Debaixo dos pés: os solos são muitos!

Figura 1. Mapa de solos do Brasil. – https://www.embrapa.br/busca-de–noticias/-/noticia/2062813/solo-brasileiro-agora-tem-mapeamento-digital

O solo é o resultado de um lento processo de erosão que ocorre nas rochas. As rochas, quando estão expostas a processos como ventos, chuvas, calor, frio, ação de fungos e do crescimento das raízes das plantas, são quebradas em pequenos pedaços. Com o tempo, esses fragmentos passam por vários processos e se tornam diminutos, se acumulam e misturam-se com materiais orgânicos, água, ar e outros elementos, formando o solo. Porém, são inúmeros os tipos de rochas existentes e uma rocha fragmentada pode ser submetida a diferentes influências, o que causa a formação de vários tipos de solo. Tal processo de formação de solos é chamado de Pedogênese.

Em cada canto do Brasil, existem características peculiares relacionadas ao relevo, ao clima, aos tipos de rocha e vegetações locais ou regionais, tudo isso contribui para que os solos expressem diferentes composições, cores, densidades, camadas, texturas e profundidades, assim, podemos classificá-los em 13 tipos (Figura 1).

Se estabelecermos uma linha do tempo, é possível agrupar os solos em “velhos” e “novinhos”. Solos formados a partir de rochas que foram expostas a condições climáticas mais severas, como chuvas frequentes, calor intenso, ventos fortes e ação de microrganismos, geralmente são mais profundos. Esses solos apresentam horizontes muito bem definidos, são bem mais estruturados, muito porosos e expressam baixa fertilidade natural, eles foram literalmente envelhecendo! É o caso dos Latossolos, Argissolos, Vertissolos e Nitossolos. Por outro lado, alguns solos estão na flor da idade, são “novinhos”! Normalmente solos assim são poucos profundos, ao ponto de ser possível ver fragmentos de sua rocha de origem. Podem dispor de pouco ou nenhum horizonte e pode haver muita matéria orgânica em sua constituição, características típicas dos Neossolos.

Solos são importantes indicadores de variação ambiental, podendo ser possível até categorizar áreas naturais ou alteradas pelo homem, somente com a análise do solo. Por baixo das grandes florestas como a Amazônia e Mata Atlântica, podem ser encontrados os Nitossolos e Argissolos. São solos profundos, com presença de argila e com diferenciação visível de horizontes. Nas chapadas e planaltos do Cerrado, são encontrados os solos de maior ocorrência no Brasil, os Latossolos, geralmente associados a relevos planos ou suavemente ondulados. Já em vegetações de pequeno porte, como o caso da Caatinga, são encontrados solos menos profundos e naturalmente mais férteis, como os Neossolos, Planossolos e Cambissolos. Em alguns ambientes peculiares, como nas Veredas do norte de Minas Gerais são encontrados solos encharcados, os Gleissolos. Nos Pampas gaúchos, temos solos com elevados teores de matéria orgânica, os Organossolos.

Os solos são importantes desde que eles surgiram nos primórdios do planeta Terra, foi neles que boa parte da vida se abrigou e se consolidou. Os solos fornecem serviços ecossistêmicos invaloráveis, propiciam sustentação aos vegetais, funcionam como moradia e abrigo para diversos animais, armazenam e filtram a água, fornecem condições para a produção de alimentos, são base para construções civis, criação de animais e outras atividades. Além do valor financeiro, os solos também carregam valores culturais e sentimentais para as populações que eles abrigam.

Bruno Dias Semensato é graduando em Engenharia Florestal pelo Instituto de Ciências Agrárias da UFMG. Desenvolve pesquisas sobre tecnologia da madeira.

Márcio Venícius Barbosa Xavier é graduando em Engenharia Florestal pelo Instituto de Ciências Agrárias da UFMG. Desenvolve pesquisas com florística e fitossociologia.

Cinco perguntas sobre Fósseis

Como se conhece a idade de um fóssil?

Existem dois tipos de datações, as absolutas e as relativas.

As datações absolutas consistem em analisar proporções de elementos radioativos cuja vida média é conhecida, presentes nas rochas onde estão os fósseis.

O carbono 14, muito usado na Arqueologia, tem uma vida média de apenas 6000 anos, proporcionando medidas confiáveis até cerca de 100.000 anos, sendo, por isso, pouco usado na Paleontologia.

Os paleontólogos usam isótopos de potássio, argônio, rubídio e estrôncio entre
outros, pois estes possuem uma vida média de vários milhões de anos.

Porém as datações mais usadas são as relativas, por serem mais práticas e viáveis.

Estas consistem em relacionar as diversas camadas de sedimentos entre si (Estratigrafia), e relacionar os fósseis com os de outras localidades previamente datadas pelos métodos absolutos (Bioestratigrafia).

Como se forma um fóssil?

A fossilização de um organismo representa um evento raro na natureza. A grande maioria dos organismos se degrada e não deixa rastro algum.

Para que um organismo se preserve é necessário que este tenha uma morte em condições que facilitem a sua conservação.

Ambientes com pouco oxigênio, e por tanto sem degradação e com muita sedimentação, são os melhores para fossilizar um organismo. Alguns destes ambientes são: pântanos, leito marinho profundo, fundo de lagos, etc.

Mortes catastróficas também aumentam bastante as chances de fossilização, por serem rápidas e por afetar vários indivíduos de uma vez, por exemplo, enxurradas de lama.

Os fósseis estão constituídos por restos originais dos organismos ou são unicamente rochas?

Os fósseis podem ser constituídos tanto por restos originais dos organismos como por minerais que ocupam o seu lugar ou ainda por uma combinação de ambos.

Na maioria dos casos a matéria orgânica se degrada e é substituída por minerais externos, mas se o organismo possui um esqueleto formado por minerais (como uma concha, ou ossos), este esqueleto pode se preservar.

Em alguns casos excepcionais, os tecidos moles se preservam, como no caso dos insetos e aracnídeos preservados em âmbar ou os mamutes congelados na Sibéria.

O que é um “fóssil vivo”?

Um fóssil vivo é um organismo que sobreviveu por um considerável tempo sem sofrer mudanças morfológicas significativas, tendo chegado até os nossos dias.

Exemplos de fósseis vivos são Latimeria, ou celacanto, um peixe sem mudanças no aspecto externo geral e em detalhes da anatomia desde o período Cretáceo (uns 100 milhões de anos atrás); Sphenodon, ou tuatara, um réptil que sobrevive desde o Jurássico (mais de 150 milhões de anos atrás); ambos foram contemporâneos dos dinossauros.

Mas existem fósseis vivos ainda mais antigos, como Limulus, um artrópode marinho relacionado aos escorpiões que habita o Golfo do México, existente desde o Permiano (uns 250 milhões de anos atrás) ou como Lingula, um braquiópode, semelhante a um molusco marinho, existente desde o Cambriano (mais de 500 milhões de anos atrás!).

Algumas coníferas, entre estas, a Araucaria, tão comum no Sul do Brasil, existem desde o Triássico (mais de 200 milhões de anos).

Por que um fóssil vivo não se extingue? Por que um fóssil vivo “não evolui”?

Existem diversos motivos pelos quais um organismo sobrevive milhões de anos sem sofrer mudanças. Um deles é que simplesmente esse organismo já está muito bem adaptado a uma diversidade de condições, ou seja, possui um “design” de sucesso, não sendo necessário que este mude.

Este é o caso de Limulus, que entre outras coisas possui uma ampla carapaça que dificulta o ataque de predadores, suporta grandes variações de salinidade e temperatura, e pode sobreviver meses sem alimento.

Já outros organismos se mantém sem mudanças devido a uma continuidade das características do ambiente que selecionam as características presentes no organismo. Este pode ser o caso de Lingula.

A sobrevivência de alguns fósseis vivos também pode dever-se ao fato destes habitarem ambientes isolados, onde não enfrentam a competição com outros organismos potencialmente melhor adaptados a esses ambientes. Esse é o caso do tuatara, que encontra-se isolado na Nova Zelândia.

Juan Carlos Cisneros Martínez é biólogo, mestre e doutor em Geociências. Atualmente é professor da Universidade Federal do Piauí e atua na área de Paleontologia.