Quando a Terra quase virou uma “bola de neve”

Sabemos hoje, que algumas dificuldades assolaram nossos ancestrais humanos: há mais ou menos 20 mil anos atrás (o que, no tempo geológico, não é muito) os humanos conviviam cotidianamente com muitas ameaças. Podemos citar os tigres-dente-de-sabre, mamutes e outros grandes animais da megafauna do Pleistoceno. Uma das maiores preocupações era, sem dúvidas, o clima severo daquele período, também conhecido como a Era do Gelo. Esse clima sem dúvidas foi uma grande barreira para a vida da época, aliás, nos últimos milhões de anos, houve uma era do gelo após a outra, algumas destas atingiram todo o hemisfério norte (América do Norte e Europa).

Por mais drástico que este clima pareça, alguns microorganismos passaram por climas ainda piores, como um congelamento total do planeta. Temos registros de dois congelamentos totais da Terra, sendo um deles há cerca de 2,4 bilhões de anos e o outro há cerca de 600 milhões de anos atrás, que de fato refletiu sobre a biodiversidade no planeta.

Antes do surgimento da vida animal e dos organismos maiores que já ouvimos falar, houve um período conhecido como Neoproterozóico em que o clima frio foi tão intenso que mesmo os trópicos congelaram. Imagine: toda a Terra congelada (lembre-se que nas eras do gelo mais recentes, apenas o hemisfério norte congelou), pairando pelo espaço por um período de, no mínimo, 10 milhões de anos!

Apesar desse frio intenso e duradouro, é importante ressaltar que o calor do magma proveniente do núcleo da Terra impediu o congelamento da terra até o fundo dos oceanos, ou seja, apenas a superfície congelou. A espessura estimada do gelo era de 1Km e uma temperatura de cerca de -50ºC.

Em meio à esse pesadelo congelante, ainda haviam vulcões liberando magma do centro da Terra, aos poucos isso aumentaria o calor do planeta por causa da liberação de uma molécula: o dióxido de carbono. Como sabemos, o CO2 emitido atualmente por nós através da queima de combustíveis fósseis, é o maior responsável pelo efeito estufa atual, que agrava o aquecimento global, e naquele tempo, não foi diferente. O CO2 dos vulcões foi então responsável por reaquecer o planeta.

Por mais que o derretimento do gelo tenha sido “rápido”, levando apenas algumas centenas de anos, o grande acúmulo de CO2 na atmosfera levou à um efeito estufa brutal que assolou o planeta. Todos esses aqueles organismos microscópicos que foram capazes de suportar o frio intenso, agora também precisariam suportar um enorme efeito estufa.

Segundo vários estudos científicos, essas mudanças muito drásticas na temperatura da Terra, ocorreram quatro vezes entre 750 milhões e 580 milhões de anos atrás. É fato que o clima na Terra nunca foi tão severo quanto nesses eventos de “Terra bola de neve”. Mudanças severas deste tipo já são conhecidas em outros planetas, como Vênus, não sendo uma exclusividade nossa.

Ainda existem muitas questões a serem respondidas pela ciência e o processo de aceite de todos esses estudos é lento mesmo dentro da comunidade científica. Geólogos, biólogos, paleontólogos e climatólogos continuam à realizar diversos estudos para dar mais embasamento às teorias da “Terra Bola-de-neve” e entender sua influência para a diversificação e evolução da vida na Terra.

Gabriella Katlheen Leles é aluna de Biologia na Universidade Federal de Viçosa.

Fonte: Hoff man PF & Schrag DP (2000) Snowball Earth. Scientifi c American, 282(1), 68–75. doi:10.1038/ scientifi camerican0100-68.

O início da vida! As primeiras células

Você já olhou para a nossa complexidade biológica e imaginou que tudo poderia ser diferente no início? Como será que surgiu a vida? E as primeiras células? Há cerca de 4 BILHÕES de anos atrás, a Terra era uma gigante bola de fogo com tempestades de raios que fornecia energia diversas reações químicas. O planeta também era constantemente bombardeado por meteoritos, cometas e outros corpos celestiais, que traziam consigo muitos compostos, resíduos do ciclo de nascimento e morte de estrelas (provavelmente, metade da água da Terra é de origem extraterrestre). De todos os reagentes presentes na atmosfera daquele período, os CHNOPS (carbono [C], hidrogênio (H), nitrogênio [N], oxigênio [O], fósforo [P] e enxofre [S]), sob o intenso calor e descargas elétricas, eram os principais responsáveis para a formação de substâncias químicas orgânicas como aminoácidos, açúcares simples e bases de ácidos nucléicos.

Após anos de resfriamento da Terra, a presença de água líquida foi possível, formando os primeiros oceanos, que nessa época eram lagoas dispersas pelo planeta. Com os ingredientes mínimos (os CHNOPS) e água líquida, a vida começou a surgir. Na água líquida, as estruturas químicas estão constantemente interagindo e reagindo por causa de suas características físicas.

Alguns compostos, como os anfifílicos, possuem uma parte hidrofílica (que se “atrai” pela água) e uma parte hidrofóbica (é repelido pela água), onde associam entre si e formam micelas. Essas micelas são formadas de forma parecida à daquelas gotículas de óleo em mistura com a água. As primeiras membranas (Fig.1) diferenciando um ambiente externo e um ambiente interno provavelmente surgiram assim. Essas membranas não tinham a mesma estrutura das membranas celulares atuais, suas moléculas eram mais simples e a importante permeabilidade seletiva, não era tão seletiva assim. A seleção de moléculas adequadas se dava por meio de tentativas e erros das combinações, da estabilidade das vesículas formadas, da temperatura e da composição das moléculas. De qualquer forma, a membrana criava um microambiente que permitia reações de estabilização de carboidratos, peptídeos e ácidos graxos de forma isolada do ambiente externo. Assim foram se formando moléculas mais complexas como os primeiros polímeros. Com o aumento das moléculas, a membrana também foi aumentando, modificando a composição e formando canais de comunicação, que promoveram a seleção de produtos que podiam entrar para o interior da membrana e jogar para fora as que não eram importantes para a sua manutenção.

Com as primeiras membranas e polímeros auto-replicantes (como o RNA e o DNA), as primeiras formas de vida celular foram se desenvolvendo e evoluindo, através da seleção natural Darwiniana e da Deriva Genética. Assim a vida conquistou ambientes bastantes adversos e até mesmo extremos, com altas temperaturas, salinidade e ausência de oxigênio. Na atmosfera primitiva não havia oxigênio e as células consumiam energia das fontes orgânicas presentes onde, com o passar do tempo, foram modificando a propriedades químicas e física da litosfera e da atmosfera do planeta.

Figura 1. Esquema demonstrativo sobre a composição das substâncias anfi fílicas e a
como era a formação das membranas.

Com os primeiros organismos fotossintetizantes, que passaram a liberar oxigênio na Terra, foi possível o surgimento dos organismos aeróbicos, eucariontes, pluricelulares e a vida foi se moldando. Considerando os 4 bilhões de anos da Terra, o surgimento das primeiras células apareceu relativamente cedo, há cerca de 3,5 bilhões de anos atrás, ou seja, no primeiro bilhão de anos do planeta. A presença de água líquida, dos compostos orgânicos Terrestres e extraterrestres e das intensas atividades geofisicoquímicas da Terra primitiva, foram os passos iniciais para a vida!

Camila Ohanna de Souza Queiroz é aluna de Biologia na Universidade Federal de Viçosa.

Nem tudo é o que parece ser!

No século passado, Estados Unidos e União Soviética travaram uma disputa política e econômica pela conquista do poder, o que levou essas potências a usarem diversas táticas de guerra. Uma delas foi o uso de espiões que tinham a capacidade de se infiltrar e ganhar a confiança dos inimigos em território adversário para obter informações confidenciais que poderiam trazer alguma vantagem para seu país de origem. Diversos filmes retratam esse período, mas não precisamos ficar apenas na TV! No mundo animal há diversos exemplos como esse, basta apenas olharmos para a natureza!

A partir disso, podemos citar o caso de algumas borboletas, sapos, cobras e diversos outros animais que, por meio do processo de seleção natural ao longo de várias gerações, acabaram por adquirir características similares às de outras espécies, o que conferiu algumas vantagens para viver nos habitats em que estão inseridos. Essa tática pode conferir uma maior chance de sobrevivência no mundo animal e recebe o nome de mimetismo.

Existem alguns tipos distintos de mimetismo, mas abordaremos aqui apenas o conceito introduzido pelo naturalista inglês Henry Walter Bates e que foi batizado em sua homenagem de mimetismo Bartesiano. Ele ocorre quando uma espécie exibe as características físicas de outras espécies, como o padrão de cor, mas não necessariamente possui sua verdadeira nocividade. Ou seja, o organismo modelo (aquele que é copiado) é o que apresenta perigo, enquanto o mímico (aquele que copia) apenas utiliza dessas características como forma de defesa contra potenciais predadores. Para fixar melhor esse conceito, utilizaremos as cobras corais.

Um exemplo muito interessante de mimetismo é o das cobras-coral, da ordem Squamata. Quando falamos em cobras-coral estamos abordando tanto as falsas-corais quanto as corais verdadeiras. O que chamamos de falsas-corais são diversas espécies pertencentes à família Colubridae e que “imitam” as corais verdadeiras, pertencentes à família Elapidae.

As corais verdadeiras são peçonhentas, donas de um dos venenos mais potentes entre as cobras da América. São bastante conhecidas pelas cores fortes, geralmente preto, amarelo e vermelho, que são percebidas por possíveis predadores (especialmente as aves) como indicação de perigo. Já as falsas-corais não apresentam peçonha mas possuem um padrão de coloração muito similar àquele observado nas corais verdadeiras, ao ponto de ser difícil de seu predador distinguir bem entre as duas espécies e preferir não tentar a sorte. Assim, as falsas-corais se “disfarçam” de corais verdadeiras e conseguem evitar que sejam comidas, mesmo não apresentando real perigo.

O medo de ser picado ou atacado por animais peçonhentos justifica a ação, muitas vezes involuntária, do humano de matar uma cobra no momento que a vê. Baseando nessa premissa, a Funed e a Universidade Federal de Minas Gerais lançaram um aplicativo chamado “O mundo dos venenos” e “Cobra Coral” que de forma lúdica e em duas histórias diretas, desmistifica mitos sobre esses animais e conscientiza o que deve ser feito em diferentes situações. Ademais, esse último aplicativo ensina como não especialistas podem diferenciar uma cobra coral verdadeira da falsa, evitando assim fadigas para a pessoa e o animal.

Aline de Sousa Goes cursa Ciências Biológicas na UFMG.

Álvaro Drumond Araújo cursa Ciências Biológicas na UFMG.

Larissa Pinheiro Marques cursa Ciências Biológicas na UFMG.

Marcos Vinícius B. Santos cursa Ciências Biológicas na UFMG.

Nicolas Arthur A. Leal cursa Ciências Biológicas na UFMG.

Samuel Alexandre P. Carvalho cursa Ciências Biológicas na UFMG

UFMG desenvolve vacinas contra doença de Chagas e leishmaniose

A engenharia genética e as técnicas de edição de genomas vêm sendo utilizadas desde os anos 70. Com o desenvolvimento de novas tecnologias ao longo dos anos e consequente barateamento dessas técnicas, pesquisas na área têm se tornado cada vez mais popular.

Através da manipulação genética, o desenvolvimento de plantas transgênicas com resistência a diversas pragas e até mesmo a edição gênica de embriões humanos, já são uma realidade.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Leishmania

A grande revolução dentro desse campo começou graças à descoberta de um sistema genético bacteriano denominado CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, ou seja, Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas) em associação com o sistema Cas9 (Cas9 é uma enzima nuclease guiada por RNA). Esse conjunto CRISPR-Cas9 ficou popularmente conhecido como “bisturi genético”, devido à sua precisão em reconhecer e recortar regiões específicas do DNA que, de certa forma, podem ser escolhidas pelo pesquisador. Algumas dessas técnicas de edição de genoma têm sido utilizadas pela professora Santuza Teixeira, do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, para o desenvolvimento de vacinas inéditas contra a doença de Chagas e a leishmaniose.

Há cerca de um ano, em suas pesquisas com CRISPR, a professora busca desenvolver uma versão mais branda dos causadores de Chagas e Leishmaniose, de modo a servirem como antígenos em uma vacina. Esses protozoários inativados estimulariam o sistema imune do organismo que receber a vacina. A Dra. Santuza explica ainda que o laboratório já tem desenvolvido testes em camundongos.

Os resultados preliminares indicam que a equipe conseguiu gerar uma linhagem mutante do protozoário Tripanosoma cruzi, que não causaria a doença de Chagas. O camundongo testado não desenvolveu tal doença e ainda foi imunizado contra a versão virulenta. De acordo com a professora, a ideia é tornar os camundongos imunes à doença, para, em uma outra etapa do estudo, aplicar a técnica em humanos.

Matheus Bonaccorsi é Biólogo pela Universidade Federal de Viçosa e mestrando do programa de Zoologia pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Os super-sentidos dos “peixes”

Nós humanos somos animais chamados de visuais. Isso significa que usamos majoritariamente da visão para processar o mundo ao nosso redor. Ao conversar, por exemplo, usamos da fala e da audição, mas captamos inconscientemente, pela visão, expressões corporais e faciais que são fundamentais para contextualizar o que é dito pelo locutor. Uma breve troca de olhares pode ser suficiente para transmitir uma mensagem entre duas pessoas.

E nos peixes? Será que também é assim? Pare um minuto e tente pensar em todo o tipo de peixe que você conhece, qual será o sentido mais utilizado por eles para processar seu mundo aquático?

Um dos principais órgãos utilizados é a linha lateral. Essa linha, como o nome diz, é uma sequência de poros dispostos lateralmente dos dois lados do peixe, formando uma linha. Também pode estar presente na cabeça ou até mesmo ausente. Nessa linha, a água entra pelos poros e toca em estruturas chamadas neuromastos, que são um conjunto de células ciliadas de diferentes tamanhos. Qualquer objeto que provoque vibrações na água pode ser percebido por essa linha lateral. Outro sentido muito utilizado pelos peixes é a audição, entretanto, não há uma estrutura externa (orelha) dedicada a ouvir. Em vez disso, os peixes usam o próprio corpo pra captar as vibrações sonoras, que são conduzidas até um órgão no final da caixa craniana para interpretação do estímulo. Em peixes como carpas, lambaris e bagres, há uma modificação das 4 primeiras vértebras, formando uma ponte entre a bexiga natatória e o ouvido interno. A bexiga neles funciona então como uma caixa de ressonância que amplifica a capacidade auditiva do grupo. Alguns pesquisadores propõem que essa característica é uma das que permitiu o sucesso do grupo na água doce que é turva.

O olfato dos peixes permite a percepção de odores liberados a grandes distâncias. As narinas ficam no focinho e têm função olfatória e não respiratória. Em alguns grupos como nos salmões. O olfato permite distinguir moléculas odoríferas na concentração de 1ppb, ou seja, 1 molécula em um bilhão de moléculas. É uma das coisas que permite aos salmões retornar ao seu local de nascimento para reprodução. Sobre a visão, os peixes em geral são míopes e não conseguem enxergar objetos muito distantes, mas para objetos próximos, a visão é muito utilizada. O curioso é que os peixes não possuem pálpebras e nem membranas nictantes, por isso eles não piscam e ficam com os olhos sempre abertos. Alguns grupos como os Corydoras, possuem músculos que retraem os olhos, mas isso não é piscar.

O sensorial mais curioso dos peixes é raro e poucos grupos o apresentam: a eletrorrecepção. Alguns grupos como os Gymnotiformes (Poraquê) apresentam órgãos elétricos. São estruturas derivadas de tecido muscular que podem produzir descargas de até 700 volts. Células de músculo estriado modificado (eletrócitos) formam eletroplacas que podem liberar essa descarga elétrica para predação, defesa ou percepção do ambiente. Elas fazem com que o peixe produza e fique envolto num campo elétrico, onde ele é capaz de perceber, através de eletrorreceptores na linha lateral, corpos condutores e não condutores ao seu redor.

E para você, qual é o sentido mais poderoso dos peixes?

Matheus Bonaccorsi é Biologo pela Universidade Federal de Viçosa e mestrando do programa de Zoologia pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Florestas Urbanas: sustentabilidade e saúde

As árvores são seres vivos capazes de sobreviver em diferentes ambientes, inclusive nas cidades. O conjunto de árvores presentes em uma cidade compõe a arborização urbana ou, também denominada, floresta urbana. Os centros urbanos promovem diversas modificações no ambiente natural. Pela falta de planejamento, muitas vezes todo o remanescente da vegetação é substituído por construções, impermeabilizando os solos. O aumento em área e a ocupação desordenada das cidades, promove diversos problemas ambientais, reduzindo diretamente a qualidade de vida dos seus moradores. O não entendimento de que as zonas urbanas fazem parte de uma paisagem natural, associada à má gestão dos recursos e baixa consciência ambiental promove, entre outras coisas, as ilhas de calor nas cidades, que geram grande desconforto térmico, e as grandes e súbitas enchentes em resposta às chuvas, que causam irreparáveis prejuízos financeiros e ambientais.

Nesse contexto, a arborização desempenha um importante papel nas cidades. As árvores são aliadas eficientes em reduzir a temperatura e proporcionar conforto térmico à população. Estudos mostram que algumas espécies, como a mangueira (Mangifera indica L.) e a tipuana (Tipuana tipu (Benth.) Kuntze), ambas introduzidas no Brasil, reduzem a temperatura sob a sua copa cerca de 10°C. Mas a campeã é a sibipiruna (Poincianella pluviosa (DC.) L.P.Queiroz), comum em nossas ruas e nativa do Brasil, é capaz de reduzir de 12 até 16ºC a temperatura sob a sua copa. Identificar outras espécies que apresentam maior potencial de amenizar a temperatura é de suma importância para tornar as cidades mais agradáveis. Além disso, as áreas verdes nas cidades, como parques e praças, permitem grande infiltração de água, recarregando os lençóis freáticos e reduzindo os alagamentos.

Diversos estudos comprovam que a ampla arborização e consequente melhoria ambiental, diminuem o estresse, a depressão, reduzem a agressividade e melhoram convívio da comunidade. A arborização de cidades deve ser prioridade no planejamento urbano básico, pois o sistema verde da cidade promove grande economia nos sistemas de saúde e na reparação de danos ambientais.

Mas, para que as árvores funcionem como uma floresta urbana, é necessário o conhecimento da biologia de cada espécie, isto é, seu ciclo de vida, padrão de crescimento, época e tamanho das flores e dos frutos e local de origem. Em relação à origem, devem ser priorizadas as espécies que ocorrem naturalmente nas matas da região, pois as mesmas já são adaptadas às condições ambientais locais, demandando menos tratos, e interagem com a fauna, em especial polinizadores, destacando-se abelhas, borboletas e beija-flores, e dispersores, em especial aves e morcegos. As aves têm estreita relação com a arborização, pois usam as mesmas como abrigo e fonte de alimento direto, como néctar e frutos.

As linhas contínuas de árvores também atuam como corredor biológico, permitindo o transito de animais entre áreas verdes e parques. A presença de animais no ambiente urbano traz novas perspectivas de lazer e valorização da biodiversidade para os moradores das cidades, que muitas vezes não tem acesso a áreas naturais para contato com a fauna. O planejamento correto da arborização permite a integração das cidades com o ambiente ao seu redor, proporcionando um manejo em nível de paisagem, um ambiente agradável, saudável e biodiverso.

Gislene Rodrigues dos Santos é Engenheira Florestal pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG.

Rúbia Santos Fonseca é Bióloga pela Universidade Estadual de Montes Claros – Unimontes, Mestre e Doutora em Botânica pela Universidade Federal de Viçosa – UFV.

Hibernação e Estivação: mecanismos de sobrevivência!

Todo mundo que está lendo esse texto já deve ter ouvido falar sobre aquele “descanso” profundo que alguns animais fazem, como por exemplo os esquilos. Você sabe o nome? Sabe por que ele acontece? Ele acontece somente com animais que vivem em regiões muito frias?

Quando acontece com animais durante a época de inverno e escassez de comida, o fenômeno é chamado de “Hibernação”. Em períodos como esse, em que se alimentar na quantidade necessária é difícil, os animais caem num sono profundo que pode durar dias e dias, e até meses. Nesse tempo a temperatura corporal cai drasticamente, assim como os batimentos cardíacos, respiração e principalmente o metabolismo. O animal mantém a energia para sobrevivência através da queima de gordura acumulada no corpo, então antes de hibernar a alimentação dever ser bastante forte e rica em lipídios (células de gordura)! Alguns exemplos de animais que hibernam são morcegos, marmotas, ouriços, esquilos, entre outros.

Mas espere aí… e os ursos? Esses são ditos os mais “famosos” em casos de hibernação que você já ouviu falar, não é mesmo? Mas segundo estudos de alguns pesquisadores, essa informação não é 100% correta. Durante o período de hibernação, um dos pontos chave é a diminuição drástica da temperatura corporal, e isso não acontece com os ursos. Sua temperatura corporal se mantém relativamente alta! No caso do urso marrom, por exemplo, cai somente cerca de 4ºC (de 38ºC para 34ºC).

E quando essa pausa na atividade diária acontece em regiões de calor e seca, como por exemplo nos desertos? Aí recebe outro nome: estivação. Ela acontece quando as condições ambientais do meio se tornam excessivas em relação à altas temperaturas e baixa umidade. Geralmente nesse período os animais se enterram em buracos no solo, onde a temperatura se mantém mais amena, e lá ficam durante um tempo até que as condições climáticas exteriores sejam favoráveis à sua sobrevivência. Alguns exemplos de animais que praticam a estivação são algumas espécies de moluscos, anfíbios e répteis.

Na região da Caatinga, temos como exemplo alguns anfíbios que se enterram em buracos de quase 2m de profundidade durante o período de estivação. Nesse tempo o consumo de oxigênio do corpo diminui pela metade, o estômago desses animais fica vazio e o intestino diminui. Quando às condições do meio retornam ao normal, voltam à superfície para retomarem seus hábitos.

Esquilo em período de hibernação. Foto disponível em: https://www.estudopratico.com.br/ hibernacao/

Curioso né? Esses são alguns dos exemplos de mecanismos de sobrevivência que as espécies utilizam para driblar as alterações do meio. E você, conhece algum animal com que possui uma capacidade diferente dessas? Escreva pra nós e conte-nos um pouco sobre isso!.

Rosana de Mesquita Alves é Bióloga e Mestranda pela Universidade Federal de Viçosa.

“O curioso caso da aranha que mamenta seus filhotes”

Ops… espere aí! Será que li certo esse título? Sim! É isso mesmo! Em recentes trabalhos, pesquisadores descobriram uma espécie de aranha (Toxeus magnus) capaz de amamentar seus filhotes. E por incrível que pareça, o alimento se parece bastante com o leite produzido por mamíferos, sendo rico em proteínas. As pesquisas começaram quando o hábito dos ‘recém-nascidos’ de ficarem muito tempo no ninho com a mãe foi observado. Como isso não é comum no caso das aranhas, a curiosidade foi desperta nos cientistas. De início foram lançadas algumas hipóteses de como se dava a alimentação dos filhotes: regurgitação da mãe, alimento fecal ou até mesmo de ovos não fecundados, mas pelas observações todas foram descartadas.

Toxeus magnus, aranha saltadora. Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/curiosidades-46387658.

A resposta veio com a percepção de um líquido fornecido pela mãe logo no nascimento da prole. Trata-se de uma substância que contém cerca de quatro vezes a quantidade de proteínas do leite de vaca, e que fornece sustância para os filhotes até durante 40 dias, quando estes já atingem a maturidade sexual. Curioso né? Esse é um bom exemplo do cuidado parental que acontece na natureza, além de trazer uma grande novidade para a ciência.

Rosana de Mesquita Alves é Bióloga e Mestranda pela Universidade Federal de Viçosa.

Pontos quentes para conservação? O que são os hotspots?

Entende-se por hotspots (pontos quentes) áreas naturais com prioridade em se conservar a níveis globais em virtude de elevada diversidade biológica, mas que grande parte de sua extensão (mais de 70%) tenha desaparecido ou passa por degradação intensiva. O conceito surgiu diante de um questionamento recorrente entre ecólogos: dentre todas as áreas nativas do mundo, quais possuem proeminente diversidade em risco de desaparecimento e que necessitam de urgente proteção?

Mata Atlântica, Hotspots que ocupa o primeiro lugar em urgência para se conservar no planeta.

A expressão hotspots foi empregada no ramo da biodiversidade em 1988 pelo ecólogo inglês Norman Myers, no entanto, não existiam indicadores quantitativos para tal definição. Contudo, a partir de 1996, uma região deveria abrigar pelo menos 1.500 espécies vasculares endêmicas, ou seja, exclusivas do local, além de ter 75% de sua vegetação inicial derrubada para ser considerada hotspot.

Na atualidade existem 35 hotspots, os quais denotam uma riqueza de 77% de todos os animais terrestres, sendo que mais de 40% são endêmicos e abrigam quase 50% de toda a diversidade da flora existente num espaço que corresponde a 2,3% do território mundial. Logo, se todos estes locais fossem destruídos, a humanidade perderia mais de 75% das espécies de répteis, aves, mamíferos e anfíbios e praticamente 25% da riqueza vegetal global. Não obstante, o extermínio de somente uma dessas áreas seria uma perda inestimável, dado que todos os hotspots possuem biodiversidade única. Isso causaria uma catástrofe em todos os seguimentos da vida, já que se perderia o avanço em todas as ciências, como por exemplo, potencialidades para a cura de doenças como AIDS e câncer, alimentos ainda não descobertos e a ligação com a cultura e história das civilizações. No Brasil existem dois hotspots, a Mata Atlântica e o Cerrado. A Mata Atlântica foi o primeiro a sofrer modificações humanas, já que se concentra no litoral, local de chegada e colonização inicial dos Portugueses. A sua urbanização foi intensa ao ponto de se desenvolver os centros mais populosos da América do Sul (Rio de Janeiro e São Paulo), ocupando boa parte de sua porção. Este processo fez com que uma extensão natural de 1.200.000 km² fosse reduzida para menos de 60.000 km² (5%). Ressalta- -se que a maior parte deste total remanescente (4,1%) se encontra protegido por lei em unidades de conservação. Este hotspot guarda 20.000 espécies vegetais vasculares catalogadas, sendo 8.000 de ocorrência exclusiva. A fauna também é valiosa, 1.020 espécies de aves, 340 anfíbios, 261 mamíferos e 197 espécies de répteis. Por essa razão, dentre todos os hotspots, este é o mais criticamente ameaçado.

Ocupando um território original de 2.000.000 km², detendo 5% das espécies mundiais e 30% da biodiversidade brasileira, o Cerrado é outro importante hotspot nacional. Diferente da Mata Atlântica, está situado em meio ao continente, predominantemente no Brasil Central. No século XVIII se iniciavam os primeiros esforços de melhoria de infraestrutura, industrialização e avanço na pesquisa agropecuária e de solos nesta localidade, culminando num importante polo do agronegócio do país. Contudo, este crescimento gerou a derrubada de mais de 55% de sua cobertura primária. O domínio retém aproximadamente 12.000 espécies de plantas sendo 4.000 endêmicas. Além disso, abriga 837 espécies de aves, 199 mamíferos, 150 anfíbios e 120 espécies de répteis. Estes números fizeram com que o Cerrado brasileiro fosse eleito a savana neotropical mais rica de todas as nações.

Cerrado, Hotspots eleito a savana mais rica do planeta.

Apesar de tamanha importância, menos de 3% da área remanescente se encontra protegido na forma de unidades de conservação de proteção integral. A pressão exercida pelo crescimento populacional descontrolado sem se preocupar com o meio ambiente trouxe enormes prejuízos para biodiversidade do planeta. Através da consciência de proteção destas áreas foram propostos os hotspots ecológicos e alguns poucos instrumentos protetores de áreas estratégicas para conservação. No entanto, muito ainda deve ser feito, bem como criação de leis, parques e principalmente a conscientização, em razão dos recursos naturais serem finitos. O Brasil possui a flora mais rica do planeta. Sua conservação, permitirá mais pesquisas científicas e o uso racional da biodiversidade, trazendo novas perspectivas e levará o país ao avanço rumo à Bioeconomia. Vamos conservar esses bens naturais da biodiversidade!

Márcio Venícius Barbosa Xavier Graduando em Engenharia Florestal Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG Instituto de Ciências Agrárias Montes Claros, MG, Brasil.

Gatos: “animais sozinhos”? Por quê?

Avida em bando pode significar inúmeras coisas, e como tudo nesse mundo, há vantagens e desvantagens. E é aí que surge a dúvida: viver em grupo ou sozinho? Como isso é “moldado” ao longo do tempo?

Zebras, por exemplo, são animais que preferem viver em bando, já que assim, a probabilidade individual de ser atacadas por predadores é menor. Leões também vivem em grupos, o que facilita no trabalho de predação e defesa de território. Já os gatos, animais domésticos dóceis, ou nem tanto, preferem a vida solitária. Mas por que?

Segundo o biólogo John Fryxell, do Canadá, em um dado momento, viver no coletivo significa grandes desvantagens, como principalmente reduzir a própria quantidade de comida individual. “Os benefícios da vida coletiva em alguns casos não compensa a desvantagem de ter que dividir comida com os outros.” Gatos geralmente caçam pequenos animais, o que seria alimento necessário somente para um indivíduo, sem ser possível dividir com mais algum parceiro de grupo. Isso seria um fator crucial para a “decisão” de optarem viver solitários.

A escolha de viver solitários é tão dos gatos, que nem humanos conseguem mudar isso através da domesticação. Aliás, gatos não são domesticados! São donos da sua própria vontade, não é mesmo?! Tanto é que o início da relação homem e gato se deu por vontade desses animais, por perceberem a facilidade em conseguir alimento e diminuir o gasto de energia procurando presas nas florestas.

Mas espere um pouco, você pode me dizer: “Mas eu já vi vários gatos juntos em um mesmo local! Ou até mesmo dentro da mesma casa vivendo como ‘irmãos’”. Sim, não irei discordar! Alguma relação social entre os gatos é possível, porém são laços fáceis de romper e baseados no “bom humor” e vontade momentânea desses animais. A proteção para filhotes pode ser um bom motivo para um relacionamento social entre eles, mas isso logo acaba quando não é mais necessário. Resumindo, a vontade própria é quem comanda o comportamento desses animaizinhos queridos!

Pode ser que com o passar do tempo, a evolução modifique o comportamento dos gatos, tornando-os animais mais sociáveis, assim como acontece com alguns de seus parentes, como os leões. Pesquisadores continuam tentando entender a mente desses gentis (ou nem tanto) felinos, o que ainda falta neles para atingirem a sociabilidade algum dia. Enquanto isso, desafio vocês que tem o prazer de conviverem com os gatos à observar seu comportamento e perceber se existe algum vestígio de vida social entre eles. Mas antes disso me responda: você já conseguiu domesticar um gato?

Rosana de Mesquita Alves é Bióloga e Mestranda pela Universidade Federal de Viçosa.