Fissura labiopalatina: O que é? O que causa? Como tratar? Como prevenir?

A fissura labiopalatina é uma malformação craniofacial (que envolve a região do crânio e da face) mais frequente na espécie humana. É vista como uma abertura na região do lábio e pode também envolver o osso onde os dentes estão sustentados na cavidade bucal (rebordo alveolar) e/ou céu da boca (palato). No Brasil estima-se que, de cada 650 bebês nascidos vivos, ao menos um deles venha ao mundo com fissura labiopalatina.

As fissuras podem ser formadas em um dos lados do rosto apenas (unilaterais), ou dos dois lados direito e esquerdo (bilaterais), e apresentam diferentes formas desde uma simples cicatriz no lábio ou até a “campainha” dividida (úvula bífida), até formas mais graves com envolvimento do lábio, osso dos dentes e céu da boca no mesmo indivíduo.

Face de criança com fissura labiopalatina, evidenciando a abertura no lábio. Fonte: Silva, T.R. 2011

A formação das fissuras labiopalatinas ocorre durante a gravidez, entre a 4ª. e 12ª. semana depois que a futura mãe iniciou a gestação, devido ao não fechamento do lábio, do osso que acomoda os dentes e/ou céu da boca.

As causas das fissuras estão em grande parte relacionadas com a genética em interação com fatores ambientais, com destaques para tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, falta de vitaminas e medicamentos utilizados no tratamento da epilepsia (fenitoínas).

O tratamento do indivíduo com fissura labiopalatina é longo e altamente especializado, já que a fissura, além de comprometer a parte estética, prejudica também o funcionamento de algumas estruturas funcionais, acarretando em inúmeros casos alterações na fala que na maioria das vezes torna a voz do indivíduo “fanhosa” (hipernasalidade). Ocorre também a saída de alimentos e líquidos pelo nariz dos pacientes com o céu da boca aberto, além de infecções causadas por bactérias na região do ouvido (otites), principalmente.

No município de Bauru, região central do estado de São Paulo, está localizado o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP), onde é oferecido tratamento gratuito, de qualidade e altamente especializado para este grupo de indivíduos, nas mais diversas áreas da saúde: medicina, odontologia, enfermagem, fonoaudiologia, fisioterapia, genética, serviço social entre outros, com o objetivo de reabilitar o paciente como um todo de maneira humanizada.

O tratamento com cirurgias para estes indivíduos tem início aos 3 meses de idade com a realização da cirurgia para a correção do lábio (queiloplastia). Após os 12 meses de idade é realizada a cirurgia de fechamento do céu da boca (palatoplastia), e entre 9 e 12 anos é reabilitado por meio de cirurgia o osso que falta onde ficam os dentes na área da fissura (enxerto alveolar secundário). De acordo com a necessidade de cada indivíduo outras cirurgias são realizadas.

Durante todas estas etapas cirúrgicas os indivíduos com fissura são acompanhados nas demais especialidades de saúde; por exemplo, grande parte deles recebe o tratamento com aparelho para correção da posição dos dentes (ortodontia).

Como o ser humano ainda não é capaz de alterar os genes responsáveis pela formação da fissura labiopalatina, a conduta atual para prevenir a ocorrência desta anomalia consiste em orientar os futuros pais sobre a importância do planejamento da gravidez, com a realização das consultas de pré-natal, uso de vitaminas e do ácido fólico, além da não ingestão de bebidas alcoólicas, bem como extinção do hábito de tabagismo ativo e passivo ao evitar ficar próximo de alguém que esteja fumando.

Marcos Roberto Tovani Palone é Cirurgião-dentista, especialista em odontopediatria, Mestrando em Ciências da Reabilitação no HRAC/USP, atua na área de fissuras orofaciais e anomalias relacionadas.

Thaieny Ribeiro da Silva é Cirurgiã-dentista, especialista em odontopediatria, Mestre em Ciências da Reabilitação, Doutoranda em Ciências da Reabilitação no HRAC/USP, atua na área de fissuras orofaciais e anomalias relacionadas.

Gisele da Silva Dalben é Cirurgiã-dentista no HRAC/ USP, especialista em odontopediatria, Mestre em Ciências da Reabilitação, Doutora em Patologia Bucal, atua na área de fissuras orofaciais e anomalias relacionadas.