Nem tudo é o que parece ser!

No século passado, Estados Unidos e União Soviética travaram uma disputa política e econômica pela conquista do poder, o que levou essas potências a usarem diversas táticas de guerra. Uma delas foi o uso de espiões que tinham a capacidade de se infiltrar e ganhar a confiança dos inimigos em território adversário para obter informações confidenciais que poderiam trazer alguma vantagem para seu país de origem. Diversos filmes retratam esse período, mas não precisamos ficar apenas na TV! No mundo animal há diversos exemplos como esse, basta apenas olharmos para a natureza!

A partir disso, podemos citar o caso de algumas borboletas, sapos, cobras e diversos outros animais que, por meio do processo de seleção natural ao longo de várias gerações, acabaram por adquirir características similares às de outras espécies, o que conferiu algumas vantagens para viver nos habitats em que estão inseridos. Essa tática pode conferir uma maior chance de sobrevivência no mundo animal e recebe o nome de mimetismo.

Existem alguns tipos distintos de mimetismo, mas abordaremos aqui apenas o conceito introduzido pelo naturalista inglês Henry Walter Bates e que foi batizado em sua homenagem de mimetismo Bartesiano. Ele ocorre quando uma espécie exibe as características físicas de outras espécies, como o padrão de cor, mas não necessariamente possui sua verdadeira nocividade. Ou seja, o organismo modelo (aquele que é copiado) é o que apresenta perigo, enquanto o mímico (aquele que copia) apenas utiliza dessas características como forma de defesa contra potenciais predadores. Para fixar melhor esse conceito, utilizaremos as cobras corais.

Um exemplo muito interessante de mimetismo é o das cobras-coral, da ordem Squamata. Quando falamos em cobras-coral estamos abordando tanto as falsas-corais quanto as corais verdadeiras. O que chamamos de falsas-corais são diversas espécies pertencentes à família Colubridae e que “imitam” as corais verdadeiras, pertencentes à família Elapidae.

As corais verdadeiras são peçonhentas, donas de um dos venenos mais potentes entre as cobras da América. São bastante conhecidas pelas cores fortes, geralmente preto, amarelo e vermelho, que são percebidas por possíveis predadores (especialmente as aves) como indicação de perigo. Já as falsas-corais não apresentam peçonha mas possuem um padrão de coloração muito similar àquele observado nas corais verdadeiras, ao ponto de ser difícil de seu predador distinguir bem entre as duas espécies e preferir não tentar a sorte. Assim, as falsas-corais se “disfarçam” de corais verdadeiras e conseguem evitar que sejam comidas, mesmo não apresentando real perigo.

O medo de ser picado ou atacado por animais peçonhentos justifica a ação, muitas vezes involuntária, do humano de matar uma cobra no momento que a vê. Baseando nessa premissa, a Funed e a Universidade Federal de Minas Gerais lançaram um aplicativo chamado “O mundo dos venenos” e “Cobra Coral” que de forma lúdica e em duas histórias diretas, desmistifica mitos sobre esses animais e conscientiza o que deve ser feito em diferentes situações. Ademais, esse último aplicativo ensina como não especialistas podem diferenciar uma cobra coral verdadeira da falsa, evitando assim fadigas para a pessoa e o animal.

Aline de Sousa Goes cursa Ciências Biológicas na UFMG.

Álvaro Drumond Araújo cursa Ciências Biológicas na UFMG.

Larissa Pinheiro Marques cursa Ciências Biológicas na UFMG.

Marcos Vinícius B. Santos cursa Ciências Biológicas na UFMG.

Nicolas Arthur A. Leal cursa Ciências Biológicas na UFMG.

Samuel Alexandre P. Carvalho cursa Ciências Biológicas na UFMG

Entre cobras, sapos e lagartos… E milhões de anos de evolução!

 Rodrigo de Mello

 

Certa vez, depois de dizer que participaria de um congresso de herpetologia, minhas sobrinhas – Ana Carolina e Maria Fernanda, de 11 e 8 anos – me perguntaram o que era isso. Logo depois de explicar que tal evento é uma reunião entre pessoas que estudam anfíbios e répteis, detalhando que o primeiro grupo abriga todos os sapos, rãs e pererecas, e o segundo, todos os lagartos, crocodilos, cobras e tartarugas, ouvi: “credo… cobras, sapos e lagartos!”, combinado com os rostos com feições de nojo das meninas. A reação – ou opinião— da Carol e da Fernanda é bem comum; As pessoas geralmente propagam uma imagem asquerosa, perigosa ou maléfica desses animais em desenhos animados, filmes ou lendas. Entretanto, quando vemos esses animais estudados pela herpetologia de outro prisma, começamos a ver quão interessantes eles são começando pela sua história evolutiva.

O surgimento dos primeiros anfíbios e répteis aconteceu entre 300 a 400 milhões de anos atrás, quando a Terra ainda tinha seus continentes diferentes da conformação atual; eles aparecem simultaneamente com inovações evolutivas únicas para a conquista do ambiente terrestre – um lugar até então inexplorado por qualquer vertebrado. Desde então, a herpetofauna se tornou extraordinariamente rica e diversificada, representando porção significativa da fauna de vertebrados, particularmente em ambientes áridos e tropicais, onde são os vertebrados mais abundantes. No mundo todo, são mais de 6.700 espécies de anfíbios e mais de 9.500 espécies de répteis; só no Brasil o número de anfíbios e répteis catalogados está em torno de 900 e 750 espécies, respectivamente.  Esses animais desempenham importantes funções ecológicas na natureza, predadores de vários organismos. Sapos, rãs, pererecas e lagartos se alimentam de vários insetos e aranhas, são toneladas de insetos predadas todo ano; Imagine como seria a quantidade de insetos sem esses predadores! Muitas cobras predam ratos, animais associados à transmissão de algumas doenças e, por vezes, pragas de lavouras. Seus venenos produzem vacinas e salvam mais vidas humanas do que matam ou deixam sequelas, já que cobras só picam pessoas quando se veem ameaçadas por elas. Além disso, anfíbios e répteis também servem de alimento para vários animais como aves e mamíferos.

Portanto, sapos, cobras e lagartos são mais do que ingredientes em poções de bruxas malvadas das histórias ou criaturas que causam asco. Esses fascinantes animais que a herpetologia estuda, além de terem um papel ecológico e evolutivo crucial nos ecossistemas onde vivem, foram (e ainda tem sido!) fundamentais no desenvolvimento de disciplinas como Evolução, Biogeografia, Fisiologia, Ecologia, Conservação, entre outras, já que são ótimos modelos de estudo para o desenvolvimento de pesquisas. Assim, quando olhamos para anfíbios e répteis dessa forma, fica mais fácil compreender as palavras do poeta que diz que “a natureza é o único livro que oferece um conteúdo valioso em todas as suas páginas”

Entre cobras, sapos e lagartos... E milhões de anos de evolução!   (rodrigo)

Rodrigo de Mello é biólogo, mestre em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais, e  doutorando em Ecologia e Evolução pela Universidade Federal de Goiás. Atua na área de filogeografia animal.


 

Como citar esse documento:

Mello, R. (2012). Entre cobras, sapos e lagartos… E milhões de anos de evolução! Folha Biológica 3. (1): 4

Volume 3, Número 1

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