Os super-sentidos dos “peixes”

Nós humanos somos animais chamados de visuais. Isso significa que usamos majoritariamente da visão para processar o mundo ao nosso redor. Ao conversar, por exemplo, usamos da fala e da audição, mas captamos inconscientemente, pela visão, expressões corporais e faciais que são fundamentais para contextualizar o que é dito pelo locutor. Uma breve troca de olhares pode ser suficiente para transmitir uma mensagem entre duas pessoas.

E nos peixes? Será que também é assim? Pare um minuto e tente pensar em todo o tipo de peixe que você conhece, qual será o sentido mais utilizado por eles para processar seu mundo aquático?

Um dos principais órgãos utilizados é a linha lateral. Essa linha, como o nome diz, é uma sequência de poros dispostos lateralmente dos dois lados do peixe, formando uma linha. Também pode estar presente na cabeça ou até mesmo ausente. Nessa linha, a água entra pelos poros e toca em estruturas chamadas neuromastos, que são um conjunto de células ciliadas de diferentes tamanhos. Qualquer objeto que provoque vibrações na água pode ser percebido por essa linha lateral. Outro sentido muito utilizado pelos peixes é a audição, entretanto, não há uma estrutura externa (orelha) dedicada a ouvir. Em vez disso, os peixes usam o próprio corpo pra captar as vibrações sonoras, que são conduzidas até um órgão no final da caixa craniana para interpretação do estímulo. Em peixes como carpas, lambaris e bagres, há uma modificação das 4 primeiras vértebras, formando uma ponte entre a bexiga natatória e o ouvido interno. A bexiga neles funciona então como uma caixa de ressonância que amplifica a capacidade auditiva do grupo. Alguns pesquisadores propõem que essa característica é uma das que permitiu o sucesso do grupo na água doce que é turva.

O olfato dos peixes permite a percepção de odores liberados a grandes distâncias. As narinas ficam no focinho e têm função olfatória e não respiratória. Em alguns grupos como nos salmões. O olfato permite distinguir moléculas odoríferas na concentração de 1ppb, ou seja, 1 molécula em um bilhão de moléculas. É uma das coisas que permite aos salmões retornar ao seu local de nascimento para reprodução. Sobre a visão, os peixes em geral são míopes e não conseguem enxergar objetos muito distantes, mas para objetos próximos, a visão é muito utilizada. O curioso é que os peixes não possuem pálpebras e nem membranas nictantes, por isso eles não piscam e ficam com os olhos sempre abertos. Alguns grupos como os Corydoras, possuem músculos que retraem os olhos, mas isso não é piscar.

O sensorial mais curioso dos peixes é raro e poucos grupos o apresentam: a eletrorrecepção. Alguns grupos como os Gymnotiformes (Poraquê) apresentam órgãos elétricos. São estruturas derivadas de tecido muscular que podem produzir descargas de até 700 volts. Células de músculo estriado modificado (eletrócitos) formam eletroplacas que podem liberar essa descarga elétrica para predação, defesa ou percepção do ambiente. Elas fazem com que o peixe produza e fique envolto num campo elétrico, onde ele é capaz de perceber, através de eletrorreceptores na linha lateral, corpos condutores e não condutores ao seu redor.

E para você, qual é o sentido mais poderoso dos peixes?

Matheus Bonaccorsi é Biologo pela Universidade Federal de Viçosa e mestrando do programa de Zoologia pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Um peixe bem mineiro

Uma das tarefas iniciais mais difíceis quando se é pai (ou mãe) é dar o nome ao filho. Imagino que dar um nome a uma espécie seja uma tarefa no mínimo tão complicada quanto. No entanto, diferentemente dos nomes dos bebês, os nomes de espécies na maioria das vezes são reflexos de suas características morfológicas distinguíveis. Outras vezes são homenagens a outros pesquisadores e até a astros do rock.

Foi publicado no último número da revista Neotropical Ichthyology um artigo descrevendo uma nova espécie de peixes do gênero Hyphessobrycon com nome bastante interessante. A revista Neotropical Ichthyology é uma publicação da Sociedade Brasileira de Ictiologia e é responsável por publicar a descrição de inúmeras espécies novas de peixes todos os meses.

Exemplar de Hyphessobrycon uaiso

Hyphessobrycon uaiso (Uai, sô!). Será que eu preciso dizer que este nome sugere que o espécime tipo (o representante principal da espécie, depositado em um museu) foi coletado em Minas Gerais? Para ser mais exato, a localidade tipo da nova espécie é próximo à cidade mineira de Uberaba, com distribuição na drenagem do rio Grande, um dos formadores e principais afluentes do rio Paraná. É bem verdade que o rio Grande drena uma boa parte do Estado de São Paulo também mas, e daí?

O gênero Hyphessobrycon pertence à família Characidae, da ordem dos Characiformes. Esta ordem é uma das principais dentre os peixes da região Neotropical (Sul da América do Norte até a América do Sul), tendo como principal característica o corpo coberto de escamas lembrando muito as carpas e tilápias que são de outras ordens. Entre os representantes mais conhecidos estão o dourado, a corimba, a traíra, o piau, e os ornamentais Mato-grosso (um Hyphessobrycon) e o tetra neon. Existem mais de 130 espécies de Hyphessobrycon descritas atualmente. São pequenos peixes habitantes de pequenos riachos.

Enfim, um bom exemplo do bom humor dos cientistas, que nem sempre são aqueles seres de jaleco e expressão sisuda.

Rubens Pazza é biólogo, mestre em Biologia Celular e doutor em Genética e Evolução. Atualmente é professor da Universidade Federal de Viçosa, Campus de Rio Paranaíba e atua na área de Genética Ecológica e Evolutiva.