eu já vi vários gatos juntos em um mesmo local! Ou até mesmo dentro da mesma casa vivendo como ‘irmãos’”. Sim, não irei discordar! Alguma relação social entre os gatos é possível, porém são laços fáceis de romper e baseados no “bom humor” e vontade momentânea desses animais. A proteção para filhotes pode ser um bom motivo para um relacionamento social entre eles, mas isso logo acaba quando não é mais necessário. Resumindo, a vontade própria é quem comanda o comportamento desses animaizinhos queridos!

Pode ser que com o passar do tempo, a evolução modifique o comportamento dos gatos, tornando-os animais mais sociáveis, assim como acontece com alguns de seus parentes, como os leões. Pesquisadores continuam tentando entender a mente desses gentis (ou nem tanto) felinos, o que ainda falta neles para atingirem a sociabilidade algum dia. Enquanto isso, desafio vocês que tem o prazer de conviverem com os gatos à observar seu comportamento e perceber se existe algum vestígio de vida social entre eles. Mas antes disso me responda: você já conseguiu domesticar um gato?

Rosana de Mesquita Alves é Bióloga e Mestranda pela Universidade Federal de Viçosa.

Nova descoberta sobre as onças-pardas: de solitárias à sociais

Leão-da-montanha, puma, suçuarana ou simplesmente onça-parda (Puma concolor)… Esse animal incrível desperta o interesse de inúmeros pesquisadores na busca da compreensão de seu comportamento. Estudos recentes demonstram que as onças-pardas são animais sociais e que vivem em grupos baseados principalmente no compartilhamento de comida, contrapondo o pensamento de cientistas passados, que as definiam como indivíduos solitários.

A discrição e a reciprocidade são duas características do comportamento social desses animais, destacando ainda mais a surpresa na descoberta. O estudo aconteceu no parque de Yellowstone (EUA), e foi feito por Mark Elbroch, cientista-chefe do programa de onças-pardas da Panthera, e colaboradores, os quais, em um primeiro momento, tinham o objetivo de observar a alimentação da espécie. A principal metodologia usada foi o uso de uma rede de armadilhas fotográficas com cerca de 1,5 mil km de extensão, a qual permitiu registrar momentos únicos do comportamento diário dos animais.

Mas e aí, como Elbroch chegou às suas conclusões? Os principais, e inesperados resultados, vieram através do contato e socialização entre duas onças-pardas após uma delas matar sua presa durante a caça e permitir que a companheira de grupo também se alimentasse. Além disso, as duas passaram cerca de um dia e meio juntas, e, análises genéticas realizadas recentemente demonstraram que existia um parentesco entre as mesmas. Outro ponto da sociedade é baseado na hierarquia, na qual fêmeas são mais propensas à se relacionar com os machos cujos territórios se sobrepõem com os delas, ao invés do relacionamento com machos de diferentes territórios. Os machos funcionam como governantes importantes nas relações territoriais.

Diante dessa nova descoberta, destaca-se a importância da preservação da espécie para que os estudos continuem, ampliando ainda mais o conhecimento à respeito das onças-pardas. Sendo assim, estratégias de inibição à caça e proteção destes animais devem ser feitas constantemente, vindas de todos que puderem contribuir.

Rosana Mesquita- Bióloga e mestranda em Manejo e Conservação de Ecossistemas Naturais e Agrários na Universidade Federal de Viçosa – Campus Florestal.